quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Literatura e Política: Para Todos e Para Ninguém

Nietzsche colocou em seu livro Assim Falou Zaratustra um subtítulo interessante: «um livro para todos e para ninguém». Trata-se de uma declaração quase esfíngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ninguém? A solução do enigma surge quando você analisa o livro em si, pelo seu conteúdo e pela sua forma. Quanto à forma, é um livro para todos devido ao estilo bíblico e linear da narrativa (sim, embora escrito por um filósofo, trata-se de uma narrativa): supôs o autor que estas escolhas tornariam o livro acessível a praticamente todos os que fossem alfabetizados. Por isso «um livro para todos». No entanto, o conteúdo desta obra é particularmente difícil, por lidar com dilemas existenciais cuja própria reflexão é rejeitada por estes seres cordatos que habitam as civilizações, esse homo vulgaris que persegue a gratificação de seus desejos imediatos tal e qual um cão correndo atrás do próprio rabo. Por isso é um livro para ninguém.

Há certos assuntos sobre os quais falamos que deveriam ser também agraciados com um subtítulo equivalente: para todos, porque é perfeitamente possível falar deles de uma forma que muita gente entenda; para ninguém, porque é quase impossível achar quem se interesse por eles. Um de tais assuntos é a política.

O lugar comum (que é o sistema através do qual pensam, de forma quase exclusiva, as pessoas sem imaginação e/ou sem inteligência própria) dita (no sentido de «ditadura») que «político é tudo safado» — talvez porque as pessoas que assim o dizem espelham os políticos em si mesmas. Embora eu não ponha a mão no fogo por nenhum político, essa afirmativa é preguiçosa e burra. Preguiçosa porque é um preconceito e porque exime quem assim pensa da obrigação de informar-se (ai, isso envolve ler, ah, e ler dói), de refletir, de discutir e de concluir. É muito mais fácil dizer que todo político é safado e não ter que se dar a esse trabalho.

Como vocês já devem ter percebido, existe uma estreita relação entre a nossa postura diante dos livros e as causas desse desastre que é a nossa política. Nosso povo lê pouco, e por ler pouco ele não sabe quase nada daquilo que não diga respeito ao seu horizonte imediato. E por ser ignorante daquilo que não lhe diz respeito de forma direta, ele não é capaz de discutir a política.

Acontece que os ignorantes não vão querer admitir isso. No fundo, apesar do desprezo verbal pela cultura que vive na boca de muita gente, ser ignorante não é bonito. Então é preciso sentar em cima desse rabo grande e peludo e fingir que ele não existe. A incompetência de ter uma discussão sobre política é mascarada pelo desinteresse, justificado pela constatação, necessariamente desinformada, de que todo político é safado.

O curioso é que essas pessoas que assim pensam estão duplamente equivocadas. Não apenas estão partindo para uma conclusão preconceituosa (porque é uma generalização desinformada), mas estão abordando o problema pelo lado errado: política não se faz de cima para baixo. É perfeitamente justificável a sensação de que nós não temos nenhum tipo de controle sobre o que pensam e fazem os políticos nas altas esferas do poder. Mas eles não chegaram lá de paraquedas, eles passaram por um longo processo, que muitas vezes começou numa candidatura à vereança em sua cidade. E é nesse momento que a política distante se torna próxima que vemos, com maior vergonha, o quanto as mesmas pessoas ignorantes são também desonestas.

Safado é povo, não o político. O político é safado porque ele é parte do povo. Talvez se os nossos políticos fossem estrangeiros eles fossem menos safados (ou mais). Mas como eles são brasileiros como nós, eles são tão safados quanto somos, na média.

Safado é o eleitor que vende seu voto em troca de cimento, de um emprego, de gasolina, de um par de tênis ou de dinheiro. Quem prostitui a sua opinião em troca de vantagens imediatas (tal qual o macaco da fábula, que vende a cauda por um pão) não tem moral para acusar os nosso políticos de coisa alguma.

