quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Sábio Louco e o Ignorante Vigoroso

Réplica em um debate no qual se defendia que certos grandes escritores não eram leitores frequentes e que, portanto, ler não é um requisito para escrever bem.

Eu não sei se existem realmente homens sábios das letras que leram pouco ou quase não leram — como os exemplos citados, que vão de Paul Valéry a Raduan Nassar. Há uma diferença sutil entre o que as pessoas realmente são e o que elas dizem ser ou parecem ser. Chico Xavier foi mostrado como um quase analfabeto por ter apenas a quarta série primária, mas era um leitor voraz e possuía uma biblioteca imensa em sua casa. Sem falar que é perfeitamente possível uma pessoa se passar por sábia sem ser, desde que meça bem suas palavras. Como diz a Bíblia, em Provérbios 17:28, até um tolo pode se passar por sábio se souber ficar calado.

Tendo feito essas duas importantes ressalvas, passo ao tema principal.

O homem sábio que não lê, o escritor que não lê, o ignorante que ensina o doutor, etc. são personagens antigos em nossa cultura. São arquétipos milenares. Já entre os gregos e romanos você encontrará esta figura. Este personagem é o profeta usado por deuses para comunicar sabedoria aos homens, como o cego Tirésias (um visionário cego, veja só) da tragédia de Édipo.

Por ser um arquétipo, é uma figura poderosa e inspiradora. E por isso mesmo é suspeito. Tal como você não deve acreditar em heróis (embora ocasionalmente alguma pessoa real cometa atos heroicos), não deve acreditar em sábios ignorantes (embora ocasionalmente algum ignorante pareça sábio).

A divulgação desse arquétipo serve a um objetivo. É uma maneira de dar a cada um seu papel em uma sociedade. Se nem todos podem estudar, é preciso que o povo acredite que o estudo não ensina sabedoria, que existe um idealismo desejável na ignorância, uma sabedoria que vem diretamente de deus, e não dos livros.

O sábio que não lé está em uma face da mesma moeda que contém outro arquétipo igualmente antigo e igualmente poderoso: o do estudo que destrói. Do mesmo modo que são saudados com o vigor de sua sabedoria direta os autores que não leem, são execrados os que por excesso de leitura se tornam pretensiosos, livrescos, loucos.

Fica evidente, quando você analisa por esse lado, que existe um fenômeno cultural acontecendo. Dizer que é uma conspiração para manter o povo sem controle seria um reducionismo idiota, digno de marxistas de botequim (somente depois da quinta dose de schnapps, logicamente). Não é isso que estou sugerindo: fenômenos culturais não são guiados conscientemente, são fruto de coisas profundas que jazem no inconsciente coletivo.

O mito do autor que pouco lê, com seu oposto, o sábio louco de tanto estudar, expressam o desprezo das massas pela cultura. O povo, de um modo geral, teme e odeia os seus líderes desde milhares de anos atrás. Desde a Suméria e o Egito, quando os livros foram inventados, os homens que leem e escrevem são vistos como controladores de forças terríveis, MALÉFICAS. São forças maléficas porque a elite oprime o povo. Logo, as tecnologias da elite, entre elas a escrita e a leitura, são contrárias ao bem do povo.

Mas o povo precisa de auto-estima, não pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do «preço que a bruxaria cobra». Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mistérios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido às experiências que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido às privações de sono e de alimento, enxergavam mal devido a “forçar a vista” em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje já não se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solitário prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldiçoado. Salutar e bom é o vigoroso homem do povo, isento da corrupção do passado, cheio da verdade simples e direta que brota da terra.

Eis um mito poderoso.