sábado, 26 de julho de 2008

Desencantado Universo

Pois muito bem. Resolvi atacar a empreitada. Prejudiquei meu cérebro com trinta minutos de leitura deste “livro” sobre a “cultura racional”. Seguem-se minhas interpretações.

Universo em Desencanto mostra indícios claros de ser o produto tortuoso da mente nublada de um semi-analfabeto imbuído de uma série de preconceitos derivados de sua formação religiosa que resolveu desenvolver seu próprio sistema místico. Por ser o produto de um semi-analfabeto, padece de notável falta de coesão textual, a ponto de ser quase ininteligível em vários pontos. Por ser o produto de alguém imerso em uma ampla variedade de preconceitos, reproduz de forma tosca padrões culturais cujo significado e relevância o autor nem sempre tem a lucidez de compreender. Por ser uma tentativa de desenvolvimento de um novo sistema místico, o livro recorre a todo tipo de falácias e infantilidades sem jamais conseguir conduzir o leitor de forma limpa a algum assunto claro e definido. Tal como o Chacrinha, não veio para explicar, mas para confundir. Não para esclarecer, mas para desinformar.

Para dar a impressão de complexidade, o autor emprega palavras de uso comum de uma forma diferente. Pervertendo o sentido das palavras ele procura fazer o leitor pensar que está descobrindo algo novo. No texto da página ele vitima palavras como cultura, racional, aparelho, deformação, conhecimento etc. Os sentidos novos destas palavras não são explicados, assim o leitor lê uma coisa pensando que está lendo outra e começa a ficar confuso.

A dificuldade do autor em manipular as palavras, consequência de seu semi-analfabetismo ou de sua má intenção, resulta em construções sintáticas telegráficas, como “está aí o ponto glorificador do animal Racional, a IMUNIZAÇÃO RACIONAL”. Não se define o que seja este “aí”, abusa-se de maiúsculas para dar a impressão de que palavras comuns se tornaram sagradas. Maiúsculas fixas emprestam a certas expressões a gravidade dos berros dos pastores.

Outra evidência da incompetência linguística do autor está na frase “Todos, sem esforço, muito naturalmente, vendo dentro dos seus lares a Luz Racional, e sendo atendidos dentro dos seus lares”. O recurso ao gerúndio sem a utilização de tempos pessoais (exigidos pelo sujeito “todos”) corta a frase de forma obscura. Ao não se indicar a interrupção com reticências o leitor fica iludido com a impressão de “profundidade” de um texto que é apenas obscuro.

Uma frase como “Então vem de outro mundo, que é da PLANÍCIE RACIONAL, todas as orientações precisas, dentro dos seus lares, e onde estiverem para o equilíbrio de todos” se parece com as coisas que alunos semi-alfabetizados de terceira série produzem quando tentam escrever obras de ficção científica. O que “vem de outro mundo” se na oração não há nenhum verbo conjugado no singular? O que “é da PLANÍCIE RACIONAL”, o outro mundo ou o que vem dele? Precisas é que estas “orientações” não são e pobres (de espírito) se tornarão todos os que buscarem seu equilíbrio neste livro.

Consideremos este outro parágrafo:

“Por o ser humano ser um centro astrológico, é que, com o tempo, tinha que chegar à conclusão de encontrar em si mesmo a IMUNIZAÇÃO RACIONAL, e nela, o porta-voz da verdade das verdades, por a natureza dos viventes ser adequada à natureza que os fez”, pois são formados por esta natureza, e por isso, dependem dela para viver, sendo então formados por sete partículas e dependerem delas.

Qual a finalidade das aspas neste trecho? Vocês notaram que o trecho citado se confunde com o resto? Vocês conseguem extrair algum sentido desta luta renhida do autor contra a língua que certamente tem dificuldades até para falar, quanto mais escrever?

