quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Como Ferir um Vampiro

a bolinha é de papel
papel é de madeira
de madeira é a estaca
que mata o vampiro.

mas como na bolinha
resta pouco da madeira
só causa um mal estar,
uma vontade frouxa.

a bolinha justiceira
kriptonita improvisada
bala de prata precisa
matou a candidatura.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

[Auto] Censura Prévia

Estou aqui com dois ótimos contos, em fase quase de conclusão. Mas estou com receios de postá-los neste blogue. Na fase atual em que me encontro, buscando atenção e uma editora, talvez fosse interessante postar aqui alguma coisa polêmica (e nada polemiza tanto quanto falar de religião, visto que vivemos uma fase de aguçamento das sensibilidades religiosas nesse país). Porém ainda estou em dúvida se estou disposto a pagar o preço de obter tal atenção.

Um dos textos em questão, chamado «Jó e Jeová», nada mais é do uma narrativa em estilo sóbrio e seco dos episódios envolvendo os dois personagens em questão. A história é desenvolvida de forma bem próxima ao texto original, sem procurar adicionar nenhum personagem ou episódio — a não ser um pequeno desvio da trama, para enriquecer o personagem Satanás e dar mais vivacidade ao seu diálogo com Jeová. Temo, porém, que os cristãos e judeus não estejam preparados para ver a história de Jó contada numa linguagem chã e linear, como estou fazendo.

O outro texto é um conto pós-apocalíptico. Literalmente. Uma história que procura imaginar como seria viver na «Nova Jerusalém» descrita no Apocalipse. Esse é certamente mais herético, porque vai além do texto da Bíblia. Esse é o que mais me preocupa. Principalmente porque, em vez de um ateísmo marxistão e simplório, ele tergiversa com misticismos vários, Dante Aligheri e algumas doses homeopáticas de bom senso (para obter efeito contrário, como sói acontecer na homeopatia).

Ocorre auto-censura quando, mesmo não havendo leis que proíbam ou dificultem a produção ou divulgação de certos conteúdos, os autores se sentem desconfortáveis, «desconvidados» a produzi-los e divulgados por receio das consequências difusas que podem advir de sua publicidade. Este sentimento começou quando comecei a postar no meu antigo blog um texto argumentando contra a razoabilidade da crença em revelações divinas. Como o texto começava dissecando as afirmações de Maomé a respeito do Alcorão, recebi uma enxurrada de email enviado por muçulmanos. Alguns educadamente dizendo que eu estava errado e que eles oravam para que eu encontrasse a verdade, tal como os cristãos educados fazem. Outros não eram tão polidos e partiam para ameaças de diversos tipos. Um deles, por exemplo, fez questão de me lembrar que, segundo a teologia islâmica, todos somos criados «muçulmanos» e os que não se submetem de fato vivem em rebeldia contra o seu estado natural, de forma que um clérigo mais radical pode acusar qualquer um de apostasia, mesmo o suposto apóstata nunca tendo declamado a shahadda.

Quando isso aconteceu eu fiquei muito revoltado porque eu não podia aceitar que em um país livre eu tivesse constrangida a minha liberdade de expressão. Depois eu amadureci, com o tempo, à medida em que fui encontrando outras manifestações de intolerância, como os neonazis que descobriram o meu telefone e ameaçaram a minha família porque eu os ridicularizei em um debate sobre o nazismo em uma comunidade do Orkut, ou como os cristãos que disseram que enviariam mensagens ao meu empregador denunciando meu comportamento como contrário aos interesses da instituição. Estes fatos me mostraram que, de fato, não estamos em um país livre, pois não há liberdade onde não há garantia de justiça e, pior, não adianta garantia de justiça quando lidamos com fanáticos que não ligam para as consequências. Como o assassino de Theo van Gogh, que não se importaria nem mesmo de ser executado, pois crê ter prestado um serviço a Deus e cumprido em vida uma missão que é mais importante do que a vida que poderia viver se não a tivesse cumprido.

Estas coisas nos mostram que, de fato, o espírito livre está o tempo todo comprimido, a cotoveladas, pela multidão que pensa em contrário. E isso nos leva à auto-censura, pelo menos enquanto, como no meu caso, não temos poder econômico suficiente para resistir a um processo cível, que uma maneira de punir uma pessoa que não cometeu crime, forçando a gastar dinheiro em uma defesa, ou para contratar guarda-costas.

