domingo, 7 de novembro de 2010

Sovietização da Política Nacional

Peço licença aos leitores do blog para compartilhar uma análise política polêmica. Neste exato momento estou tranquilo aqui em casa, resolvi cumprir uma promessa feita no Orkut, em um outro tópico, ocasião em que mencionei a suposta “sovietização” da política nacional, que parece que alguns querem implementar. Acredito que quase ninguém estava pensando em me cobrar a promessa, mas também creio que alguns poderão gostar de ler. Porém, para começar é preciso esclarecer três coisas:
  1. Em primeiro lugar, sou e sempre fui contrário às oligarquias e ao conservadorismo. Sempre fui de “esquerda”, por assim dizer. O que é mais recente em mim é o marxismo, com que só tive real contato na faculdade de História, quando já era adulto. Antes disso eu não sabia o que era exatamente marxismo porque, não custa lembrar, cresci na ditadura militar, convivendo com censura dos meios de comunicação e da escola. Quando cheguei à faculdade, em 1993, após um breve período de alienação (1990-1992) durante o qual nada estudei, foi que eu tive a oportunidade de expandir meus horizontes e compreender quem era Marx e o que ele representava.

  2. Ainda hoje, apesar de compreender os erros e excessos do comunismo, eu ainda me intitulo marxista, muito embora um marxista “cor-de-rosa”, e não “vermelho vivo”. Em suma: me identifico com a social-democracia e não com o bolchevismo.

  3. Votei em Mário Covas e Fernando Collor de Mello em 1989, Fernando Henrique Cardoso em 1994, Ciro Gomes em 1998 e 2002, Heloísa Helena e Lula em 2006 e Marina Silva e Dilma Rousseff em 2010.


Tendo esclarecido isto, creio que fica mais fácil entenderem sob que ângulo vou apresentar meus argumentos, sem risco de me tacharem de vendido.

Pouca gente sabe, mas a palavra “soviete” (russo: Совет) significa “sindicato” ou, pelo menos, um tipo de sindicato. Quando falamos de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estamos falando da união das entidades políticas organizadas através de sindicatos. Em suma: um estado corporativo, no qual todos estão arregimentados.

Isto porque na fraseologia comunista há palavras que mudam de sentido para expressar coisas que não são exatamente iguais às que estamos acostumados. Em outros casos, palavras são importadas da língua-mãe do comunismo, o russo, para expressar certos conceitos. Tal é o caso de “soviete”, “bolchevismo”, “gulag”, “kulak”, “kolkhoz”, “kombinat” etc.

Uma “república soviética” na terminologia comunista não é um país republicano, mas um país que supostamente teria optado por aderir ao Estado soviético. Desta forma, a manutenção do domínio sob os territórios anteriormente pertencentes ao Império Russo é apresentada como um processo voluntário por parte das “repúblicas” da Ucrânia, da Bielorrússia, da Transcaucásia, do Turquestão etc. O fato de estas repúblicas terem tido suas fronteiras modificadas ao bel-prazer de Moscou explica qual era realmente a relação de poder nesse caso.

O fato de somente a Iugoslávia ter usado a terminologia, além da U.R.S.S. indica o que isto significa: para os soviéticos, os demais estados da Europa Oriental estavam no mesmo nível hierárquico que as divisões subnacionais da U.R.S.S. A diferença é que os estados da Europa Oriental não eram “soviéticos”, ou seja, eles não tinham conseguido organizar-se “de baixo para cima” a partir da arregimentação do povo a fim de aderir ao projeto de poder moscovita. Por isso em vez de “república socialista soviética” estes países usavam denominações como república “popular” (Albânia, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia), “democrática” (Alemanha Oriental) ou “socialista” (Tcheco-Eslováquia, Iugoslávia), ou combinações desses termos. Os sovietes, portanto, são uma forma de organização do Estado socialista “de baixo para cima”. Anotaram?

Sovietização é o processo pelo qual a sociedade é gradualmente arregimentada ou sindicalizada através de corporações (os “sovietes”) que podem reunir as pessoas segundo suas profissões, local de trabalho, residência, grupo étnico ou atividades afins.

A diferença básica entre um sindicato como os que existem nas democracias e os sovietes da Revolução Russa é que os sindicatos existem para obter conquistas para os associados, mas os sovietes existem para executar o projeto de poder do partido que os orienta. Depois do estabelecimento do Estado socialista os sovietes se convertem em ferramentas de controle social, passando a funcionar como executores das determinações emanadas da “inteliguêntsia” e também para dar a chancela de “aprovação popular” às decisões do Partido — tal como nas cômicas votações do Soviete Supremo da U.R.S.S., com todos os deputados erguendo suas cadernetas de filiação ao P.C.U.S. (lê-se “pécus”) após cada proposição ser lida pelo Secretário-Geral do Presidium.

