segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tropa de Elite: A Mitificação como Arma de Guerra

Durante décadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tráfico no Rio de Janeiro, à sombra de um coquetel de incompetência, indiferença e conveniência. Causas que me esquivo de analisar a fundo, mas que os cariocas certamente entendem bem melhor do que eu, que olho de fora e com apenas solidariedade. A derrocada deste poder paraestatal que pareceu, em certo momento, triunfar sobre o Estado — sentimento magistralmente expresso pelo gaiato que certa vez declarou que «o crime organizado triunfa sobre o governo desorganizado» — deu-se no entanto, na esteira de um curioso fenômeno sociológico que quase ninguém ainda percebeu. Do que estou falando? Bem, «tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você».

Tudo começou quando o crime organizado rompeu o acordo tácito que sempre teve com a imprensa sensacionalista: «nós fazemos a notícia, vocês fazem o noticiário». A morte de Tim Lopes sinalizou que os líderes do narcoestado em gestação haviam começado a perceber na imprensa uma fonte de problemas, não mais uma aliada. Se antes os repórteres construíam as reputações de «malvadões» — de que tanto gostavam os jovens semianalfabetos e descalços que se alçavam ao poder propelidos pelo vício das classes superiores — agora ela passava a incomodar, à medida em que expunha os excessos a que os baronetes do tóxico haviam chegado, em sua ditadura sobre as vidas dos habitantes das localidades onde haviam se instalado. Tim Lopes morreu para mostrar que a favela não era um lugar pitoresco — ao contrário do que décadas de políticos conciliadores e ONGs escorregadias tentaram fazer ver.

Mais importante do que tudo: Tim Lopes era empregado de um Leviatã midiático bem musculoso, embora ferido, as Organizações Globo. Sua morte coincidiu com a derrocada definitiva da televisão aberta no Brasil, destinada desde já a transformar-se cada vez mais num monturo fétido de sobras. A Rede Globo de Televisão, cabeça deste império, precisava buscar outras frentes de expansão para precaver-se contra a iminente e inevitável decadência de suas receitas de publicidade oriundas deste veículo. Neste contexto, a exploração de novos mercados midiáticos já era uma realidade, mas faltava à Globo obter o impacto necessário para fincar bandeira.

Ao mesmo tempo, a política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro dava sinais de agonizar: nada parecia funcionar, nada parecia adiantar. Nesse cenário de desespero, em que todos pareciam desorientados, especialmente os pobres diabos que conviviam com loucos toxicômanos tarados armados de AR-15 na vizinhança, era absolutamente imperioso encontrar um herói. Melhor ainda se este herói, bem na tradição do herói brasileiro, não fosse um self-made man ou um cavaleiro solitário, mas um líder — algo de que tanto carece esse país.

Com a colaboração dos melhores cérebros que o dinheiro pode contratar, com atores globais em profusão, aproveitados da geladeira obrigatória por que passam para evitar desgaste de imagem, eis que surge «Tropa de Elite», o filme que transforma o antes pouco conhecido Batalhão de Operações Especiais da polícia fluminense em um fenômeno de mídia inusitado e inédito. «Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você». A mensagem é dirigida ao traficante, e tem a intenção de profecia: um dia a casa vai cair e vai ser o caveira que vai dizer «perdeu, playboy» para o traficante descalço e sem camisa, cuja prisão emblemática funciona quase como símbolo heráldico da luta de classes, como expressão caricatural da subjugação do povo pela elite, quando incomodada.

Criado o mito do BOPE como reserva incorruptível dos valores da «boa polícia» e fixada a imagem do Capitão Nascimento como verdadeiro super-herói brasileiro, a Rede Globo entregou, de bandeja, nas mãos de um dos poucos governadores competentes que o Rio de Janeiro já teve desde que me entendo por gente, um cartucho de legitimidade para as forças da ordem, uma potência que poderia ser usada para terraplenar o crime organizado sem necessidade de ser politicamente correto. O povo carioca queria sangue, estava cansado de dar o próprio sangue e exigia o sangue dos bandidos (mas urina nas calças também serviria).

