segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cartão de Natal Comunista

Inspirado em um cartão que recebi, quando ainda adolescente, de um amigo por correspondência romeno. Como se sabe, comunistas de verdade não são como a Heloísa Helena, carolas e cheios de fé, mas monstros ateus comedores de criancinha. Portanto, nada de referência a Natal e Ano Novo: natal de comunista é uma festa secular.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Porque os Religiosos Precisam de Hitler

Sempre me perguntei por que razão os religiosos precisam insistir em “acusar” Adolf Hitler de ateu. Parece haver uma profunda necessidade, em pelo menos boa parte dos apologistas cristãos, de afastar o “coisa-ruim” austríaco das fileiras do cristianismo e associá-lo, a todo custo, ao ateísmo em particular (não serve nem mesmo o paganismo, tem que ser ateísmo).

Os motivos disso são estranhos. Afinal, há ateus definitivamente tão “coisa-ruim” quanto o ditador nazista que poderiam ser usados para difamar a causa. A lista é longa: Mao Tse-Tung, Josef Stalin, Lênin, Pol Pot… Cada um deles protagonizou crimes tão ou mais hediondos (pelo menos proporcionalmente) do que Hitler. Sobre as costas de Mao pesam pelo menos 60 milhões de mortes em uma grande epidemia de fome causada por seu programa de reforma agrária súbita — sem falar nos que morreram durante a guerra civil e nos que mandou matar durante a Revolução Cultural. Stálin foi responsável por expurgos violentos de todo tipo de gente de que suspeitasse de algo menos que 100% de fidelidade — e também esteve envolvido em mortes de fome por equívocos de uma política agrária anti-científica (lysenkoísmo). Que dizer de Pol Pot, que matou 40% da população de seu país em nome de um socialismo puro?

Esses ditadores, porém, não são tão facilmente lembrados como “paradigmas do ateu comedor de criancinha”. Acredito que as razões disso passam por três níveis.

Em primeiro lugar, ele é um arquétipo do mal. Nenhum ditador na História foi tão odiado. Na URSS há quem fale bem de Stálin (e não poucos). Mas somente loucos falam bem de Hitler na Alemanha (mesmo porque é crime elogiar Adolfinho na terra do chucrute, mas é permitido elogiar Zezé na terra da vodca). Há um consenso cultural no sentido de que Hitler representa tudo aquilo que o Ocidente rejeitou: tirania política, terror estatal, racismo, massacre de minorias, imperialismo, entronização da pseudociência, etc.

Além disso, para coroar sua “gloria imorredoura”, era um homem de sexualidade dúbia; havendo relatos que variam entre impotência, doenças sexualmente transmissíveis e pelo menos a suspeita de um caso incestuoso (com sua prima). Há indícios fortes de que sua união com Eva Braun não teria sido jamais consumada e nunca ninguém afirmou ser seu filho ou filha (e todos sabem que ser filho de gente famosa dá ibope). Por fim, o austríaco ainda sofria de problemas mentais não identificados (opiniões variam entre epilepsia desenvolvida após ferimentos na cabeça recebidos na I Guerra, esquizofrenia paranoide, sociopatia e sequelas de sífilis). Como sabemos, os cristãos mais fanáticos acreditam que a homossexualidade é coisa do diabo, então é altamente importante que as pessoas que pertençam ao diabo sejam igualmente homossexuais ou, pelo menos, que sejam incapazes de gerar vida (pois infestar o mundo de crias é o que o fundamentalismo religioso acha mais importante).

Bicha (ou broxa), louco e assassino em uma escala inaudita. Eis o pacote completo do que deveria ser o “ateu exemplar” (os cristãos fundamentalistas, de forma geral, acham que todo ateu é um louco assassino em potencial e que também dá ré no quibe).

Hitler é a Geni da História: atribuem-lhe tudo de ruim. Fazem dele o parâmetro do intolerável. Usam seu nome como “abracadabra” para em debates simbolizar o anátema. É uma das poucas pessoas na História a ter nomeado uma falácia, o “Argumentum ad Hitlerum”, que consiste em inserir indevidamente em um debate uma comparação com o nazismo a fim de sugerir que determinada posição é “ruim”.

O segundo ponto é o raciocínio cristão segundo o qual a fé torna as pessoas melhores e (inversamente, como é lógico) a falta de fé as torna piores. Desta forma, “ser cristão” implica em tornar-se bom e “ser ateu” implica em tornar-se ruim. Se alguém se diz cristão e é “mau”, então não é verdadeiramente um cristão, mas alguém que apenas se diz cristão. Se alguém se diz ateu e é “bom”, então ou não é de fato ateu ou não é de fato bom. A implicação disso é que toda pessoa que cometa atos obviamente maus será acusada de “no fundo” ser ateísta. Isso vale até para líderes religiosos como Jim Jones.e o Bispo Edir Macedo (que é acusado por certos fundamentalistas de não ser verdadeiramente cristão devido às suas doutrinas controversas).

Nada disso é novo: há séculos e séculos os cristãos praticam a máxima de Jesus, segundo a qual “quem não está comigo está contra mim”. Seguem também rejeitando as maçãs podres de uma forma singular: em vez de apenas admitir que são maçãs podres, os fundamentalistas mais aguerridos querem nos convencer de que só apodreceram porque são, na verdade, abacaxis e que as verdadeiras maçãs não apodrecem. O raciocínio cristão julga os frutos pela árvore e não a árvore pelos frutos. Esquecem que Jesus disse que se Deus precisasse de “filhos de Abraão” poderia criá-los até a partir das pedras de Jerusalém.

A implicação óbvia deste raciocínio é que Hitler NÃO PODE, de forma alguma, ser cristão. Seria um desastre para a doutrina cristã fundamentalista se ele fosse cristão, ao mesmo tempo em que seria extremamente conveniente que fosse ateu — dessa combinação de fatores produz-se um milagre argumentativo “toma que o filho é teu” e começam a buscar por quaisquer meios “provar” que Hitler seria qualquer outra coisa, menos cristão — de preferência ateu.

As opiniões variam. Os cristãos mais toscos dirão que Hitler era ateu, mesmo ao custo de ignorar uma quantidade inumerável de fontes que mostram-no usando a religião em seu favor, punindo ateus, construindo igrejas, assinando acordos com o Vaticano, tentando estabelecer uma religião de Estado, etc. Os mais moderados e educados dirão que ele seguia uma forma peculiar de “paganismo nórdico” ou de “cristianismo herético”. Em essência ambas as posições estão incorretas tecnicamente, mas a segunda ainda tem o benefício da dúvida porque é possível interpretar a doutrina religiosa do Reich como uma heresia cristã.

O terceiro ponto é que, por corolário do “Ad Hitlerum”, todas as coisas relacionadas a Hitler são imediatamente julgadas como ateístas e más. Mesmo uma besta como Hitler, no entanto, teve a competência de não passar pelo mundo sem cometer alguns acertos. Mas a lógica maniqueista do cristianismo fundamentalista julga os frutos pela árvore, e não a árvore pelos frutos. Em vez de admitir pontos positivos no governo de Hitler (houve alguns) eles preferem condenar em bloco tudo que ele fez e classificar como “nazista” qualquer política que coincida com algo que Hitler fez em vida.

Mesmo esse argumento, porém, é usado de forma deliberadamente desonesta (não existem cristãos fundamentalistas honestos, ao que parece). Digo isso porque os fundamentalistas condenam como “nazistas” campanhas antitabagistas, defesa do meio ambiente, controle de armas civis, polícia de quarteirão, leis escritas etc. mas não estendem o mesmo opróbrio à política natalista do Reich ou sua aversão ao aborto e à anticoncepção (uma vez mais: o cristão fundamentalista parece achar a procriação sem limites um supremo ato de piedade).

domingo, 11 de outubro de 2009

Pânico Eletrônico

Quando comecei a comprar meus primeiros CDs, em 1995, ainda eram primordialmente versões importadas, geralmente dos Estados Unidos ou da Alemanha. Havia uma mensagem impressa neles, ao final de uma breve seqüência de instruções para cuidado e limpeza que, afinal, não era mais do que recomendações de bom-senso: “se você seguir estas instruções, o CD lhe proporcionará uma vida inteira de puro prazer auditivo” (If you follow these instructions, the compact disc will provide you with a lifetime of listening enjoyment).

