quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Revolution Pro, for Windows, Home Edition

Está na moda ser radical. Está na moda ter sonhos políticos loucos. Julian Assange é o profeta de uma geração que sabe exatamente o que fazer, e não está disposta a ser contradita.

O problema que vitima a Revolução é o inchaço. Um movimento não deve nunca crescer rápido demais. Idealmente cada novo membro só deve ser aceito depois de ser conhecido de todos os demais. Ou pelo menos por todos de sua unidade local. Quando um movimento cresce demais ele se enche de todo tipo de inúteis. Os inúteis gostam de parecer úteis e o seu modo de fazer isso é através do sufocamento da minoria que realmente importa. Inúteis adoram a democracia, detestam o mérito. Inúteis só são capazes de seguir os mortos, os presos, os distantes.

Inúteis detestam ideias práticas. Mas adoram sonhos loucos. É mais fácil conseguir voluntários para os imensos sacrifícios que nunca serão feitos do que para a longa série de pequenas tarefas que precisamos começar hoje.

Enquanto isso os idealistas. Como há idealistas nesse mundo. Aderem a todos os ideais com incrível facilidade. Aderem com fidelidade. Os idealistas não tem projetos, têm fé em seus ídolos e ideais. Em nome deles estão dispostos a fazer o que já estavam fazendo antes, mas nada novo.

A Revolução precisa ter uma versão for Windows, de preferência uma que tenha uma interface colorida, com temas, e acionada por botões com ícones lindos. Lutar por seus ideais é deixar um programa rodando em segundo plano e deus nos livre de ir para a rua protestar. Isso é coisa de boiola ou de maluco noiado que gosta de apanhar da polícia. Então vamos tentar derrubar um site usando nossos trinta notebooks acessando via linha discada. Isso é mais efetivo do que tentar fazer uma pequena parte na luta contra o monopólio digital.

Muita gente tem coragem de dizer, mas na hora em que mencionam que os IPs são logados, todo mundo enfia o cu na mão e some. Muita gente tem coragem de reclamar, mas foi só propor uma mudança de paradigma no uso do computador e apareceram setenta justificativas para mudar o mundo usando Windows, porque a mudança, a revolução, bem ela não precisa ameaçar nada do que já temos e já sabemos, não é mesmo?

Tem criança demais na Revolução, diluindo as ideias e os projetos. Tem gente ignorante demais. Gente que não sabe nem o que é História mas vem com suas pseudo teorias sobre o Estado e com diferentes propostas para qualquer coisa. Gente que nem sabe o que é um IP e quer fazer DDoS. Ninguém tem projeto, ninguém tem plano. E se você lhes sugere algo factível... ah, isso aí é irrelevante. Relevante é derrubar a lua para cortar e fazer fondue... Usando linha de pipa, é claro.

Ainda bem que Julian Assange não depende dos «ráqueres» brasileiros para lutar por si, ou estava frito. Hoje abandono a comunidade do WikiLeaks, para caçar coisa mais útil para fazer.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vai Começar... o Estupidification...

Há algumas semanas divulgou-se uma estarrecedora pesquisa segundo a qual aproximadamente 80% dos estudantes brasileiros, ao término do primeiro grau, ainda não haviam adquirido plena competência da leitura; número que não era significativamente reduzido ao fim do segundo grau (porque, obviamente, não há espaço na escola secundária para trabalhar a alfabetização), e que ainda tinha impacto nos cursos universitários. Nada menos que 5% dos formandos em cursos superiores seriam analfabetos funcionais (e uma boa outra quantidade seria incompletamente alfabetizada).

Pois bem, há alguns dias, em São Paulo, uma garotinha de doze anos morreu, em um hospital de relativo renome, porque a enfermeira lhe injetou vaselina líquida em vez de soro fisiológico.

Você consegue ver a relação entre estas duas coisas? Não? Vou tentar explicar.

Se temos uma proporção tão grande de analfabetos funcionais ao término do curso superior, se temos tantas pessoas que, mesmo alfabetizadas, ainda não têm domínio pleno da leitura, é evidente que uma boa quantidade dos profissionais que estão sendo formados neste país tem dificuldade para ler e compreender instruções, rótulos, alertas, receitas etc.

Isto quer dizer que temos médicos que desconhecem sintomas porque não leem os laudos até o fim, que temos engenheiros que calculam errado porque não entendem as especificações, que temos professores que não conseguem ensinar bem porque ainda não dominam a matéria que deviam ensinar, que temos enfermeiras que podem matar crianças de doze anos porque não leem rótulos e receitas.

Uma característica do analfabeto funcional, e também dos que, mesmo alfabetizados, têm ainda dificuldade de leitura, é a preguiça de ler. Quem não é plenamente alfabetizado procura evitar ler porque ler lhes é penoso. Quando veem um texto longo como esse, desanimam de ler e reclamam de quem escreve. Quando veem letrinhas miúdas…

O que estou querendo dizer é que a ineficiência de nosso sistema educacional está produzindo uma geração de profissionais relapsos e incompetentes, profissionais que cada vez mais cometerão erros idiotas porque não querem ler, porque leem e não entendem ou porque as instruções, escritas por outros incompetentes, não são claras. A longo prazo esta incompetência generalizada vai matar cada vez mais gente. Enfermeiras que injetarão remédio errado, médicos que vão operar a pessoa errada, engenheiros que vão calcular errado, mecânicos que não vão saber consertar direito os novos modelos, com suas estruturas complexas etc.

Se você acha que estou inventando estes números, vamos a alguns links:

Mas o que mais me espanta é, diante de tais números absurdos, a presidente eleita ter dito que «a educação no Brasil já está encaminhada». Bem, encaminhada ela está. Apenas eu e a presidente divergimos para onde.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Não, eu não vou falar de Assange

Só sei que nada sei, porque não se acha mais quem sabia.— Juca Chaves

Eu prometo que não vou falar nada em apoio ou em crítica ao Julian Assange. Silenciarei minha opinião sobre ele e seus atos com todo o cuidado que possa ter. Digo isso porque já há gente demais falando sobre isso e temo que em alguns casos elas não possam ser encontradas para esclarecer o que já disseram.

Só posso dizer que há alguns meses, numa conversa informal com amigos, discutíamos, à luz da controvérsia entre o Google e o governo da China continental (aquela que um dia chamávamos de «comunista»), como poderia ser um mundo em que aquele país seria hegemônico, em vez dos EUA. Acredito que não precisamos mais ficar na total ignorância: sob muitos aspectos, esse mudo seria assim.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tropa de Elite: A Mitificação como Arma de Guerra

Durante décadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tráfico no Rio de Janeiro, à sombra de um coquetel de incompetência, indiferença e conveniência. Causas que me esquivo de analisar a fundo, mas que os cariocas certamente entendem bem melhor do que eu, que olho de fora e com apenas solidariedade. A derrocada deste poder paraestatal que pareceu, em certo momento, triunfar sobre o Estado — sentimento magistralmente expresso pelo gaiato que certa vez declarou que «o crime organizado triunfa sobre o governo desorganizado» — deu-se no entanto, na esteira de um curioso fenômeno sociológico que quase ninguém ainda percebeu. Do que estou falando? Bem, «tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você».

Tudo começou quando o crime organizado rompeu o acordo tácito que sempre teve com a imprensa sensacionalista: «nós fazemos a notícia, vocês fazem o noticiário». A morte de Tim Lopes sinalizou que os líderes do narcoestado em gestação haviam começado a perceber na imprensa uma fonte de problemas, não mais uma aliada. Se antes os repórteres construíam as reputações de «malvadões» — de que tanto gostavam os jovens semianalfabetos e descalços que se alçavam ao poder propelidos pelo vício das classes superiores — agora ela passava a incomodar, à medida em que expunha os excessos a que os baronetes do tóxico haviam chegado, em sua ditadura sobre as vidas dos habitantes das localidades onde haviam se instalado. Tim Lopes morreu para mostrar que a favela não era um lugar pitoresco — ao contrário do que décadas de políticos conciliadores e ONGs escorregadias tentaram fazer ver.

Mais importante do que tudo: Tim Lopes era empregado de um Leviatã midiático bem musculoso, embora ferido, as Organizações Globo. Sua morte coincidiu com a derrocada definitiva da televisão aberta no Brasil, destinada desde já a transformar-se cada vez mais num monturo fétido de sobras. A Rede Globo de Televisão, cabeça deste império, precisava buscar outras frentes de expansão para precaver-se contra a iminente e inevitável decadência de suas receitas de publicidade oriundas deste veículo. Neste contexto, a exploração de novos mercados midiáticos já era uma realidade, mas faltava à Globo obter o impacto necessário para fincar bandeira.

Ao mesmo tempo, a política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro dava sinais de agonizar: nada parecia funcionar, nada parecia adiantar. Nesse cenário de desespero, em que todos pareciam desorientados, especialmente os pobres diabos que conviviam com loucos toxicômanos tarados armados de AR-15 na vizinhança, era absolutamente imperioso encontrar um herói. Melhor ainda se este herói, bem na tradição do herói brasileiro, não fosse um self-made man ou um cavaleiro solitário, mas um líder — algo de que tanto carece esse país.

Com a colaboração dos melhores cérebros que o dinheiro pode contratar, com atores globais em profusão, aproveitados da geladeira obrigatória por que passam para evitar desgaste de imagem, eis que surge «Tropa de Elite», o filme que transforma o antes pouco conhecido Batalhão de Operações Especiais da polícia fluminense em um fenômeno de mídia inusitado e inédito. «Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você». A mensagem é dirigida ao traficante, e tem a intenção de profecia: um dia a casa vai cair e vai ser o caveira que vai dizer «perdeu, playboy» para o traficante descalço e sem camisa, cuja prisão emblemática funciona quase como símbolo heráldico da luta de classes, como expressão caricatural da subjugação do povo pela elite, quando incomodada.

Criado o mito do BOPE como reserva incorruptível dos valores da «boa polícia» e fixada a imagem do Capitão Nascimento como verdadeiro super-herói brasileiro, a Rede Globo entregou, de bandeja, nas mãos de um dos poucos governadores competentes que o Rio de Janeiro já teve desde que me entendo por gente, um cartucho de legitimidade para as forças da ordem, uma potência que poderia ser usada para terraplenar o crime organizado sem necessidade de ser politicamente correto. O povo carioca queria sangue, estava cansado de dar o próprio sangue e exigia o sangue dos bandidos (mas urina nas calças também serviria).