Não é necessário entrar nos detalhes de cada ato ou de cada política que foi levada a efeito no Rio de Janeiro desde que o primeiro Tropa de Elite invadiu a cultura de massas com sua mensagem clara de que, para o carioca e para o brasileiro, já bastava, já havia bastado há muito tempo, já havia bastado há muito tempo mesmo, só faltava os políticos, esses eternos maridos traídos, finalmente conseguirem enxergar, antes que dessem com a verdade como quem dá com o nariz na parede. O plano para matar Brizola, que aparece nessa história, não é detalhe desimportante: ele significa que é necessário matar o legado do caudilho gaúcho que introduziu a política de tolerância com a favela.

Quando Tropa de Elite saiu, alguns articulistas ventilaram na imprensa que o filme tinha uma mensagem fascista. Possivelmente. Mas poucos articulistas ventilaram que o crime organizado que se estabelecia em pseudoestado impunha, também, um totalitarismo manco.

Por isso Tropa de Elite 2 foi além do livro e colocou o Capitão Nascimento, já grisalho, tentando executar, através da política, o que não pudera executar com um fuzil na mão. Mas o poder do crime subornava deputados, juízes e sabe deus quem mais. Com o sucesso ainda maior, do segundo filme, ficou bem claro que todos que ventilassem qualquer coisa contra a arremetida inevitável contra o crime só poderiam estar mancomunados. Todos precisavam aplaudir, mesmo que tivessem as mãos sujas de sangue e o nariz entupido de cocaína.

Então, quando enfim, com apoio de blindados e bazucas, de marinha e de exército e de aeronáutica, o BOPE subiu a favela deixando atrás de si as crianças (em sua inocência) cantando o poderoso refrão, não foi inesperado que os «machos» do crime mijassem nas calças. Imaginar que dois mil homens treinados para matar estão subindo o morro atrás de você e que cada vizinho ou conhecido, de oito a oitenta anos, está com o dedo pronto para apontar seu esconderijo deve ser uma das coisas mais desesperadoras que se possa conceber. Tanto assim que o líder do Afro-Reggae chegou a declarar à imprensa que muitos chefões do tráfico estariam dispostos a render-se, que sabiam que pegariam «cana longa», alguns sabiam que até seriam mortos, mas eles pediam apenas que não fossem humilhados. Os facínoras se renderiam, até se entregariam à morte, diante de apenas a promessa de uma réstia de dignidade. Nenhum queria terminar como o Zeu, descalço e seminu, com as calças molhadas da própria urina e um olhar perdido, endurecido de medo, levado morro abaixo por um PM grisalho que tinha idade para ser seu pai. Em algum momento aquele jovem deve ter pensado na figura do próprio progenitor, de cita à mão, pronto para marcar suas nádegas de rebelde.

E assim a Rede Globo inspirou, guiu e cobriu um episódio quase orwelliano. Em que pese a necessidade de se destruir o crime, de se pacificar a cidade, de se destronar a ditadura do tóxico; é também verdade que esta destruição foi mais em efígie do que em fato, que ela foi preparada como espetáculo politicamente correto e funciona como exemplo do poder que Rede Globo ainda tem, apesar do sonho fútil de grandeza a que a Record aspira apenas. A Globo mostrou que tem o poder de produzir mais do que bordões de novela: ela produziu um mito que funcionou como instrumento de um fato histórico. Algum dia os historiadores se referirão a este ano de 2010 como o ano no qual um império midiático, ofendido em sua honra pela ousadia de matarem um protegido seu, orquestrou fria e meticulosamente, um fenômeno de massas de grande envergadura que terminou em uma cobertura jornalística de um fato real (embora transcrito da ficção).

E ficou o bordão, como um mantra a ameaçar doravante os que ousarem tentar criar outro pseudoestado ou que se opuserem à clara hegemonia cultural de que se fala: «Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.»

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cartão de Natal Comunista - Revisto e Melhorado

Depois do sucesso do «Cartão de Natal Comunista» no ano passado, resolvi dar uma «guaribada» no desenho (que tinha ficado bem chinfrim por causa da fonte Computer Modern Roman e da falta de suavização). A imagem é a mesma, os dizeres foram abreviados e a fonte trocada para Univers Condensed.