Certamente esta promessa era reconfortante. Eu tinha meus vinte e poucos anos e imaginava que viveria, no mínimo, mais uns sessenta ou setenta. A perspectiva de conservar comigo os meus discos até o fim — e talvez até legá-los a meus descendentes — era algo que imaginava muito vivamente. Por isso não hesitei em investir milhares de reais em discos. Considerando todos os que ainda tenho e os que cheguei a ter, mas vendi por não ter gostado, devo ter comprado em vida quase novecentos discos. A preços corrigidos para valores atuais, isto quer dizer que eu comprei, facilmente, mais de doze mil reais em música.

Este investimento me proporcionou, de fato, um enorme prazer auditivo. Um rápido cálculo me diz que os meus CDs contêm nada menos do que vinte e quatro mil minutos de música, ou quatrocentas horas. Considerando que ouvisse uma média de uma hora e meia por dia (o equivalente a um álbum duplo ou a dois álbuns), eu levaria 267 dias para ouvir toda a minha coleção uma única vez. Mas como eu não ouviria todos os dias, posso afirmar sem sombra de dúvida que os meus CDs equivalem a um ano do prometido prazer.

Levando mais adiante o cálculo, considerei que houve certos álbuns que eu certamente ouvi mais de uma vez. É impossível ouvir uma vez só certas pérolas, como The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Trespass (Genesis), Argus (Wishbone Ash), Bad Company (Bad Company), History (America), Harbour of Tears (Camel), In Rock (Deep Purple), Revoluções por Minuto (RPM), Houses of the Holy (Led Zeppelin), Molten Gold (Free), Power and the Passion (Eloy) ou Nightingales and Bombers (Manfred Mann’s Earth Band). Desta forma, não é difícil imaginar que foram, na verdade, dois anos em vez de um.

E por fim, não comprei os discos para ouvi-los uma única vez, ou mesmo para ouvi-los todos repetindo alguns. A conclusão a que cheguei foi a de certamente não conseguiria, mesmo que tentasse, enjoar da música neles gravada, pois quando tivesse acabado de ouvir o último já teria quase esquecido do primeiro.

A conseqüência disso é que rapidamente percebi que possuo mais discos do que consigo ouvir em uma vida inteira (e eu nem estou considerando os discos que peguei emprestados ou as músicas que ouvi efemeramente na Internet). Da mesma forma, hoje percebi que há certos discos que possuo há anos e que nunca ouvi, tal como um obscuro álbum de rock progressivo inglês que chegou às minhas mãos sei lá como, talvez como parte de uma barganha…

Eu poderia estar feliz com isso, imaginando que jamais me fartarei de música enquanto estiver vivo. Mas estou, em vez disso, deprimido por duas razões que apavoram meu senso musical. A primeira é que o CD é um gênero em extinção: dentro de poucos anos já não será possível comprar discos em formato tangível e o antigo prazer de folhear encartes com letras, ler fichas técnicas e contemplar fotos terá desaparecido, inclusive antes que tenha tido dinheiro e tempo para adquirir todos os discos que gostaria de possuir — e há tantos bons discos no mundo que eu ainda não ouvi. A segunda razão é que a promessa feita pelos fabricantes é uma mentira.

Não, o CD não proporciona, por mais cuidado que tenhamos, “uma vida inteira” de puro prazer auditivo. A menos que a vida a que se referem seja a de um cão doméstico ou de um hamster. O primeiro CD que eu adquiri fora fabricado em 1990, no Canadá. Sim, ele tinha um “Made in Canada” estampado. Em 2006, apenas dezesseis anos depois de feito, começou a se desfazer. O plástico esfarelava, o selo descascava e a gravação se perdeu. Tive de readquiri-lo, em uma versão nacional inferior (com capa de péssima qualidade gráfica, como é o compromisso jurado de nossas gravadoras) para poder continuar ouvindo ao épico 2112, do Rush.

Eu não submetera o disco a nenhuma intempérie a não ser alguns invernos em uma casa fria. Eu jamais tocara com os dedos a face gravada. Eu jamais o lavara com outra coisa que não água pura e detergente neutro e jamais o secara com outra coisa que não lenços de papel suavíssimos. E mesmo assim o plástico começara a apodrecer.

Agora, em 2009, percebo que há outros discos com sinais do mesmo mal. Estão sob a mesma ameaça a minha coleção completa de Deep Purple e minha série quase inteira do Wishbone Ash — entre outros. Não é verdade, os CDs não duram uma vida inteira, tal como nem todos nós duramos uma vida inteira.

Melancolicamente os transformo em arquivos digitais, que nunca têm o calor do original. E melancolicamente espero por esse estranho e imaterial futuro no qual não possuiremos nada fisicamente, para tocar, cheirar e sentir, mas apenas virtualmente, limitadamente. Mas enquanto isso me pergunto: sou eu que estou chegando ao fim da vida, ou foi a promessa do fabricante do plástico dos CDs que furou?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Os Jovens Johnnies

“Eis que bem sabemos que certas pessoas, menores de idade no caso, são boas na escrita, desenvolvem bons textos. Porém, será que as editoras aceitariam obras destas? Eis a simples questão" — perguntou no Orkut um jovem que acha que escreve os best-sellers do futuro.

A questão não é simples, não. As editoras não tem qualquer preconceito específico contra menores de idade: as mesmas dificuldades enfrentadas por um petiz para publicar seu livro serão enfrentadas por um adulto. Mas eu não acredito que seja fácil para ninguém, especialmente se você não reside num grande centro e não tem algum contato com o meio.

A primeira coisa a se considerar é que é uma excepcionalidade que alguém tão jovem escreva realmente bem, talentos do quilate de Rimbaud não dão em árvore. Depois, mesmo escrevendo bem, dificilmente alguém tão jovem está pronto para publicar. Não sem a influência e a revisão de um Verlaine.

Mas abstraindo totalmente a questão objetiva da idade e a subjetividade da “qualidade” (coisa que todo mundo acha que tem e fica ofendido se alguém diz que não), entra em questão como ter acesso ao mercado editorial. Embora eu não tenha a mínima ideia de como esse é mercado é visto de dentro para fora, ou seja, pelas equipes das editoras, o que eu vejo de fora para dentro é preocupante.

Existe por parte do público brasileiro um fascínio pelo estrangeiro, que faz com que os escritores jovens cheguem a adotar pseudônimos estrangeiros e batizem seus personagens de Johnnies e Steves. Entre publicar uma obra de um jovem brasileiro que imita Stephen King ou J. K. Rowling as editoras sempre preferirão publicar os originais. Sabe por que? Os johnnies tupiniquins podem vender ou não, mas os originais estrangeiros já venderam, já provaram que são bons e podem ser rapidamente traduzidos a tempo de serem anunciados como “os mais vendidos na Lista do New York Times”.

Há editoras que até dão certo apoio aos novatos (no sentido de que publicam se eles pagarem), mas o público também é arredio. O público desconfia. Eu ainda não vi nenhum johnnie chegando ao estrelato literário — e duvido que veja — porque é mais barato em termos de custo e oportunidade para uma editora pegar o mais recente sucesso literário americano, alemão ou inglês. Há menos investimento em uma republicação do que na publicação de um original de qualidade duvidosa.

Mesmo que não fosse totalmente assim, eu confesso que não desejo nenhuma boa sorte aos johnnies. Desejo mesmo é que eles continuem dando murro em ponta de faca, que se frustrem e desistam, que percam cada centavo que investirem em si. Eu sou um nacionalista: acredito que a única chance de liberdade e prosperidade que temos está em lutarmos por nossos interesses em vez de servir aos interesses estrangeiros. Para nós, o nosso país é nossa casa. Para o estrangeiro, ele é uma colônia, um bordel para as férias ou uma praia bonita. E entre as muitas maneiras de defender nossa liberdade e nossa prosperidade está lutar por nossa cultura — que inclui nossa língua, essa mesma que hoje em dia as pessoas acham que não precisa escrever direito nem falar bem.

