quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Revolution Pro, for Windows, Home Edition

Está na moda ser radical. Está na moda ter sonhos políticos loucos. Julian Assange é o profeta de uma geração que sabe exatamente o que fazer, e não está disposta a ser contradita.

O problema que vitima a Revolução é o inchaço. Um movimento não deve nunca crescer rápido demais. Idealmente cada novo membro só deve ser aceito depois de ser conhecido de todos os demais. Ou pelo menos por todos de sua unidade local. Quando um movimento cresce demais ele se enche de todo tipo de inúteis. Os inúteis gostam de parecer úteis e o seu modo de fazer isso é através do sufocamento da minoria que realmente importa. Inúteis adoram a democracia, detestam o mérito. Inúteis só são capazes de seguir os mortos, os presos, os distantes.

Inúteis detestam ideias práticas. Mas adoram sonhos loucos. É mais fácil conseguir voluntários para os imensos sacrifícios que nunca serão feitos do que para a longa série de pequenas tarefas que precisamos começar hoje.

Enquanto isso os idealistas. Como há idealistas nesse mundo. Aderem a todos os ideais com incrível facilidade. Aderem com fidelidade. Os idealistas não tem projetos, têm fé em seus ídolos e ideais. Em nome deles estão dispostos a fazer o que já estavam fazendo antes, mas nada novo.

A Revolução precisa ter uma versão for Windows, de preferência uma que tenha uma interface colorida, com temas, e acionada por botões com ícones lindos. Lutar por seus ideais é deixar um programa rodando em segundo plano e deus nos livre de ir para a rua protestar. Isso é coisa de boiola ou de maluco noiado que gosta de apanhar da polícia. Então vamos tentar derrubar um site usando nossos trinta notebooks acessando via linha discada. Isso é mais efetivo do que tentar fazer uma pequena parte na luta contra o monopólio digital.

Muita gente tem coragem de dizer, mas na hora em que mencionam que os IPs são logados, todo mundo enfia o cu na mão e some. Muita gente tem coragem de reclamar, mas foi só propor uma mudança de paradigma no uso do computador e apareceram setenta justificativas para mudar o mundo usando Windows, porque a mudança, a revolução, bem ela não precisa ameaçar nada do que já temos e já sabemos, não é mesmo?

Tem criança demais na Revolução, diluindo as ideias e os projetos. Tem gente ignorante demais. Gente que não sabe nem o que é História mas vem com suas pseudo teorias sobre o Estado e com diferentes propostas para qualquer coisa. Gente que nem sabe o que é um IP e quer fazer DDoS. Ninguém tem projeto, ninguém tem plano. E se você lhes sugere algo factível... ah, isso aí é irrelevante. Relevante é derrubar a lua para cortar e fazer fondue... Usando linha de pipa, é claro.

Ainda bem que Julian Assange não depende dos «ráqueres» brasileiros para lutar por si, ou estava frito. Hoje abandono a comunidade do WikiLeaks, para caçar coisa mais útil para fazer.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vai Começar... o Estupidification...

Há algumas semanas divulgou-se uma estarrecedora pesquisa segundo a qual aproximadamente 80% dos estudantes brasileiros, ao término do primeiro grau, ainda não haviam adquirido plena competência da leitura; número que não era significativamente reduzido ao fim do segundo grau (porque, obviamente, não há espaço na escola secundária para trabalhar a alfabetização), e que ainda tinha impacto nos cursos universitários. Nada menos que 5% dos formandos em cursos superiores seriam analfabetos funcionais (e uma boa outra quantidade seria incompletamente alfabetizada).

Pois bem, há alguns dias, em São Paulo, uma garotinha de doze anos morreu, em um hospital de relativo renome, porque a enfermeira lhe injetou vaselina líquida em vez de soro fisiológico.

Você consegue ver a relação entre estas duas coisas? Não? Vou tentar explicar.

Se temos uma proporção tão grande de analfabetos funcionais ao término do curso superior, se temos tantas pessoas que, mesmo alfabetizadas, ainda não têm domínio pleno da leitura, é evidente que uma boa quantidade dos profissionais que estão sendo formados neste país tem dificuldade para ler e compreender instruções, rótulos, alertas, receitas etc.

Isto quer dizer que temos médicos que desconhecem sintomas porque não leem os laudos até o fim, que temos engenheiros que calculam errado porque não entendem as especificações, que temos professores que não conseguem ensinar bem porque ainda não dominam a matéria que deviam ensinar, que temos enfermeiras que podem matar crianças de doze anos porque não leem rótulos e receitas.

Uma característica do analfabeto funcional, e também dos que, mesmo alfabetizados, têm ainda dificuldade de leitura, é a preguiça de ler. Quem não é plenamente alfabetizado procura evitar ler porque ler lhes é penoso. Quando veem um texto longo como esse, desanimam de ler e reclamam de quem escreve. Quando veem letrinhas miúdas…

O que estou querendo dizer é que a ineficiência de nosso sistema educacional está produzindo uma geração de profissionais relapsos e incompetentes, profissionais que cada vez mais cometerão erros idiotas porque não querem ler, porque leem e não entendem ou porque as instruções, escritas por outros incompetentes, não são claras. A longo prazo esta incompetência generalizada vai matar cada vez mais gente. Enfermeiras que injetarão remédio errado, médicos que vão operar a pessoa errada, engenheiros que vão calcular errado, mecânicos que não vão saber consertar direito os novos modelos, com suas estruturas complexas etc.

Se você acha que estou inventando estes números, vamos a alguns links:

Mas o que mais me espanta é, diante de tais números absurdos, a presidente eleita ter dito que «a educação no Brasil já está encaminhada». Bem, encaminhada ela está. Apenas eu e a presidente divergimos para onde.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Não, eu não vou falar de Assange

Só sei que nada sei, porque não se acha mais quem sabia.— Juca Chaves

Eu prometo que não vou falar nada em apoio ou em crítica ao Julian Assange. Silenciarei minha opinião sobre ele e seus atos com todo o cuidado que possa ter. Digo isso porque já há gente demais falando sobre isso e temo que em alguns casos elas não possam ser encontradas para esclarecer o que já disseram.

Só posso dizer que há alguns meses, numa conversa informal com amigos, discutíamos, à luz da controvérsia entre o Google e o governo da China continental (aquela que um dia chamávamos de «comunista»), como poderia ser um mundo em que aquele país seria hegemônico, em vez dos EUA. Acredito que não precisamos mais ficar na total ignorância: sob muitos aspectos, esse mudo seria assim.