Se quiser reaproveitar a imagem em seu blogue, use este link.

P.S. - O cartão de natal comunista é uma homenagem aos colegas do curso de História da FAFIC, especialmente à turma de «melancias».

P.P.S. - O cartão é meu jeito de dizer até logo. Este blog estará de férias até o ano novo. Mas não fiquem tristes, tem muita coisa boa para ler no arquivo.

P.P.P.S. - Eu não sou comunista. Isto é apenas uma piada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MEC Fornece Pornografia às Escolas

Os pedagogos do MEC, responsáveis pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (esta peça de humor pastelão que rebatizou o ensino de português como «Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias») acharam que não seria apropriado que a obra «Caçadas de Pedrinho», de Monteiro Lobato, um clássico de nossa literatura, fosse distribuída às bibliotecas de nossas escolas públicas, afinal existem nela resíduos de racismo que podem traumatizar as crianças negras ou tornar em potenciais hitlers todas as demais.

No entanto, segundo tive o desprazer de ver hoje no telejornal matutino da Rede Record, o critério para considerar impróprio o livro de Lobato parece muito mais vago do que inicialmente parecia — e ele já parecia muito vago.

O caso é que ao mesmo tempo em que pretendeu censurar um clássico da literatura por conter trechos potencialmente racistas, o MEC não viu problema algum em distribuir a mais de quarenta mil escolas do Brasil a tradução portuguesa de um mangá de Kazuichi Hanawa intitulado «Na Prisão».

A escolha do tema já é, por si só, preocupante. Em vez de pretender ensinar conteúdos positivos para os jovens, o MEC achou que seria interessante que eles aprendessem sobre como é a vida em uma prisão japonesa. Mas me abstenho de imaginar razões para a escolha do tema e me restrinjo a tentar compreender como ou porque esta obra em especial foi aceita.

Porque Kazuichi Hanawa não a escreveu para crianças em idade escolar — e sim para adultos. No Japão o consumo de mangá e animê pelos adultos é pelo menos tão grande quanto para crianças. A temática da obra em questão não é nada «infantil»: trata-se do retrato da cruel rotina de uma prisão, na qual o protagonista encontra todo tipo de gente e ouve todo tipo de histórias — inclusive histórias que envolvem crimes sexuais (hetero e homo), uso de drogas (até injetáveis), tortura (física e mental), nudez representação gráfica de órgãos e atos sexuais (como estupro, masturbação e outras coisas).

Ressalva: como não li a obra, estou deduzindo tudo isto a partir das imagens que foram exibidas pelo telejornal e pelas descrições da obra que encontro na Internet. Mas adoraria que quem tenha lido me envie mais detalhes.

Tudo isso pode ser aceitável (e o é) numa obra voltada para um público adulto, devidamente distribuída de forma discreta e contendo na capa alerta sobre o conteúdo inapropriado. Mas como algum pedagogo resolveu achar que uma obra de conteúdo tão pesado seria apropriada para crianças que já enfrentam tanto conteúdo impróprio no mundo?

Eu ainda achava tolerável quando a obra do MEC era caracterizada apenas pela incompetência (que tantas vezes levou este órgãos a escolher os piores livros didáticos possíveis) e pelo descaso (expresso no sorridente diagnóstico de que «a educação neste país já está bem encaminhada»); mas agora tudo tomou proporções totalmente diferentes: já não se trata apenas de incompetência e de descaso, deve haver alguém deliberadamente sabotando a educação no Brasil — ou então a corrupção e a inépcia dos funcionários do MEC atingiu níveis nos quais já não seriam capazes de diferenciar entre a própria bunda e uma melancia.