Muitos desses que acham que escrever bem é elitismo estudam inglês e aprendem um padrão literário muito mais conservador do que a norma culta do português, a odiosa Received Pronunciation, um instrumento da centralização cultural e política do Reino Unido e uma das armas que mataram línguas milenares, como o gaélico-escocês, o córnico, o manquês e que quase mataram o galês e o irlandês. Esses mesmos que adoram a “espontaneidade” da língua do povo aprendem inglês com regras derivadas de manuais de redação muito mais normativos do que a gramática do Napoleão.

Vivemos hoje um processo de assimilação semelhante ao vivido por países que sofriam violentos processos de colonização. Processos que resultaram, em lugares como Irlanda, Gales, África do Sul e Canadá, na morte de línguas regionais e no estabelecimento impositivo do inglês como “língua civilizada”. Muito já se escreveu sobre o estupro da Irlanda e do País de Gales nas mãos dos ingleses, mas pouca gente lê. É curioso que tanta gente aceite a hegemonia do inglês, considerando que há bem pouco tempo odiar os ianques era uma espécie de esporte nacional por estas bandas (ou seja, como esporte, não era levado realmente a sério).

A diferença é que o Brasil não está sendo submetidos a um processo de “doma e castração” semelhante ao executado pela Espanha na Galícia ou pela Inglaterra no País de Gales. Não é pela força que o inglês se impôs, mas pelo fascínio. Somos tolerantes demais à influência estrangeira. Não é questão de ser xenófobo, é questão de ser realista.

E o que isso tem a ver com os jovens talentos? Muito. Os jovens talentos nascem nesse cenário de imposição do inglês, nascem sem auto-estima, condicionados a pensar que não se consegue escrever uma boa história de terror ambientada no Brasil ou que personagens brasileiros não funcionam em histórias de suspense.

Eles sentem isso porque antes de terem qualquer “odiado” escritor brasileiro eles leram traduções baratas de best-sellers americanos.

Desta forma, mesmo que tenham talento, será apenas por exceção que algum deles terá maturidade e cultura para produzir uma obra relevante, dotada de identidade própria, desimpedida de tapa-olhos. E se produzirem, será ignorada em um cenário onde características brasileiras são vistas como mau gosto ou caricatura no texto literário. Tal como tenho notado nas reações das pessoas ao meu projeto “Serra da Estrela”: personagens e lugares são todos inspirados no interior de Minas Gerais, mas as reações das pessoas que leem os primeiros capítulos avulsos que andei mostrando são de estranhamento; tendo havido já quem disse que gostou por causa do “exotismo”. Para a juventude brasileira, o Brasil é exótico.

Os pobres johnnies que sonham em ser escritores ainda padecem de uma ilusão cruel: a de que bastará escrever bons livros. O conceito de “bom” é relativo. Um livro escrito por um adolescente de quatorze anos pode ser muito “bom” considerando o que se espera que escreva alguém dessa idade, mas não ter, ainda assim, nenhum valor perante o mundo literário. Afinal, a obra literária não é avaliada em termos relativos, ou em termos de recompensa ao esforço, mas em termos absolutos. A conseqüência disso? Alguém que é elogiado como um grande talento na adolescência acha que já está pronto e se decepciona quando lhe mostram as fraquezas de seu texto. Não percebe que à medida em que cresce (física e mentalmente) precisa continuar evoluindo para continuar sendo bom. Caso contrário, a idade o ultrapassa.

Esses jovens, quando chegarem aos vinte e cinco anos, vão olhar para trás e dizer: “mas todo mundo dizia que eu tinha talento! por que não deu certo?” Não deu certo porque quando um adolescente passa a ser adulto ele precisa escrever como adulto. As pessoas fazem certos elogios a quem tem quatorze anos na esperança de que se animem e cresçam. Mas quando você tem vinte, está na hora de criar vergonha na cara e parar de esperar elogios para mexer seu traseiro gordo.

Por fim, existe em nosso país toda uma estrutura para fabricar iludidos literários. Quando você está na escola sempre tem o jornalzinho que vai publicar suas toscas quadrinhas como se fossem obras primas. Tem o professor que escreve “genial” à margem de sua composição. Tem a revista literária que tem um espaço para divulgação de “talentos juvenis”, tem o projeto da Prefeitura que busca escritores mirins etc.

Mas quando você deixa de ser um estudante que escreve boas composições, descobre que não há, fora do ninho morno do sistema educacional, nenhuma estrutura para desenvolver-se. Nenhuma revista que aceite crônicas e contos, nenhum jornal de poesia. Apenas a internet, e seu grande silêncio digital.

E você já não é mais um adolescente que é elogiado por sua iniciativa de escrever, agora as pessoas te criticam pelo que você realmente sabe fazer.

É um golpe que vitima muitos talentos.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O Que Seria da Minha Rebeldia?

Em algum momento, em 1995, eu datilografei em uma página de papel-ofício os seguintes versos:
O que seria
de minha rebeldia
se eu não fosse um rapaz da burguesia
acometido pelo tédio da escrita
e um diploma superior?
Decerto eu estava pensando nas polêmicas de Lobão, artista cuja arte pouco me interessa, mas cuja filosofia sempre me instigou. Acho que se João Luís Wönderbag escrevesse logo o primeiro volume de suas memórias produziria uma obra mais relevante que toda sua música junta.
Minhas palavras tinham a ver com algo que já se notava em 1995, mas hoje está tão escancarado que nem se pode mais deixar de ver: a rebeldia se transformou primeiro em uma estética, e hoje é uma ideologia. Primeiro escavou seu nicho na cultura, hoje se tornou a face mais comum do sistema.

Você sabe o que é o “sistema”? Bem, metade dos revoltados do mundo falam mal dele mas parece que tampouco sabem. O sistema é uma entidade abstrata, cada vez mais abstrata. Interessa-lhe que seja abstrato porque nos controla. Você reconhece um falso rebelde pelo simples fato de ele ter a permissão de ser um sucesso.

Dia desses, enquanto lia um artigo surreal do Hermano Vianna elogiando Chimbinha e Joelma eu percebi com toda força o que já se insinuava há quase duas décadas: está havendo uma ideologização da arte, uma politização do fazer artístico. Trocando em miúdos: as pessoas estão analisando as obras de arte (sejam música, pintura, literatura ou outra coisa) não pelo seu valor propriamente dito, mas pela sua “postura” — real ou suposta — em relação ao “sistema”.
Hermano Vianna tece elogios quase sexualmente explícitos a Chimbinha porque a Banda Calypso fez sucesso à revelia do “sistema”, porque ela representa um sintoma de que a as “elites” (outra entidade abstrata que serve de Judas para o esquerdismo cultural) estão “perdendo o controle”. A música da Banda Calypso não importa, o importante é seu papel no combate ao sistema.

Esse bolchevismo substituiu o comentário especializado sobre as características da arte em si, vista como algo “elitista”. O próprio Hermano Vianna lamenta que Chimbinha não seja legitimado como artista, apesar dos milhões de discos que vendeu – o tipo de discurso dos que defendem a prosa rala de Paulo Coelho. Até mesmo o pseudo-funk é tido por ele como um “movimento” (outro termo político) que merecia ser tratado pela Secretaria de Cultura e não pela de Segurança Pública. Talvez porque na opinião do crítico exista algo de cultural nas mortes e na violência que cercam o “movimento”.