Carlos Drummond de Andrade dizia que “lutar com as palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã”. Mesmo considerando que até um gênio como Drummond às vezes se perdia, não dá para desculpar que não haja caminho no que escreve o autor de Universo em Desencanto. O abuso de vírgulas mostra que o autor não sabe pontuar e as frases construídas de forma totalmente arbitrárias não conseguem expressar nada.

A leitura de um parágrafo como o citado nos faz perguntar por que tantas pessoas levam a sério Universo em Desencanto. Ninguém que domine a língua e faça uso de sua inteligência se deixa fascinar por essa xaropada desconexa de umbanda e ficção científica; na qual o elemento científico é mesmo uma ficção, o elemento ficção é de péssima qualidade e o elemento umbanda consegue mostrar o que tem de mais intelectualmente simplório, culturalmente raso e cientificamente atrasado.

Quando cheguei a este ponto já havia percebido que não conseguiria ler o Universo em Desencanto. Pelo menos não sem primeiro danificar uma quantidade suficiente de minhas células cerebrais a fim de me preparar para aceitar esta obra — Mas eu ainda tinha esperanças de, pelo menos, conseguir dar uma folheada ocasional, a fim de ter uma ideia do que se tratava no livro. Estas esperanças deixaram de existir quando topei com esta coisa :

Planície Racional onde estavam os Racionais com o seu progresso; de onde nós saímos e para onde nós vamos por meio da IMUNIZAÇÃO RACIONAL.

Parte Racional - Planície que não estava pronta para entrar em fase.

Sim, amigos. A cosmologia do Universo em Desencanto se baseia numa Terra Plana. Chupem essa!

1 º Começaram a progredir por conta própria;
2º Neste progresso começou o foco de luz formado pelas virtudes que os Racionais iam perdendo;

Sim, amigos. Temos um politeísmo, ou então uma religião ateísta. Não fica claro quem “começaram” a progredir por conta própria. Mas na ausência de referência a um criador, fica implícito que certos seres “por conta própria”, ou seja, por si mesmos, criaram o universo.

São as virtudes que os Racionais iam perdendo que dão origem ao “foco de luz” (que alguém associará ao Big Bang).

3º Neste progresso já no fim da extinção daqueles corpos;
4º Neste degrau durou uma longa eternidade para a formação dos corpos;
A introdução repentina da palavra “degrau” sugere que estamos analisando a evolução linear do universo em direção ao que é hoje. O problema é que as frases, de tão mal construídas, nada dizem. Barbarismo, solecismo e anfibologia imperam. O degrau não é explicado e nem referido, nem antes e nem depois.
5º Neste degrau já se entendiam por meio de guinchos;
6º Nesta formação começaram a soltar a voz, eram gagos;

O que aqui parece se dizer é que o surgimento da linguagem foi um processo muito prematuro no Universo, pouco posterior à formação dos “corpos” (que aqui se parece ser uma referência a corpos humanos físicos).

7º Gagos mais adiantados, começou a formação da lua;

Eu tenho dificuldades para entender o que o adiantamento da gagueira tem a ver com a formação da Lua, mas fica claro que, além de um mero geocentrismo, temos aqui uma Terra Plana e que a Lua não é um corpo astronômico, algum tipo de enfeite do céu que surgiu somente depois que o ser humano já existia.

8º As virtudes começaram a se reunir, as virtudes da planície e da resina; veio aí a origem das estrelas;

As virtudes perdidas pelos racionais se reúnem e formam a planície (Terra) e a resina (seja lá o que isso for) e isso causa o surgimento das estrelas (bem posterior à formação dos seres humanos e da Lua). Vocês estão acompanhando?

9º Gagos mais adiantados; mas este adiantamento não era ainda de entendimento; iam soltando a voz;
10º Gagos com algum entendimento mas, muito vago;
11º Com mais um pouco de entendimento;

A língua portuguesa segue sendo a principal vítima do livro. O inexplicável uso do ponto-e-vírgula não é a única esquisitice aqui: pior é a reiteração da afirmação de que o desenvolvimento da capacidade de linguagem tem algo a ver com a evolução física do Universo.