Não é necessário entrar nos detalhes de cada ato ou de cada política que foi levada a efeito no Rio de Janeiro desde que o primeiro Tropa de Elite invadiu a cultura de massas com sua mensagem clara de que, para o carioca e para o brasileiro, já bastava, já havia bastado há muito tempo, já havia bastado há muito tempo mesmo, só faltava os políticos, esses eternos maridos traídos, finalmente conseguirem enxergar, antes que dessem com a verdade como quem dá com o nariz na parede. O plano para matar Brizola, que aparece nessa história, não é detalhe desimportante: ele significa que é necessário matar o legado do caudilho gaúcho que introduziu a política de tolerância com a favela.

Quando Tropa de Elite saiu, alguns articulistas ventilaram na imprensa que o filme tinha uma mensagem fascista. Possivelmente. Mas poucos articulistas ventilaram que o crime organizado que se estabelecia em pseudoestado impunha, também, um totalitarismo manco.

Por isso Tropa de Elite 2 foi além do livro e colocou o Capitão Nascimento, já grisalho, tentando executar, através da política, o que não pudera executar com um fuzil na mão. Mas o poder do crime subornava deputados, juízes e sabe deus quem mais. Com o sucesso ainda maior, do segundo filme, ficou bem claro que todos que ventilassem qualquer coisa contra a arremetida inevitável contra o crime só poderiam estar mancomunados. Todos precisavam aplaudir, mesmo que tivessem as mãos sujas de sangue e o nariz entupido de cocaína.

Então, quando enfim, com apoio de blindados e bazucas, de marinha e de exército e de aeronáutica, o BOPE subiu a favela deixando atrás de si as crianças (em sua inocência) cantando o poderoso refrão, não foi inesperado que os «machos» do crime mijassem nas calças. Imaginar que dois mil homens treinados para matar estão subindo o morro atrás de você e que cada vizinho ou conhecido, de oito a oitenta anos, está com o dedo pronto para apontar seu esconderijo deve ser uma das coisas mais desesperadoras que se possa conceber. Tanto assim que o líder do Afro-Reggae chegou a declarar à imprensa que muitos chefões do tráfico estariam dispostos a render-se, que sabiam que pegariam «cana longa», alguns sabiam que até seriam mortos, mas eles pediam apenas que não fossem humilhados. Os facínoras se renderiam, até se entregariam à morte, diante de apenas a promessa de uma réstia de dignidade. Nenhum queria terminar como o Zeu, descalço e seminu, com as calças molhadas da própria urina e um olhar perdido, endurecido de medo, levado morro abaixo por um PM grisalho que tinha idade para ser seu pai. Em algum momento aquele jovem deve ter pensado na figura do próprio progenitor, de cita à mão, pronto para marcar suas nádegas de rebelde.

E assim a Rede Globo inspirou, guiu e cobriu um episódio quase orwelliano. Em que pese a necessidade de se destruir o crime, de se pacificar a cidade, de se destronar a ditadura do tóxico; é também verdade que esta destruição foi mais em efígie do que em fato, que ela foi preparada como espetáculo politicamente correto e funciona como exemplo do poder que Rede Globo ainda tem, apesar do sonho fútil de grandeza a que a Record aspira apenas. A Globo mostrou que tem o poder de produzir mais do que bordões de novela: ela produziu um mito que funcionou como instrumento de um fato histórico. Algum dia os historiadores se referirão a este ano de 2010 como o ano no qual um império midiático, ofendido em sua honra pela ousadia de matarem um protegido seu, orquestrou fria e meticulosamente, um fenômeno de massas de grande envergadura que terminou em uma cobertura jornalística de um fato real (embora transcrito da ficção).

E ficou o bordão, como um mantra a ameaçar doravante os que ousarem tentar criar outro pseudoestado ou que se opuserem à clara hegemonia cultural de que se fala: «Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.»

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cartão de Natal Comunista - Revisto e Melhorado

Depois do sucesso do «Cartão de Natal Comunista» no ano passado, resolvi dar uma «guaribada» no desenho (que tinha ficado bem chinfrim por causa da fonte Computer Modern Roman e da falta de suavização). A imagem é a mesma, os dizeres foram abreviados e a fonte trocada para Univers Condensed.

Se quiser reaproveitar a imagem em seu blogue, use este link.

P.S. - O cartão de natal comunista é uma homenagem aos colegas do curso de História da FAFIC, especialmente à turma de «melancias».

P.P.S. - O cartão é meu jeito de dizer até logo. Este blog estará de férias até o ano novo. Mas não fiquem tristes, tem muita coisa boa para ler no arquivo.

P.P.P.S. - Eu não sou comunista. Isto é apenas uma piada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MEC Fornece Pornografia às Escolas

Os pedagogos do MEC, responsáveis pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (esta peça de humor pastelão que rebatizou o ensino de português como «Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias») acharam que não seria apropriado que a obra «Caçadas de Pedrinho», de Monteiro Lobato, um clássico de nossa literatura, fosse distribuída às bibliotecas de nossas escolas públicas, afinal existem nela resíduos de racismo que podem traumatizar as crianças negras ou tornar em potenciais hitlers todas as demais.

No entanto, segundo tive o desprazer de ver hoje no telejornal matutino da Rede Record, o critério para considerar impróprio o livro de Lobato parece muito mais vago do que inicialmente parecia — e ele já parecia muito vago.

O caso é que ao mesmo tempo em que pretendeu censurar um clássico da literatura por conter trechos potencialmente racistas, o MEC não viu problema algum em distribuir a mais de quarenta mil escolas do Brasil a tradução portuguesa de um mangá de Kazuichi Hanawa intitulado «Na Prisão».

A escolha do tema já é, por si só, preocupante. Em vez de pretender ensinar conteúdos positivos para os jovens, o MEC achou que seria interessante que eles aprendessem sobre como é a vida em uma prisão japonesa. Mas me abstenho de imaginar razões para a escolha do tema e me restrinjo a tentar compreender como ou porque esta obra em especial foi aceita.

Porque Kazuichi Hanawa não a escreveu para crianças em idade escolar — e sim para adultos. No Japão o consumo de mangá e animê pelos adultos é pelo menos tão grande quanto para crianças. A temática da obra em questão não é nada «infantil»: trata-se do retrato da cruel rotina de uma prisão, na qual o protagonista encontra todo tipo de gente e ouve todo tipo de histórias — inclusive histórias que envolvem crimes sexuais (hetero e homo), uso de drogas (até injetáveis), tortura (física e mental), nudez representação gráfica de órgãos e atos sexuais (como estupro, masturbação e outras coisas).

Ressalva: como não li a obra, estou deduzindo tudo isto a partir das imagens que foram exibidas pelo telejornal e pelas descrições da obra que encontro na Internet. Mas adoraria que quem tenha lido me envie mais detalhes.

Tudo isso pode ser aceitável (e o é) numa obra voltada para um público adulto, devidamente distribuída de forma discreta e contendo na capa alerta sobre o conteúdo inapropriado. Mas como algum pedagogo resolveu achar que uma obra de conteúdo tão pesado seria apropriada para crianças que já enfrentam tanto conteúdo impróprio no mundo?

Eu ainda achava tolerável quando a obra do MEC era caracterizada apenas pela incompetência (que tantas vezes levou este órgãos a escolher os piores livros didáticos possíveis) e pelo descaso (expresso no sorridente diagnóstico de que «a educação neste país já está bem encaminhada»); mas agora tudo tomou proporções totalmente diferentes: já não se trata apenas de incompetência e de descaso, deve haver alguém deliberadamente sabotando a educação no Brasil — ou então a corrupção e a inépcia dos funcionários do MEC atingiu níveis nos quais já não seriam capazes de diferenciar entre a própria bunda e uma melancia.

Referências:

  1. Link para a reportagem no portal R7: http://noticias.r7.com/videos/escola-estadual-de-porto-alegre-rs-disponibiliza-livro-improprio-para-criancas/idmedia/9c6ccd8b5bc9f7354564c68bfd6c24f7.html
  2. Prova de que o livro foi distribuído pelo MEC: http://www.fomezero.gov.br/noticias/escolas-publicas-recebem-historias-em-quadrinhos
Agradeço quem puder contribuir scans das páginas desta história, ESPECIALMENTE scans da edição distribuída pelo MEC, que contém o selo do PNBE na capa.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em Defesa de Mayara

Mayara vocês sabem quem é. Não preciso dizer e nem ousaria. Ocuparia muito espaço com um assunto que me enjoa e enoja.

Mas, tendo dito que o assunto me enjoa e enoja, creio que já posso ir além do que todos dizem e tentar dizer algo diferente. Esta história já passou do ponto e está mais do que na hora de deixar a garota em paz!

Claro que ela disse uma coisa terrível, claro que ela cometeu uma ofensa fenomenal e certamente as consequências lhe ensinaram uma preciosa lição: a necessidade de ser comedido no que diz, seja lá o que for que diga, mas especialmente se for para dizer uma besteira. Besteiras menores geram menores consequências. Se você vai falar merda, tente que seja pouca.

Acontece que o caso já repercutiu demais. A menina está se sentindo acuada em casa, a ponto de nem poder sair na rua. Isto por ter dito algo que é meramente um crime de opinião. Por favor, pessoas aí que me leiam. Ela não matou nem estuprou ninguém, apenas disse algo que não devia ter dito.

Que a processem, que a façam pagar multa, que a façam alcançar a compreensão de seu erro de alguma forma, mas vamos parar de linchamento moral.

O que está sendo feito com ela já passou a ser calhordice. Ninguém é tão bonzinho assim, ninguém é tão isento de preconceitos, ninguém é tão perfeito a ponto de poder se julgar tão melhor do que Mayara. O que está acontecendo com ela é uma catarse, só isso. Pessoas que também são preconceituosas mas não têm coragem de declarar-se escolheram essa menina para bode expiatório. Nesse imenso e preconceituoso país há muitos que acham mais fácil participar da malhação de um judas que personifica o próprio lado escuro do que remover de si a mancha do erro e do preconceito.