Acontece que está na moda ser rebelde, embora o Brasil nunca tenha sido um país comunista (ou talvez exatamente por isto) as nossas elites culturais se travestem de profetas da revolução pela via cultural, já que nunca conseguiram avançar na luta pela via política devido à acomodação (já no século XIX Martins Pena detectava que no Brasil ninguém é mais conservador que um liberal no poder). Esta revolução cultural, é claro, não passa de uma desculpa porque, feita pela via do popularesco, ela destrói mais do que constrói. Talvez alguns líderes de tal ideologia realmente achem que estão limpando o trecho para o nascimento de uma nova cultura ou de um novo país, mas suspeito que muitos querem apenas ganhar dinheiro com isso. Porque hoje em dia a revolução se transformou em uma lucrativa indústria.

Desta forma, a “elite cultural” de nosso país resolveu se apropriar da estética popular e utilizá-la como instrumento de sua influência sobre o próprio povo. Quanto mais vazia for esta estética popular, mais útil ela se torna como instrumento. O pseudo-funk que as elites querem que saia da Secretaria de Segurança Pública não é mais o gênero praticado por Cidinho e Doca, com sua mensagem de orgulho e amor-próprio (“Eu só quero é ser feliz / andar tranqüilamente na favela em que eu nasci”), mas a trilha sonora de acasalamento de brontossauro cantada por pseudo-gente como o MC Créu (“Créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu”).

Da mesma forma, o popular por que se interessam estas elites não são artistas de talento nascidos no seio do povo, como a maravilhosa cantora baiana Virgínia Rodrigues, mas qualquer coisa que seja caricata e popularesca, que apresente o povo como uma massa desmiolada em permanente cio. E mesmo no seio do popularesco (que é a perversão do popular) não escolhem artistas que trazem elementos de choque. Não basta que seja ruim, é preciso que seja um ruim sem discussão.
Em “1984”, George Orwell predisse que no futuro as sociedades totalitárias buscariam o controle do povo justamente pela difusão de música ruim:
Aquela canção estivera assombrando Londres nas semanas anteriores. Era uma das incontáveis canções parecidas publicadas para benefício dos proletários por uma sub-seção do Departamento de Música. As letras de tais canções eram compostas sem qualquer intervenção humana em um instrumento conhecido como “versificador”.
E exatamente de que letra estamos falando? De uma que diz coisas assim:
Foi somente uma ilusão sem sentido
Que passou como um dia de abril
Mas com um olhar e uma palavra
Os sonhos me agitaram
E roubaram meu coração.
E que tal compararmos isso com um dos recentes sucessos de certo cantor popular?
O que posso fazer
Se a vida é assim
Apostei tudo em seus beijos
E assim mesmo te perdi
Não me peça perdão
Não chore, por favor
Suas lágrimas são falsas
De mentira foi teu amor
Não me diz mais nada
Nem sei como me enganou
Se a lua não é queijo
Nem as nuvens de algodão
Para que seguir mentindo
Com amor e ilusão?

Não existe rebeldia alguma nesta letra composta para emburrecer quem a ouvia e manter as massas sob controle. Não existe rebeldia alguma nas letras da música popularesca que toca no rádio hoje. E também não existe rebeldia alguma nas fórmulas de rebeldia que os autores e compositores de hoje produzem.

Em 1991 Lobão já esculachara os rumos do pop nacional dizendo que num futuro não muito distante o rádio estaria inteiramente ocupado por “rebeldes Barbie”: gente de pose rebelde que, no fundo, não têm nenhuma consciência artística e apenas seguem a fórmula da moda.

Segundo o Sr. Wönderbag estaria na moda ser rebelde, falar palavrão, combater “o sistema”, usar drogas, fazer tatuagem, etc. Doze anos depois de suas proféticas palavras já tivemos RBD, hoje temos “Crepúsculo” (com seus vampiros cuidadosamente desinfetados) e o pseudo-funk e o pseudo-calipso: o sistema abraçou a rebeldia e a transformou em mais um departamento.

Imagino que no futuro haverá até associações de anarquistas, clubes de rejeitados, vampiros que não chupam sangue, tarados que não estupram, assassinos que matam apenas em sonhos, etc. Tudo cuidadosamente planejado para que a arte seja sempre algo seguro, tal como os versos do brega Wanderley Andrade, cheios de duplo sentido e de oxímoros que fazem pensar:
“Sou um psicopata
Mas eu tenho muito amor
Pra dar, amor pra dar”.
Afinal, além dos quinze minutos de fama, todos temos o sagrado direito de sermos rebeldes dentro do curral.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Falácias do Hermano do Herbert Sobre o Marido da Joelma

Leia o artigo que motivou esta resposta

Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relançada para os fãs conhecerem suas origens. Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das invenções dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amazônia no início dos anos 80, antes da febre da lambada. Sou fã de guitarrada — então foi fácil ficar fã do Chimbinha. As músicas Dançando Calypso e Na Levada do Brega, que abrem o Guitarras que Cantam, estão entre as minhas favoritas de todos os tempos.

Nada como começar com um elogio totalmente despropositado. Quem musicalmente é o Chimbinha para que um crítico diga que duas de suas músicas são suas “favoritas de todos os tempos”? Esse elogio não pode ser sincero ou então o Hermano Vianna é um imbecil que praticamente nunca ouviu música. Chimbinha ainda tem que comer muito pato no tucupi para pôr duas de suas músicas entre as favoritas de todos os tempos de alguém que entenda de música.

Não estou desmerecendo o talento de Chimbinha, apenas lembrando que ele é guitarrista no mesmo planeta onde já existiram ou ainda existem Jukka Tolonen, Celso Blues Boy, Jeff Healey, Steve Morse, Richie Blackmore. Até Robertinho do Recife.

O brega, se ninguém ainda percebeu, é rock. Digo mais: é o mais amado e duradouro estilo do rock brasileiro. Tudo começou com a jovem guarda, e sua adaptação do rock internacional para o gosto popular nacional. Quando Roberto Carlos colocou em segundo plano as guitarras elétricas e se transformou em cantor romântico acompanhado por orquestras, a fórmula inventada pela jovem guarda se descentralizou, primeiro passando pelo Goiás de Amado Batista, depois pelo Pernambuco de Reginaldo Rossi, até chegar ao Pará do ex-governador Carlos Santos, também cantor brega, autor de dezenas de discos.

A Jovem Guarda foi uma porcaria melosa e sem raiz que apenas por exceção produziu algum artista de qualidade (mais por causa dos talentos dos artistas envolvidos do que pela qualidade do gênero). Hermano Vianna aponta com todas as letras o rumo (cada vez mais apelativo, popularesco e tosco) seguido pela degeneração da Jovem Guarda até desembocar, supostamente, no Calypso. E mesmo fazendo isso, ousa não botar o dedão na ferida.

Hoje Belém é a capital do novo brega. Centenas de CDs são lançados anualmente, a princípio para um consumo regional, mas que começa a atingir também o público nordestino. Os músicos locais já nem chamam o que fazem de brega, dizem que é “calipso”, música mais “sofisticada”.

Começamos pelo tradicional “Apelo ao povo” (se o povo gosta, então é bom) com o leve suporte do “Apelo ao poder” (se lança centenas de CD’s por ano, então é bom). A mudança de nome, uma decisão de marketing, é aceita como natural, mesmo que disfarce a origem impura do gênero.

Chimbinha, com 23 anos, tocou guitarra em mais de 200 CDs, só em 1997. É uma das maiores revelações entre novos músicos brasileiros de qualquer estilo, sendo herdeiro direto das invenções de Renato dos Blue Caps — que criou o chacumdum da guitarra brega ao ser obrigado a tocar num disco de bolero, sem saber tocar bolero — e das guitarradas de Vieira.

Ou seja, o precário, o ignorante, o mal-feito, se torna uma estética.

Posso falar alguma coisa? Legal, porque a nossa música paraense de hoje é uma mesclagem do ritmo calipso com o twist, na onda de Jerry Lee Lewis. A gente deu muita sorte, porque hoje essa mesclagem, graças a Deus, roda em dezessete estados brasileiros. Essas ondas todas aqui não têm nada de ridículo. É um papo dez, é uma mistura de Nina Hagen, com aquela onda dos Sex Pistols, do Pink Floyd, do Dire Straits, e aí eu peguei o Pepeu Gomes daqui do Brasil e fizemos essa onda: o negócio é sério. Sempre gostei de Elvis a Morengueira.