Safado é o eleitor que se orgulha de ser parte do curral eleitoral de um político: «aqui no bairro tal a gente vota é no fulano», ou «sicrano é o candidato da cidade X». Abdicando da própria opinião e aceitando ser levado no cabresto (como burro que é), esse eleitor vai reclamar do que?

Essas coisas que eu disse acima não são filosofias profundas, dignas de um Nietzsche, de um Schopenhauer ou de um Espinoza. São coisas simples e claras que para concluir basta você pensar com calma e somar dois com dois. No entanto elas serão incompreendidas e rechaçadas. A transparência do raciocínio será rejeitada pela oposição do conteúdo ao que é confortável ao leitor. «Eu fiz isso, diz minha memória. Eu não posso ter feito isso, diz meu orgulho. Por fim a memória cede».

Por isso estas palavras que disse são para todos e para ninguém. São para todos porque qualquer um que saiba ler as lerá e compreenderá. Para ninguém porque com elas não ganharei nenhum seguidor no blogue, não farei nenhum amigo, não receberei sequer um elogio, não mudarei a postura de um eleitor sequer. O ser humano nunca muda, de fato: apenas se torna, cada vez mais, aquilo que é. A única mudança possível é a que se faz nas gerações futuras, através da educação de nossos filhos. Esta é a tragédia da humanidade: os estúpidos têm mais filhos e têm mais tempo para ensinar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Porque o Orkut fracassou como Plataforma de Conteúdo

Esse ano, no Orkut, lá em princípios de julho de 2010, durante [mais uma] das crises da comunidade Novos Escritores do Brasil, eu fui expulso — e todo o meu trabalho em prol da comunidade, a dedicação de dois anos quase, desapareceu de um minuto para o outro, como se nunca tivesse existido. Desde então, quem entra naquela comunidade ignora quem tenha sido José Geraldo Gouvêa.

Isso me serviu de alerta pungente para algo que eu já estava percebendo há muito tempo, mas que relutava em acatar: havia alguma coisa de muito errada com a maneira como o Orkut vinha sendo usado por mim e por outros, só que o erro não estava aparente e foi preciso uma tensão forte para que a coisa explodisse e o engano ficasse bem claro, fácil de explicar inclusive.

O que havia de errado era a tentativa de utilizar o Orkut como uma plataforma de conteúdo, quando ele sempre foi desenvolvido, desde o início, como uma ferramenta para localização e desenvolvimento de relacionamentos! Parece tão óbvio, mas mesmo assim não enxergávamos o que estava bem diante de nossos narizes.

O conceito de plataforma de conteúdo que estou mencionando se refere a um sistema informático para coleta, organização e manipulação de dados textuais que permita a sua posterior preservação. Bons exemplos disso são as wikis e os blogs, sucessores dos antigos sítios estáticos da Rede. Uma plataforma de conteúdo precisa ser voltada para texto, precisa ser otimizada para texto, mas também precisa ter facilidades de acesso e manipulação de outros tipos de dados, como imagens, sons e fórmulas matemáticas.

Mas o Orkut não é isso: o seu objetivo é agregar pessoas que possuem relacionamentos reais ou que compartilham interesses comuns (criando assim, através das comunidades, amizades virtuais que podem ou não se transferir para o mundo físico — nos chamados “Orkontros”). Como o objetivo é apenas servir de suporte para conversa [na maioria das vezes fiada], as ferramentas que ele oferece são muito básicas, insuficientes para que possa ser usado de forma segura por quem produz conteúdo.

O principal problema da utilização do Orkut desta forma é o caráter discricionário da propriedade das comunidades. Desde meus primeiros tempos como “eminência parda” do proprietário lá da N.E.B. eu já alertava todo mundo: “O Orkut não é uma democracia”. Mas muita gente sonhou, por muito tempo, que o sítio pudesse ser uma maneira revolucionária de interconectar pessoas e desenvolver trabalhos literários. Ele foi, mas por pouco tempo, e somente até certo ponto.