Mayara é uma boba, pode até ser uma criminosa, mas as consequências que está enfrentando já vão além da medida, já se tornaram injustas pelo excesso. O excesso em resposta a um erro não contribui para nada de positivo: Mayara não está aprendendo a reconhecer o seu erro, mas apenas que a opinião da maioria é capaz de oprimir e de fazer sofrer quando você diz algo que não agrada ao grande público. Esta é a lição errada: não é isso que devíamos ensinar.

Mayara precisa de aprender a ver o mundo com olhos menos agressivos e menos egoístas. Mas quando o mundo a olha de forma agressiva e calhorda, transferindo para ela a culpa coletiva de uma sociedade na qual tantas formas de preconceito ainda coexistem, o que estará aprendendo?

Eu não concordo com o que ela disse. Mas nesse momento eu já acho que devo me solidarizar com ela. Porque ela já se tornou a oprimida nesta história.

domingo, 7 de novembro de 2010

Sovietização da Política Nacional

Peço licença aos leitores do blog para compartilhar uma análise política polêmica. Neste exato momento estou tranquilo aqui em casa, resolvi cumprir uma promessa feita no Orkut, em um outro tópico, ocasião em que mencionei a suposta “sovietização” da política nacional, que parece que alguns querem implementar. Acredito que quase ninguém estava pensando em me cobrar a promessa, mas também creio que alguns poderão gostar de ler. Porém, para começar é preciso esclarecer três coisas:
  1. Em primeiro lugar, sou e sempre fui contrário às oligarquias e ao conservadorismo. Sempre fui de “esquerda”, por assim dizer. O que é mais recente em mim é o marxismo, com que só tive real contato na faculdade de História, quando já era adulto. Antes disso eu não sabia o que era exatamente marxismo porque, não custa lembrar, cresci na ditadura militar, convivendo com censura dos meios de comunicação e da escola. Quando cheguei à faculdade, em 1993, após um breve período de alienação (1990-1992) durante o qual nada estudei, foi que eu tive a oportunidade de expandir meus horizontes e compreender quem era Marx e o que ele representava.

  2. Ainda hoje, apesar de compreender os erros e excessos do comunismo, eu ainda me intitulo marxista, muito embora um marxista “cor-de-rosa”, e não “vermelho vivo”. Em suma: me identifico com a social-democracia e não com o bolchevismo.

  3. Votei em Mário Covas e Fernando Collor de Mello em 1989, Fernando Henrique Cardoso em 1994, Ciro Gomes em 1998 e 2002, Heloísa Helena e Lula em 2006 e Marina Silva e Dilma Rousseff em 2010.


Tendo esclarecido isto, creio que fica mais fácil entenderem sob que ângulo vou apresentar meus argumentos, sem risco de me tacharem de vendido.

Pouca gente sabe, mas a palavra “soviete” (russo: Совет) significa “sindicato” ou, pelo menos, um tipo de sindicato. Quando falamos de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estamos falando da união das entidades políticas organizadas através de sindicatos. Em suma: um estado corporativo, no qual todos estão arregimentados.

Isto porque na fraseologia comunista há palavras que mudam de sentido para expressar coisas que não são exatamente iguais às que estamos acostumados. Em outros casos, palavras são importadas da língua-mãe do comunismo, o russo, para expressar certos conceitos. Tal é o caso de “soviete”, “bolchevismo”, “gulag”, “kulak”, “kolkhoz”, “kombinat” etc.

Uma “república soviética” na terminologia comunista não é um país republicano, mas um país que supostamente teria optado por aderir ao Estado soviético. Desta forma, a manutenção do domínio sob os territórios anteriormente pertencentes ao Império Russo é apresentada como um processo voluntário por parte das “repúblicas” da Ucrânia, da Bielorrússia, da Transcaucásia, do Turquestão etc. O fato de estas repúblicas terem tido suas fronteiras modificadas ao bel-prazer de Moscou explica qual era realmente a relação de poder nesse caso.

O fato de somente a Iugoslávia ter usado a terminologia, além da U.R.S.S. indica o que isto significa: para os soviéticos, os demais estados da Europa Oriental estavam no mesmo nível hierárquico que as divisões subnacionais da U.R.S.S. A diferença é que os estados da Europa Oriental não eram “soviéticos”, ou seja, eles não tinham conseguido organizar-se “de baixo para cima” a partir da arregimentação do povo a fim de aderir ao projeto de poder moscovita. Por isso em vez de “república socialista soviética” estes países usavam denominações como república “popular” (Albânia, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia), “democrática” (Alemanha Oriental) ou “socialista” (Tcheco-Eslováquia, Iugoslávia), ou combinações desses termos. Os sovietes, portanto, são uma forma de organização do Estado socialista “de baixo para cima”. Anotaram?

Sovietização é o processo pelo qual a sociedade é gradualmente arregimentada ou sindicalizada através de corporações (os “sovietes”) que podem reunir as pessoas segundo suas profissões, local de trabalho, residência, grupo étnico ou atividades afins.

A diferença básica entre um sindicato como os que existem nas democracias e os sovietes da Revolução Russa é que os sindicatos existem para obter conquistas para os associados, mas os sovietes existem para executar o projeto de poder do partido que os orienta. Depois do estabelecimento do Estado socialista os sovietes se convertem em ferramentas de controle social, passando a funcionar como executores das determinações emanadas da “inteliguêntsia” e também para dar a chancela de “aprovação popular” às decisões do Partido — tal como nas cômicas votações do Soviete Supremo da U.R.S.S., com todos os deputados erguendo suas cadernetas de filiação ao P.C.U.S. (lê-se “pécus”) após cada proposição ser lida pelo Secretário-Geral do Presidium.

Parece ruim? Bem, para muita gente da esquerda nacional esse jeito de se fazer política é o último estágio antes do paraíso terrestre, a sociedade comunista.

O que estou querendo dizer aqui é que existem pessoas atualmente trabalhando pela “Revolução” no país usando como ferramenta um processo de sovietização. Ou seja: querem criar e empoderar em nosso país estruturas semelhantes aos sovietes que se desenvolveram na Rússia pré-revolucionária e que deram amparo ao golpe de estado liderado por Lênin em Novembro de 1917. Não seria errado chamar estes setores de nossa política de “bolchevistas”.

No contexto da Revolução de 1917, os bolchevistas (ou “bolcheviques”, como preferem os mais fieis à morfologia russa) queriam impor a vontade da maioria dos militantes do partido (Partido Operário Social-Democrata Russo). Os menchevistas (ou “mencheviques”) queriam fazer reformas no âmbito de um governo constitucional, respeitando a vontade da maioria dos eleitores.

Os menchevistas foram inicialmente bem-sucedidos e conseguiram formar um governo de coalizão (o gabinete de Kerenski) enquanto os bolchevistas resolveram partir para a luta armada, arregimentando os setores mais radicais da sociedade, que atuavam nos sovietes (sindicatos). Quando, no auge da crise 1917, Lênin bradou “Todo o Poder aos Sovietes” o que ele queria era esvaziar a democracia representativa, cuja expressão institucional era a Duma (Parlamento), e transferir o processo político para a “democracia direta” representada pelos sovietes.

Parece bonito na teoria, visto que a democracia representativa tem os seus defeitos e democracia direta é algo que soa como música nos ouvidos dos anarquistas. Mas anarquia é apenas uma bela utopia.

Os sovietes não eram a representação perfeita da sociedade (talvez menos que a Duma, apesar desta estar cheia de oligarcas, líderes industriais e burgueses e representantes da religião oficial). Acontecia de certos grupos não estarem representados em sovietes (os profissionais liberais, a elite, certos grupos étnicos, os camponeses etc.) e de outros serem representados mais de uma vez (os trabalhadores da siderúrgia X poderiam, por exemplo, estar representados tanto no soviete da Siderúrgica X, se ela fosse grande o suficiente para merecer soviete próprio, e no soviete dos siderúrgicos). Então a representatividade dos sovietes era predominantemente urbana, operária e minoritária. Só que isso não importava para o objetivo de Lênin, que era fazer barulho nas cidades a fim de derrubar o governo Kerenski e partir para a radicalização da “revolução”. Um dos grandes mitos do socialismo é que a revolução russa representou uma linda e espontânea “união” dos trabalhadores rurais e urbanos (representada pelo emblema da foice e pelo martelo). Os trabalhadores rurais estavam alijados do processo e só passaram para o lado dos bolchevistas depois que estes, devidamente agarrados ao poder, fizeram a célebre promessa (“Paz, Terra e Pão”).

Há várias circunstâncias nas quais o governo propõe debates com a “sociedade civil”, mas fica claro que o que assim se chama no jargão petista não é a sociedade como um todo, mas os seus grupos de pressão visíveis. Quando o governo propõe o “controle social da mídia” — por exemplo — este será exercido através de uma entidade que terá representantes do próprio governo e de mulheres, negros, minorias étnicas, homossexuais, sindicatos etc. Nota-se que grupos minoritários ou marginalizados estão representados com direito a voto, sem atentar para a representatividade global da sociedade. Por outro lado, o Parlamento eleito pelo conjunto do povo não é ouvido. O critério de indicação destes “representantes da sociedade” claramente não é de representatividade, mas apenas o de arregimentação dos grupos de pressão ruidosos. Tal como Lênin fez em 1917.

