quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Grãos de Areia na Praia

«Se a ciência pudesse contar quantos grãos de areia existem no mar&hellip» Assim começa muita retórica obscurantista vazia. Menosprezar a busca do conhecimento é uma tática milenar que os líderes religiosos empregam para mostrar a si mesmos como a melhor, se possível única, cereja do bolo. Desqualifique as explicações e lucre com a confusão. Assim vive a religião, há tanto tempo que ninguém sabe contar.

Como toda retórica vazia, esta também se baseia num erro conceitual. Isso não tem muito importância para quem dela se utiliza, pois é o tipo de gente que afirmaria que pedras boiam se houvesse gente disposta a pagar para ouvir isso. Mas ainda assim acho que é importante explicar onde está o erro, para benefício de alguém que ouça essa pregação. Só não aconselho que polemizem porque discutir com um pregador religioso é como brigar na feira: não leva a nada. Depois de algum tempo ninguém saberá quem está pregando mais: ele ou você.

Contar os grãos de areia na praia, ao contrário do que pensam os obscurantistas, não é uma tarefa impossível. Cientistas, ao contrário de crianças, não contam as coisas na base do 1, 2, 3, 4… É perfeitamente possível saber com exatidão útil quantos grãos de areia tem na praia fazendo estimativas. Primeiro contando os grãos em um copinho de café, depois medindo o tamanho médio de um grão de areia nesse copinho. Depois calculando a forma como os grãos se distribuem. Em seguida é só ir à praia, medir o volume da areia e verificar, através de algumas amostras aleatórias, se o tamanho do grão de areia «padrão» é válido para todas as partes da praia. Se for, é só botar os dados numa calculadora e obter a quantidade e o peso total dos grãos de areia que formam a praia, sem precisar contar. Evidentemente a conta não será exata, mas a exatidão é uma ilusão inútil. O velocímetro de seu carro não lhe dá a velocidade exata do deslocamento, mas a velocidade aproximada que você lê no painel lhe permite dirigir com controle da situação. A mesma coisa vale para quase todo o conhecimento científico: só precisa ser exato enquanto a margem de erro interferir no uso do dado.

Infelizmente as coisas não são tão simples. Para pessoas que raciocinam de modo não-científico, o número obtido é uma ilusão, uma mentira, não contou todos os grãos da praia, etc. O religioso típico recusa qualquer coisa que seja fruto do intelecto humano — «maldito o homem que confia no homem» — e por essa razão não aceita que um simples cálculo envolvendo volume de sólidos seja capaz de produzir o total de grãos de areia na praia. Por isso ele exige «provas» que sabe serem impossíveis (do nível de «ver um animal evoluindo») e as pessoas que não receberam um bom preparo educacional veem nisso um lance de gênio, um «pulo do gato» que o leigo dá na língua do cientista. E nada acaricia tanto o ego do ignorante quanto iludir-se que é possível «dar a volta» no sábio sem precisar nada saber.

Para essas pessoas tenho algo a dizer: «conte você os grãos e prove que o número calculado está errado!» Se elas disserem que é impossível, eu direi «então por que você quer que EU conte?». A resposta padrão será, então: «nem eu, nem você e nem ninguém senão Deus pode fazer isso…» É desesperador. Quem não entende ciência ou enxerga o mundo com os antolhos da religião se convence a priori de que algo é de determinado modo e se recusa a argumentos.

É uma atitude estúpida, mas eficaz. Raros religiosos perdem a fé por causa da ciência.