terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Morte de uma Pessoa Admirada

Mentir se tornou tão essencial, em grande parte graças à facilidade com que se mente impunemente, que até mesmo o sucesso se tornou uma mentira. Não, não quero aqui dizer que o sucesso seja uma ilusão, mas que as pessoas de sucesso, muitas vezes, não o são. A difusão da mentira por todas as instâncias da vida chega a trazer desvantagens a quem resolve agir de forma honesta, tal como os alunos que realmente fazem suas redações que, não é raro, recebem notas menores do que aqueles que as colam da Internet ou então pedem a estranhos que as façam. A mentira tem mais resultados do que a sinceridade porque não é possível premeditar a verdade para que seja adequada ao contexto.

Diante deste estado de coisas, resistir à tentação de mentir se torna uma obrigação moral, uma forma de resistência à degradação dos valores, à erosão daquilo que nossos pais chamavam de “vergonha na cara”. Resistir, porém, se torna o caminho para o fracasso.

Aleixo não tem “vergonha na cara” nem projetos seus: tem um salário e o hábito de humilhar os que ganham menos. Prefere pisar em quem prefere fracassos totais ou parciais enquanto se esmera em capacitar-se para realizá-los. Faz isso porque não suporta pessoas que realizam coisas: sucesso para ele é status que se herda, não situação que se adquire.

Não tem ambições, mas cobiças estruturadas, soluções rápidas e mágicas que, no fundo, ocultam algo mais do que mera incompetência: a inapetência pelo aprendizado. Se fosse possível viver sem ter sequer aprendido a respirar, talvez Aleixo gostasse.

Sua vida inteira é baseada em mentiras. Colou na prova durante a escola primária, “passou” em um vestibular fajuto de uma faculdade privada desesperada por alunos, foi aprovado graças a manter em dia o carnê das prestações da compra do diploma. Depois que obteve uma graduação rasa qualquer em um curso de “negócios” caracterizado por pouco rigor acadêmico, passou a colecionar especializações inúteis cursadas em fins-de-semana ou à distância e usou seus belos certificados para rechear um currículo sempre superior à sua competência.

Depois de fracassar na gestão de seu próprio negócio, tornou-se consultor de mercado a serviço de um órgão público onde trabalha seu pai. Quando o contrato de prestação de serviços foi denunciado por uma CPI, deixou o ramo de consultoria e “passou” num concurso para assessor parlamentar na Assembleia Legislativa, pelo menos até que o STF acabou com o nepotismo. Foi nessa época em que se casou com a rica e insana filha de um milionário paulista. Para manter o casamento, teve de aceitar as orgias da moça e batizar os filhos do casal sem questionar, mas graças aos seus chifres estoicamente suportados se tornou membro do conselho diretor da indústria do sogro, cargo no qual se esmerou em fazer retiradas pro-labore.

Segundo a avaliação da maioria dos brasileiros, Aleixo, que esta semana chegou aos 40 anos, é um exemplo de sucesso porque a mentira se tornou uma verdadeira obsessão de nossa era. Pervade o poder, as relações, as artes, tudo. A música já não se faz pela música, mas pela destinação de ganhar dinheiro. O sexo já não é expressão de afetos ou desejos, mas a saciedade de impulsos banais, a satisfação de necessidades quantificáveis economicamente no setor de “serviços”.

Sob a ótica de tais valores, ele é um verdadeiro gênio da raça. Mas não aos seus próprios olhos. Depois de duas décadas ocultando a homossexualidade ele não suportou mais e declarou-se ao office-boy que lhe servia cafezinho.

O garoto tinha jeitão efeminado e delicado, andava sempre bem vestido e bem penteado. Parecia mesmo ser “fruta”. Aleixo o vigiara, apaixonadamente, por quase três meses antes de, finalmente, criar coragem.

Infelizmente para Aleixo, no entanto, as coisas não saíram como previsto: Naninho recusou os convites e, assustado e ofendido, retirou-se da sala.