Referências:

  1. Link para a reportagem no portal R7: http://noticias.r7.com/videos/escola-estadual-de-porto-alegre-rs-disponibiliza-livro-improprio-para-criancas/idmedia/9c6ccd8b5bc9f7354564c68bfd6c24f7.html
  2. Prova de que o livro foi distribuído pelo MEC: http://www.fomezero.gov.br/noticias/escolas-publicas-recebem-historias-em-quadrinhos
Agradeço quem puder contribuir scans das páginas desta história, ESPECIALMENTE scans da edição distribuída pelo MEC, que contém o selo do PNBE na capa.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em Defesa de Mayara

Mayara vocês sabem quem é. Não preciso dizer e nem ousaria. Ocuparia muito espaço com um assunto que me enjoa e enoja.

Mas, tendo dito que o assunto me enjoa e enoja, creio que já posso ir além do que todos dizem e tentar dizer algo diferente. Esta história já passou do ponto e está mais do que na hora de deixar a garota em paz!

Claro que ela disse uma coisa terrível, claro que ela cometeu uma ofensa fenomenal e certamente as consequências lhe ensinaram uma preciosa lição: a necessidade de ser comedido no que diz, seja lá o que for que diga, mas especialmente se for para dizer uma besteira. Besteiras menores geram menores consequências. Se você vai falar merda, tente que seja pouca.

Acontece que o caso já repercutiu demais. A menina está se sentindo acuada em casa, a ponto de nem poder sair na rua. Isto por ter dito algo que é meramente um crime de opinião. Por favor, pessoas aí que me leiam. Ela não matou nem estuprou ninguém, apenas disse algo que não devia ter dito.

Que a processem, que a façam pagar multa, que a façam alcançar a compreensão de seu erro de alguma forma, mas vamos parar de linchamento moral.

O que está sendo feito com ela já passou a ser calhordice. Ninguém é tão bonzinho assim, ninguém é tão isento de preconceitos, ninguém é tão perfeito a ponto de poder se julgar tão melhor do que Mayara. O que está acontecendo com ela é uma catarse, só isso. Pessoas que também são preconceituosas mas não têm coragem de declarar-se escolheram essa menina para bode expiatório. Nesse imenso e preconceituoso país há muitos que acham mais fácil participar da malhação de um judas que personifica o próprio lado escuro do que remover de si a mancha do erro e do preconceito.

Mayara é uma boba, pode até ser uma criminosa, mas as consequências que está enfrentando já vão além da medida, já se tornaram injustas pelo excesso. O excesso em resposta a um erro não contribui para nada de positivo: Mayara não está aprendendo a reconhecer o seu erro, mas apenas que a opinião da maioria é capaz de oprimir e de fazer sofrer quando você diz algo que não agrada ao grande público. Esta é a lição errada: não é isso que devíamos ensinar.

Mayara precisa de aprender a ver o mundo com olhos menos agressivos e menos egoístas. Mas quando o mundo a olha de forma agressiva e calhorda, transferindo para ela a culpa coletiva de uma sociedade na qual tantas formas de preconceito ainda coexistem, o que estará aprendendo?

Eu não concordo com o que ela disse. Mas nesse momento eu já acho que devo me solidarizar com ela. Porque ela já se tornou a oprimida nesta história.

domingo, 7 de novembro de 2010

Sovietização da Política Nacional

Peço licença aos leitores do blog para compartilhar uma análise política polêmica. Neste exato momento estou tranquilo aqui em casa, resolvi cumprir uma promessa feita no Orkut, em um outro tópico, ocasião em que mencionei a suposta “sovietização” da política nacional, que parece que alguns querem implementar. Acredito que quase ninguém estava pensando em me cobrar a promessa, mas também creio que alguns poderão gostar de ler. Porém, para começar é preciso esclarecer três coisas:
  1. Em primeiro lugar, sou e sempre fui contrário às oligarquias e ao conservadorismo. Sempre fui de “esquerda”, por assim dizer. O que é mais recente em mim é o marxismo, com que só tive real contato na faculdade de História, quando já era adulto. Antes disso eu não sabia o que era exatamente marxismo porque, não custa lembrar, cresci na ditadura militar, convivendo com censura dos meios de comunicação e da escola. Quando cheguei à faculdade, em 1993, após um breve período de alienação (1990-1992) durante o qual nada estudei, foi que eu tive a oportunidade de expandir meus horizontes e compreender quem era Marx e o que ele representava.

