quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deveríamos Declarar Guerra Total às Drogas?

Hoje tive a oportunidade de encontrar, compartilhado por um amigo virtual no Google Plus, um artigo de autoria de Richard Branson, o milionário dono do conglomerado de comunicações e transportes Virgin defendendo o fim da guerra às drogas. Após ler a opinião que ele expressou, fiquei seriamente inclinado a duvidar dos resultados, mas uma dose salutar de ceticismo precisa ser controlada para não descambar no descarte de informações que vão contra aquilo que chamamos de «bom senso» e que, na maioria das vezes, é apenas o condicionamento relacionado aos nossos preconceitos e, em nome disso, decidi que precisava refletir mais sobre o tema, não apenas checando as informações apresentadas por ele em defesa de sua opinião, mas buscando também o contradito.

Não gosto muito de iniciar este tipo de empreitada porque, cidadão do interior que sou, sofro de sérias limitações para empreender esse tipo de pesquisa fora da internet, mas a grande rede me permite ter acesso a informações que eu nem sonharia ter há cinquenta anos — e por causa disso eu me animei a fazer a pesquisa.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Xinforínfolas

O que aprendi com as discussões dos últimos dias é que a motivação por trás da manutenção da definição de “ateísmo” como “ausência de crença” é realmente política ou social, e não crítica ou reflexiva. Fosse crítica e reflexiva, seria fácil mostrar onde está meu erro — Gregory Gaboardi, em um tópico do Bule Voador.

Pois muito bem, Gregory. Vamos partir para esta tarefa. O post vai ser longo, mas espero que valha a pena. Ontem saí deste debate deixando uma pergunta que ninguém se dignou a responder. Não lamento que alguns a tenham ignorado, porque ela foi especificamente dirigida a outros. Outros como você, especificamente. Para os que não querem voltar e ler a pergunta, repito-a: Você crê na inexistência de xinforínfolas?.

Pode parecer uma pergunta idiota (e na verdade é), mas quando você troca “xinforínfola” por “Deus” você pode começar a entender aonde quero chegar. O problema está no fato de que, pelo caldo cultural em que fomos cozidos, acreditamos (isto, sim, é uma crença) que Deus é um conceito “dado”, ou seja, é um termo definido e pronto para que nos posicionemos diante dele, contra ou a favor.

Podemos detectar nesta presunção uma falácia clara de inversão do ônus da prova. Quem considera “Deus” como um conceito fechado está fugindo da obrigação de defini-lo e transfere para os demais, os que rejeitam o conceito, a obrigação de negar o que sequer foi proposto. Muito embora seja possível falsear uma negativa, neste caso a inversão do ônus da prova é falaciosa (e até arrogante) porque não está previamente acerta se o termo significa o mesmo para os dois lados do debate. Um conhecimento básico de filosofia nos ensina que o debate é um diálogo de surdos quando não se estabelece a terminologia que será empregada nele. Se eu suponho que “pau” significa “pedra” e não conto para você que estou pensando assim, você ficará incapacitado para compreender o que estou falando. Não definir um conceito é como blefar com uma mão ruim no pôquer e recusar-se a mostrar as cartas quando um oponente paga para ver.

Os proponentes do enunciado “Deus existe” não possuem, na maioria das vezes, uma definição do que seria “Deus” e boa parte deles também não consegue explicar em que consistiria a “existência” de tal ser. Se chamarmos de “Deus” a um ser mitológico que tem a função de oferecer exemplos arquetípicos para a transmissão de valores, até um ateu empedernido concordará que “Deus existe”, se a “existência” for definida como abundância de registros ou comprovação de que há ou houve pessoas que acreditavam na realidade de tais seres. Não creio que haja muita controvérsia, portanto, na minha afirmação de que só é possível debater a validade do enunciado acima se houver um consenso quanto ao significado de ambos os termos, tanto o substantivo quanto o verbo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Desimportância da Política na Sociedade Moderna

Aristóteles considerava a política uma atividade tão importante que aceitou ser preceptor de Alexandre o Grande, na esperança, talvez, de criar um rei filósofo que levasse a luz da Hélade aos bárbaros. Nunca se saberá exatamente em que estava pensando quando aceitou o emprego. Possivelmente apenas em dinheiro, visto que, na qualidade de «estrangeiro» (da maneira muito peculiar com que os gregos usavam este conceito), era o máximo a que poderia aspirar em uma cidade.