Por causa desta sensação de insegurança em que vivo, e da imagem pública que preciso cultivar em função de meu emprego, eu desisto de publicar certos textos mais polêmicos e vou postando inofensivos poeminhas e continhos mais contidos. Um dia, se virar best-seller, terei coisas mais polêmicas para postar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nacionalismo Linguístico

Dizer que nacionalismo não é uma boa coisa é praticamente um artigo de fé da esquerda e da direita. Pelo lado esquerdo, ele é visto como o grande monstro que causa as guerras, desune a humanidade e aliena o povo da luta por condições de igualdade. Pelo lado direito ele é visto como um entrave à livre movimentação dos interesses e dos capitais. No entanto, enigmaticamente, elementos nacionalistas estão presentes em ambos os discursos.

Se existe um campo onde o nacionalismo ainda encontra terreno livre para expressar-se, este é o da cultura, no qual cada país tenta defender-se do «estrangeiro» e assegurar a continuidade de sua própria herança cultural. Para o nacionalista cultural não existe, de fato, a troca de ideias e elementos entre as diversas culturas: o que há, em vez disso, é a influência assimétrica de línguas hegemônicas (como o inglês, globalmente falando). Eu tendo a acreditar que isto é verdade.

Dificilmente você encontrará muitos vocábulos de origem portuguesa, por exemplo, em qualquer outra língua do mundo. Em inglês eles praticamente não existem, e os que existem têm sentido muito específico, sendo em alguns casos herdados de séculos passados. No entanto, existe uma abundância de anglicismos em uso no português. Como acreditar na livre troca das ideias diante deste quadro. Não existe «troca» quando o movimento é num sentido único.

Claro que o tema dos anglicismos pode ser exagerado. No caso do futebol, por exemplo, houve um tempo em que todos os termos relacionados ao esporte eram importados: goalie, back, half-back, center-forward, corner, penalty, free kick, goal kick, foul, jersey, trunks, referee, linesmen, scratch… Hoje todos estes termos foram substituídos por termos em português ou então adaptados, na medida do possível: goleiro, zagueiro, volante, centro-avante, escanteio, penalidade, cobrança de falta, tiro de meta, falta, camisa, calção, árbitro, bandeirinhas, escalação. Não é, portanto, impossível que em um futuro não muito distante vejamos a substituição de termos hoje «insubstituíveis» da informática, por exemplo: mouse, driver, notebook, webcam… A substituição até já começou: placa-mãe, disco rígido, teclado, gabinete, porta, etc.

Então, devemos supor que o nacionalismo linguístico é uma besteira, certo? Talvez seja. Mas há muitos casos nos quais uma ideia parece equivocada não por estar errada, mas por identificar o alvo errado. No caso, eu acredito que o alvo do nacionalismo linguístico não deveria ser a introdução de anglicismos, que pode ter um efeito temporário, mas sim a subalternização do português diante do inglês no imaginário da juventude.

Digo isso porque é cada vez comum, os jovens recorrerem ao inglês para efeito estético. Eles querem dar nomes em inglês aos textos que escrevem, provavelmente porque acham que fica «mais bonito». Eles querem dar nomes ingleses aos seus filhos, porque chamam mais a atenção. Eles querem usar expressões inglesas em sua fala porque elas dão um «diferencial», uma distinção pessoal. Pelo menos é o que imaginam eles.

Então fica claro que não estamos diante da supressão de lacunas pela introdução de termos estrangeiros, mas de uma relação linguística na qual o português é visto como insuficiente e o inglês se apresenta como o elemento definidor de um discurso superior. Algo não muito diferente do que ocorria, na antiguidade, em terras sob o domínio romano. E lá se foram o gaulês, o helvécio, o púnico, o celtibero, o turdetano, o etrusco, o falisco, o volsco, o sabino, o britânico…

Não ouso afirmar que o português será suprimido pelo inglês, como o gaulês o foi pelo latim. Afirmar isso seria esticar demais os fatos, possivelmente até a lógica arrebentar. Mas é certo que isso, a longo prazo, tem tido efeitos negativos sobre a preservação de nosso léxico, sobre a auto-estima de nosso povo e sobre o processo de inclusão social.