Aleixo o demitiu, claro, inventou uma justa causa qualquer que maculasse o currículo do rapaz e lhe retirasse qualquer credibilidade, para que nunca qualquer indiscrição sua fosse levada a sério.

No entanto, a dor da saudade foi mais forte e Aleixo resolveu perdoar tudo. Preencheu um cheque de vinte mil reais e foi até o distante subúrbio onde morava o office-boy de olhos grandes e jeito suave que lhe roubara o coração.

Ao parar à porta viu-o saindo de casa de mãos dadas com uma morena de um metro e noventa de altura, aos beijos e abraços. Ambos usavam uniformes de artes marciais, ele com faixa marrom, ela com faixa vermelha. Andavam pela rua descuidadamente, aos beijos e trocando olhares.

Aleixo não suportou a dor de ver a cena e voltou para a firma quase aos prantos, mesmo sendo já noite. Trancou-se no escritório e tomou uma dose cavalar de veneno de rato e se atirou do oitavo andar para ter certeza de não escapar.

Morreu ainda na calçada, infelizmente antes que pudesse ver a morena de um metro e noventa fazendo ponto na esquina dos travecos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Confesso que Não Creio

Sim, sou ateu. Você deve estar perplexo ao ler isso porque não é comum alguém admitir esse defeito em público. Garanto que se estivesse diante de mim você provavelmente me interromperia com pregações ou maldições (dependendo de seu grau de fanatismo e capacidade de argumentação). Mas deponha sua bíblia sobre a mesa e confabulemos. Vou contar como desde criança eu me bati contra minha dificuldade de acreditar em Deus, até que perdi.

Ser ateu não é ser um cão sarnento, é apenas descrer da existência de alguém que muita gente diz que existe, mas que ninguém sabe como é. Cada pessoa diz que Deus é uma coisa, cada um tem uma opinião sobre sua aparência. E a aparência nem é tudo. Talvez “agnóstico” seja o melhor termo para minha posição. Eu só digo que sou ateu porque não gosto de meias palavras. Eu descreio porque nunca conseguiram me explicar em que eu deveria crer.

Quando eu era criança me diziam que havia um velho barbudo e poderoso que morava no Céu, que ele via tudo que a gente fazia e que, depois que morrêssemos ele nos torturaria horrivelmente para sempre ou nos levaria para morar com ele, dependendo se fôssemos obedientes ou não em vida. Esse mesmo velho tinha mandado seu único filho ao mundo para modificar as coisas que ele mesmo tinha estabelecido mil anos antes e esse filho foi morto por pessoas más, graças ao que nós podemos ser salvos se acreditarmos nele. Essa morte do filho aconteceu por causa de um outro filho do mesmo velho, que não era homem, mas anjo (ou seja, um ser parecido com um homem, só que com asas, tal como um morcego é parecido com um rato, só que com asas). Me diziam que anjos são perfeitos e bons, mas esse em especial, junto com uns outros, tinham ficado ruins e só queriam matar pessoas e seu principal trabalho no mundo era fazer os meninos baterem punheta, os ladrões roubarem, as mulheres desobedecerem os maridos e os velhinhos fazerem safadezas. Eu nunca entendi essa história do anjo bom que tinha ficado ruim.

À medida em que eu ia estudando as histórias do Velho eu ia ficando com mais medo. Descobri que ele tinha uma vez matado todo mundo por causa da “maldade” que havia no mundo e também que ele tinha mandado um tal “povo de Israel” matar todo mundo porque… nunca entendi.

Um pouco mais tarde tentaram me explicar que o filho do velho que tinha morrido na cruz também era o velho e tinha também uma pomba que também era o velho e que estava no filho e no pai e o que o filho e o pai estavam na pomba… Isso me embananou a cabeça de tal modo que eu resolvi simplificar as coisas: “tá bom, vou acreditar no velho, até aceito que teve um carinha que morreu na cruz, mas ele era só filho do velho, não o velho, e a pomba era só uma pomba mesmo.” Quando resolvi pensar assim eu tinha apenas doze anos.

