quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Acusações de Ateísmo

Recebi hoje uma mensagem por correio eletrônico que se propunha a desfazer um «mal-entendido» sobre nossa candidata favorita à Presidência da República. Diante do conteúdo da mensagem, da alta posição da pessoa que a escreveu, e da repercussão que isso tem tido, resolvi que deveria, também eu, dar uma resposta ao caso. A resposta que dei, a mais de cem pessoas que já estavam na lista do email, foi esta:

Amigos, eu os convoco a repassar de novo a mensagem, para tentar corrigir uma grave injustiça que foi cometida por Frei Betto, ao tentar defender Dilma Rousseff da «acusação» de ser «marxista atéia».

Em primeiro lugar, na qualidade de ateu e de marxista, gostaria de repudiar esta «acusação». Ser ateu, ou ser marxista, coisas que não são intrinsecamente ligadas, não é crime e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é o cinismo com que certos políticos tratam o povo e o descaramento com que muitos que se dizem representantes de Deus «enfiam a mão» no bolso de pobres diabos para custear seus carros e suas mansões, vampirizando o sofrimento dos desesperados. Isso é motivo de vergonha. Não acreditar em Deus é uma opção pessoal.

Portanto, o simples fato de que se esteja querendo «defender» Dilma desta acusação é um absurdo. Por que não estão tentando defendê-la das acusações de ter se locupletado à custa do erário quando era Ministra da Casa Civil? Será que roubar pode, se você acredita em Deus?

Em segundo lugar, na qualidade de cidadão, gostaria de repudiar esta frase de autoria do religioso:

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Mesmo que julgasse necessário «defender» Dilma da acusação de ser «marxista ateia» (mas não da de ser ladra), Frei Betto não precisava, para isso, ter ofendido pessoas que não têm nada a ver com a história. Não foi em nome do ateísmo que se instaurou a nossa ditadura. Não foi o Partido Comunista que desfilou pelas ruas de São Paulo e Rio ostentando os seus símbolos em repúdio a um governo democraticamente eleito e em apoio a um projeto de golpe orquestrado pela CIA. Quem fez isso foram
os católicos tradicionalistas, a odiosa TFP.

Portanto, nós ateus, não temos nada a ver com os crimes cometidos pelos ditadores desse país. Não é justo, portanto, que tais crimes sejam etiquetados de «ateísmo militante» por alguém que não vê problemas em estar, ele mesmo, filiado a uma organização que tolerava a TFP e hoje em dia tolera a Opus Dei; uma organização que não expulsa, mas protege, os que se aproveitam de sua posição e influência para cometer o mais torpe dos crimes, o estupro da infância. Se ele não vê problemas em
estar ligado a tal instituição, se ele concorda que não se pode generalizar o todo (a Igreja) pelas partes ruins (seus membros que cometem tais atos), então ele não pode, tampouco, generalizar o ateísmo
como sendo a prática militante da tortura, só porque, no passado, houve regimes ateus que a empregaram (exemplo da URSS): pois da mesma forma o fizeram regimes «santos».

Ao fazer isso, Frei Betto incorre numa falácia lógica, numa injustiça e numa calhordice. A falácia lógica é irreversível, pois já foi dita, a injustiça pode ser minimizada por um pedido de desculpas, a calhordice, porém, só desaparecerá se, além de desculpas, Frei Betto admitir, sinceramente, que errou — algo que eu não acredito que faça.

Mas tenho esperança de que Frei Betto reflita sobre estas palavras, que ele mesmo disse:

Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo.

Se Frei Betto for honesto, como tenho esperança que seja, ele reconhecerá que os freis também não são donos da verdade e não têm o direito de julgar o foro íntimo de pessoas que não conhecem, como ele
fez ao classificar a prática hedionda da tortura como «ateísmo militante». A frase que proferiu ofende não apenas aos que não creem em Deus, como eu, mas também ofende a lógica, o bom senso e a verdade. A verdade, aquela a quem Jesus Cristo recomendou que homens como Frei Betto se apegassem.

Pois não é verdade que a tortura seja paradigma do ateísmo. Acaso não existiu uma Santa Inquisição e sua queima de bruxas? Não é verdade que a tortura seja paradigma do marxismo. Acaso não existiram os fascismos e as ditaduras de direita?

Ateísmo é meramente a ausência da crença em um deus tal como as religiões o definem. Tal ausência não é uma revolta e nem um vazio. Trata-se apenas de uma abordagem da vida que não inclui preocupações semelhantes às que movem os religiosos.

Repito: isso não é crime (ainda) e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é torturar. E muita gente que fala em Deus o tempo todo simpatiza ou simpatizou com a ditadura e seus dedicados «funcionários».