Até que ponto, bem, um dia, metido em um curso de mestrado ou doutorado, eu vou tentar avaliar. Até lá, me reservo ao direito de supor, com base nos dados parciais que tenho, que a coisa certa a fazer é trabalhar em prol da preservação de minha língua. Entre outras medidas neste sentido, tento evitar o quanto possível empregar palavras de origem estrangeira.

sábado, 16 de outubro de 2010

Carta Aberta aos Autores de Cartas Abertas

Por favor, parem.

Cartas abertas não são mais uma maneira de influenciar a opinião pública. Porque quem deveria lê-las não as lê.

Obviamente cartas abertas não são escritas para serem lidas por seus destinatários, isto sempre foi óbvio. Mas por filhos, amigos, amantes, parentes. Por pessoas que teriam algum poder de influenciar a decisão dos destinatários.

Hoje isto não funciona mais. Mesmo os que saem da escola com belos diplomas na mão perderam o hábito de ler e provavelmente teriam grande dificuldade em ler uma «carta aberta» — especialmente porque esse gênero literário se caracteriza por ser mais longo que uma carta comum.

A própria «carta comum», aliás, é um artigo em extinção. Se nem mais cartas fechadas as pessoas andam escrevendo e lendo, como esperar que leiam «cartas abertas» que sequer lhes foram endereçadas?

Acredito que se queremos que a coisa funcione como antigamente as cartas abertas funcionavam — na base da pressão moral da família e dos amigos para que o escroque fizesse algo, ou deixasse de fazer — seria necessário que a carta passasse a ser fechada. Fechada com treze trancas e com uma senha criptografada de 128 bytes. Em vez da carta aberta o que funciona hoje é o dossiê.

Sim, é isso. Uma carta aberta denunciando a imoralidade é motivo de riso. Acredito que se fizermos uma carta aberta reclamando que um político está roubando merenda escolar em certo município os próprios pais das crianças prejudicadas vão achar graça da carta. As pessoas perderam a capacidade de indignar-se.

Porém, mesmo os dossiês estão com os seus dias contados. Eles só valiam (dinheiro, na base da extorsão) quando os políticos ainda tinham vergonha de ser chamados de ladrão. Hoje em dia, vergonha é perder a eleição.

Desta forma, os dossiês também estão ficando fracos, estaremos chegando à era do trezoitão? Possivelmente, visto que os nossos legisladores, em causa própria, têm produzido nas últimas décadas um código penal que procura punir o mínimo possível, especialmente se ficar comprovada a culpa (em caso de inocência ou de dúvida o acusado, se pobre, pode ter que passar anos trancafiado até conseguir ser absolvido).

Durante muito tempo o opróbrio (esse palavrão em vias de desterro para as terras do Arcaísmo) era a única coisa que atingia os políticos, em geral na forma de ovos podres e vaias. Hoje em dia as pessoas nem querem mais vaiar e há muita câmera para filmar a origem do ovo e punir o responsável.

Agora ninguém mais tem essa vergonha. Na verdade há um movimento criando força entre nossos legisladores: já que o código penal não serve mesmo para nada, melhor seria aboli-lo em sua maior parte. A ideia é a abolir do Código de Processo Penal a parte «Penal» e deixar a parte do «Processo». Assim, sempre que houver a necessidade de constranger ou punir alguém, basta o interessado (apoiado por uma alcateia de advogados) iniciar um processo contra o ofensor e sustentá-lo através de todas as instâncias do Judiciário. O interessado mais pobre perderá algum recurso ou prazo e muito dinheiro.

Como podemos ver, a prática de escrever cartas abertas se tornou anacrônica. Não só porque cartas (e crônicas) são anacrônicas em si mesmas, mas também porque não há mais como esperar que elas funcionem.

Em vez de escrever uma carta aberta, devemos fundar uma associação e mover um processo. Mas vai ser preciso muito dinheiro e um padrinho forte, porque processo sem padrinho ou sem dinheiro não vai longe: para quando esbarra no padrinho do processado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Acusações de Ateísmo

Recebi hoje uma mensagem por correio eletrônico que se propunha a desfazer um «mal-entendido» sobre nossa candidata favorita à Presidência da República. Diante do conteúdo da mensagem, da alta posição da pessoa que a escreveu, e da repercussão que isso tem tido, resolvi que deveria, também eu, dar uma resposta ao caso. A resposta que dei, a mais de cem pessoas que já estavam na lista do email, foi esta:

Amigos, eu os convoco a repassar de novo a mensagem, para tentar corrigir uma grave injustiça que foi cometida por Frei Betto, ao tentar defender Dilma Rousseff da «acusação» de ser «marxista atéia».