Mais tarde fui apresentado a outras variações da história do velho, mas todas incluíam detalhes de como ele seria terrivelmente vingativo contra quem não obedecesse ao que ele mandava, especialmente a dez ordens que ele dera a um tal Moisés e que incluíam coisas estranhas como não poder trabalhar sábado, não cobiçar a mulher do próximo e não rezar para ninguém a não ser para o velho. Eu sempre achei esquisito que as pessoas que me ensinavam isso rezavam para outros velhos e moços e moças e velhas, de que faziam estátuas feias e tristes, em que eles sempre apareciam com rodinhas em volta da cabeça.

Nunca gostei de rezar para esses das rodinhas porque cada um tinha uma história mais estranha que a outra e eu tinha muito medo mesmo de ficar como eles. Teve um que largou a família e foi viver como mendigo descalço, pedindo esmola na rua, teve outro a quem deus “presenteou” com horríveis feridas nas mãos, nos pés e na barriga, teve outro que viveu a vida inteira em cima de uma pilastra. Eu achava que aquela gente de rodinha na cabeça se vivesse no mundo de hoje seria mandada para o hospício, mas minha avó dizia que eles eram pessoas muito dignas de respeito, a quem eu devia “venerar”, o que significava que eu devia ajoelhar diante deles e rezar do jeito que a gente fazia com o Velho Barbudo.

Um dia eu deixei de lado estas histórias todas e fui viver minha vida. Tentei continuar acreditando, lá no fundo, mas não continuei rezando e nem aparecendo em lugares onde as pessoas se juntavam para rezar para o velho.

Quanto mais tempo eu fico sem rezar para o Velho, menos sentido eu vejo em tantas pessoas rezarem. Olhando de fora o que eu vejo são pessoas fazendo coisas que se elas mesmas fizessem sem a desculpa de estarem com o Velho todo mundo ia dizer que era doideira. Gente que fala sozinha, que balbucia coisas sem sentido, que chora sem motivo no meio de todo mundo, que bate em si mesma, que fica de joelhos olhando para estátuas, chorando e falando sozinha, homem que usa saia e roupas coloridas e fala com voz de vovô bondoso com todo mundo, mulher que raspa a cabeça, se veste de preto e fica trancada a vida inteira dentro de um quarto, gente que entrega tudo que ganha trabalhando para alguém que não trabalha, gente que tem de usar terno no verão e não pode ir à piscina porque deus não gosta…

As pessoas me acham um monstro só porque eu não acredito no Velho mais. Dizem que o tal anjo perfeito que ficou ruim está comigo. Eu só queria ter o direito de dizer que acho que o Velho é só uma história de criança que as outras pessoas cresceram e não deixaram de acreditar. Uma espécie de bicho papão cujos armários são grandes prédios de pedra com cruz em cima.

sábado, 26 de julho de 2008

Desencantado Universo

Pois muito bem. Resolvi atacar a empreitada. Prejudiquei meu cérebro com trinta minutos de leitura deste “livro” sobre a “cultura racional”. Seguem-se minhas interpretações.

Universo em Desencanto mostra indícios claros de ser o produto tortuoso da mente nublada de um semi-analfabeto imbuído de uma série de preconceitos derivados de sua formação religiosa que resolveu desenvolver seu próprio sistema místico. Por ser o produto de um semi-analfabeto, padece de notável falta de coesão textual, a ponto de ser quase ininteligível em vários pontos. Por ser o produto de alguém imerso em uma ampla variedade de preconceitos, reproduz de forma tosca padrões culturais cujo significado e relevância o autor nem sempre tem a lucidez de compreender. Por ser uma tentativa de desenvolvimento de um novo sistema místico, o livro recorre a todo tipo de falácias e infantilidades sem jamais conseguir conduzir o leitor de forma limpa a algum assunto claro e definido. Tal como o Chacrinha, não veio para explicar, mas para confundir. Não para esclarecer, mas para desinformar.