Eu queria saber o que cantor quis dizer com isso. O que ele vê de Jerry Lee Lewis no brega paraense, o que vê de Nina Hagen.

Existe uma concepção na “esquerda musical” brasileira segundo a qualquer tudo que seja misturado fica bom. Daí os cantores aprenderam que para ordenhar elogios da crítica musical basta introduzirem elementos aleatórios em suas música e citarem algumas referências cultas.

Este trecho é particularmente interessante porque embora Hermano Vianna tenha cultura musical suficiente para traçar a rota correta que liga a Jovem Guarda ao brega paraense, ele é suficientemente devotado a elogiar para engolir a balela do cantor parense que citou todos estes nomes do rock para ele.

Imagino que esse músico deve estar até hoje rindo da cara do Hermano Vianna, porque ouvir um descerebrado dizer isso e dar crédito é passar recibo de otário.

Era um tratamento de choque para a platéia paulistana, já um debate sonoro sobre o que é tradição musical no Brasil.

Expor o povo de São Paulo a doses maciças de música ruim de outras partes do Brasil com a desculpa de que “isso é Brasil” é mesmo algo análogo a tratamento de choque: busca remover as resistências do paciente e torná-lo dócil.

O telefonema, de madrugada (a hora mais fácil para encontrá-lo), durou horas. Chimbinha me contou tudo que havia acontecido desde a festa de lançamento do Música do Brasil. Falou de como perdeu todo o dinheiro que acumulou como músico de estúdio para manter a Banda Calypso nos seus primeiros anos, quando não tocava em nenhuma rádio nem era contratada para nenhum show. Ele mesmo percorria todas as rádios de poste (que têm alto-falantes espalhados nos postes das ruas de Belém) pedindo para suas músicas serem programadas. Foi por causa de um desses alto-falantes de rua que um organizador de shows de Marabá, de passagem por Belém, ouviu a Calypso e convidou a banda para uma série de apresentações no sul do Pará. De lá é que seguiu para Pernambuco, onde passou meses fazendo show diários por uma ninharia. O sucesso aconteceu aos pouquinhos, entre vários momentos de desespero.

Note que a argumentação, que inicialmente desdenhara da Banda Calypso agora começa a mencionar as agruras porque passou Chimbinha. Esta menção aos “tempos difíceis” do artista tem sempre o objetivo de preparar o leitor para sentir simpatia pelo elogiado da vez. Isto se chama “Apelo à misericordia”. Hermano Vianna sabe que a música da Banda Calypso é ruim, mas ele procura fazer com que gostemos dela através de nossa simpatia por alguém que sofreu lutando pelo que acreditava. Mais que isso, ao mencionar a falta de espaço na mídia, estamos usando a falácia do “apelo anti-autoritário”: aquilo que vai contra “o sistema” é bom.

Tais argumentos são bastante comuns, especialmente quando a música é ruim. Artistas que fazem música boa não costumam gostar de expor sua vida pessoal.

Eu respondi que a produção poderia tentar alugar um jatinho. Do outro lado da linha: “avião eu tenho, o problema é que lá não tem pista de pouso.” A ficha caiu: logo descobri com quem eu estava falando - não era mais aquele garoto de 23 anos só com uma guitarra na mão.

De novo o “Apelo à riqueza”. Depois de mostrar como Chimbinha sofreu quando era pobre, Hermano Vianna esfrega em nossa cara o quanto ele é podre de rico. Construindo a imagem de que ele é sucesso, poderoso, tenta convencer-nos a gostar de sua música.

Depois de ultrapassar a poderosa barreira de seguranças do condomínio Alphaville, cheguei numa mansão luxuosa, com colunas na porta. Dentro, só a família, os compositores e músicos que trabalham com a banda, o pessoal que cuida da agência pernambucana que vende os shows, e alguns amigos, como Zezé di Camargo.

De novo a exaltação da riqueza e do sucesso. Aliás, vocês notaram que Hermano agora quase não fala da música do Calypso? É claro que o que importa não é mais a arte, mas o produto oferecido.

Joelma e Chimbinha trouxeram um chef de Santarém — o melhor da culinária paraense, segundo o casal — para preparar o jantar com peixes frescos que chegaram na sua bagagem.

Claro, tinha que ser o melhor cozinheiro do Pará… E peixes frescos vindo de bagagem…

Mesa posta, Chimbinha veio me apresentar cada prato. Ele falava sobre detalhes da vida de cada peixe (“este aqui gosta de nadar perto das pedras”), que não eram os peixes óbvios de todo restaurante amazônico. Perguntei curioso, achando que era um hobby biológico: “mas como você sabe isso tudo?” A resposta veio natural, não era nada para causar espanto: “ora, eu vendia peixe na feira com meu pai.” Nova ficha caiu, dessa vez com peso de toneladas. Meus olhos lacrimejaram, pensei comigo contendo o choro: “outro dia ele vendia peixe na feira, agora está aqui numa mansão num condomínio em São Paulo, de um extremo a outro da injusta estrutura social do país, quase sem escalas, totalmente na marra… que símbolo incrível das mudanças pelas quais o Brasil está passando!”

Agora o apelo emocional foi intenso. Hermano até narra suas lágrimas, decerto querendo que choremos também, querendo que admiremos Chimbinha.

Outro componente importante aqui é a noção de que alguém que veio do povo precisa ser valorizado. Mais uma vez se apela ao acessório, em vez do essencial: estamos falando de arte ou de inclusão social? Estamos falando de política ou de música?

Pensei no Lula, que dorme hoje no Palácio da Alvorada, para incômodo de muita gente (incômodo parecido com aquele que gera o sucesso da Calypso…)

Agora Hermano Vianna quer nos fazer culpados: Em sua lógica torta, é errado, é até preconceito não gostar da Banda Calypso. Porque o sucesso do povo incomoda as elites. Este discurso de pseudo-esquerda justifica a má qualidade, aliás, a ignora, em nome de uma luta de classes cultural na qual o que importa é o homem do povo ganhar dinheiro e respeito da elite.

Fazer música que preste até nem importa.

Chimbinha se fez sozinho do lado de lá do cultural divide, sem gravadoras, sem televisão, sem elogios da crítica - eu mesmo, já fã, não tinha dado importância para a sua banda.

A legitimação pelo sucesso, argumentada por Hermano Vianna, nada mais é do que o conhecido apelo ao povo. Infelizmente a voz do povo não é a voz de deus: argumentos precisam de lógica e isso é algo que este texto nunca tem: o autor inventa desculpas e falácias para ter meios de falar bem de uma nulidade artística, tal como Caetano Veloso, no dia de sua morte cultural, elogiando a voz da Tiazinha (quem?).

Outros artistas das chamadas classes populares, para atingir o estrelato precisaram do apoio de mediadores de elite (mesmo Cartola “precisou” de Sérgio Porto…) — agora meu anfitrião estava inaugurando um outro caminho para o sucesso de massas, direto, sem o aval de ninguém do “centro”.

Interessante é que esta mediação da elite adicionava um polimento cultural ao talento natural. Cartola só foi autor de versos tão perfeitos porque convivia com pessoas que falavam bem e que lhe apresentavam trabalhos de qualidade, as referências psicodélico-roqueiras do começo da carreira de Jorge BenJor não estariam lá se ele não convivesse com pessoas de todos os ambientes. O que Hermano Vianna vê como uma descaracterização, os próprios artistas do passado viam como um processo enriquecedor no aspecto cultural, uma troca.

Justamente esta salutar troca de conhecimentos é o que Hermano Vianna vê como perniciosa. Para ele o bom é o bruto, o não polido, o rascunho. Qualquer tentativa de elaboração é uma “mediação da elite” e o artista do povo tem que ser aceito como é, tem que ser mantido em sua jaula de “autenticidade” seja lá para que estudo científico se queira.