O dono de uma comunidade no Orkut não é um presidente da república, não é um prefeito, não é nem mesmo um gerente de banco. O dono de uma comunidade é realmente dono dela, como de um feudo, e devido ao caráter virtual do relacionamento você nem pode dar um golpe militar ou cometer um atentado bem sucedido contra a sua tirania. Quem entra numa comunidade deve aceitar que ela representa a visão de seu proprietário e será sempre autoritária ou arbitrária na medida em que ele seja. A justiça do Orkut é «rápida e terrível».

Este poder de vida e morte que o dono da comunidade tem não depende de seu mérito, mas do mérito daqueles que vêm frequentar a comunidade. São eles, que pelo número ou pela produção, lhe emprestam o prestígio de poder dizer que é o dono de uma comunidade de tantos ou tais membros. Isso fica especialmente claro nos casos de comunidades “herdadas”: o carisma (ou falta dele) do dono não teve nenhum papel no crescimento inicial da comunidade, mas o tamanho dela lhe dá (ao dono) uma dimensão de poder que quase fascina. É quase natural que os donos de comunidades, exceto se forem ausentes, se transformem em ditadores e tentem impor a sua visão aos demais membros.

Isso não é um problema quando estamos falando de comunidades realmente voltadas para interesses comuns, como a “Eu Odeio Funk”, por exemplo. Não se espera que haja divergência de opinião numa comunidade dessas: todos que lá entram odeiam funk e ponto final. Mas temos uma situação delicada quando a comunidade é de uma natureza que enseja debates, que se beneficia de opiniões discordantes. O dono da comunidade, seu ditador perpétuo e onipotente (talvez seja melhor dizer até seu «semideus»), fatalmente tentará coibir estas divergências, forjar a comunidade à sua imagem e semelhança.

Como parte de sua atuação para controlar as opiniões e construir consenso em torno de si, ou melhor, de construir um culto à personalidade que é análogo ao que faziam Stálin, Hitler… e Hiroíto o dono da comunidade fará uso de uma ferramenta básica e temível, uma espécie de sentença de morte virtual: o banimento.

O membro banido se torna pária na comunidade porque é impensável defendê-lo: todos tenderão a aprovar a decisão tomada pelo führer a fim de não atraírem sobre si a sua ira. Os que não forem lamber as botas do ditador, permanecerão em sábio silêncio, afastando-se temporariamente até as coisas esfriarem. Mais do que isso, o expulso é apagado da memória da comunidade, tal como as «impessoas» imaginadas por George Orwell em 1984. Os seus trabalhos, comentários e até os traços de sua presença podem ser apagados pelo premir de um botão, tal como o Teodoro podia matar o mandarim na China no romance célebre de Eça.

A perda de todo traço da presença do expulso é um perigo real e imediato no mundo virtual. Basta que alguém no Google ache que seu blog viola algum artigo dos termos de uso e você o terá apagado praticamente sem aviso e perderá tudo, a menos que tenha feito cópia de segurança. O mesmo acontece no Orkut, só que de forma ainda mais grave: no Orkut não há cópia de segurança, há uma precariedade total dos dados.

Tudo isso que aconteceu fez muita gente pensar. Muita gente está percebendo que o Orkut é uma ferramenta falida quando se trata de conteúdo. Não é possível pensá-lo a sério como um lugar para mostrar o seu trabalho, devido ao caráter arbitrário da liderança em qualquer comunidade. Então é hora de repensar o modo como usamos esta ferramenta de contatos, o modo como produzimos e armazenamos os nossos conteúdos. O Orkut é instável demais para isso, é uma ameaça até.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Nossas Escolas Odeiam os Livros

Os professores brasileiros odeiam livros. Desde pequenos os alunos são ensinados a odiar livros e revistas. Não existe uma classe sequer de primário na qual os alunos não sejam ensinados, quase diariamente, a destruir revistas e livros «velhos» para fazer cartazes. Esses pobres livros e revistas são sacrificados como cobaias em nome do conhecimento. Crescem as crianças acostumadas a meter a tesoura no papel impresso.

Ao mesmo tempo, temos a apostila, essa descartável publicação que todo ano se renova. A apostila é o conhecimento compactado, autossuficiente e transitório. Precarizado na forma de umas páginas mal digitadas e formatas que se imprime na própria secretaria da escola. A apostila convence o aluno de que o livro bem feito não importa, a apostila «serve». Ela é barata — e isso é uma qualidade — e porque preenche a necessidade de um suporte para a aula, ela «basta».