Para dar a impressão de complexidade, o autor emprega palavras de uso comum de uma forma diferente. Pervertendo o sentido das palavras ele procura fazer o leitor pensar que está descobrindo algo novo. No texto da página ele vitima palavras como cultura, racional, aparelho, deformação, conhecimento etc. Os sentidos novos destas palavras não são explicados, assim o leitor lê uma coisa pensando que está lendo outra e começa a ficar confuso.

A dificuldade do autor em manipular as palavras, consequência de seu semi-analfabetismo ou de sua má intenção, resulta em construções sintáticas telegráficas, como “está aí o ponto glorificador do animal Racional, a IMUNIZAÇÃO RACIONAL”. Não se define o que seja este “aí”, abusa-se de maiúsculas para dar a impressão de que palavras comuns se tornaram sagradas. Maiúsculas fixas emprestam a certas expressões a gravidade dos berros dos pastores.

Outra evidência da incompetência linguística do autor está na frase “Todos, sem esforço, muito naturalmente, vendo dentro dos seus lares a Luz Racional, e sendo atendidos dentro dos seus lares”. O recurso ao gerúndio sem a utilização de tempos pessoais (exigidos pelo sujeito “todos”) corta a frase de forma obscura. Ao não se indicar a interrupção com reticências o leitor fica iludido com a impressão de “profundidade” de um texto que é apenas obscuro.

Uma frase como “Então vem de outro mundo, que é da PLANÍCIE RACIONAL, todas as orientações precisas, dentro dos seus lares, e onde estiverem para o equilíbrio de todos” se parece com as coisas que alunos semi-alfabetizados de terceira série produzem quando tentam escrever obras de ficção científica. O que “vem de outro mundo” se na oração não há nenhum verbo conjugado no singular? O que “é da PLANÍCIE RACIONAL”, o outro mundo ou o que vem dele? Precisas é que estas “orientações” não são e pobres (de espírito) se tornarão todos os que buscarem seu equilíbrio neste livro.

Consideremos este outro parágrafo:

“Por o ser humano ser um centro astrológico, é que, com o tempo, tinha que chegar à conclusão de encontrar em si mesmo a IMUNIZAÇÃO RACIONAL, e nela, o porta-voz da verdade das verdades, por a natureza dos viventes ser adequada à natureza que os fez”, pois são formados por esta natureza, e por isso, dependem dela para viver, sendo então formados por sete partículas e dependerem delas.

Qual a finalidade das aspas neste trecho? Vocês notaram que o trecho citado se confunde com o resto? Vocês conseguem extrair algum sentido desta luta renhida do autor contra a língua que certamente tem dificuldades até para falar, quanto mais escrever?

Carlos Drummond de Andrade dizia que “lutar com as palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã”. Mesmo considerando que até um gênio como Drummond às vezes se perdia, não dá para desculpar que não haja caminho no que escreve o autor de Universo em Desencanto. O abuso de vírgulas mostra que o autor não sabe pontuar e as frases construídas de forma totalmente arbitrárias não conseguem expressar nada.

A leitura de um parágrafo como o citado nos faz perguntar por que tantas pessoas levam a sério Universo em Desencanto. Ninguém que domine a língua e faça uso de sua inteligência se deixa fascinar por essa xaropada desconexa de umbanda e ficção científica; na qual o elemento científico é mesmo uma ficção, o elemento ficção é de péssima qualidade e o elemento umbanda consegue mostrar o que tem de mais intelectualmente simplório, culturalmente raso e cientificamente atrasado.

Quando cheguei a este ponto já havia percebido que não conseguiria ler o Universo em Desencanto. Pelo menos não sem primeiro danificar uma quantidade suficiente de minhas células cerebrais a fim de me preparar para aceitar esta obra — Mas eu ainda tinha esperanças de, pelo menos, conseguir dar uma folheada ocasional, a fim de ter uma ideia do que se tratava no livro. Estas esperanças deixaram de existir quando topei com esta coisa :

Planície Racional onde estavam os Racionais com o seu progresso; de onde nós saímos e para onde nós vamos por meio da IMUNIZAÇÃO RACIONAL.

Parte Racional - Planície que não estava pronta para entrar em fase.

