sábado, 31 de agosto de 2013

O Arapucas mudou....

Já há algum tempo que eu pensava em abandonar o Blogger, devido principalmente ao fato de nunca ter gostado dos layouts padrão e do peso das páginas ao carregar. Aproveitei que comprei um domínio e instalei em um servidor contratado uma plataforma de CMS feita em PHP chamada Habari e ali agora estou blogando.

Se você conheceu este blogue e gostava do que eu escrevia aqui, considere visitando o novo endereço e adicionando-o aos seus favoritos: arapucas.letraseletricas.blog.br. E não tenha receio de apagar o link para cá, pois todo o conteúdo do velho arapucas de guerra foi devidamente migrado.

domingo, 16 de junho de 2013

Por uns vinte centavos

Às vezes é preciso acompanhar de perto para entender, mas há vezes em que estar de longe é melhor do que dentro das tripas do momento. Eu estou de longe, eu percebo tudo através da deturpação deliberada feita pela imprensa comprometida com o caos, por isso demoro a opinar. Não quero ser precipitado, mas tomo agora uma decisão sem volta: vou fechar este blogue.

É inegável que o uso político de ferramentas como o Blogger.com se tornou perigoso não só para as pessoas que as utilizam, mas também para as causas que defendem. Não podemos tentar exercer nossos direitos políticos usando produtos (sic) da indústria americana de serviços, especialmente agora que se descobriu que todos os grandes players deste mercado cooperam voluntariamente com a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos para fornecer em tempo real informações sobre o conteúdo que controlam, sem sequer a necessidade de uma ordem judicial.

Sim, eu fui um dos tolos que levou a sério, em certa época, o slogan do Google: Don't Be Evil. Mas, desde que eles, sem alarde, deixaram de resistir às exigências chinesas de cooperação com a sua censura, eu percebi que havia algo errado. Até mesmo o slogan deixou de ser posto em evidência: como se alguém da companhia tentasse discretamente alertar o mundo que o Don't havia sido removido. Durante algum tempo acreditei que o Facebook era, este sim, vergonhosamente vendido e cooperador, enquanto o Google pelo menos tentava resistir. Agora todos sabemos que não há diferença entre as empresas, pois nem mesmo há necessidade de um agente chegar e pedir: os dados são encaminhados em tempo real para as instalações da NSA e ali podem ser acessados arbitrariamente por todos que tenham acesso ao computador.

Eu me pergunto, então: por que continuar produzindo conteúdo para alimentar esta indústria de espionagem que viola os direitos de todos os países do mundo e seus cidadãos? Enquanto não encontre um lugar e um meio para blogar de forma independente eu vou manter minha boca calada, pelo menos nesse blogue de assuntos mais sensíveis. Mas a médio prazo migrarei até mesmo o meu querido outro blogue para algum serviço, gratuito ou pago, que tenha como principal feature não ser hospedado nos Estados Unidos e nem ser baseado em software de código fechado.

Para o momento eu estou estudando alternativas. Consegui instalar em meu computador pessoal versões do Movable Type e do WordPress, com as quais brinquei durante toda a semana. Acabei decidindo que realmente o WordPress é insuperável, especialmente com a adição do CKEditor, do PrintFriendly e alguns outros plug-ins. Acredito que seria capaz de instalar uma cópia dele em um servidor remoto. Já estou procurando onde fazer isso. De momento, esta cópia local serviu, e muito bem, para fazer um backup total do meu blogue de literatura. E de agora para frente eu vou escrever nela e publicar depois de concluído o teste na instalação local.

Somente me preocupam duas coisas: o fato de que muitos serviços de hospedagem nacionais utilizam-se de servidores em território estrangeiro e a certeza de que o Google continuará alimentando a NSA com minhas informações através de sua ferramenta de busca. Mais do que nunca vale o conselho de que aquilo que realmente importa não deve ser posto na rede.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Acabou a Era das Revoluções

Feliz era o tempo em que se podia gritar que “o povo unido jamais será vencido”. Não só porque foram inventadas centenas de maneiras de dividir o povo; cada uma apropriada para um tipo de indiferença, egoísmo ou medo que exista no mundo; mas também porque vencer o povo já não gera as mesmas reações de antes. Houve um tempo em que, pelo menos, as pessoas podiam contar que o mundo encararia com universal opróbrio aqueles que afogassem em sangue a insatisfação popular com seu governo.

Mas tudo mudou depois que os Estados Unidos empregaram todo tipo de chicanas jurídicas para tornar ilegal o protesto do movimento Occupy Wall Street e, posteriormente, com a bênção de um judiciário recheado de conservadores, soltar os cachorros sobre os pacíficos manifestantes de uma maneira não muito diferente da repressão chinesa contra a seita Falun Gong. O mundo foi poupado de cenas emblemáticas como o “tank man”, mas isso foi mais pela censura à cobertura jornalística mainstream.

Um pouco antes, a ida de multidões às ruas do Egito fora vista pelo mesmo governo americano como algo alvissareiro, os protestos dos jovens líbios, uma prova de coragem. Depois que o OWS foi dissipado por meio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral, curiosamente mudou o tom das manifestações ianques sobre os continuados protestos egípcios, surgiu uma cautela curiosa quanto aos protestos sírios. Esperava-se um silêncio ensurdecedor sobre outros protestos.

Agora que a Turquia está tendo o seu próprio movimento de ocupação popular, em protesto contra um regime que se torna cada vez mais autoritário, os Estados Unidos falaram baixo, por meio de um funcionário de terceiro escalão. Falaram apenas para cumprir o script, porque não poderiam falar muito alto. Não depois de reprimirem manifestações populares, criarem o maior sistema de espionagem interna em tempos de paz que jamais se teve notícia, não depois de manterem por mais de uma década uma prisão ilegal onde são mantidos sem julgamento cidadãos suspeitos de crimes cometidos em outras jurisdições.

A assustadora perda de legitimidade moral pelo governo dos Estados Unidos é algo que deveria causar grande preocupação. Muitas vezes, a autoridade moral é eficaz para prolongar a paz, para costurar acordos, para promover o bem comum. Mas na falta de qualquer autoridade moral, resta apenas a autoridade das armas, e é bem possível que estas tenham de ser usadas com cada vez mais frequência.

Com a falta desta autoridade moral, os Estados Unidos não servem mais de exemplo positivo para o mundo. Em verdade, os países de tendência autoritárias tendem a exatamente imitar o que os EUA fazem: reprimindo manifestações, como na Turquia, criando redes internas de espionagem, como na Rússia e no Irã, criando acusações sem fundamento contra opositores ideológicos, e outras formas mais insidiosas. Em vez de ensinarem ao mundo sua democracia, os Estados Unidos agora ensinam a destruir a democracia. Felizes éramos nós no tempo em que eles apenas eram hipócritas, e praticavam fora de suas fronteiras coisas diferentes do que faziam em casa: ainda podíamos olhar para dentro deles e ver virtudes imitáveis. Hoje as virtudes deles parecem bem menos significativas. Acabou a hipocrisia, porque no fundo eles já não diferem. Restou só o discurso, mas de belos discursos não se faz melhor o mundo.