É claro que nosso “parlamento” é “para lamento”, por causa dos vários vícios que ele contém, devidos ao processo eleitoral e a uma série de outras coisas, tal como a Duma russa de 1917. Então, um parlamento deslegitimado, integrado por caciques políticos desconectados da vontade popular, se torna bode expiatório para o bolchevismo verde-amarelo transferir o poder aos nossos embrionários sovietes. Se têm dúvida do caminho, é só ver como Hugo Chávez pôde reformar o Parlamento venezuelano até torná-lo uma espécie de Soviete Supremo da República Bolivariana da Venezuela.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nós, os Botocudos

Aprender coisas novas nos faz pessoas melhores, tal é o princípio básico que justifica que tanto seja investido, pelos nossos governos ou por nossas famílias, para que frequentemos escolas e adquiramos diplomas. Muitas vezes, o que é aprendido na «vida estudantil» não tem importância imediata; outras vezes, perturba o equilíbrio do aluno com a comunidade em que ele vive; outras, por fim, ele afeta o equilíbrio do próprio aluno, hipertrofiando certas áreas de sua personalidade enquanto reprime outras. Por esta razão, existe uma simbologia explícita na escolha do currículo pelo Estado e a definição de prioridades pela família ou pelo aluno: a determinação de ensinar isto, mas não aquilo é tão ideológica quanto a decisão de estudar com afinco uma matéria, mas não outras. Em ambos os casos, os valores envolvidos ficam razoavelmente transparentes.

Em nosso país dá-se uma importância enorme ao ensino de matemática e de português. Durante boa parte da «vida estudantil» somos bombardeados com cinco aulas de cada durante a semana, dez dos vinte e cinco horários disponíveis (incluindo os horários que ficam inexplicavelmente vagos) são ocupados por estas matérias, cinco aulas para cada uma. Esta ênfase pode não ser suficiente para evitar que a maioria de nossos estudantes (três quartos, na verdade) saia da escola com sérias dificuldades para entender textos simples, como vemos nesta reportagem da Folha de São Paulo ou neste estudo da UBE, mas é suficiente para inculcar nos alunos que português e matemática são matérias importantes e que história, geografia, literatura, ciências etc. não são.

Mas tudo se torna ainda mais difícil quando se adiciona a questão do bilingualismo ao complexo problema da incompetência generalizada da escola brasileira (sim, não existe palavra melhor para definir uma instituição que falha em 74% dos casos). Embora o Brasil seja um país de uma língua só, o domínio do inglês é visto, há muitos anos, como um diferencial para a construção de uma carreira de sucesso. Isto se deve a vários fatores, não apenas à hegemonia econômica americana; ainda que esta seja o principal. Saber inglês não é importante somente porque nos habilita a ter acesso a um vasto cabedal de conhecimentos produzidos nessa língua, é também um fetiche, uma distinção de elite, uma forma de exclusão social, uma ferramenta para deslumbrar os botocudos.

Isto explica porque nossa elite é tão permeável a anglicismos, especialmente em certos setores profissionais que funcionam à base de “buzzwords”, de “knowledge management” e “risk assessment” para o “empowerment” do “business” diante do “marketing” para agradar aos “stakeholders”. Complicar o que é fácil, turvar o que é transparente, são técnicas que aumentam a “importância” daquilo que se está dizendo, dá uma aura de conhecimento arcano, de língua sagrada, de ritual. Eu não entendo o que ele está falando, mas deve ser importante, porque tem tanta palavra bonita.

O inglês se presta a isso de forma exemplar. Não apenas por ser uma língua estrangeira, portanto capaz de adicionar o necessário grau de turbidez ao discurso de quem a emprega, mas também por ser a língua central, a língua do «império». Para legitimar essa patranha, essa gente cria o mito de que o português é «difícil» ou que é uma língua a que faltam certos mecanismos e vocábulos essenciais. As palavras inglesas entram no idioma porque faltam meios para expressar o mesmo conceito em português, pelo menos é a visão dos pajés que manipulam estes fetiches linguísticos para deslumbrar aos selvagens.

Claro que existem sempre certos conceitos que são difíceis ou até impossíveis de traduzir. Desafio alguém a traduzir para o inglês a palavra «saudade» ou alguma destas incríveis expressões populares que temos. Mas na cabeça de alguém que domina assimetricamente os dois idiomas (melhor o inglês do que o português) é fácil xingar de intraduzíveis palavras que poderiam ser facilmente substituídas por outras em nossa língua. Isto explica as palavras pomposas que apareceram mais acima, todas elas tidas como oráculos, como objetos sagrados e intocáveis, digo, intraduzíveis.

Certamente uma pessoa que tivesse bom domínio do português saberia traduzir a maior parte delas, mas ah… temos um problema: o português é uma língua «primitiva», ele «não soa tão bem» quanto o inglês, insn’t it?

E assim, nas calhas de roda
gira a entortar a dicção
este monturo de termos
que não acha tradução.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Como Ferir um Vampiro

a bolinha é de papel
papel é de madeira
de madeira é a estaca
que mata o vampiro.

mas como na bolinha
resta pouco da madeira
só causa um mal estar,
uma vontade frouxa.

a bolinha justiceira
kriptonita improvisada
bala de prata precisa
matou a candidatura.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

[Auto] Censura Prévia

Estou aqui com dois ótimos contos, em fase quase de conclusão. Mas estou com receios de postá-los neste blogue. Na fase atual em que me encontro, buscando atenção e uma editora, talvez fosse interessante postar aqui alguma coisa polêmica (e nada polemiza tanto quanto falar de religião, visto que vivemos uma fase de aguçamento das sensibilidades religiosas nesse país). Porém ainda estou em dúvida se estou disposto a pagar o preço de obter tal atenção.

Um dos textos em questão, chamado «Jó e Jeová», nada mais é do uma narrativa em estilo sóbrio e seco dos episódios envolvendo os dois personagens em questão. A história é desenvolvida de forma bem próxima ao texto original, sem procurar adicionar nenhum personagem ou episódio — a não ser um pequeno desvio da trama, para enriquecer o personagem Satanás e dar mais vivacidade ao seu diálogo com Jeová. Temo, porém, que os cristãos e judeus não estejam preparados para ver a história de Jó contada numa linguagem chã e linear, como estou fazendo.

O outro texto é um conto pós-apocalíptico. Literalmente. Uma história que procura imaginar como seria viver na «Nova Jerusalém» descrita no Apocalipse. Esse é certamente mais herético, porque vai além do texto da Bíblia. Esse é o que mais me preocupa. Principalmente porque, em vez de um ateísmo marxistão e simplório, ele tergiversa com misticismos vários, Dante Aligheri e algumas doses homeopáticas de bom senso (para obter efeito contrário, como sói acontecer na homeopatia).

Ocorre auto-censura quando, mesmo não havendo leis que proíbam ou dificultem a produção ou divulgação de certos conteúdos, os autores se sentem desconfortáveis, «desconvidados» a produzi-los e divulgados por receio das consequências difusas que podem advir de sua publicidade. Este sentimento começou quando comecei a postar no meu antigo blog um texto argumentando contra a razoabilidade da crença em revelações divinas. Como o texto começava dissecando as afirmações de Maomé a respeito do Alcorão, recebi uma enxurrada de email enviado por muçulmanos. Alguns educadamente dizendo que eu estava errado e que eles oravam para que eu encontrasse a verdade, tal como os cristãos educados fazem. Outros não eram tão polidos e partiam para ameaças de diversos tipos. Um deles, por exemplo, fez questão de me lembrar que, segundo a teologia islâmica, todos somos criados «muçulmanos» e os que não se submetem de fato vivem em rebeldia contra o seu estado natural, de forma que um clérigo mais radical pode acusar qualquer um de apostasia, mesmo o suposto apóstata nunca tendo declamado a shahadda.

Quando isso aconteceu eu fiquei muito revoltado porque eu não podia aceitar que em um país livre eu tivesse constrangida a minha liberdade de expressão. Depois eu amadureci, com o tempo, à medida em que fui encontrando outras manifestações de intolerância, como os neonazis que descobriram o meu telefone e ameaçaram a minha família porque eu os ridicularizei em um debate sobre o nazismo em uma comunidade do Orkut, ou como os cristãos que disseram que enviariam mensagens ao meu empregador denunciando meu comportamento como contrário aos interesses da instituição. Estes fatos me mostraram que, de fato, não estamos em um país livre, pois não há liberdade onde não há garantia de justiça e, pior, não adianta garantia de justiça quando lidamos com fanáticos que não ligam para as consequências. Como o assassino de Theo van Gogh, que não se importaria nem mesmo de ser executado, pois crê ter prestado um serviço a Deus e cumprido em vida uma missão que é mais importante do que a vida que poderia viver se não a tivesse cumprido.

Estas coisas nos mostram que, de fato, o espírito livre está o tempo todo comprimido, a cotoveladas, pela multidão que pensa em contrário. E isso nos leva à auto-censura, pelo menos enquanto, como no meu caso, não temos poder econômico suficiente para resistir a um processo cível, que uma maneira de punir uma pessoa que não cometeu crime, forçando a gastar dinheiro em uma defesa, ou para contratar guarda-costas.

Por causa desta sensação de insegurança em que vivo, e da imagem pública que preciso cultivar em função de meu emprego, eu desisto de publicar certos textos mais polêmicos e vou postando inofensivos poeminhas e continhos mais contidos. Um dia, se virar best-seller, terei coisas mais polêmicas para postar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nacionalismo Linguístico

Dizer que nacionalismo não é uma boa coisa é praticamente um artigo de fé da esquerda e da direita. Pelo lado esquerdo, ele é visto como o grande monstro que causa as guerras, desune a humanidade e aliena o povo da luta por condições de igualdade. Pelo lado direito ele é visto como um entrave à livre movimentação dos interesses e dos capitais. No entanto, enigmaticamente, elementos nacionalistas estão presentes em ambos os discursos.

Se existe um campo onde o nacionalismo ainda encontra terreno livre para expressar-se, este é o da cultura, no qual cada país tenta defender-se do «estrangeiro» e assegurar a continuidade de sua própria herança cultural. Para o nacionalista cultural não existe, de fato, a troca de ideias e elementos entre as diversas culturas: o que há, em vez disso, é a influência assimétrica de línguas hegemônicas (como o inglês, globalmente falando). Eu tendo a acreditar que isto é verdade.

Dificilmente você encontrará muitos vocábulos de origem portuguesa, por exemplo, em qualquer outra língua do mundo. Em inglês eles praticamente não existem, e os que existem têm sentido muito específico, sendo em alguns casos herdados de séculos passados. No entanto, existe uma abundância de anglicismos em uso no português. Como acreditar na livre troca das ideias diante deste quadro. Não existe «troca» quando o movimento é num sentido único.