Sim, amigos. A cosmologia do Universo em Desencanto se baseia numa Terra Plana. Chupem essa!

1 º Começaram a progredir por conta própria;
2º Neste progresso começou o foco de luz formado pelas virtudes que os Racionais iam perdendo;

Sim, amigos. Temos um politeísmo, ou então uma religião ateísta. Não fica claro quem “começaram” a progredir por conta própria. Mas na ausência de referência a um criador, fica implícito que certos seres “por conta própria”, ou seja, por si mesmos, criaram o universo.

São as virtudes que os Racionais iam perdendo que dão origem ao “foco de luz” (que alguém associará ao Big Bang).

3º Neste progresso já no fim da extinção daqueles corpos;
4º Neste degrau durou uma longa eternidade para a formação dos corpos;
A introdução repentina da palavra “degrau” sugere que estamos analisando a evolução linear do universo em direção ao que é hoje. O problema é que as frases, de tão mal construídas, nada dizem. Barbarismo, solecismo e anfibologia imperam. O degrau não é explicado e nem referido, nem antes e nem depois.
5º Neste degrau já se entendiam por meio de guinchos;
6º Nesta formação começaram a soltar a voz, eram gagos;

O que aqui parece se dizer é que o surgimento da linguagem foi um processo muito prematuro no Universo, pouco posterior à formação dos “corpos” (que aqui se parece ser uma referência a corpos humanos físicos).

7º Gagos mais adiantados, começou a formação da lua;

Eu tenho dificuldades para entender o que o adiantamento da gagueira tem a ver com a formação da Lua, mas fica claro que, além de um mero geocentrismo, temos aqui uma Terra Plana e que a Lua não é um corpo astronômico, algum tipo de enfeite do céu que surgiu somente depois que o ser humano já existia.

8º As virtudes começaram a se reunir, as virtudes da planície e da resina; veio aí a origem das estrelas;

As virtudes perdidas pelos racionais se reúnem e formam a planície (Terra) e a resina (seja lá o que isso for) e isso causa o surgimento das estrelas (bem posterior à formação dos seres humanos e da Lua). Vocês estão acompanhando?

9º Gagos mais adiantados; mas este adiantamento não era ainda de entendimento; iam soltando a voz;
10º Gagos com algum entendimento mas, muito vago;
11º Com mais um pouco de entendimento;

A língua portuguesa segue sendo a principal vítima do livro. O inexplicável uso do ponto-e-vírgula não é a única esquisitice aqui: pior é a reiteração da afirmação de que o desenvolvimento da capacidade de linguagem tem algo a ver com a evolução física do Universo.

12º A resina já bem desenvolvida a sua deformação;
13º Começou a separação das terras;
14º Onde começou a vegetação muito diferente desta, e a dilatação dos órgãos;

O 12º degrau não faz absolutamente nenhum sentido. E não é nem a primeira vez que a palavra “deformação” terá seu sentido deformado para servir aos propósitos do livro. Mas o pior é que não há nenhuma noção do que implica a “deformação da resina” no processo que está sendo descrito.

O 13º degrau poderá ser comparado à quebra da Pangéia, mas isso não é nada signifique algo. Um pregador analfabeto poderia perfeitamente imaginar que um dia todos os continentes estiveram juntos e que se separaram por causa de alguma “deformação” de origem espiritual.

No 14º degrau se diz que a vida vegetal começou após a separação das terras (o que é uma bobagem) e que apenas aí começou a “dilatação” dos órgãos (mas não se diz de quem).

15º Começou a criação da bicharada e a fazerem uso de alguns vegetais;

O que comiam os humanos antes de surgirem os demais animais (a “criação da bicharada” ocorre somente agora) e de passarem a comer plantas?

16º Começou a aparecer a dilatação dos órgãos; até aí eram eternos;

OK. Agora entendi. A “dilatação dos órgãos” está relacionada à morte. Só não pergunte como.