Essa é uma novidade e tanto para a cultura brasileira. Que bom que as tais “elites” estão perdendo o controle.

Considerando que o termo elite tem mais de um significado, e no contexto pode ser visto como uma referência ao grupo seleto de artistas que fazem arte de qualidade, a frase é carregada de duplos sentidos pois não distingue seu alvo. Será que Hermano Vianna está se insurgindo contra a elite econômica ou o conceito de elite cultural? Ou algum outro.

E de que tipo de controle estamos falando? Está ele celebrando o fim do preconceito social no Brasil? Ou está celebrando o fim da valorização do verniz cultural que as elites aplicavam em nossa barbárie?

Chimbinha, também emocionado, me contou mais de sua história — a época que morou com sua mãe numa invasão em Belém, os maus tratos quando — aos 13 anos — tocava guitarra toda noite num cabaré e pedia para sua mãe para não voltar mais lá, mas sabia que não podia largar o “emprego” pois a família dependia daquele trocado para comer.

Como a musica é muito ruim, é preciso insistir muito no apelo emocional.

Os melhores amigos de Chimbinha em São Paulo são Zezé, Leonardo e Bruno (de Bruno e Marrone). Isto é: metade do PIB musical brasileiro hoje.

O uso da expressão “PIB musical” expressa muito bem os valores em nome dos quais Hermano Vianna escreve: temos um defensor do popularesco com a justificativa do apelo econômico. A busca da qualidade, definitivamente superada pelo gozo agressivo do dinheiro ganho com música. Não se trata mais de arte, mas apenas de um modo de ganhar dinheiro e poder.

Interessante que tenham se encontrado e que tenham amizade tão forte.

Na verdade é natural que se busquem. Estranho é quando alguém que supostamente tem cultura se mistura com eles.

Mas o sucesso não serve de blindagem contra o sofrimento e a dificuldade de ter que lidar com uma situação que sempre — repito: apesar do sucesso — insinua cruelmente que ocupam um lugar que não lhes é devido, que deveria ser ocupado por músicos com formação de “qualidade”.

Se o autor tivesse dito que o sucesso não implica em qualidade, aí teríamos chegado a algum lugar. Mas em vez disso ele prefere negar valor ao conceito de qualidade (o que é, afinal, qualidade diante da capacidade de ganhar milhões?).

Chimbinha passou o jantar me agradecendo por estar ali, por ter aceito o convite, por ter apoiado sua carreira, por ter colocado sua banda na televisão.

Ué? Mas o Chimbinha não fez sucesso “contra tudo e contra todos?” Aliás, e os shows em São Paulo quando ainda era desconhecido?

O pessoal que cuida da empresa que vende os shows da Calypso me confirmou: “às vezes chegamos numa cidade lá no interior do Tocantins — o show está lotado com o nosso público, mas o cara que aparece na TV e que não juntaria 100 pessoas tem o melhor cachê, o melhor camarim, é recebido pelo prefeito…

De novo o apelo ao povo. Quem enche estádio é que merece ser recebido pelo prefeito. A qualidade da arte envolvida não entra em questão. Se o sujeito enche estádio então é ele que merece ser recebido pelo prefeito.

É evidente, mais que evidente: o sucesso por si só não traz respeito.

Porque o respeito não advém do dinheiro ganho, mas de como se ganha o dinheiro. Sucesso obtido com música ruim é como dinheiro de crime: as pessoas podem até te invejar, mas não respeitam.

No final do jantar sentamos ao redor de um piano de cauda branco (igual ao do Elton John, igual ao do Leandro Lehart),

p>Fetichização ao extremo. Será que ter um piano de cauda branco na sala de alguma forma iguala Chimbinha e Elton John?

É já um outro tipo de relação com os compositores, contratados pelas bandas para escrever seus próximos sucessos. Todos são trabalhadores do pop: parece que têm o método para o sucesso de massa, para a canção que vai agradar a maioria. Imagino que a Motown também funcionasse assim.

De novo comparações incomparáveis. A gravadora Motown reuniu artistas de altíssimo gabarito, em um país encharcado de cultura musical. Os compositores contratados por Chimbinha e Cia. são pessoas sem muita formação e de pouca cultura artística e o seu trabalho não possui um sentido cultural. Mas essa observação pode ser meu preconceito. Talvez daqui a vinte anos estejamos encarando estes caras tal como hoje encaramos Stevie Wonder, Diana Ross, Michael Jackson, Isaac Hayes, etc…

Eu ia escutando as novas músicas e já podia ouvir as multidões cantando aos berros nos futuros shows lotados.

Para quem ainda não tinha aprendido o que era apelo ao povo.

Já repeti várias vezes aqui que não tinha muito interesse pela música da Banda Calypso, gostava do Chimbinha guitarreiro… Então valorizava mesmo o aspecto antropológico do sucesso, um sucesso bem diferente daquele que a indústria fonográfica tradicional produzia no Brasil. Mas este CD, o Volume 10, eu gosto, pra valer. Musicalmente. É um hit perfeito atrás do outro. Há poucas canções melhores de se ouvir no rádio do que “Mais Uma Chance”, cantada por Joelma e Leonardo. Quando ouço na rua, meu dia se alegra e saio cantando junto. A situação de amor descrita na letra também é cativante, no seu narcisismo calculadamente desamparado e espertamente ingênuo: “meu amor se eu fosse você, eu voltava para mim, eu viria me socorrer”. Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana… Mas é preciso tempo: o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?

De novo um elogio exagerado, do tipo que nem chega a convencer. Como alguém que falou tão mal da Banda Calypso pode de repente dizer que seu dia se alegra e sai cantando junto quando ouve “Mais uma chance”?

Notem a sutil “piscada de olho” na última frase. Hermano Vianna está sugerindo que o tempo legitima o lixo musical. Talvez ele esteja precisando dar uma olhada nas listas de sucessos dos anos 60 e 70 e ver de quem nos lembramos e quem foi embora.

E se não fosse a determinação de gente como Hermano Vianna em elogiar lixos do passado, como Reginaldo Rossi e Carlos Santos, esse “popular muito popular” não chegaria a ser visto como elogiável.

É um estilo, objeto claramente identificável. A voz de Joelma tem calor e graça — entendo bem porque todas as crianças são apaixonadas por ela. E a guitarra do Chimbinha continua a tal. Ele me disse que ainda pretende gravar outro disco de guitarrada. Nem precisa: não há necessidade do Chimbinha me provar mais nada. Mas que seria bom ouvi-lo novamente em gravação solo, por puro divertimento, ou por egocentrismo meu, isso seria: fecharia um ciclo completo em minha vida. Mas de qualquer maneira: Salve Chimbinha! Salve Joelma! Os músicos mais populares no Brasil hoje! Quando vão ganhar a medalha do mérito cultural?

Ao ler este parágrafo eu me pergunto quanto Hermano Vianna ganhou para escrever essa merda. Ou o que foi que fumou… “Não há necessidade de Chimbinha provar mais nada, ouvi-lo em gravação solo seria puro divertimento, fecharia um ciclo completo em minha vida”… A intensidade dos elogios chega a dar calafrios, principalmente se temos em questão que o objeto de tais elogios é um compositor burocrático e nada original que produz sucessos comerciais do rádio. Chega a ser possível pensar em mais do que interesses comerciais, talvez até carnais, porque não é concebível que se elogie com tal desespero e com tal gana alguém que o próprio autor do artigo teve tanto trabalho para achar um jeito de gostar. Alguém que requereu tantas falácias e distorções cognitivas para vencer as resistências do autor do texto.

E para fechar com chave de outro, tasca lá outro apelo à popularidade, confundindo, como bom falacioso, valor artístico com “PIB musical”. De quebra ainda acha jeito de ver calor e graça no canto desafinado e cheio de calos nas cordas vocais que a Joelma desfila de forma até constrangedora pelos palcos.