Claro que o tema dos anglicismos pode ser exagerado. No caso do futebol, por exemplo, houve um tempo em que todos os termos relacionados ao esporte eram importados: goalie, back, half-back, center-forward, corner, penalty, free kick, goal kick, foul, jersey, trunks, referee, linesmen, scratch… Hoje todos estes termos foram substituídos por termos em português ou então adaptados, na medida do possível: goleiro, zagueiro, volante, centro-avante, escanteio, penalidade, cobrança de falta, tiro de meta, falta, camisa, calção, árbitro, bandeirinhas, escalação. Não é, portanto, impossível que em um futuro não muito distante vejamos a substituição de termos hoje «insubstituíveis» da informática, por exemplo: mouse, driver, notebook, webcam… A substituição até já começou: placa-mãe, disco rígido, teclado, gabinete, porta, etc.

Então, devemos supor que o nacionalismo linguístico é uma besteira, certo? Talvez seja. Mas há muitos casos nos quais uma ideia parece equivocada não por estar errada, mas por identificar o alvo errado. No caso, eu acredito que o alvo do nacionalismo linguístico não deveria ser a introdução de anglicismos, que pode ter um efeito temporário, mas sim a subalternização do português diante do inglês no imaginário da juventude.

Digo isso porque é cada vez comum, os jovens recorrerem ao inglês para efeito estético. Eles querem dar nomes em inglês aos textos que escrevem, provavelmente porque acham que fica «mais bonito». Eles querem dar nomes ingleses aos seus filhos, porque chamam mais a atenção. Eles querem usar expressões inglesas em sua fala porque elas dão um «diferencial», uma distinção pessoal. Pelo menos é o que imaginam eles.

Então fica claro que não estamos diante da supressão de lacunas pela introdução de termos estrangeiros, mas de uma relação linguística na qual o português é visto como insuficiente e o inglês se apresenta como o elemento definidor de um discurso superior. Algo não muito diferente do que ocorria, na antiguidade, em terras sob o domínio romano. E lá se foram o gaulês, o helvécio, o púnico, o celtibero, o turdetano, o etrusco, o falisco, o volsco, o sabino, o britânico…

Não ouso afirmar que o português será suprimido pelo inglês, como o gaulês o foi pelo latim. Afirmar isso seria esticar demais os fatos, possivelmente até a lógica arrebentar. Mas é certo que isso, a longo prazo, tem tido efeitos negativos sobre a preservação de nosso léxico, sobre a auto-estima de nosso povo e sobre o processo de inclusão social.

Até que ponto, bem, um dia, metido em um curso de mestrado ou doutorado, eu vou tentar avaliar. Até lá, me reservo ao direito de supor, com base nos dados parciais que tenho, que a coisa certa a fazer é trabalhar em prol da preservação de minha língua. Entre outras medidas neste sentido, tento evitar o quanto possível empregar palavras de origem estrangeira.

sábado, 16 de outubro de 2010

Carta Aberta aos Autores de Cartas Abertas

Por favor, parem.

Cartas abertas não são mais uma maneira de influenciar a opinião pública. Porque quem deveria lê-las não as lê.

Obviamente cartas abertas não são escritas para serem lidas por seus destinatários, isto sempre foi óbvio. Mas por filhos, amigos, amantes, parentes. Por pessoas que teriam algum poder de influenciar a decisão dos destinatários.

Hoje isto não funciona mais. Mesmo os que saem da escola com belos diplomas na mão perderam o hábito de ler e provavelmente teriam grande dificuldade em ler uma «carta aberta» — especialmente porque esse gênero literário se caracteriza por ser mais longo que uma carta comum.

A própria «carta comum», aliás, é um artigo em extinção. Se nem mais cartas fechadas as pessoas andam escrevendo e lendo, como esperar que leiam «cartas abertas» que sequer lhes foram endereçadas?

Acredito que se queremos que a coisa funcione como antigamente as cartas abertas funcionavam — na base da pressão moral da família e dos amigos para que o escroque fizesse algo, ou deixasse de fazer — seria necessário que a carta passasse a ser fechada. Fechada com treze trancas e com uma senha criptografada de 128 bytes. Em vez da carta aberta o que funciona hoje é o dossiê.

Sim, é isso. Uma carta aberta denunciando a imoralidade é motivo de riso. Acredito que se fizermos uma carta aberta reclamando que um político está roubando merenda escolar em certo município os próprios pais das crianças prejudicadas vão achar graça da carta. As pessoas perderam a capacidade de indignar-se.

Porém, mesmo os dossiês estão com os seus dias contados. Eles só valiam (dinheiro, na base da extorsão) quando os políticos ainda tinham vergonha de ser chamados de ladrão. Hoje em dia, vergonha é perder a eleição.

Desta forma, os dossiês também estão ficando fracos, estaremos chegando à era do trezoitão? Possivelmente, visto que os nossos legisladores, em causa própria, têm produzido nas últimas décadas um código penal que procura punir o mínimo possível, especialmente se ficar comprovada a culpa (em caso de inocência ou de dúvida o acusado, se pobre, pode ter que passar anos trancafiado até conseguir ser absolvido).

Durante muito tempo o opróbrio (esse palavrão em vias de desterro para as terras do Arcaísmo) era a única coisa que atingia os políticos, em geral na forma de ovos podres e vaias. Hoje em dia as pessoas nem querem mais vaiar e há muita câmera para filmar a origem do ovo e punir o responsável.

Agora ninguém mais tem essa vergonha. Na verdade há um movimento criando força entre nossos legisladores: já que o código penal não serve mesmo para nada, melhor seria aboli-lo em sua maior parte. A ideia é a abolir do Código de Processo Penal a parte «Penal» e deixar a parte do «Processo». Assim, sempre que houver a necessidade de constranger ou punir alguém, basta o interessado (apoiado por uma alcateia de advogados) iniciar um processo contra o ofensor e sustentá-lo através de todas as instâncias do Judiciário. O interessado mais pobre perderá algum recurso ou prazo e muito dinheiro.

Como podemos ver, a prática de escrever cartas abertas se tornou anacrônica. Não só porque cartas (e crônicas) são anacrônicas em si mesmas, mas também porque não há mais como esperar que elas funcionem.

Em vez de escrever uma carta aberta, devemos fundar uma associação e mover um processo. Mas vai ser preciso muito dinheiro e um padrinho forte, porque processo sem padrinho ou sem dinheiro não vai longe: para quando esbarra no padrinho do processado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Acusações de Ateísmo

Recebi hoje uma mensagem por correio eletrônico que se propunha a desfazer um «mal-entendido» sobre nossa candidata favorita à Presidência da República. Diante do conteúdo da mensagem, da alta posição da pessoa que a escreveu, e da repercussão que isso tem tido, resolvi que deveria, também eu, dar uma resposta ao caso. A resposta que dei, a mais de cem pessoas que já estavam na lista do email, foi esta:

Amigos, eu os convoco a repassar de novo a mensagem, para tentar corrigir uma grave injustiça que foi cometida por Frei Betto, ao tentar defender Dilma Rousseff da «acusação» de ser «marxista atéia».

Em primeiro lugar, na qualidade de ateu e de marxista, gostaria de repudiar esta «acusação». Ser ateu, ou ser marxista, coisas que não são intrinsecamente ligadas, não é crime e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é o cinismo com que certos políticos tratam o povo e o descaramento com que muitos que se dizem representantes de Deus «enfiam a mão» no bolso de pobres diabos para custear seus carros e suas mansões, vampirizando o sofrimento dos desesperados. Isso é motivo de vergonha. Não acreditar em Deus é uma opção pessoal.

Portanto, o simples fato de que se esteja querendo «defender» Dilma desta acusação é um absurdo. Por que não estão tentando defendê-la das acusações de ter se locupletado à custa do erário quando era Ministra da Casa Civil? Será que roubar pode, se você acredita em Deus?

Em segundo lugar, na qualidade de cidadão, gostaria de repudiar esta frase de autoria do religioso:

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Mesmo que julgasse necessário «defender» Dilma da acusação de ser «marxista ateia» (mas não da de ser ladra), Frei Betto não precisava, para isso, ter ofendido pessoas que não têm nada a ver com a história. Não foi em nome do ateísmo que se instaurou a nossa ditadura. Não foi o Partido Comunista que desfilou pelas ruas de São Paulo e Rio ostentando os seus símbolos em repúdio a um governo democraticamente eleito e em apoio a um projeto de golpe orquestrado pela CIA. Quem fez isso foram
os católicos tradicionalistas, a odiosa TFP.

Portanto, nós ateus, não temos nada a ver com os crimes cometidos pelos ditadores desse país. Não é justo, portanto, que tais crimes sejam etiquetados de «ateísmo militante» por alguém que não vê problemas em estar, ele mesmo, filiado a uma organização que tolerava a TFP e hoje em dia tolera a Opus Dei; uma organização que não expulsa, mas protege, os que se aproveitam de sua posição e influência para cometer o mais torpe dos crimes, o estupro da infância. Se ele não vê problemas em
estar ligado a tal instituição, se ele concorda que não se pode generalizar o todo (a Igreja) pelas partes ruins (seus membros que cometem tais atos), então ele não pode, tampouco, generalizar o ateísmo
como sendo a prática militante da tortura, só porque, no passado, houve regimes ateus que a empregaram (exemplo da URSS): pois da mesma forma o fizeram regimes «santos».

Ao fazer isso, Frei Betto incorre numa falácia lógica, numa injustiça e numa calhordice. A falácia lógica é irreversível, pois já foi dita, a injustiça pode ser minimizada por um pedido de desculpas, a calhordice, porém, só desaparecerá se, além de desculpas, Frei Betto admitir, sinceramente, que errou — algo que eu não acredito que faça.

Mas tenho esperança de que Frei Betto reflita sobre estas palavras, que ele mesmo disse:

Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo.

Se Frei Betto for honesto, como tenho esperança que seja, ele reconhecerá que os freis também não são donos da verdade e não têm o direito de julgar o foro íntimo de pessoas que não conhecem, como ele
fez ao classificar a prática hedionda da tortura como «ateísmo militante». A frase que proferiu ofende não apenas aos que não creem em Deus, como eu, mas também ofende a lógica, o bom senso e a verdade. A verdade, aquela a quem Jesus Cristo recomendou que homens como Frei Betto se apegassem.