17º Onde começaram a surgir os casos de morte; novas criações. Durou uma longa eternidade morrendo e nascendo gagos;
18º Neste progresso a lua já aparecia com as suas modificações; as estrelas também;

Ficamos agora a saber que a Lua de hoje é “modificada” em relação àquela que surgira graças à gagueira dos racionais. E as estrelas também. Isto é muito esclarecedor.

19º A vegetação completamente modificada; já existia dia e noite;

A vegetação também já mudara. Parece que finalmente existiam dia e noite, algo muito interessante. Principalmente se considerarmos que em momento algum se mencionou o surgimento do Sol.

20º Novas criações, novos entendimentos; já se entendiam regularmente;

Parece que os seres racionais que andaram criando o Universo não eram capazes de comunicar-se uns com os outros. Ainda bem, senão tinham ficado escrevendo livros estúpidos em vez de criá-lo e não estaríamos aqui. É uma pena que o autor do livro, ao contrário dos “racionais superiores” não é capaz de se fazer entender regularmente.

21º Neste progresso foi que nasceram os primeiros passos que aí estão.

Finalmente, depois de todo este processo, finalmente surgiram os primeiros passos que aí estão, seja lá o que forem estes “primeiros passos”.

Depois de ter lido esta página, lamentei pelas árvores que deixaram de existir para fazer o papel em que foi impresso cada exemplar de Universo em Desencanto. Lamentei que tantos átomos estejam desperdiçados constituindo tais exemplares em vez de estarem sendo algo mais útil, como por exemplo, uma pilha de estrume de elefante.

Amigo que está fascinado pela Cultura Racional. Eu sinto muito em te dizer isso, mas você está doente. Você está sendo emburrecido pela sua doença e se não largar mão desta boçalidade adquirida que o acomete, dentro de pouco tempo estará fazendo cocô nas fraldas e batendo chocalhinho. Com tanta religião menos besta no mundo, você tinha que escolher uma coisa tão desesperadoramente tosca e estúpida!

Desculpe se ofendo, mas é muito difícil não ter raiva ao ler algo tão burro, raso e desesperadoramente ignorante! Não tenho palavras para descrever a minha revolta ao ler isso. Não que eu tenha algo contra religiões new age em especial. O que eu rejeito são manifestações tão incoerentes de delírio quanto este livro. Se você precisa de uma religião, lembre-se de que há muitas maneiras respeitáveis e inteligentes de se tranquilizar transferindo suas ansiedades para uma entidade exterior. Você não precisa ser adepto disso.

Pronto, falei.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Yes, Nós Temos Medicina Tradicional Também

Todos os céticos estão acostumados a arrancar cabelos quando ouvem pseudo-ciências sendo, sem mais nem menos, apresentadas como a “verdadeira resposta” para problemas que a ciência não responde ou, pior, práticas de curandeirismo sendo vendidas, e caro, como a cura para males para os quais a medicina convencional não tem remédio. Nada mais injusto.

Particularmente me fascina a medicina tradicional chinesa e suas práticas, como do-in, acupuntura, herbalismo e remédios bruxos fascinantes como chifre de rinoceronte negro, pênis de baleia, ou simplesmente qualquer pedaço do corpo de qualquer animal que esteja em extinção ou seja asqueroso (de preferência uma combinação dos dois). Outra medicina tradicional que me fascina também é a indiana, ou “ayurvédica”, mas esta está menos obcecada com afrodisíacos (aparentemente, o chinês típico fica mais excitado com a ideia de estar contribuindo com a extinção de algum animal exótico do que olhando para uma chinesa).

Ambos os sistemas têm seus fascinantes e exóticos tratados milenares, que prescrevem remédios tidos como obsoletos pelos médicos salafrários que não querem curar, mas manter o tratamento.

Mas para aqueles que acham que são essas as suas duas únicas opções, preparem-se! Pois há também a esquecida, desvalorizada e não tão exótica, medicina tradicional europeia.

Também ela tem seus tratados milenares (Hipócrates, Celso, Galeno, Paracelso). Também ela tem seus remédios mal vistos pelos médicos “padrão” (chás, mezinhas, xaropes, simpatias, amuletos). Também ela tem suas práticas controversas (sanguessugas, sangrias, trepanação, sinapismo).

