domingo, 13 de dezembro de 2009

Porque os Religiosos Precisam de Hitler

Sempre me perguntei por que razão os religiosos precisam insistir em “acusar” Adolf Hitler de ateu. Parece haver uma profunda necessidade, em pelo menos boa parte dos apologistas cristãos, de afastar o “coisa-ruim” austríaco das fileiras do cristianismo e associá-lo, a todo custo, ao ateísmo em particular (não serve nem mesmo o paganismo, tem que ser ateísmo).

Os motivos disso são estranhos. Afinal, há ateus definitivamente tão “coisa-ruim” quanto o ditador nazista que poderiam ser usados para difamar a causa. A lista é longa: Mao Tse-Tung, Josef Stalin, Lênin, Pol Pot… Cada um deles protagonizou crimes tão ou mais hediondos (pelo menos proporcionalmente) do que Hitler. Sobre as costas de Mao pesam pelo menos 60 milhões de mortes em uma grande epidemia de fome causada por seu programa de reforma agrária súbita — sem falar nos que morreram durante a guerra civil e nos que mandou matar durante a Revolução Cultural. Stálin foi responsável por expurgos violentos de todo tipo de gente de que suspeitasse de algo menos que 100% de fidelidade — e também esteve envolvido em mortes de fome por equívocos de uma política agrária anti-científica (lysenkoísmo). Que dizer de Pol Pot, que matou 40% da população de seu país em nome de um socialismo puro?

Esses ditadores, porém, não são tão facilmente lembrados como “paradigmas do ateu comedor de criancinha”. Acredito que as razões disso passam por três níveis.

Em primeiro lugar, ele é um arquétipo do mal. Nenhum ditador na História foi tão odiado. Na URSS há quem fale bem de Stálin (e não poucos). Mas somente loucos falam bem de Hitler na Alemanha (mesmo porque é crime elogiar Adolfinho na terra do chucrute, mas é permitido elogiar Zezé na terra da vodca). Há um consenso cultural no sentido de que Hitler representa tudo aquilo que o Ocidente rejeitou: tirania política, terror estatal, racismo, massacre de minorias, imperialismo, entronização da pseudociência, etc.

Além disso, para coroar sua “gloria imorredoura”, era um homem de sexualidade dúbia; havendo relatos que variam entre impotência, doenças sexualmente transmissíveis e pelo menos a suspeita de um caso incestuoso (com sua prima). Há indícios fortes de que sua união com Eva Braun não teria sido jamais consumada e nunca ninguém afirmou ser seu filho ou filha (e todos sabem que ser filho de gente famosa dá ibope). Por fim, o austríaco ainda sofria de problemas mentais não identificados (opiniões variam entre epilepsia desenvolvida após ferimentos na cabeça recebidos na I Guerra, esquizofrenia paranoide, sociopatia e sequelas de sífilis). Como sabemos, os cristãos mais fanáticos acreditam que a homossexualidade é coisa do diabo, então é altamente importante que as pessoas que pertençam ao diabo sejam igualmente homossexuais ou, pelo menos, que sejam incapazes de gerar vida (pois infestar o mundo de crias é o que o fundamentalismo religioso acha mais importante).

Bicha (ou broxa), louco e assassino em uma escala inaudita. Eis o pacote completo do que deveria ser o “ateu exemplar” (os cristãos fundamentalistas, de forma geral, acham que todo ateu é um louco assassino em potencial e que também dá ré no quibe).

Hitler é a Geni da História: atribuem-lhe tudo de ruim. Fazem dele o parâmetro do intolerável. Usam seu nome como “abracadabra” para em debates simbolizar o anátema. É uma das poucas pessoas na História a ter nomeado uma falácia, o “Argumentum ad Hitlerum”, que consiste em inserir indevidamente em um debate uma comparação com o nazismo a fim de sugerir que determinada posição é “ruim”.

O segundo ponto é o raciocínio cristão segundo o qual a fé torna as pessoas melhores e (inversamente, como é lógico) a falta de fé as torna piores. Desta forma, “ser cristão” implica em tornar-se bom e “ser ateu” implica em tornar-se ruim. Se alguém se diz cristão e é “mau”, então não é verdadeiramente um cristão, mas alguém que apenas se diz cristão. Se alguém se diz ateu e é “bom”, então ou não é de fato ateu ou não é de fato bom. A implicação disso é que toda pessoa que cometa atos obviamente maus será acusada de “no fundo” ser ateísta. Isso vale até para líderes religiosos como Jim Jones.e o Bispo Edir Macedo (que é acusado por certos fundamentalistas de não ser verdadeiramente cristão devido às suas doutrinas controversas).

Nada disso é novo: há séculos e séculos os cristãos praticam a máxima de Jesus, segundo a qual “quem não está comigo está contra mim”. Seguem também rejeitando as maçãs podres de uma forma singular: em vez de apenas admitir que são maçãs podres, os fundamentalistas mais aguerridos querem nos convencer de que só apodreceram porque são, na verdade, abacaxis e que as verdadeiras maçãs não apodrecem. O raciocínio cristão julga os frutos pela árvore e não a árvore pelos frutos. Esquecem que Jesus disse que se Deus precisasse de “filhos de Abraão” poderia criá-los até a partir das pedras de Jerusalém.

A implicação óbvia deste raciocínio é que Hitler NÃO PODE, de forma alguma, ser cristão. Seria um desastre para a doutrina cristã fundamentalista se ele fosse cristão, ao mesmo tempo em que seria extremamente conveniente que fosse ateu — dessa combinação de fatores produz-se um milagre argumentativo “toma que o filho é teu” e começam a buscar por quaisquer meios “provar” que Hitler seria qualquer outra coisa, menos cristão — de preferência ateu.

As opiniões variam. Os cristãos mais toscos dirão que Hitler era ateu, mesmo ao custo de ignorar uma quantidade inumerável de fontes que mostram-no usando a religião em seu favor, punindo ateus, construindo igrejas, assinando acordos com o Vaticano, tentando estabelecer uma religião de Estado, etc. Os mais moderados e educados dirão que ele seguia uma forma peculiar de “paganismo nórdico” ou de “cristianismo herético”. Em essência ambas as posições estão incorretas tecnicamente, mas a segunda ainda tem o benefício da dúvida porque é possível interpretar a doutrina religiosa do Reich como uma heresia cristã.

O terceiro ponto é que, por corolário do “Ad Hitlerum”, todas as coisas relacionadas a Hitler são imediatamente julgadas como ateístas e más. Mesmo uma besta como Hitler, no entanto, teve a competência de não passar pelo mundo sem cometer alguns acertos. Mas a lógica maniqueista do cristianismo fundamentalista julga os frutos pela árvore, e não a árvore pelos frutos. Em vez de admitir pontos positivos no governo de Hitler (houve alguns) eles preferem condenar em bloco tudo que ele fez e classificar como “nazista” qualquer política que coincida com algo que Hitler fez em vida.

Mesmo esse argumento, porém, é usado de forma deliberadamente desonesta (não existem cristãos fundamentalistas honestos, ao que parece). Digo isso porque os fundamentalistas condenam como “nazistas” campanhas antitabagistas, defesa do meio ambiente, controle de armas civis, polícia de quarteirão, leis escritas etc. mas não estendem o mesmo opróbrio à política natalista do Reich ou sua aversão ao aborto e à anticoncepção (uma vez mais: o cristão fundamentalista parece achar a procriação sem limites um supremo ato de piedade).