quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Bóris e os Lixeiros

postagem um tanto datada, resgatada de meu antigo site. E também republicada, na época, no site da revista Pandora, que, aliás, não teve a gentileza de linkar de volta. A gente cede gratuitamente o direito autoral de um texto esperando, no mínimo, a mínima publicidade de um link de volta, e isto não é feito. Triste saber que tantos sites só querem aproveitar-se dos textos alheios, sem nada dar em troca.

De todos os “Sete Pecados Capitais” a hipocrisia sempre foi o que menos agradou. Tanto não agradava que ninguém nunca a inclui na lista. Como resultado, para o cristianismo, especialmente o catolicismo, que gosta dessas listas, no céu não há ninguém de terno bonito e nenhum chef de cuisine, mas está cheio de hipócritas.

Digo isso refletindo sobre Bóris Casoy, o homem que gostava de julgar os atos dos políticos com a frase “isto é uma vergonha”. Bastou que ele fosse pilhado numa brincadeira de mau gosto para que milhões de instintivos dedos sujos o apontassem: “hipócrita!”.

Evidentemente Bóris Casoy é, como a maioria de nós, um hipócrita. Como a maioria de nossas elites ele despreza o trabalho manual, deprecia as “mãos sujas” e peles curtidas de sol. Mas há uma coisa que é clara e evidente: se aqueles dois garis humilhados pelo âncora da Band estivessem armados de revólveres e assaltassem a casa do jornalista e violentassem sua filha, certamente ele diria que “é uma vergonha” que tais facínoras estejam à solta. No entanto, em pleno ar, ele fez os dois garis se envergonharem de, em vez de assaltantes que “tacam o terror” em gente como Bóris Casoy, serem honestos trabalhadores da limpeza pública.

Algumas pessoas são naturalmente humildes e se acostumaram a ser vistas como parte do lixo que movem. Outras sentem ainda o incômodo disso. Algumas em certo momento ousarão tentar migrar da vergonha de revolver o lixo imundo da “burguesia” para a glória de fazer esses “burgueses” de joelhos implorarem por suas vidas.

Portanto, não há dúvida alguma de que Bóris Casoy foi um hipócrita ao envergonhar os lixeiros. Porém, tampouco há dúvida: estão fazendo dele um bode expiatório, pois ele não teria dito o que disse se não fosse voz corrente em seu meio. Se as pessoas com quem convive o censurassem por esse tipo de idéias, ele não as teria. Ou as teria mas não andaria falando. Portanto, muitos dos que apontam o dedo para o jornalista esposam as mesmas idéias, já foram em algum momento vistos dizendo o mesmo.

Mas quando uma figura pública escorrega, torna-se rapidamente o bode expiatório. Todos projetam no “pecador identificado” aquilo que trazem dentro de si, o seu pecado inconfesso (ou confesso). Malhar o judas é uma maneira de dizer que repudiamos a falsidade. Malhemos Bóris para mostrar que nós não somos hipócritas como ele. Mas isso é claro, não quer dizer que deveremos, a partir de agora, dar respeito aos lixeiros. Nossa virtude foi esgotada enviando o bóris expiatório para Azazel.

E Bóris Casoy sabe disso. Tanto sabe que pediu desculpas. Quem pede desculpas só o faz em duas circunstâncias: se sabe que não é necessário, ou se sabe que serão aceitas. No caso as desculpas eram necessárias, pois foi um ato vil e Bóris não é nenhum ditador acima da lei para ligar o “foda-se” e seguir com a vida. Então, obviamente, ele só pediu desculpas porque sabia que o seu público, que é tão preconceituoso quanto ele, estava pronto para perdoar seu “ato de contrição”. No Brasil todo crime é desculpável, desde que lágrimas sejam derramadas e um pedido de desculpas seja feito. Bóris Casoy nem precisou chorar (certamente porque teve o discernimento de perceber que a visão de seu choro seria uma agressão pior do que a ofensa aos lixeiros).

O jornalista não pediu desculpas porque estava sinceramente arrependido. Quem está arrependido de fato pune a própria falta. Ele estava arrependido apenas de ter sido pilhado dizendo o que disse. Como o ladrão que diz: “se não houvessem digitais minhas naquela faca”.

Pediu desculpas para preservar sua posição. Em outros lugares do mundo ele seria forçado a pedir férias e quando voltasse teria um programa menor, em horário menos importante, em um canal ainda mais obscuro, algo assim. Os anunciantes exigiriam, o público exigiria, advogados exigiriam.

Aqui não foi preciso. Ele pediu desculpas, continuou em sua cadeira e deu as notícias, inclusive com o seu conhecido comentário que virou bordão. Só isso já prova que a desculpa foi só de mentirinha, para lixeiro ver. E os hipócritas não usam o dedo imundo para trocar de canal.