quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Confesso que Não Creio

Sim, sou ateu. Você deve estar perplexo ao ler isso porque não é comum alguém admitir esse defeito em público. Garanto que se estivesse diante de mim você provavelmente me interromperia com pregações ou maldições (dependendo de seu grau de fanatismo e capacidade de argumentação). Mas deponha sua bíblia sobre a mesa e confabulemos. Vou contar como desde criança eu me bati contra minha dificuldade de acreditar em Deus, até que perdi.

Ser ateu não é ser um cão sarnento, é apenas descrer da existência de alguém que muita gente diz que existe, mas que ninguém sabe como é. Cada pessoa diz que Deus é uma coisa, cada um tem uma opinião sobre sua aparência. E a aparência nem é tudo. Talvez “agnóstico” seja o melhor termo para minha posição. Eu só digo que sou ateu porque não gosto de meias palavras. Eu descreio porque nunca conseguiram me explicar em que eu deveria crer.

Quando eu era criança me diziam que havia um velho barbudo e poderoso que morava no Céu, que ele via tudo que a gente fazia e que, depois que morrêssemos ele nos torturaria horrivelmente para sempre ou nos levaria para morar com ele, dependendo se fôssemos obedientes ou não em vida. Esse mesmo velho tinha mandado seu único filho ao mundo para modificar as coisas que ele mesmo tinha estabelecido mil anos antes e esse filho foi morto por pessoas más, graças ao que nós podemos ser salvos se acreditarmos nele. Essa morte do filho aconteceu por causa de um outro filho do mesmo velho, que não era homem, mas anjo (ou seja, um ser parecido com um homem, só que com asas, tal como um morcego é parecido com um rato, só que com asas). Me diziam que anjos são perfeitos e bons, mas esse em especial, junto com uns outros, tinham ficado ruins e só queriam matar pessoas e seu principal trabalho no mundo era fazer os meninos baterem punheta, os ladrões roubarem, as mulheres desobedecerem os maridos e os velhinhos fazerem safadezas. Eu nunca entendi essa história do anjo bom que tinha ficado ruim.

À medida em que eu ia estudando as histórias do Velho eu ia ficando com mais medo. Descobri que ele tinha uma vez matado todo mundo por causa da “maldade” que havia no mundo e também que ele tinha mandado um tal “povo de Israel” matar todo mundo porque… nunca entendi.

Um pouco mais tarde tentaram me explicar que o filho do velho que tinha morrido na cruz também era o velho e tinha também uma pomba que também era o velho e que estava no filho e no pai e o que o filho e o pai estavam na pomba… Isso me embananou a cabeça de tal modo que eu resolvi simplificar as coisas: “tá bom, vou acreditar no velho, até aceito que teve um carinha que morreu na cruz, mas ele era só filho do velho, não o velho, e a pomba era só uma pomba mesmo.” Quando resolvi pensar assim eu tinha apenas doze anos.

Mais tarde fui apresentado a outras variações da história do velho, mas todas incluíam detalhes de como ele seria terrivelmente vingativo contra quem não obedecesse ao que ele mandava, especialmente a dez ordens que ele dera a um tal Moisés e que incluíam coisas estranhas como não poder trabalhar sábado, não cobiçar a mulher do próximo e não rezar para ninguém a não ser para o velho. Eu sempre achei esquisito que as pessoas que me ensinavam isso rezavam para outros velhos e moços e moças e velhas, de que faziam estátuas feias e tristes, em que eles sempre apareciam com rodinhas em volta da cabeça.

Nunca gostei de rezar para esses das rodinhas porque cada um tinha uma história mais estranha que a outra e eu tinha muito medo mesmo de ficar como eles. Teve um que largou a família e foi viver como mendigo descalço, pedindo esmola na rua, teve outro a quem deus “presenteou” com horríveis feridas nas mãos, nos pés e na barriga, teve outro que viveu a vida inteira em cima de uma pilastra. Eu achava que aquela gente de rodinha na cabeça se vivesse no mundo de hoje seria mandada para o hospício, mas minha avó dizia que eles eram pessoas muito dignas de respeito, a quem eu devia “venerar”, o que significava que eu devia ajoelhar diante deles e rezar do jeito que a gente fazia com o Velho Barbudo.

Um dia eu deixei de lado estas histórias todas e fui viver minha vida. Tentei continuar acreditando, lá no fundo, mas não continuei rezando e nem aparecendo em lugares onde as pessoas se juntavam para rezar para o velho.

Quanto mais tempo eu fico sem rezar para o Velho, menos sentido eu vejo em tantas pessoas rezarem. Olhando de fora o que eu vejo são pessoas fazendo coisas que se elas mesmas fizessem sem a desculpa de estarem com o Velho todo mundo ia dizer que era doideira. Gente que fala sozinha, que balbucia coisas sem sentido, que chora sem motivo no meio de todo mundo, que bate em si mesma, que fica de joelhos olhando para estátuas, chorando e falando sozinha, homem que usa saia e roupas coloridas e fala com voz de vovô bondoso com todo mundo, mulher que raspa a cabeça, se veste de preto e fica trancada a vida inteira dentro de um quarto, gente que entrega tudo que ganha trabalhando para alguém que não trabalha, gente que tem de usar terno no verão e não pode ir à piscina porque deus não gosta…

As pessoas me acham um monstro só porque eu não acredito no Velho mais. Dizem que o tal anjo perfeito que ficou ruim está comigo. Eu só queria ter o direito de dizer que acho que o Velho é só uma história de criança que as outras pessoas cresceram e não deixaram de acreditar. Uma espécie de bicho papão cujos armários são grandes prédios de pedra com cruz em cima.