Pois não é verdade que a tortura seja paradigma do ateísmo. Acaso não existiu uma Santa Inquisição e sua queima de bruxas? Não é verdade que a tortura seja paradigma do marxismo. Acaso não existiram os fascismos e as ditaduras de direita?

Ateísmo é meramente a ausência da crença em um deus tal como as religiões o definem. Tal ausência não é uma revolta e nem um vazio. Trata-se apenas de uma abordagem da vida que não inclui preocupações semelhantes às que movem os religiosos.

Repito: isso não é crime (ainda) e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é torturar. E muita gente que fala em Deus o tempo todo simpatiza ou simpatizou com a ditadura e seus dedicados «funcionários».

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Literatura e Política: Para Todos e Para Ninguém

Nietzsche colocou em seu livro Assim Falou Zaratustra um subtítulo interessante: «um livro para todos e para ninguém». Trata-se de uma declaração quase esfíngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ninguém? A solução do enigma surge quando você analisa o livro em si, pelo seu conteúdo e pela sua forma. Quanto à forma, é um livro para todos devido ao estilo bíblico e linear da narrativa (sim, embora escrito por um filósofo, trata-se de uma narrativa): supôs o autor que estas escolhas tornariam o livro acessível a praticamente todos os que fossem alfabetizados. Por isso «um livro para todos». No entanto, o conteúdo desta obra é particularmente difícil, por lidar com dilemas existenciais cuja própria reflexão é rejeitada por estes seres cordatos que habitam as civilizações, esse homo vulgaris que persegue a gratificação de seus desejos imediatos tal e qual um cão correndo atrás do próprio rabo. Por isso é um livro para ninguém.

Há certos assuntos sobre os quais falamos que deveriam ser também agraciados com um subtítulo equivalente: para todos, porque é perfeitamente possível falar deles de uma forma que muita gente entenda; para ninguém, porque é quase impossível achar quem se interesse por eles. Um de tais assuntos é a política.

O lugar comum (que é o sistema através do qual pensam, de forma quase exclusiva, as pessoas sem imaginação e/ou sem inteligência própria) dita (no sentido de «ditadura») que «político é tudo safado» — talvez porque as pessoas que assim o dizem espelham os políticos em si mesmas. Embora eu não ponha a mão no fogo por nenhum político, essa afirmativa é preguiçosa e burra. Preguiçosa porque é um preconceito e porque exime quem assim pensa da obrigação de informar-se (ai, isso envolve ler, ah, e ler dói), de refletir, de discutir e de concluir. É muito mais fácil dizer que todo político é safado e não ter que se dar a esse trabalho.

Como vocês já devem ter percebido, existe uma estreita relação entre a nossa postura diante dos livros e as causas desse desastre que é a nossa política. Nosso povo lê pouco, e por ler pouco ele não sabe quase nada daquilo que não diga respeito ao seu horizonte imediato. E por ser ignorante daquilo que não lhe diz respeito de forma direta, ele não é capaz de discutir a política.

Acontece que os ignorantes não vão querer admitir isso. No fundo, apesar do desprezo verbal pela cultura que vive na boca de muita gente, ser ignorante não é bonito. Então é preciso sentar em cima desse rabo grande e peludo e fingir que ele não existe. A incompetência de ter uma discussão sobre política é mascarada pelo desinteresse, justificado pela constatação, necessariamente desinformada, de que todo político é safado.

O curioso é que essas pessoas que assim pensam estão duplamente equivocadas. Não apenas estão partindo para uma conclusão preconceituosa (porque é uma generalização desinformada), mas estão abordando o problema pelo lado errado: política não se faz de cima para baixo. É perfeitamente justificável a sensação de que nós não temos nenhum tipo de controle sobre o que pensam e fazem os políticos nas altas esferas do poder. Mas eles não chegaram lá de paraquedas, eles passaram por um longo processo, que muitas vezes começou numa candidatura à vereança em sua cidade. E é nesse momento que a política distante se torna próxima que vemos, com maior vergonha, o quanto as mesmas pessoas ignorantes são também desonestas.

Safado é povo, não o político. O político é safado porque ele é parte do povo. Talvez se os nossos políticos fossem estrangeiros eles fossem menos safados (ou mais). Mas como eles são brasileiros como nós, eles são tão safados quanto somos, na média.

Safado é o eleitor que vende seu voto em troca de cimento, de um emprego, de gasolina, de um par de tênis ou de dinheiro. Quem prostitui a sua opinião em troca de vantagens imediatas (tal qual o macaco da fábula, que vende a cauda por um pão) não tem moral para acusar os nosso políticos de coisa alguma.

Safado é o eleitor que se orgulha de ser parte do curral eleitoral de um político: «aqui no bairro tal a gente vota é no fulano», ou «sicrano é o candidato da cidade X». Abdicando da própria opinião e aceitando ser levado no cabresto (como burro que é), esse eleitor vai reclamar do que?

Essas coisas que eu disse acima não são filosofias profundas, dignas de um Nietzsche, de um Schopenhauer ou de um Espinoza. São coisas simples e claras que para concluir basta você pensar com calma e somar dois com dois. No entanto elas serão incompreendidas e rechaçadas. A transparência do raciocínio será rejeitada pela oposição do conteúdo ao que é confortável ao leitor. «Eu fiz isso, diz minha memória. Eu não posso ter feito isso, diz meu orgulho. Por fim a memória cede».

Por isso estas palavras que disse são para todos e para ninguém. São para todos porque qualquer um que saiba ler as lerá e compreenderá. Para ninguém porque com elas não ganharei nenhum seguidor no blogue, não farei nenhum amigo, não receberei sequer um elogio, não mudarei a postura de um eleitor sequer. O ser humano nunca muda, de fato: apenas se torna, cada vez mais, aquilo que é. A única mudança possível é a que se faz nas gerações futuras, através da educação de nossos filhos. Esta é a tragédia da humanidade: os estúpidos têm mais filhos e têm mais tempo para ensinar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Porque o Orkut fracassou como Plataforma de Conteúdo

Esse ano, no Orkut, lá em princípios de julho de 2010, durante [mais uma] das crises da comunidade Novos Escritores do Brasil, eu fui expulso — e todo o meu trabalho em prol da comunidade, a dedicação de dois anos quase, desapareceu de um minuto para o outro, como se nunca tivesse existido. Desde então, quem entra naquela comunidade ignora quem tenha sido José Geraldo Gouvêa.

Isso me serviu de alerta pungente para algo que eu já estava percebendo há muito tempo, mas que relutava em acatar: havia alguma coisa de muito errada com a maneira como o Orkut vinha sendo usado por mim e por outros, só que o erro não estava aparente e foi preciso uma tensão forte para que a coisa explodisse e o engano ficasse bem claro, fácil de explicar inclusive.

O que havia de errado era a tentativa de utilizar o Orkut como uma plataforma de conteúdo, quando ele sempre foi desenvolvido, desde o início, como uma ferramenta para localização e desenvolvimento de relacionamentos! Parece tão óbvio, mas mesmo assim não enxergávamos o que estava bem diante de nossos narizes.

O conceito de plataforma de conteúdo que estou mencionando se refere a um sistema informático para coleta, organização e manipulação de dados textuais que permita a sua posterior preservação. Bons exemplos disso são as wikis e os blogs, sucessores dos antigos sítios estáticos da Rede. Uma plataforma de conteúdo precisa ser voltada para texto, precisa ser otimizada para texto, mas também precisa ter facilidades de acesso e manipulação de outros tipos de dados, como imagens, sons e fórmulas matemáticas.

Mas o Orkut não é isso: o seu objetivo é agregar pessoas que possuem relacionamentos reais ou que compartilham interesses comuns (criando assim, através das comunidades, amizades virtuais que podem ou não se transferir para o mundo físico — nos chamados “Orkontros”). Como o objetivo é apenas servir de suporte para conversa [na maioria das vezes fiada], as ferramentas que ele oferece são muito básicas, insuficientes para que possa ser usado de forma segura por quem produz conteúdo.

O principal problema da utilização do Orkut desta forma é o caráter discricionário da propriedade das comunidades. Desde meus primeiros tempos como “eminência parda” do proprietário lá da N.E.B. eu já alertava todo mundo: “O Orkut não é uma democracia”. Mas muita gente sonhou, por muito tempo, que o sítio pudesse ser uma maneira revolucionária de interconectar pessoas e desenvolver trabalhos literários. Ele foi, mas por pouco tempo, e somente até certo ponto.

O dono de uma comunidade no Orkut não é um presidente da república, não é um prefeito, não é nem mesmo um gerente de banco. O dono de uma comunidade é realmente dono dela, como de um feudo, e devido ao caráter virtual do relacionamento você nem pode dar um golpe militar ou cometer um atentado bem sucedido contra a sua tirania. Quem entra numa comunidade deve aceitar que ela representa a visão de seu proprietário e será sempre autoritária ou arbitrária na medida em que ele seja. A justiça do Orkut é «rápida e terrível».

Este poder de vida e morte que o dono da comunidade tem não depende de seu mérito, mas do mérito daqueles que vêm frequentar a comunidade. São eles, que pelo número ou pela produção, lhe emprestam o prestígio de poder dizer que é o dono de uma comunidade de tantos ou tais membros. Isso fica especialmente claro nos casos de comunidades “herdadas”: o carisma (ou falta dele) do dono não teve nenhum papel no crescimento inicial da comunidade, mas o tamanho dela lhe dá (ao dono) uma dimensão de poder que quase fascina. É quase natural que os donos de comunidades, exceto se forem ausentes, se transformem em ditadores e tentem impor a sua visão aos demais membros.

Isso não é um problema quando estamos falando de comunidades realmente voltadas para interesses comuns, como a “Eu Odeio Funk”, por exemplo. Não se espera que haja divergência de opinião numa comunidade dessas: todos que lá entram odeiam funk e ponto final. Mas temos uma situação delicada quando a comunidade é de uma natureza que enseja debates, que se beneficia de opiniões discordantes. O dono da comunidade, seu ditador perpétuo e onipotente (talvez seja melhor dizer até seu «semideus»), fatalmente tentará coibir estas divergências, forjar a comunidade à sua imagem e semelhança.