Parece ruim? Bem, para muita gente da esquerda nacional esse jeito de se fazer política é o último estágio antes do paraíso terrestre, a sociedade comunista.

O que estou querendo dizer aqui é que existem pessoas atualmente trabalhando pela “Revolução” no país usando como ferramenta um processo de sovietização. Ou seja: querem criar e empoderar em nosso país estruturas semelhantes aos sovietes que se desenvolveram na Rússia pré-revolucionária e que deram amparo ao golpe de estado liderado por Lênin em Novembro de 1917. Não seria errado chamar estes setores de nossa política de “bolchevistas”.

No contexto da Revolução de 1917, os bolchevistas (ou “bolcheviques”, como preferem os mais fieis à morfologia russa) queriam impor a vontade da maioria dos militantes do partido (Partido Operário Social-Democrata Russo). Os menchevistas (ou “mencheviques”) queriam fazer reformas no âmbito de um governo constitucional, respeitando a vontade da maioria dos eleitores.

Os menchevistas foram inicialmente bem-sucedidos e conseguiram formar um governo de coalizão (o gabinete de Kerenski) enquanto os bolchevistas resolveram partir para a luta armada, arregimentando os setores mais radicais da sociedade, que atuavam nos sovietes (sindicatos). Quando, no auge da crise 1917, Lênin bradou “Todo o Poder aos Sovietes” o que ele queria era esvaziar a democracia representativa, cuja expressão institucional era a Duma (Parlamento), e transferir o processo político para a “democracia direta” representada pelos sovietes.

Parece bonito na teoria, visto que a democracia representativa tem os seus defeitos e democracia direta é algo que soa como música nos ouvidos dos anarquistas. Mas anarquia é apenas uma bela utopia.

Os sovietes não eram a representação perfeita da sociedade (talvez menos que a Duma, apesar desta estar cheia de oligarcas, líderes industriais e burgueses e representantes da religião oficial). Acontecia de certos grupos não estarem representados em sovietes (os profissionais liberais, a elite, certos grupos étnicos, os camponeses etc.) e de outros serem representados mais de uma vez (os trabalhadores da siderúrgia X poderiam, por exemplo, estar representados tanto no soviete da Siderúrgica X, se ela fosse grande o suficiente para merecer soviete próprio, e no soviete dos siderúrgicos). Então a representatividade dos sovietes era predominantemente urbana, operária e minoritária. Só que isso não importava para o objetivo de Lênin, que era fazer barulho nas cidades a fim de derrubar o governo Kerenski e partir para a radicalização da “revolução”. Um dos grandes mitos do socialismo é que a revolução russa representou uma linda e espontânea “união” dos trabalhadores rurais e urbanos (representada pelo emblema da foice e pelo martelo). Os trabalhadores rurais estavam alijados do processo e só passaram para o lado dos bolchevistas depois que estes, devidamente agarrados ao poder, fizeram a célebre promessa (“Paz, Terra e Pão”).

Há várias circunstâncias nas quais o governo propõe debates com a “sociedade civil”, mas fica claro que o que assim se chama no jargão petista não é a sociedade como um todo, mas os seus grupos de pressão visíveis. Quando o governo propõe o “controle social da mídia” — por exemplo — este será exercido através de uma entidade que terá representantes do próprio governo e de mulheres, negros, minorias étnicas, homossexuais, sindicatos etc. Nota-se que grupos minoritários ou marginalizados estão representados com direito a voto, sem atentar para a representatividade global da sociedade. Por outro lado, o Parlamento eleito pelo conjunto do povo não é ouvido. O critério de indicação destes “representantes da sociedade” claramente não é de representatividade, mas apenas o de arregimentação dos grupos de pressão ruidosos. Tal como Lênin fez em 1917.

É claro que nosso “parlamento” é “para lamento”, por causa dos vários vícios que ele contém, devidos ao processo eleitoral e a uma série de outras coisas, tal como a Duma russa de 1917. Então, um parlamento deslegitimado, integrado por caciques políticos desconectados da vontade popular, se torna bode expiatório para o bolchevismo verde-amarelo transferir o poder aos nossos embrionários sovietes. Se têm dúvida do caminho, é só ver como Hugo Chávez pôde reformar o Parlamento venezuelano até torná-lo uma espécie de Soviete Supremo da República Bolivariana da Venezuela.