Sinceramente eu não entendo como pessoas aparentemente cultas se prestam a tecer elogios assim para artistas que decididamente não os merecem.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Alter Ego em Springfield

Andei fuçando na Internet sem o que fazer, mais uma vez. Desta vez descobri que é possível criar um avatar de mim mesmo ao estilo dos Simpsons, através do site www.simpsonsmovie.com. Tá certo, a notícia é mais velha que guaraná de rolha (na Web um ano é um pouco menos que um milênio), mas não deixou de ser interessante.

Então esse camarada esquisitão aí do lado soy yo! Prestem atenção nos dentinhos protuberantes, na roupa conservadora, na estampa do Tux na camiseta e no formato do nariz. Tudo isto combinou. Só ficaram faltando minhas orelhonas, meu queixo duplo e minha barba eternamente por fazer.

Muito bacana mesmo, mas eu gostaria de ter tido a oportunidade de salvar a imagem sem ter que fazer uma impressão de tela. Talvez pelo fato de o site ser tão antigo algumas ferramentas já não funcionam.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Isto é Inacreditável!

O argumento do INACREDITÁVEL começa citando a famosa “Lei de Godwin”, segundo a qual “Se uma discussão na Internet se prolonga por algum tempo, a chance de aparecerem comparações envolvendo Hitler ou nazistas se aproxima de 100%”. Godwin é advogado, não historiador ou filósofo e humildemente não tentou aduzir implicações lógicas de sua frase humorística.

O objetivo dessa lembrança é claro: algo que é visto como tão mau não pode, logicamente ser tão mau. Me parece apenas wishful thinking: o fato de nós não gostarmos de uma ideia não quer dizer que a ideia é falsa. Mas para o INACREDITÁVEL, o fato de o nazismo ser tão mal falado significa que ele não pode ser tão ruim quanto dizem, o que não faz nenhum sentido enquanto argumento. Poderíamos dizer, em nome desse relativismo torto, que um conhecido psicopata, como o Andrei Chikatilo, não é tão ruim assim porque ninguém pode ser tão ruim?

Para o INACREDITÁVEL o fato de Hitler e sua camarilha terem se perpetuado como arquétipos do mal, daquilo que a humanidade deve evitar é algo que, por alguma razão, o incomoda. Imagino que os descendentes de Vlad Ţepes ou de Giles de Rais ou de Erzsebét Bátory devem se sentir de forma semelhante. Mas se o nosso amigo não é descendente de algum nazista (será?) então porque lhe incomoda que exista tal modelo? Por que ser tão insistente em tentar desmascará-lo?

Não me parece razoável que tantas pessoas, de forma tão insistente, se insurjam contra algo que, de qualquer forma, NÃO LHES DIZ RESPEITO. A questão do nazismo é hoje, basicamente, um tema histórico que fica cada vez mais no passado. A obsessão, porém, em “limpar a lápide” de Hitler do sangue que ele derramou é indício de alguma motivação que ainda nos escapa.

Poderia um pesquisador comportamental humano aduzir ao reflexo maniqueísta imediato, ou seja, o momento de nosso raciocínio a que sejamos orientados a nos utilizar da comparação mais inequívoca possível: a citação “nazista” como argumento irrefutável.

Também confesso que não gosto de comparações maniqueístas e por essa razão, enquanto professor de história, sou também eu um revisionista. Apenas não sou um negacionista: não vejo necessidade em dizer que todo mundo tem sido enganado o tempo todo desde décadas. A maioria dos historiadores também é revisionista: todo ano surgem livros de história que revisam o que se sabe sobre o passado a partir de novos dados arqueológicos ou pesquisas em fontes.

Esse revisionismo patrocinado pela própria academia não é bombástico e nem afirma que somos todos idiotas: ele é parte do processo natural de acúmulo do conhecimento que ocorre a todo momento entre os pesquisadores. Infelizmente, na boca do leigo a História é uma ciência monolítica e imutável. Para ele, existe uma História oficial que é imposta a todos pela goela abaixo.

Esta crendice a respeito da História é muito estúpida, mas tem uma dose de maldade. É estúpida ao supor que os historiadores têm o poder de determinar o que as pessoas pensam sobre o passado: eles não o têm e o fato de existirem pessoas que ainda negam o Holocausto até hoje é prova de que os historiadores não têm credibilidade generalizada. Mas é maldosa porque lança uma acusação vexaminosa contra toda uma ciência que já é tida pelo vulgo, pelo leigo, pelo ignorante, como uma ciência de secundária importância. O negacionismo é um ataque contra o método histórico e contra o caráter dos que fazem os livros de História.

Não custa notar que quando alguém afirma que todos estão errados, que o “sistema” está errado (seja lá o que isso signifique) esta pessoa se concede uma posição messiânica: sou eu que estou certo. mesmo sendo leigo e monoglota, eu detenho um conhecimento melhor do que o dos “professores”. Na ausência de uma explicação razoável para a origem de tão maravilhoso conhecimento os messiânicos negacionistas recorrem ao conhecimento revelado: reverenciam líderes de bando, como o hediondo S. E. Casten e outros da mesma criminosa laia, e papagaiam seus argumentos pelo mundo como o “disangelho” de uma crença religiosa perversa.

Em outras oportunidades eu já enumerei indícios claros e evidentes de que o neonazismo (subjacente ao negacionismo) se tornou ou está em vias de se tornar uma religião. Dentro em breve estaremos assistindo aos neonazistas reivindicando o mesmo tipo de liberdade de expressão e de culto que é garantido aos católicos, aos umbandistas ou aos budistas. E não é preciso analisar muito para entender que eles têm razão se o fizerem, pois o neonazismo funciona exatamente como uma religião.

Por que a citação comunista não provoca o mesmo efeito?

Nosso amigo INACREDITÁVEL se julga muito esperto e acha que com essa pergunta tirou um coelho da cartola: “ora — imagina ele — se ninguém condena o comunismo, por que condenar o nazismo?” Este é o velho truque índio chamado de falácia tu quoque, que consiste em inverter o sentido da mudança. Em vez de dizer, “o comunismo possui analogias com o nazismo, logo devemos condená-lo também” o falacioso diz: “o nazismo tem analogias com o comunismo, que não é condenado, então não condenemos o nazismo.”

Até aqui o leitor já deve ter percebido que a argumentação de nosso amigo INACREDITÁVEL, como não poderia deixar de ser, começa a fazer água. Ela começou falida ao tentar defender o indefensável, mas piora ao tentar fazer isso mediante o emprego de falácias.

Outra falácia curiosa é a da amostra insuficiente: imagina nosso amigo que uma breve visita a qualquer livraria ou banca de jornais é suficiente para provar que a Segunda Guerra Mundial ainda é um tema relevante para o conjunto da sociedade. Esquece-se ele de que muito poucos são os brasileiros que têm o hábito da leitura. Convenientemente não menciona que boa parte dos livros e revistas destinam-se justamente ao consumo dos neonazistas, e não a uma demanda da sociedade como um todo.

Em seguida, perdendo a vergonha de mostrar o seu arsenal de manipulações verbais, ele entra de sola já qualificando o Holocausto de “religião” e de “indústria” que explora o “suposto” genocídio que, claro, não houve. Na ótica torta desse argumento, o fato de haverem pessoas que se identificam morbidamente com um regime que passou a história como o exemplo de tudo que NÃO deve ser feito por um país civilizado indica que deve haver, igualmente, pessoas que gostam de “apreciar” fotos do genocídio, que ele qualifica de “pornográficas” por certa razão.

Obra do fundamentalismo judaico. Ele coloca todas as pessoas que se denominam "judeus" como alvo de rancores e dissabores de suas intrigas e perversidades…

Passa-se em seguida ao velho truque da culpabilização da vítima: é o fundamentalismo judaico que faz com que os não judeus se tornem alvo do rancor do resto da sociedade. Desta forma, argumenta-se, mesmo que tenha havido um Holocausto, que “não houve”, ele teria sido causado pela perversidade do judeu.