Para dar cabo de sua tarefa, ele escreveu uma obra que fundou uma ciência. Ao longo dos séculos muitos outros pensadores continuaram elaborando teses e conceitos sobre as maneiras pelas quais os senhores e os servos interagem naquilo que hoje em dia chamamos de «sociedade». Verifica-se, porém, um empobrecimento conceitual desta arte no século XX, de certa forma simultâneo ao crescimento do prestígio de um outro campo do conhecimento: a economia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Preparados Para Perder

A torcida do Santos deve estar até agora atônita com o que aconteceu em Yokohama. Menos atônita, porém, do que os próprios jogadores e a comissão técnica, que certamente ainda não se deram conta do que foi que os atingiu. Não há meias palavras para o que houve na final do Mundial Interclubes, o que houve foi uma goleada regulamentar que só não foi maior por razões secundárias: alguns impedimentos indevidamente marcados contra o Barcelona, pelo menos um pênalti não dado, um festival de erros de finalização (para os padrões do time catalão) e um certo desinteresse em dedicar-se mais.

Numa hora dessas certamente surgem as tentativas de indicar os culpados. Em um país que tem noventa e cinco milhões de técnicos de futebol (as mulheres não ligam tanto assim para o esporte), surgirão dezenas de milhões de análises e é até possível que uma boa parte delas admita o óbvio ululante de que o Barcelona foi inexpugnavelmente superior durante todo o tempo e que o santos foi absolutamente inofensivo desde o primeiro apito do árbitro. Mas poucas delas dirão o que agora vou dizer: o Santos já entrou em campo devidamente preparado para PERDER.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

«Política, Futebol e Religião não se discute»

Este é um enunciado milenar, quase inquestionado na «sabedoria» popular (que, como sabemos, votou no Tiririca). De fato a mistura costuma desandar, especialmente se as opiniões chegam ao ponto de fervura. O problema não reside, porém, nestes temas específicos, que são apenas polêmicos (sendo os dois últimos mais ou menos análogos). O problema é que a maioria das pessoas simplesmente parece não ter serenidade suficiente para enfrentar uma opinião discordante, quanto mais para encarar um confronto de ideias como uma oportunidade para aprendizado.

Há um desses «provérbios chineses» que dizem que quando duas pessoas trocam ideias, cada uma vai embora levando uma ideia a mais do que tinha quando chegou. Duvido que os próprios chineses ajam assim, visto que a teimosia parece ser um dos muitos defeitos do homem compartilhados por todas as raças, castas e credos. No entanto, é justamente entre nós, brasileiros, que isto menos se vê: os debates não são vistos de forma dialética, mas como disputas de ego. Ninguém debate pensando em sair da sala sabendo mais, todos parecem estar mais interessados em fazer o oponente sair da sala desqualificado. Os debates da Internet brasileira não são debates, são duelos.

E porque o debate se transforma em duelo, torna-se impossível chegar a um consenso. Nunca basta que um lado aceite correções, elas são vistas como demonstração de fraqueza. Não basta que um lado demonstre ter suas razões, se não conseguir derrubar as razões do outro não houve «vitória». Isto seria até compreensível se estivéssemos falando de temas sobre os quais não pode restar dúvida: ninguém discute se água é molhada ou se em setembro chove. Os debates são, por natureza, sobre os temas mais complexos, estapafúrdios, bizantinos. Isso é muito natural: não se debate o que qualquer idiota consegue entender. Talvez por isso, na falha dos argumentos, chamar o outro de idiota é sempre um recurso lembrado: se o outro é idiota isso implica que ele não tem capacidade para compreender um conceito mais avançado, então se torna desnecessário elaborar melhor o argumento. Então, se eu consigo convencer aos outros de que estou debatendo com um idiota, eu posso me declara vencedor mesmo que tenha dito que «cadeiras são ovíparos» ou que «guitarras tem gosto de novelos». A primeira vítima de um duelo verbal é a verdade: geralmente ganha uma rinha dessas o lado que consegue esmurrá-la mais.