Assim os moleques crescem acostumados a destruir livros e revistas e a ver os repositórios de conhecimento como objetos improvisados e passageiros. No futuro essas crianças não vão se importar em comprar livros, vão se contentar com cópias feitas na xerox da faculdade, que depois serão jogadas fora. As cópias não ficam marcadas na lembrança e nem sobram na estante como recordações dos tempos acadêmicos.

A nossa escola ensina o aluno a odiar livros.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ateus e Agnósticos na Internet — Um Brevíssimo Estudo

Ateu anarquista
Afirma que «deus» não existe. Mas cultua Satanás, usa símbolos sagrados pagãos no pescoço e sonha de noite com medo do inferno. São especialistas em apontar as crueldades de «deus», mas de alguma forma celebram as do diabo como atos de rebeldia.
Ateu clássico
Afirma que «deus» não existe porque as teorias que postulam sua existência não têm base factual. Considera que para que possamos considerar algo como existente é preciso primeiro evidência de sua existência e, como não se pode ter evidência da existência de «deus», devemos considerá-lo como não existente. O problema com esse tipo de ateu é que ele é minoritário e quase ninguém entende o que ele escreve.
Agnóstico-ateu
Não considera «deus» como um questionamento pertinente, pelo menos não enquanto não se souber o que seria «deus» (basicamente ele diz isso porque nunca consultou no dicionário o sentido da palavra). A maioria dos ateus são de fato agnóstico-ateus. Tentam escapar da falácia da afirmação negativa afirmando desconhecer alguma afirmação que se sustente logicamente. Aponta as contradições do teísmo como evidências de que «deus» não é conhecido e, portanto, não se deve crer que ele exista. O agnóstico ateu finge que ninguém sabe o que é «deus» a fim de poder parecer mais lógico, mais sábio, mais fofucho e mais vitaminado.
Agnóstico-filósofo
Considera «deus» uma questão de grande importância, sobre a qual, infelizmente, nada se pode saber, mas sobre a qual ele adora falar, em geral para mostrar aos ateus o quanto ele é mais rigorosamente lógico e mais inteligente do que eles. Tende a considerar «deus» como inexistente ou indiferente e só diverge do ateísmo devido à questão da negação do não provado (falácia da afirmação negativa). Mesmo assim ele faz questão de marcar a divisão entre agnosticismo e ateísmo como se houvesse uma muralha ali.
Agnóstico-teísta
Tem uma idéia formada de «deus» como algo curiosamente semelhante ao que a religião cristã prega e tem amplo conhecimento de terminologia específica de alguma denominação religiosa em particular. Mesmo assim em termos de atitude não se diferencia dos outros porque não enxerga nesse «deus»um caráter «salvífico». De certa forma, é o legítimo agnóstico «em cima do muro»: rejeita o teísmo puro porque não é burro o bastante para fechar os olhos para a lógica do que estudou, mas não parte para o ateísmo descarado porque ainda existe, no fundo de sua alma, um «medinho» de que o Velho Barbudo do Céu possa existir.
Agnóstico-crente
Além de considerar «deus» como algo idêntico ao que as religiões pregam, este tipo de agnóstico ainda se comporta com «respeito» em relação a esta crença, apenas reservando-se a não examiná-la com a lógica ou a ciência, por considerá-la «além das possibilidades» da razão. Quando confrontado em um debate, invariavelmente recairá do lado dos teístas. Qualquer religioso não fundamentalista e razoavelmente esclarecido se enquadra nesta categoria quando não está pregando.
Agnóstico orkutiano
Só é agnóstico depois de logar no Orkut, só conhece do agnosticismo uma pseudo-terminologia rasa. Mas usa o termo «agnóstico» como se fosse uma medalha que o torna melhor que os ateus. Sentir-se superior aos ateus é muito importante para o agnóstico orkutiano, também conhecido como troll das comunidades céticas.