Sem falar na sua filha mais famosa e recente, a homeopatia, única ciência alternativa que conseguiu impor um termo pejorativo ao uso comum em relação a um ramo da ciência: alopatia.

Então o que está esperando, amigo holístico, ayurvédico, fascinado por meridianos, kundalini, moxabustão e quiropráxia? Por que não experimenta também o poder da tradicional medicina europeia?

À disposição, em versão básica, com a curandeira mais próxima de você, graças à nossa colonização portuguesa. Vamos valorizar.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Nota de Falecimento

É com grande pesar que comunico o falecimento de meu amigo, que usava o pseudônimo “Sumo Sacerdote da Silva”; aquela pessoa tão divertida e inteligente que nos brindava com suas piadas hilárias e suas observações sarcásticas sobre as coisas da vida.

Meu amigo andava meio adoentado nos últimos meses, o que explicava a pouca atividade do blog e da comunidade Igreja Orkutista no Orkut. Como ultimamente estávamos vivendo em cidades diferentes, só tomei conhecimento de seu falecimento hoje à tarde quando ia visitar o seu perfil para deixar um recado.

Um viva ao nosso amigo querido, que onde quer que esteja ele esteja ainda gargalhando das bobagens da vida.

REQUIESCAT IN PACEM SUMO PONTIFEX ECCLESIA ORKUTISTÆ SALVATIONEM.

Atualização em 07/08/2008: Alguém que saiba latim por favor corrija...

Originalmente publicado no Igreja Orkutista da Salvação

sábado, 26 de janeiro de 2008

Justiceiros Virtuais

A internet sempre foi um “antro da liberdade” em um mundo repleto de convenções. Nunca antes na História existiu um mecanismo tão poderoso para agregar minorias, compartilhar opiniões e difundir conteúdos. A liberdade subterrânea, no entanto, também atrai aproveitadores e, com estes, justiceiros cegos e suas táticas arrasa-quarteirão que, com a desculpa de atingir os aproveitadores, miram certeiramente na liberdade.

Através da internet doutrinas antes relegadas ao subterrâneo têm um espaço permanente para sua difusão, podem ganhar adeptos e podem ser entendidas pelos não-adeptos. Movimentos nacionalistas minoritários em nações menores, religiões sem recursos missionários, pregadores de projetos improváveis, criadores de coisas comercialmente inadequadas.

Os aproveitadores são os de sempre: pornógrafos, criminosos, adeptos de teorias políticas intoleráveis, “tribos” urbanas detestáveis etc. Alguns sem dúvida merecedores de castigo, outros apenas minorias incompreendidas, alguns deles certamente vicejando na doce liberdade do subterrâneo. Dos que se aglomeram nestas trevas, uns são minorias perseguidas, que de outro modo jamais poderiam organizar-se, grupos de pessoas unidas por interesses incomuns que não teriam como interagir no mundo real devido aos limites físicos à locomoção e à inexistência de espaços dedicados às suas preferências. Entre tais grupos estão fãs de gêneros musicais pouco difundidos, como rock progressivo, a música popular brasileira, a música eletrônica experimental etc. Estão os adeptos de religiões recentes ou exóticas, como Hare Krishnas, Bahais, Gnósticos etc. Estão os adeptos de posições políticas e sociais sem representação no espectro de partidos legalmente constituídos, como comunistas, ateus, malthusianos, nacionalistas samogítios e movimentos étnicos dos quais a gente nunca ouviu falr.

Estes grupos utilizam a internet como veículo para sua organização, para permitir que seus membros interajam, que se estabeleçam entre eles hierarquias, muitas vezes criadas pelo respeito e não por relações de poder. Através da rede doutrinas antes relegadas ao subterrâneo têm espaço permanente para sua difusão e podem ganhar adeptos.