  2. Ainda hoje, apesar de compreender os erros e excessos do comunismo, eu ainda me intitulo marxista, muito embora um marxista “cor-de-rosa”, e não “vermelho vivo”. Em suma: me identifico com a social-democracia e não com o bolchevismo.

  3. Votei em Mário Covas e Fernando Collor de Mello em 1989, Fernando Henrique Cardoso em 1994, Ciro Gomes em 1998 e 2002, Heloísa Helena e Lula em 2006 e Marina Silva e Dilma Rousseff em 2010.


Tendo esclarecido isto, creio que fica mais fácil entenderem sob que ângulo vou apresentar meus argumentos, sem risco de me tacharem de vendido.

Pouca gente sabe, mas a palavra “soviete” (russo: Совет) significa “sindicato” ou, pelo menos, um tipo de sindicato. Quando falamos de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estamos falando da união das entidades políticas organizadas através de sindicatos. Em suma: um estado corporativo, no qual todos estão arregimentados.

Isto porque na fraseologia comunista há palavras que mudam de sentido para expressar coisas que não são exatamente iguais às que estamos acostumados. Em outros casos, palavras são importadas da língua-mãe do comunismo, o russo, para expressar certos conceitos. Tal é o caso de “soviete”, “bolchevismo”, “gulag”, “kulak”, “kolkhoz”, “kombinat” etc.

Uma “república soviética” na terminologia comunista não é um país republicano, mas um país que supostamente teria optado por aderir ao Estado soviético. Desta forma, a manutenção do domínio sob os territórios anteriormente pertencentes ao Império Russo é apresentada como um processo voluntário por parte das “repúblicas” da Ucrânia, da Bielorrússia, da Transcaucásia, do Turquestão etc. O fato de estas repúblicas terem tido suas fronteiras modificadas ao bel-prazer de Moscou explica qual era realmente a relação de poder nesse caso.

O fato de somente a Iugoslávia ter usado a terminologia, além da U.R.S.S. indica o que isto significa: para os soviéticos, os demais estados da Europa Oriental estavam no mesmo nível hierárquico que as divisões subnacionais da U.R.S.S. A diferença é que os estados da Europa Oriental não eram “soviéticos”, ou seja, eles não tinham conseguido organizar-se “de baixo para cima” a partir da arregimentação do povo a fim de aderir ao projeto de poder moscovita. Por isso em vez de “república socialista soviética” estes países usavam denominações como república “popular” (Albânia, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia), “democrática” (Alemanha Oriental) ou “socialista” (Tcheco-Eslováquia, Iugoslávia), ou combinações desses termos. Os sovietes, portanto, são uma forma de organização do Estado socialista “de baixo para cima”. Anotaram?

Sovietização é o processo pelo qual a sociedade é gradualmente arregimentada ou sindicalizada através de corporações (os “sovietes”) que podem reunir as pessoas segundo suas profissões, local de trabalho, residência, grupo étnico ou atividades afins.

A diferença básica entre um sindicato como os que existem nas democracias e os sovietes da Revolução Russa é que os sindicatos existem para obter conquistas para os associados, mas os sovietes existem para executar o projeto de poder do partido que os orienta. Depois do estabelecimento do Estado socialista os sovietes se convertem em ferramentas de controle social, passando a funcionar como executores das determinações emanadas da “inteliguêntsia” e também para dar a chancela de “aprovação popular” às decisões do Partido — tal como nas cômicas votações do Soviete Supremo da U.R.S.S., com todos os deputados erguendo suas cadernetas de filiação ao P.C.U.S. (lê-se “pécus”) após cada proposição ser lida pelo Secretário-Geral do Presidium.

Parece ruim? Bem, para muita gente da esquerda nacional esse jeito de se fazer política é o último estágio antes do paraíso terrestre, a sociedade comunista.

O que estou querendo dizer aqui é que existem pessoas atualmente trabalhando pela “Revolução” no país usando como ferramenta um processo de sovietização. Ou seja: querem criar e empoderar em nosso país estruturas semelhantes aos sovietes que se desenvolveram na Rússia pré-revolucionária e que deram amparo ao golpe de estado liderado por Lênin em Novembro de 1917. Não seria errado chamar estes setores de nossa política de “bolchevistas”.