Como parte de sua atuação para controlar as opiniões e construir consenso em torno de si, ou melhor, de construir um culto à personalidade que é análogo ao que faziam Stálin, Hitler… e Hiroíto o dono da comunidade fará uso de uma ferramenta básica e temível, uma espécie de sentença de morte virtual: o banimento.

O membro banido se torna pária na comunidade porque é impensável defendê-lo: todos tenderão a aprovar a decisão tomada pelo führer a fim de não atraírem sobre si a sua ira. Os que não forem lamber as botas do ditador, permanecerão em sábio silêncio, afastando-se temporariamente até as coisas esfriarem. Mais do que isso, o expulso é apagado da memória da comunidade, tal como as «impessoas» imaginadas por George Orwell em 1984. Os seus trabalhos, comentários e até os traços de sua presença podem ser apagados pelo premir de um botão, tal como o Teodoro podia matar o mandarim na China no romance célebre de Eça.

A perda de todo traço da presença do expulso é um perigo real e imediato no mundo virtual. Basta que alguém no Google ache que seu blog viola algum artigo dos termos de uso e você o terá apagado praticamente sem aviso e perderá tudo, a menos que tenha feito cópia de segurança. O mesmo acontece no Orkut, só que de forma ainda mais grave: no Orkut não há cópia de segurança, há uma precariedade total dos dados.

Tudo isso que aconteceu fez muita gente pensar. Muita gente está percebendo que o Orkut é uma ferramenta falida quando se trata de conteúdo. Não é possível pensá-lo a sério como um lugar para mostrar o seu trabalho, devido ao caráter arbitrário da liderança em qualquer comunidade. Então é hora de repensar o modo como usamos esta ferramenta de contatos, o modo como produzimos e armazenamos os nossos conteúdos. O Orkut é instável demais para isso, é uma ameaça até.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Nossas Escolas Odeiam os Livros

Os professores brasileiros odeiam livros. Desde pequenos os alunos são ensinados a odiar livros e revistas. Não existe uma classe sequer de primário na qual os alunos não sejam ensinados, quase diariamente, a destruir revistas e livros «velhos» para fazer cartazes. Esses pobres livros e revistas são sacrificados como cobaias em nome do conhecimento. Crescem as crianças acostumadas a meter a tesoura no papel impresso.

Ao mesmo tempo, temos a apostila, essa descartável publicação que todo ano se renova. A apostila é o conhecimento compactado, autossuficiente e transitório. Precarizado na forma de umas páginas mal digitadas e formatas que se imprime na própria secretaria da escola. A apostila convence o aluno de que o livro bem feito não importa, a apostila «serve». Ela é barata — e isso é uma qualidade — e porque preenche a necessidade de um suporte para a aula, ela «basta».

Assim os moleques crescem acostumados a destruir livros e revistas e a ver os repositórios de conhecimento como objetos improvisados e passageiros. No futuro essas crianças não vão se importar em comprar livros, vão se contentar com cópias feitas na xerox da faculdade, que depois serão jogadas fora. As cópias não ficam marcadas na lembrança e nem sobram na estante como recordações dos tempos acadêmicos.

A nossa escola ensina o aluno a odiar livros.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ateus e Agnósticos na Internet — Um Brevíssimo Estudo

Ateu anarquista
Afirma que «deus» não existe. Mas cultua Satanás, usa símbolos sagrados pagãos no pescoço e sonha de noite com medo do inferno. São especialistas em apontar as crueldades de «deus», mas de alguma forma celebram as do diabo como atos de rebeldia.
Ateu clássico
Afirma que «deus» não existe porque as teorias que postulam sua existência não têm base factual. Considera que para que possamos considerar algo como existente é preciso primeiro evidência de sua existência e, como não se pode ter evidência da existência de «deus», devemos considerá-lo como não existente. O problema com esse tipo de ateu é que ele é minoritário e quase ninguém entende o que ele escreve.
Agnóstico-ateu
Não considera «deus» como um questionamento pertinente, pelo menos não enquanto não se souber o que seria «deus» (basicamente ele diz isso porque nunca consultou no dicionário o sentido da palavra). A maioria dos ateus são de fato agnóstico-ateus. Tentam escapar da falácia da afirmação negativa afirmando desconhecer alguma afirmação que se sustente logicamente. Aponta as contradições do teísmo como evidências de que «deus» não é conhecido e, portanto, não se deve crer que ele exista. O agnóstico ateu finge que ninguém sabe o que é «deus» a fim de poder parecer mais lógico, mais sábio, mais fofucho e mais vitaminado.
Agnóstico-filósofo
Considera «deus» uma questão de grande importância, sobre a qual, infelizmente, nada se pode saber, mas sobre a qual ele adora falar, em geral para mostrar aos ateus o quanto ele é mais rigorosamente lógico e mais inteligente do que eles. Tende a considerar «deus» como inexistente ou indiferente e só diverge do ateísmo devido à questão da negação do não provado (falácia da afirmação negativa). Mesmo assim ele faz questão de marcar a divisão entre agnosticismo e ateísmo como se houvesse uma muralha ali.
Agnóstico-teísta
Tem uma idéia formada de «deus» como algo curiosamente semelhante ao que a religião cristã prega e tem amplo conhecimento de terminologia específica de alguma denominação religiosa em particular. Mesmo assim em termos de atitude não se diferencia dos outros porque não enxerga nesse «deus»um caráter «salvífico». De certa forma, é o legítimo agnóstico «em cima do muro»: rejeita o teísmo puro porque não é burro o bastante para fechar os olhos para a lógica do que estudou, mas não parte para o ateísmo descarado porque ainda existe, no fundo de sua alma, um «medinho» de que o Velho Barbudo do Céu possa existir.
Agnóstico-crente
Além de considerar «deus» como algo idêntico ao que as religiões pregam, este tipo de agnóstico ainda se comporta com «respeito» em relação a esta crença, apenas reservando-se a não examiná-la com a lógica ou a ciência, por considerá-la «além das possibilidades» da razão. Quando confrontado em um debate, invariavelmente recairá do lado dos teístas. Qualquer religioso não fundamentalista e razoavelmente esclarecido se enquadra nesta categoria quando não está pregando.
Agnóstico orkutiano
Só é agnóstico depois de logar no Orkut, só conhece do agnosticismo uma pseudo-terminologia rasa. Mas usa o termo «agnóstico» como se fosse uma medalha que o torna melhor que os ateus. Sentir-se superior aos ateus é muito importante para o agnóstico orkutiano, também conhecido como troll das comunidades céticas.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um Desaparecimento

Hoje desapareceu um cara. Seu nome era Patrício Pinto, ou pelo menos era assim que o conheci. Bem, de fato eu não o conheci, apenas acompanhei sua carreira meteórica. Talvez mesmo “acompanhar” não seja o melhor termo: eu assisti, de longe apenas, a uma parte de suas estripulias. Tornei-me seu fã sem nunca tê-lo visto pessoalmente, admirei-o em cada palavra, mesmo sem saber quais palavras eram realmente suas e quais eram apenas repetições de palavras que outras pessoas haviam dito em outras ocasiões. Mas hoje Patrício Pinto desapareceu sem deixar rastros.

A primeira vez que ouvi falar dele foi há exatos dois anos e três meses. Marquei o dia porque passei a salvar os seus textos. Ele era um debatedor quase inconsequente em um desses fóruns da rede mundial. Aos poucos, no entanto, ele foi adquirindo uma habilidade rara para expressar opiniões polêmicas, sempre de forma bem-humorada, embora às vezes ligeiramente ofensiva. Essa combinação de leveza e brutalidade no uso da língua não surgiu da noite para o dia, mas eu a percebi a partir de certo ponto, e logo notei que tornava os seus textos muito atraentes. Foi assim que Patrício começou a atrair a atenção de muita gente que, como eu, frequentava aquele fórum específico.

No começo foi um fenômeno localizado. Afinal, há tantos fóruns perdidos pela rede, são tão poucas as pessoas que entram em cada um deles! Mas logo começaram a surgir outros fóruns que congregavam mais pessoas, mesmo oferecendo recursos mais limitados. Ter diante de si um grande palco fez de Patrício um fenômeno, uma espécie de tenor na ópera bufa da internet. Assim Patrício teve a sorte de já entrar nas salas mais amplas dos grandes fóruns levando consigo a experiência e a destreza acumulada nos pequenos valhacoutos virtuais isolados onde tantos debates inúteis chafurdam sem nunca revelar seus patrícios.

Tornei-me seu “amigo” em um desses lugares irreais onde cada um é apenas aquilo que uma minúscula imagem de baixa resolução consegue comunicar. Ser amigo nestas circunstâncias é algo meio estranho porque, de fato, jamais soube coisa alguma dele: apenas tinha uma ligação facilitada com as coisas que ele fazia e escrevia. E como ele escrevia! Logo descobri que tinha um diário virtual, onde estavam guardadas centenas de pequenas e geniais histórias, poemas, relatos da vida quotidiana. Participava dos fóruns ocasionalmente postando aqueles textos, mas normalmente preferia comentar o que os outros escreviam, interferir em polêmicas nem sempre próximas das coisas que ele dizia ser e viver.

Hoje Patrício desapareceu. Amanheceu ausente de todos os fóruns onde participava. Suas mensagens não se encontravam mais, foram todas para o limbo das ideias nunca impressas, para o inferno dos projetos nunca materializados. Circulam entre os seus poucos conhecidos, entre aqueles que uma vez ou outra estiveram realmente diante dele, as teorias mais estranhas, desde abdução por alienígenas até uma simples recaída na fé do culto marginal a que seus pais eram afiliados.

Mas qualquer que tenha sido a causa, a consequência se tornou enormemente mais interessante. Onde estão agora aqueles textos todos que ele escreveu? No grande fórum não ficaram traços. Não há lixeira de onde possam ser recuperados, prateleira onde possam estar perdidos. Em vez disso apenas um vazio não demarcado. Ele se tornou uma impessoa, é como se nunca tivesse existido, como se alguém tivesse tomado uma borracha e passado sobre dois anos de memórias dele que eu tinha --- e que outros também terão. Somos mentirosos agora, pois nunca houve alguém chamado Patrício Pinto e seus textos, se é que alguém os colecionou, não podem ter autoria confirmada.