Para o INACREDITÁVEL, o fato de existirem tantos filmes e livros sobre o assunto indica que há um objetivo declarado de “denegrir” a imagem de pessoas tão boas e santas como Herman Göring, Heinrich Himmler, Josef Mengele, Klaus Barbie, Adolf Hitler, etc. Não imagina ele que tal repetição se deve meramente à riqueza que o nazismo apresenta, por suas características inerentes, como elemento dramático. Não percebe ele que a Alemanha Nazista, o Império Romano, a França Napoleônica e, no Brasil, o sertão nordestino, são e serão temas eternos devido à sua riqueza imagística e arquetípica. Falar em arquétipos com um negacionista chega a ser engraçado, visto que ele dificilmente terá sensibilidade para compreender o conceito, mas é necessário para que os demais reflitam.

Ele vê, no entanto, outras formas mais sutis de evocação do nazismo, tais como, segundo ele cita, o sutil sotaque alemão daquele vilão terrível. Esquece o INACREDITÁVEL que já havia, há séculos, uma tendência a vilanização dos alemães, por várias e complexas razões, especialmente na na França, inimiga figadal da Áustria e dos príncipes alemães. Esquece-se ele de que a Primeira Guerra Mundial já havia sedimentado a má reputação dos alemães, em parte injustamente, isto é fato. E por fim, a brutalidade do regime comunista Alemão Oriental, hoje conhecida, tampouco tem a ver com o paradigma do vilão alemão. E não podemos nos esquecer, é claro, que na ótica do INACREDITÁVEL, todo estereótipo que se vê no cinema tem uma função propagandística, claro.

Se até aqui o leitor ainda não se convenceu, parte-se então para a evocação de um demônio de nome pomposo, o “Sionismo Internacional”. A simples menção da palavra “Internacional” já funciona como um mantra a causar repulsa na cabeça do direitista clássico, que tem uma ideologia autonomista e anti-global. Depois de citar casos conhecidos de fundamentalismo, islâmico e cristão, o INACREDITÁVEL afirma que o Sionismo é um movimento fundamentalismo judaico, ou seja, religioso. Nada mais distante da verdade, pois o sionismo é um movimento secular originado do desejo dos judeus de terem um pátria para abrigar-se justamente das perseguições que sofriam na Europa por não terem a sua. Atualização em 15/08/2010: Mais do que isso, o Movimento Sionista tem relações com o Socialismo e o Trabalhismo. Voltamos a culpabilizar a vítima.

Passando por cima de uma série de citações de pessoas que se constrangeram por usar frases ou fantasias nazistas, finalmente o autor admite, de forma previsível, que parte do interesse pelo nazismo é apenas o genuíno interesse de pessoas para as quais a guerra já passou e o odioso inimigo é apenas outro “Império Romano”, com uniformes bonitos e insígnias bacanas. E como o povo gosta de uniformes e insígnias!

Mas o mais interessante é que a seguir, por vias tortuosas, tenta-se argumentar que o nacional-socialismo é a única forma legítima de nacionalismo. Isto é feito de forma bastante sutil, quase não se podendo isolar uma frase, a não ser esta:

… culminando hodiernamente na condenação e perseguição de todos os resquícios dos movimentos nacionalistas da primeira metade do século XX.

Para o inacreditável, a derrota do nazismo e o “massacre de todos os movimentos nacionalistas” são parte de um Grande Plano para implantar à força uma nova ordem mundial. Este discurso não lhe parece familiar? Onde foi que você leu isso? Se você é ou já foi cristão pirado, você já leu coisas assim na Espada do Espírito. Mais uma vez o negacionismo tergiversa com a pregação religiosa ao inventar uma forma de escatologia.

Posto isso, a conclusão forçosa é de que o Sistema se alimenta integralmente da versão histórica oficial para os acontecimentos ligados à 2ª G.M. Não pode e não quer se desvencilhar do “nazismo” por um único motivo: a subsistência das ideologias dominantes depende da constante reafirmação de que aqueles que hoje ocupam as posições de poder são os “heróis”, vitoriosos sobre o “mal”. Evidente simbiose entre a necessária legitimidade e a manutenção do mito. Os Aliados venceram os nazistas, mas se tornaram escravos de sua memória, atormentados pelo medo de seu retorno.

Com um pouco mais de coragem o INACREDITÁVEL teria chamado a ONU de Grande Besta e algum líder internacional de hoje de Anti-Cristo. Esta interpretação da História sob a ótica revisionista é extremamente falha porque desconsidera a motivação econômica, segundo o idealismo dos negacionistas, a roda da História é movida pelos ideais de sociedades secretas ultra-poderosas. A teoria clássica de conspiração se manifesta em toda sua glória ao final de quase todo artigo negacionista.

Fato curioso é observar o ressurgimento de movimentos denominados “neonazistas”. A despeito de todo o esforço para a condenação desta ideologia, surpreende o aparecimento de tantas organizações clandestinas empunhando esta que é a bandeira mais difamada de todas.

Ninguém deveria se surpreender com isto, pois em matéria de ideologia, sempre há um “chinelo velho para um pé cansado”: praticamente toda ideologia tem simpatizantes. O fato de haverem judeus neonazistas indica que não há nada de surpreendente em jovens niilistas aderirem a ideologias tidas como inaceitáveis pela sociedade, por exemplo.

A ideologia nazista é discriminada pelo código pelo código penal brasileiro por incluir como pedra fundamental o racismo, mas principalmente por pregar a lealdade a uma nação estrangeira e denegrir a imagem de nosso país, que contra o nazismo lutou.

São os lacaios do Sionismo Internacional, estes sim, que trabalham incessantemente para impedir o ressurgimento do Nacional-Socialismo, principalmente através da manutenção do mito do Holocausto, e não o contrário!

Esta frase é interessantíssima, porque ela corrobora a minha interpretação de que o revisionismo/negacionismo nada mais é do que um instrumento para tentar recriar o Nacional-Socialismo enquanto alternativa política aceitável. Vejam bem, isto foi escrito no próprio site do INACREDITÁVEL, na época em que eu fui expulso da comunidade HISTÓRIA por acusar o revisionismo de ser um instrumento político e não uma vertente legítima de História. Fui expulso pelos moderadores de lá, que toleram a uma imensa canalha de fakes neonazis e fascistoides, como o INACREDITÁVEL, o Idi Amin e o Massa Sofrida, mas expulsam quem tenta desmascará-los em vez de se engalfinhar com eles em debates circulares e irrelevantes. O INACREDITÁVEL continuou para refutar-me e denegrir a minha imagem, postando em seu site suas invectivas vazias.

Vejam o absurdo, em que a luta pela verdade histórica é acusada de fraudulenta por aqueles que realmente possuem o poder de manipulação, pois ocupam as posições-chave na sociedade (mídia, governo, meio acadêmico, organizações internacionais e de lobby econômico).

E como todo debate com negacionistas é circular, voltamos ao início, ao momento em que eu dizia do messianismo embutido no discurso neonazi.

A supressão do espírito crítico com vistas à pacificação política, dogmatizados pontos estratégicos da História Mundial, é prática já amplamente denunciada e com validade em vias de exaurimento.

Não deixa de ser curioso que o adepto de uma ideologia dogmática e que, uma vez no poder, exerceu indiscriminada repressão contra outras correntes de pensamento, venha a censurar a “supressão do espírito crítico”. Mais curioso é que ele fale em coisas feitas em nome da pacificação, se os nazistas provocaram a maior guerra da História. É mais curioso ainda é que um neonazista recrimine o suposto “dogmatismo” de outrem. Mas não devemos temer, afinal, como todo messianismo, o negacionismo afirma que este sistema de coisas está em vias de terminar pois Jesus vem logo, digo, o Nacional-Socialismo ressurgirá para nos libertar (desde é claro que sejamos brancos, de olhos azuis e sobrenomes germânicos, de outra forma seremos escravizados).

Originalmente publicado no Igreja Orkutista da Salvação.

Este debate causou a minha expulsão de uma comunidade de História no Orkut.