No contexto da Revolução de 1917, os bolchevistas (ou “bolcheviques”, como preferem os mais fieis à morfologia russa) queriam impor a vontade da maioria dos militantes do partido (Partido Operário Social-Democrata Russo). Os menchevistas (ou “mencheviques”) queriam fazer reformas no âmbito de um governo constitucional, respeitando a vontade da maioria dos eleitores.

Os menchevistas foram inicialmente bem-sucedidos e conseguiram formar um governo de coalizão (o gabinete de Kerenski) enquanto os bolchevistas resolveram partir para a luta armada, arregimentando os setores mais radicais da sociedade, que atuavam nos sovietes (sindicatos). Quando, no auge da crise 1917, Lênin bradou “Todo o Poder aos Sovietes” o que ele queria era esvaziar a democracia representativa, cuja expressão institucional era a Duma (Parlamento), e transferir o processo político para a “democracia direta” representada pelos sovietes.

Parece bonito na teoria, visto que a democracia representativa tem os seus defeitos e democracia direta é algo que soa como música nos ouvidos dos anarquistas. Mas anarquia é apenas uma bela utopia.

Os sovietes não eram a representação perfeita da sociedade (talvez menos que a Duma, apesar desta estar cheia de oligarcas, líderes industriais e burgueses e representantes da religião oficial). Acontecia de certos grupos não estarem representados em sovietes (os profissionais liberais, a elite, certos grupos étnicos, os camponeses etc.) e de outros serem representados mais de uma vez (os trabalhadores da siderúrgia X poderiam, por exemplo, estar representados tanto no soviete da Siderúrgica X, se ela fosse grande o suficiente para merecer soviete próprio, e no soviete dos siderúrgicos). Então a representatividade dos sovietes era predominantemente urbana, operária e minoritária. Só que isso não importava para o objetivo de Lênin, que era fazer barulho nas cidades a fim de derrubar o governo Kerenski e partir para a radicalização da “revolução”. Um dos grandes mitos do socialismo é que a revolução russa representou uma linda e espontânea “união” dos trabalhadores rurais e urbanos (representada pelo emblema da foice e pelo martelo). Os trabalhadores rurais estavam alijados do processo e só passaram para o lado dos bolchevistas depois que estes, devidamente agarrados ao poder, fizeram a célebre promessa (“Paz, Terra e Pão”).

Há várias circunstâncias nas quais o governo propõe debates com a “sociedade civil”, mas fica claro que o que assim se chama no jargão petista não é a sociedade como um todo, mas os seus grupos de pressão visíveis. Quando o governo propõe o “controle social da mídia” — por exemplo — este será exercido através de uma entidade que terá representantes do próprio governo e de mulheres, negros, minorias étnicas, homossexuais, sindicatos etc. Nota-se que grupos minoritários ou marginalizados estão representados com direito a voto, sem atentar para a representatividade global da sociedade. Por outro lado, o Parlamento eleito pelo conjunto do povo não é ouvido. O critério de indicação destes “representantes da sociedade” claramente não é de representatividade, mas apenas o de arregimentação dos grupos de pressão ruidosos. Tal como Lênin fez em 1917.

É claro que nosso “parlamento” é “para lamento”, por causa dos vários vícios que ele contém, devidos ao processo eleitoral e a uma série de outras coisas, tal como a Duma russa de 1917. Então, um parlamento deslegitimado, integrado por caciques políticos desconectados da vontade popular, se torna bode expiatório para o bolchevismo verde-amarelo transferir o poder aos nossos embrionários sovietes. Se têm dúvida do caminho, é só ver como Hugo Chávez pôde reformar o Parlamento venezuelano até torná-lo uma espécie de Soviete Supremo da República Bolivariana da Venezuela.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nós, os Botocudos