Infelizmente, devido à existência de aproveitadores pervertendo o cyberespaço, cria-se uma desmedida histeria que se volta não contra o criminoso, mas contra o veículo em que comete seu crime. Aplicada à vida material, esta histeria contra a internet é como uma tentativa de banir o automóvel para evitar atropelamentos, ou como uma campanha contra o álcool para evitar embriaguez ou um atentado contra uma empresa para vingar um crime cometido por um empregado.

A democracia é uma flor frágil, há muito pouco desabrochada. Cabe-nos defendê-la ou murchará nas mãos brutas dos que, em nome de sua segurança, querem pô-la dentro de uma redoma e fechar a janela.

A democracia pode ser uma flor frágil, mas é bela. E é justamente sua beleza que enfurece a alguns. Há pessoas que têm sonhos de grandeza que não cabem dentro das pétalas da democracia, têm ambições de se fazerem ditadores, ou pelo menos gostariam de ter leis que proibissem a crítica contra o que fazem. E tais pessoas geralmente fazem muitas coisas dignas de crítica.

Chame a um amigo de “filho da puta” jocosamente e ele não se ofenderá tanto, dependendo do contexto. Chame da mesma maneira a um amigo que realmente é filho de uma prostituta e ele não deixará de reagir. Critique a um político honesto e ele responderá equilibradamente, terá provas de sua inocência ou então não haverá provas de sua culpa. Critique a um político safado e ladrão e ele moverá todo a tonelagem da lei contra você. Quanto mais sujo um político é, mais “provas” de inocência, mais amigos, mais advogados e mais mecanismos legais ele pode mover. O maior ladrão do mundo deve ser, certamente, uma pessoa inatacável pois ninguém teria dinheiro suficiente para vencê-lo numa batalha jurídica e, como sabemos, em nosso país a justiça é só mais uma coisa que se compra (não que se compre o juiz, mas o custo proibitivo do processo e sua longa duração impedem que o pequeno ingresse contra o grande).

A histeria contra a democracia é um carícia agradável nos ouvidos corruptos e megalômanos de gente que tem e quer conservar o controle da sociedade. Por isso cria-se leis, determina-se procedimentos, ataca-se tudo que se mova.

As leis, porém, não têm alcance internacional. Por isso sempre foi possível, graças à maravilhosa internet, refugiar uma opinião ilegal em um país onde fosse tolerada. Graças a isso os Bahais, perseguidos impiedosamente no Irã, podem divulgar sua fé em sites hospedados na Europa e nos EUA, os anticastristas operam contra Cuba a partir dos EUA…

Porém apareceram recursos nos países onde a democracia é menos amada — e entre eles está o nosso, onde cada político tem um projeto de ditadura, de mandatos infinitos, de mudança constitucional etc. Tais países empregam chantagem econômica ou política (acordos entre governos) para forçar as empresas que hospedam sites ou administram acesso à rede a seguir as leis de que estariam isentas em razão de extraterritorialidade.

Criados os mecanismos de pressão e estabelecida a histeria, também do lado da justiça surgem os aproveitadores que, aliás, não são propriamente aproveitadores, mas sim os maiores interessados nas políticas de controle. Esses “justiceiros virtuais”, em vez de empregarem as leis para atacar criminosos reais (fraudadores, pedófilos, traficantes), deixam isso para a polícia pois, no Brasil, cooperar com a polícia é quase uma falha moral, a ação da polícia é praticamente uma forma de opressão contra o marginalizado etc. toda essa babaquice pseudo-esquerdista de que os criminosos se aproveitam para continuarem oprimindo e marginalizando. Mas se não têm coragem de cooperar com a Lei no combate aos crimes reais, são muito ativos e corajosos no combate a opiniões minoritárias e à crítica contra os poderes estabelecidos.

Experimente fazer um blog criticando a administração de um político, uma comunidade no Orkut afirmando o ateísmo, assuma virtualmente uma persona indócil e articulada na defesa de uma posição que contraria os interesses dominantes e veja quanto tempo dura. Os justiceiros virtuais chegarão e agirão contra seu legítimo direito à liberdade de imprensa usando as leis que criaram com a desculpa de perseguir os criminosos que eles, covardes e inúteis que são, não tem culhões para enfrentar.