Não me surpreende que as pessoas façam isso em nome de crenças irracionais. Eu não discuto com os adeptos de certos conceitos. Apenas sorrio e saio de fininho. Certos conceitos não podem ser discutidos seriamente, e se a pessoa acredita de verdade a gargalhada soará ofensiva. Assistir aos debates entre essas pessoas é tão surrealista quanto ouvir papo de tietes do último grupinho pop: às vezes dá vontade de chorar, às vezes de rir. Geralmente de chorar.

Mas me surpreende muitíssimo que esse nível de argumentação corrosiva, divisiva e hipócrita seja praticado por pessoas que reivindicam saber melhor. Eu mesmo já caí nessa arapuca várias vezes, e foi preciso que um palhaço me alertasse. Bons palhaços são raros, mas quando os encontramos eles sabem o que fazer para ligar no tranco o cérebro amortecido. O palhaço que me acordou me fez enxergar como eu estava sendo cínico e como me rendia a tudo que eu abominara no passado. E ele fez isso sem ter me conhecido no passado.

Mas houve um momento em que eu percebi que debater em certo nível não é interessante porque, como diria Buda, não traz a iluminação. O que aprendo digladiando-me em fóruns da web com pessoas que não estão preparadas para entender o que eu estou dizendo e que passam a odiar-me por chutar suas bengalas?

Não que eu tenha desistido de debater. Quem acompanha esse blog sabe que eu debato bastante. Apenas mudei meus alvos, passei a pensar em causas mais restritas. No momento a minha principal causa é proteger o calo que eu tenho no pé. Sempre que o pisarem eu vou gritar, e tentarei pisar no calo de quem me piso. E de resto apareço como o palhaço, na esperança de que uma frase irrisória que eu diga acorde um cérebro entorpecido de auto-confiança.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Fogo Amigo no “Movimento Ateu”

Esta semana surgiu uma polêmica no "movimento ateu" a respeito da resposta dada por Daniel Sottomaior a Ives Gandra, nas páginas da Folha de São Paulo. A visibilidade de um líder do "movimento ateu" poderia ter sido um momento positivo para dissipar dúvidas e melhorar a imagem dos ateus perante a sociedade, mas o momento não foi bem aproveitado, nem por Daniel, que, talvez por restrições de espaço, não abordou o problema com suficiente amplitude, nem por outras "seitas" do "movimento ateu", que aproveitaram a oportunidade para invalidar a intervenção de Sottomaior. Pelo que acompanhei do caso, foi assim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Porque a Omissão do Cristianismo em Relação à Escravidão Segue Doendo Tanto

Se algum ateu está dizendo que a escravidão existiu POR CAUSA do Cristianismo, então está falando merda mesmo. Tem que ir estudar antes de se achar superior. Que fique bem claro que o Cristianismo não inventou e nem sequer fomentou a escravidão dizendo que 'vai que escravizar é bom, é gostoso, agrada a Deus e não faz mal.' Essa culpa o Cristianismo não tem. Mas tem uma que não é muito diferente.

O que ocorre é que, para um sistema de crenças que se pretende revelado pela própria divindade sumamente boa, que se arroga no direito de julgar toda a humanidade (incluindo os vivos e os mortos), é lamentável que o Cristianismo tenha feito tão pouco contra a escravidão.