Aprender coisas novas nos faz pessoas melhores, tal é o princípio básico que justifica que tanto seja investido, pelos nossos governos ou por nossas famílias, para que frequentemos escolas e adquiramos diplomas. Muitas vezes, o que é aprendido na «vida estudantil» não tem importância imediata; outras vezes, perturba o equilíbrio do aluno com a comunidade em que ele vive; outras, por fim, ele afeta o equilíbrio do próprio aluno, hipertrofiando certas áreas de sua personalidade enquanto reprime outras. Por esta razão, existe uma simbologia explícita na escolha do currículo pelo Estado e a definição de prioridades pela família ou pelo aluno: a determinação de ensinar isto, mas não aquilo é tão ideológica quanto a decisão de estudar com afinco uma matéria, mas não outras. Em ambos os casos, os valores envolvidos ficam razoavelmente transparentes.

Em nosso país dá-se uma importância enorme ao ensino de matemática e de português. Durante boa parte da «vida estudantil» somos bombardeados com cinco aulas de cada durante a semana, dez dos vinte e cinco horários disponíveis (incluindo os horários que ficam inexplicavelmente vagos) são ocupados por estas matérias, cinco aulas para cada uma. Esta ênfase pode não ser suficiente para evitar que a maioria de nossos estudantes (três quartos, na verdade) saia da escola com sérias dificuldades para entender textos simples, como vemos nesta reportagem da Folha de São Paulo ou neste estudo da UBE, mas é suficiente para inculcar nos alunos que português e matemática são matérias importantes e que história, geografia, literatura, ciências etc. não são.

Mas tudo se torna ainda mais difícil quando se adiciona a questão do bilingualismo ao complexo problema da incompetência generalizada da escola brasileira (sim, não existe palavra melhor para definir uma instituição que falha em 74% dos casos). Embora o Brasil seja um país de uma língua só, o domínio do inglês é visto, há muitos anos, como um diferencial para a construção de uma carreira de sucesso. Isto se deve a vários fatores, não apenas à hegemonia econômica americana; ainda que esta seja o principal. Saber inglês não é importante somente porque nos habilita a ter acesso a um vasto cabedal de conhecimentos produzidos nessa língua, é também um fetiche, uma distinção de elite, uma forma de exclusão social, uma ferramenta para deslumbrar os botocudos.

Isto explica porque nossa elite é tão permeável a anglicismos, especialmente em certos setores profissionais que funcionam à base de “buzzwords”, de “knowledge management” e “risk assessment” para o “empowerment” do “business” diante do “marketing” para agradar aos “stakeholders”. Complicar o que é fácil, turvar o que é transparente, são técnicas que aumentam a “importância” daquilo que se está dizendo, dá uma aura de conhecimento arcano, de língua sagrada, de ritual. Eu não entendo o que ele está falando, mas deve ser importante, porque tem tanta palavra bonita.

O inglês se presta a isso de forma exemplar. Não apenas por ser uma língua estrangeira, portanto capaz de adicionar o necessário grau de turbidez ao discurso de quem a emprega, mas também por ser a língua central, a língua do «império». Para legitimar essa patranha, essa gente cria o mito de que o português é «difícil» ou que é uma língua a que faltam certos mecanismos e vocábulos essenciais. As palavras inglesas entram no idioma porque faltam meios para expressar o mesmo conceito em português, pelo menos é a visão dos pajés que manipulam estes fetiches linguísticos para deslumbrar aos selvagens.

Claro que existem sempre certos conceitos que são difíceis ou até impossíveis de traduzir. Desafio alguém a traduzir para o inglês a palavra «saudade» ou alguma destas incríveis expressões populares que temos. Mas na cabeça de alguém que domina assimetricamente os dois idiomas (melhor o inglês do que o português) é fácil xingar de intraduzíveis palavras que poderiam ser facilmente substituídas por outras em nossa língua. Isto explica as palavras pomposas que apareceram mais acima, todas elas tidas como oráculos, como objetos sagrados e intocáveis, digo, intraduzíveis.

Certamente uma pessoa que tivesse bom domínio do português saberia traduzir a maior parte delas, mas ah… temos um problema: o português é uma língua «primitiva», ele «não soa tão bem» quanto o inglês, insn’t it?

E assim, nas calhas de roda
gira a entortar a dicção
este monturo de termos
que não acha tradução.