Desde este desaparecimento eu tenho tido medo. Quem estará percorrendo os meandros eletrônicos da grande rede e transformando em fantasmas entidades que pareceram existir? Terá mesmo existido um Patrício? Estará neste momento alguém assim chamado, ou que assim se identificava, rezando em algum banco de igreja ou sendo torturado em algum porão de delegacia? Ou terá sido tudo uma grande ilusão? Dizem que a exposição contínua à radiação dos monitores induz a fenômenos tais.

Não sei nem saberei mais se aquelas coisas que eu li foram verdadeiras. Tenho medo de dizer que foram e ser surpreendido pela mesma causa que me levou Patrício. Vou espacejando minhas intervenções nestes arcanos interstícios por onde vagueiam invisíveis ameaças. Vou imprimindo e encadernando, de alguma forma preservando da traça eletrônica aquilo que eu penso, que escrevo, que sou. Se amanhã eu amanhecer também transformado em uma impessoa, pelo menos eu mesmo terei provas de que existi.

19 de setembro de 2009

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Chega de Debater

Debater, especialmente coisas óbvias, não faz sentido. Se você está certo, então as pessoas que estão debatendo contra você são idiotas ou ignorantes e o debate não vai a lugar nenhum. Se você está errado, então ignorante é você e está dando vexame e passando recibo. Então a melhor coisa a fazer é deixar de lado a polêmica. Em geral só existe polêmica quando se chocam posições inconciliáveis. Prove a sua com o seu trabalho (se você estiver certo) e deixe o teimoso se foder errando. Afinal, quando tudo dá errado a frase que todo mundo diz não é “se eu tivesse ouvido o que fulano disse...” Ninguém nunca dá ouvidos ao que fulano diz. Então que fulano não diga.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Sábio Louco e o Ignorante Vigoroso

Réplica em um debate no qual se defendia que certos grandes escritores não eram leitores frequentes e que, portanto, ler não é um requisito para escrever bem.

Eu não sei se existem realmente homens sábios das letras que leram pouco ou quase não leram — como os exemplos citados, que vão de Paul Valéry a Raduan Nassar. Há uma diferença sutil entre o que as pessoas realmente são e o que elas dizem ser ou parecem ser. Chico Xavier foi mostrado como um quase analfabeto por ter apenas a quarta série primária, mas era um leitor voraz e possuía uma biblioteca imensa em sua casa. Sem falar que é perfeitamente possível uma pessoa se passar por sábia sem ser, desde que meça bem suas palavras. Como diz a Bíblia, em Provérbios 17:28, até um tolo pode se passar por sábio se souber ficar calado.

Tendo feito essas duas importantes ressalvas, passo ao tema principal.

O homem sábio que não lê, o escritor que não lê, o ignorante que ensina o doutor, etc. são personagens antigos em nossa cultura. São arquétipos milenares. Já entre os gregos e romanos você encontrará esta figura. Este personagem é o profeta usado por deuses para comunicar sabedoria aos homens, como o cego Tirésias (um visionário cego, veja só) da tragédia de Édipo.

Por ser um arquétipo, é uma figura poderosa e inspiradora. E por isso mesmo é suspeito. Tal como você não deve acreditar em heróis (embora ocasionalmente alguma pessoa real cometa atos heroicos), não deve acreditar em sábios ignorantes (embora ocasionalmente algum ignorante pareça sábio).

A divulgação desse arquétipo serve a um objetivo. É uma maneira de dar a cada um seu papel em uma sociedade. Se nem todos podem estudar, é preciso que o povo acredite que o estudo não ensina sabedoria, que existe um idealismo desejável na ignorância, uma sabedoria que vem diretamente de deus, e não dos livros.

O sábio que não lé está em uma face da mesma moeda que contém outro arquétipo igualmente antigo e igualmente poderoso: o do estudo que destrói. Do mesmo modo que são saudados com o vigor de sua sabedoria direta os autores que não leem, são execrados os que por excesso de leitura se tornam pretensiosos, livrescos, loucos.

Fica evidente, quando você analisa por esse lado, que existe um fenômeno cultural acontecendo. Dizer que é uma conspiração para manter o povo sem controle seria um reducionismo idiota, digno de marxistas de botequim (somente depois da quinta dose de schnapps, logicamente). Não é isso que estou sugerindo: fenômenos culturais não são guiados conscientemente, são fruto de coisas profundas que jazem no inconsciente coletivo.

O mito do autor que pouco lê, com seu oposto, o sábio louco de tanto estudar, expressam o desprezo das massas pela cultura. O povo, de um modo geral, teme e odeia os seus líderes desde milhares de anos atrás. Desde a Suméria e o Egito, quando os livros foram inventados, os homens que leem e escrevem são vistos como controladores de forças terríveis, MALÉFICAS. São forças maléficas porque a elite oprime o povo. Logo, as tecnologias da elite, entre elas a escrita e a leitura, são contrárias ao bem do povo.

Mas o povo precisa de auto-estima, não pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do «preço que a bruxaria cobra». Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mistérios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido às experiências que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido às privações de sono e de alimento, enxergavam mal devido a “forçar a vista” em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje já não se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solitário prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldiçoado. Salutar e bom é o vigoroso homem do povo, isento da corrupção do passado, cheio da verdade simples e direta que brota da terra.

Eis um mito poderoso.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Bóris e os Lixeiros

postagem um tanto datada, resgatada de meu antigo site. E também republicada, na época, no site da revista Pandora, que, aliás, não teve a gentileza de linkar de volta. A gente cede gratuitamente o direito autoral de um texto esperando, no mínimo, a mínima publicidade de um link de volta, e isto não é feito. Triste saber que tantos sites só querem aproveitar-se dos textos alheios, sem nada dar em troca.

De todos os “Sete Pecados Capitais” a hipocrisia sempre foi o que menos agradou. Tanto não agradava que ninguém nunca a inclui na lista. Como resultado, para o cristianismo, especialmente o catolicismo, que gosta dessas listas, no céu não há ninguém de terno bonito e nenhum chef de cuisine, mas está cheio de hipócritas.

Digo isso refletindo sobre Bóris Casoy, o homem que gostava de julgar os atos dos políticos com a frase “isto é uma vergonha”. Bastou que ele fosse pilhado numa brincadeira de mau gosto para que milhões de instintivos dedos sujos o apontassem: “hipócrita!”.

Evidentemente Bóris Casoy é, como a maioria de nós, um hipócrita. Como a maioria de nossas elites ele despreza o trabalho manual, deprecia as “mãos sujas” e peles curtidas de sol. Mas há uma coisa que é clara e evidente: se aqueles dois garis humilhados pelo âncora da Band estivessem armados de revólveres e assaltassem a casa do jornalista e violentassem sua filha, certamente ele diria que “é uma vergonha” que tais facínoras estejam à solta. No entanto, em pleno ar, ele fez os dois garis se envergonharem de, em vez de assaltantes que “tacam o terror” em gente como Bóris Casoy, serem honestos trabalhadores da limpeza pública.

Algumas pessoas são naturalmente humildes e se acostumaram a ser vistas como parte do lixo que movem. Outras sentem ainda o incômodo disso. Algumas em certo momento ousarão tentar migrar da vergonha de revolver o lixo imundo da “burguesia” para a glória de fazer esses “burgueses” de joelhos implorarem por suas vidas.

Portanto, não há dúvida alguma de que Bóris Casoy foi um hipócrita ao envergonhar os lixeiros. Porém, tampouco há dúvida: estão fazendo dele um bode expiatório, pois ele não teria dito o que disse se não fosse voz corrente em seu meio. Se as pessoas com quem convive o censurassem por esse tipo de idéias, ele não as teria. Ou as teria mas não andaria falando. Portanto, muitos dos que apontam o dedo para o jornalista esposam as mesmas idéias, já foram em algum momento vistos dizendo o mesmo.

Mas quando uma figura pública escorrega, torna-se rapidamente o bode expiatório. Todos projetam no “pecador identificado” aquilo que trazem dentro de si, o seu pecado inconfesso (ou confesso). Malhar o judas é uma maneira de dizer que repudiamos a falsidade. Malhemos Bóris para mostrar que nós não somos hipócritas como ele. Mas isso é claro, não quer dizer que deveremos, a partir de agora, dar respeito aos lixeiros. Nossa virtude foi esgotada enviando o bóris expiatório para Azazel.

E Bóris Casoy sabe disso. Tanto sabe que pediu desculpas. Quem pede desculpas só o faz em duas circunstâncias: se sabe que não é necessário, ou se sabe que serão aceitas. No caso as desculpas eram necessárias, pois foi um ato vil e Bóris não é nenhum ditador acima da lei para ligar o “foda-se” e seguir com a vida. Então, obviamente, ele só pediu desculpas porque sabia que o seu público, que é tão preconceituoso quanto ele, estava pronto para perdoar seu “ato de contrição”. No Brasil todo crime é desculpável, desde que lágrimas sejam derramadas e um pedido de desculpas seja feito. Bóris Casoy nem precisou chorar (certamente porque teve o discernimento de perceber que a visão de seu choro seria uma agressão pior do que a ofensa aos lixeiros).

O jornalista não pediu desculpas porque estava sinceramente arrependido. Quem está arrependido de fato pune a própria falta. Ele estava arrependido apenas de ter sido pilhado dizendo o que disse. Como o ladrão que diz: “se não houvessem digitais minhas naquela faca”.

Pediu desculpas para preservar sua posição. Em outros lugares do mundo ele seria forçado a pedir férias e quando voltasse teria um programa menor, em horário menos importante, em um canal ainda mais obscuro, algo assim. Os anunciantes exigiriam, o público exigiria, advogados exigiriam.

Aqui não foi preciso. Ele pediu desculpas, continuou em sua cadeira e deu as notícias, inclusive com o seu conhecido comentário que virou bordão. Só isso já prova que a desculpa foi só de mentirinha, para lixeiro ver. E os hipócritas não usam o dedo imundo para trocar de canal.