Mas por que deveria? Deveria porque uma doutrina divinamente revelada deveria estar à frente de seu tempo, e não "sintonizada" com ele. Se eu hoje disser que o Corinthians vai ser campeão brasileiro eu serei digno de riso. Isso seria um vaticinium ex post facto (previsão do fato acontecido). Se eu disser quem será o campeão ano que vem e acertar, aí sim será notável. Se uma religião prega, com séculos de antecedência que a humanidade deve evitar algo que mais tarde se revelaria prejudicial, então isso é notável, mas se a religião apenas endossa a prática de seu tempo, ainda que prejudicial, então ela não está fazendo nada demais.

Um exemplo: vários livros do AT recomendam aos judeus cortarem os bosques dos povos conquistados, deixando apenas as árvores frutíferas. Nos bosques se cultuava a natureza, o que era "pecado". Graças à devastação comandada por Javé a palestina desertificou-se durante a antiguidade, deixando de ser a "terra de leite e mel" do tempo pré-exílico para ser o pedaço árido que os romanos ali encontraram.

Outro exemplo: a escravidão foi a responsável pela falha estrutural da civilização greco-romana (cuja tecnologia e conhecimentos só seriam igualados no século XIX). Pode não ter sido a única, mas foi a maior culpada. Sem falar no sofrimento incrível que causou às vitimas. Ao endossar a escravidão o Cristianismo prolongou e agravou a agonia da Europa, trouxe morte e destruição ao mundo inteiro.

E digo "endossou" pelo simples fato de que tolerou. Tolerar o mal é endossá-lo. A Igreja guardiã da moral e detentora da revelação divina não achava errado escravizar ninguém. Na Bíblia Paulo até aconselha os escravos a serem submissos.

Ao fazer isso, a Igreja não mostrou revelação à frente de seu tempo, mostrou apenas estar de acordo com o espirito do temop. Tal como hoje, nessa era consumista desenfreada e tão materialista, quando as igrejas vendem Deus como produto e os milagres como um serviço garantido. De acordo com o espírito do tempo. E portanto, totalmente isentas de revelação. Obra de homens apenas. Tal como todas as religiões anteriores.

Não é preciso ser profeta para enxergar o que todo mundo vê.

sábado, 26 de novembro de 2011

O Mundo de Cabeça Para Baixo

Uma das notícias mais impressionantes da semana foi o pedido de ajuda de Portugal a Angola. Dá uma certa ânsia imaginar que outras grandes mudanças estão em gestação para este mundo que viveu os últimos vinte anos se equilibrando perigosamente na corda bamba da especulação. Até quando a Europa geriátrica ainda terá esperanças de sobreviver, se ainda tem? Não tentarão estes países, armados e famintos, tomar à força o que não podem comprar, tal como cangaceiros de filme antigo? Talvez não seja o caso do pobre Portugal, que talvez perdesse em uma batalha naval contra Andorra, mas se a crise apertar mesmo, ainda temos respeitáveis canhões na Euroamérica: Estados Unidos, Grã Bretanha, França (apesar de não ganhar nenhuma guerra desde os tempos de Luís XIV), Alemanha (esta desdentada pelos tratados do pós-guerra), Itália (apesar de sua tradição de incompetência militar nos últimos 400 anos) e Rússia. Como pode um país relativamente rico ou “enriquecente” proteger-se sem tecnologia militar de ponta? Parece que somente a China tem essa capacidade, e talvez a Índia. Daí a sorte (sorte?) de estarmos associados a eles (e numa hora dessas devemos xingar muito Collor e FHC por sepultarem nosso projeto de bomba atômica, e certo estava o louco Enéas) em vez de soltos no sertão do século XXI.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Retrato de uma Retratação

Este post pretende analisar os pontos significativos da retratação apresentada pelo Bule Voador em relação à publicação de uma notícia absurda e mentirosa, inventada por um mitômano notório. Sugiro a leitura desta postagem anterior para compreender melhor o que está sendo dito.

Não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta, mas reconhecemos que ela existiu.