Em primeiro lugar, na qualidade de ateu e de marxista, gostaria de repudiar esta «acusação». Ser ateu, ou ser marxista, coisas que não são intrinsecamente ligadas, não é crime e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é o cinismo com que certos políticos tratam o povo e o descaramento com que muitos que se dizem representantes de Deus «enfiam a mão» no bolso de pobres diabos para custear seus carros e suas mansões, vampirizando o sofrimento dos desesperados. Isso é motivo de vergonha. Não acreditar em Deus é uma opção pessoal.

Portanto, o simples fato de que se esteja querendo «defender» Dilma desta acusação é um absurdo. Por que não estão tentando defendê-la das acusações de ter se locupletado à custa do erário quando era Ministra da Casa Civil? Será que roubar pode, se você acredita em Deus?

Em segundo lugar, na qualidade de cidadão, gostaria de repudiar esta frase de autoria do religioso:

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Mesmo que julgasse necessário «defender» Dilma da acusação de ser «marxista ateia» (mas não da de ser ladra), Frei Betto não precisava, para isso, ter ofendido pessoas que não têm nada a ver com a história. Não foi em nome do ateísmo que se instaurou a nossa ditadura. Não foi o Partido Comunista que desfilou pelas ruas de São Paulo e Rio ostentando os seus símbolos em repúdio a um governo democraticamente eleito e em apoio a um projeto de golpe orquestrado pela CIA. Quem fez isso foram
os católicos tradicionalistas, a odiosa TFP.

Portanto, nós ateus, não temos nada a ver com os crimes cometidos pelos ditadores desse país. Não é justo, portanto, que tais crimes sejam etiquetados de «ateísmo militante» por alguém que não vê problemas em estar, ele mesmo, filiado a uma organização que tolerava a TFP e hoje em dia tolera a Opus Dei; uma organização que não expulsa, mas protege, os que se aproveitam de sua posição e influência para cometer o mais torpe dos crimes, o estupro da infância. Se ele não vê problemas em
estar ligado a tal instituição, se ele concorda que não se pode generalizar o todo (a Igreja) pelas partes ruins (seus membros que cometem tais atos), então ele não pode, tampouco, generalizar o ateísmo
como sendo a prática militante da tortura, só porque, no passado, houve regimes ateus que a empregaram (exemplo da URSS): pois da mesma forma o fizeram regimes «santos».

Ao fazer isso, Frei Betto incorre numa falácia lógica, numa injustiça e numa calhordice. A falácia lógica é irreversível, pois já foi dita, a injustiça pode ser minimizada por um pedido de desculpas, a calhordice, porém, só desaparecerá se, além de desculpas, Frei Betto admitir, sinceramente, que errou — algo que eu não acredito que faça.

Mas tenho esperança de que Frei Betto reflita sobre estas palavras, que ele mesmo disse:

Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo.

Se Frei Betto for honesto, como tenho esperança que seja, ele reconhecerá que os freis também não são donos da verdade e não têm o direito de julgar o foro íntimo de pessoas que não conhecem, como ele
fez ao classificar a prática hedionda da tortura como «ateísmo militante». A frase que proferiu ofende não apenas aos que não creem em Deus, como eu, mas também ofende a lógica, o bom senso e a verdade. A verdade, aquela a quem Jesus Cristo recomendou que homens como Frei Betto se apegassem.

Pois não é verdade que a tortura seja paradigma do ateísmo. Acaso não existiu uma Santa Inquisição e sua queima de bruxas? Não é verdade que a tortura seja paradigma do marxismo. Acaso não existiram os fascismos e as ditaduras de direita?

Ateísmo é meramente a ausência da crença em um deus tal como as religiões o definem. Tal ausência não é uma revolta e nem um vazio. Trata-se apenas de uma abordagem da vida que não inclui preocupações semelhantes às que movem os religiosos.

Repito: isso não é crime (ainda) e nem motivo de vergonha. Motivo de vergonha é torturar. E muita gente que fala em Deus o tempo todo simpatiza ou simpatizou com a ditadura e seus dedicados «funcionários».