12º A resina já bem desenvolvida a sua deformação;
13º Começou a separação das terras;
14º Onde começou a vegetação muito diferente desta, e a dilatação dos órgãos;

O 12º degrau não faz absolutamente nenhum sentido. E não é nem a primeira vez que a palavra “deformação” terá seu sentido deformado para servir aos propósitos do livro. Mas o pior é que não há nenhuma noção do que implica a “deformação da resina” no processo que está sendo descrito.

O 13º degrau poderá ser comparado à quebra da Pangéia, mas isso não é nada signifique algo. Um pregador analfabeto poderia perfeitamente imaginar que um dia todos os continentes estiveram juntos e que se separaram por causa de alguma “deformação” de origem espiritual.

No 14º degrau se diz que a vida vegetal começou após a separação das terras (o que é uma bobagem) e que apenas aí começou a “dilatação” dos órgãos (mas não se diz de quem).

15º Começou a criação da bicharada e a fazerem uso de alguns vegetais;

O que comiam os humanos antes de surgirem os demais animais (a “criação da bicharada” ocorre somente agora) e de passarem a comer plantas?

16º Começou a aparecer a dilatação dos órgãos; até aí eram eternos;

OK. Agora entendi. A “dilatação dos órgãos” está relacionada à morte. Só não pergunte como.

17º Onde começaram a surgir os casos de morte; novas criações. Durou uma longa eternidade morrendo e nascendo gagos;
18º Neste progresso a lua já aparecia com as suas modificações; as estrelas também;

Ficamos agora a saber que a Lua de hoje é “modificada” em relação àquela que surgira graças à gagueira dos racionais. E as estrelas também. Isto é muito esclarecedor.

19º A vegetação completamente modificada; já existia dia e noite;

A vegetação também já mudara. Parece que finalmente existiam dia e noite, algo muito interessante. Principalmente se considerarmos que em momento algum se mencionou o surgimento do Sol.

20º Novas criações, novos entendimentos; já se entendiam regularmente;

Parece que os seres racionais que andaram criando o Universo não eram capazes de comunicar-se uns com os outros. Ainda bem, senão tinham ficado escrevendo livros estúpidos em vez de criá-lo e não estaríamos aqui. É uma pena que o autor do livro, ao contrário dos “racionais superiores” não é capaz de se fazer entender regularmente.

21º Neste progresso foi que nasceram os primeiros passos que aí estão.

Finalmente, depois de todo este processo, finalmente surgiram os primeiros passos que aí estão, seja lá o que forem estes “primeiros passos”.

Depois de ter lido esta página, lamentei pelas árvores que deixaram de existir para fazer o papel em que foi impresso cada exemplar de Universo em Desencanto. Lamentei que tantos átomos estejam desperdiçados constituindo tais exemplares em vez de estarem sendo algo mais útil, como por exemplo, uma pilha de estrume de elefante.

Amigo que está fascinado pela Cultura Racional. Eu sinto muito em te dizer isso, mas você está doente. Você está sendo emburrecido pela sua doença e se não largar mão desta boçalidade adquirida que o acomete, dentro de pouco tempo estará fazendo cocô nas fraldas e batendo chocalhinho. Com tanta religião menos besta no mundo, você tinha que escolher uma coisa tão desesperadoramente tosca e estúpida!

Desculpe se ofendo, mas é muito difícil não ter raiva ao ler algo tão burro, raso e desesperadoramente ignorante! Não tenho palavras para descrever a minha revolta ao ler isso. Não que eu tenha algo contra religiões new age em especial. O que eu rejeito são manifestações tão incoerentes de delírio quanto este livro. Se você precisa de uma religião, lembre-se de que há muitas maneiras respeitáveis e inteligentes de se tranquilizar transferindo suas ansiedades para uma entidade exterior. Você não precisa ser adepto disso.

Pronto, falei.