Como assim, caras pálidas? Não concordam que a sua falta de cautela tenha sido absoluta? Sequer visitaram o blog do sujeito para ver qual a dele? Sequer procuraram mais informações? Se a falta de cautela não foi absoluta, me expliquem onde foi que vocês mostraram alguma cautela nesse episódio. Não ficaria mais bonito dizer que erraram e pronto? Por que relativizar o erro?

Recebemos semanalmente relatos de ateus sendo demitidos ou insultados dentro ou fora de casa por se exporem como tais, e erramos em imaginar que este fosse um caso extremo deste fenômeno existente.

O que nos faz pensar quantos de tais relatos semanais não podem ser, também, inventados por pessoas interessadas em aparecer. Será que não caberia ao bule, se pretende publicar tais relatos, passar a agir de forma jornalística e investigá-los? Infelizmente a grande mídia está decadente e o que está ficando no lugar dela é esse jornalismo podre que republica relatos sem checar nada. Por que não usar de ceticismo quanto a isso, caros amigos?

O fato é que nós nos deixamos levar pelo calor das emoções e abandonamos por um instante nosso crivo cético,

Como assim, “por um instante”? Vocês publicaram a retratação SEIS DIAS após a história ter aparecido no Bule Voador, somente depois de começarem a virar chacota na blogosfera. Por que vocês preferiram exercitar o seu “crivo cético” em relação às pessoas que estavam fazendo críticas às suas práticas em vez de admitir a coisa toda?

até por solidariedade ideológica como ateus que somos,

Pára, Eli, pára que isso é papo de partidão. Por solidariedade ideológica Sartre apoiou a invasão da Hungria pela União Soviética e John Reed fechou os olhos para as primeiras deportações étnicas. Não devemos ser ideologicamente solidários com NADA, mesmo porque, uma ideololgia é uma crença, é um tipo de religião também. Vocês estão pisoteando no túmulo de Bertrand Russell ao admitirem “solidariedade ideológica”.

sequer nos demos conta do quão incoerente, enfeitada e exagerada ela era de fato.

Não se deram conta porque não REFLETIRAM a respeito dela por mais do que alguns segundos antes de apertarem o botão de publicação. A história era autocontraditória e bastaria duas pessoas razoavelmente céticas terem feito uma análise de dez minutos e teriam indícios seguros de que não era verdade. Eu postei uma dura e total retratação NO MESMO DIA em que a história foi publicada e o link para o meu post esteve por minutos entre os comentários. Se vocês não estivessem ocupados sendo ideololgicamente solidários com os outros poderiam ter visto que nada ali se sustentava. E vocês ainda acham que houve alguma cautela nos procedimentos (“não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta”).

Depois de publicado e em função das necessárias críticas, paramos para refletir sobre o assunto,

Se não tivessem surgido as “necessárias críticas”, quanto tempo vocês teriam demorado para refletir sobre o assunto? Quantos relatos semelhantes não devem estar dormindo nos arquivos do Bule, apenas porque ninguém enfiou o dedo na ferida?

Entretanto, com tamanha visibilidade do blog, não poderíamos simplesmente apagar o post imediatamente, que, nos primeiros 30 minutos já tinha quase 700 visualizações, mesmo postado às 5h da manhã.

Então, já que não podiam apagar, a coisa certa a fazer era dizer que estavam fazendo um “experimento sociológico”? Vem cá, vocês já ouviram falar de “ad hoc”? Senta lá, Cláudia.

A demora para nos posicionarmos publicamente sobre o ocorrido foi em função de decisões em grupo do Conselho de Mídia,

Ou seja, os responsáveis pela publicação tentaram evitar a retratação ao máximo, mesmo depois de terem percebido a patranha.

mas o máximo que recebemos foram links próprios irrelevantes e muito ad hoc.

Então vocês já ouviram falar de “ad hoc”.

Lamentamos que existam ateus assim, que contam qualquer coisa para difamar religiosos, e declaramos a história contada pelo Guilherme Kempoviki uma farsa até evidência em contrário.

Como assim, “declaram”? Vocês têm o poder de decidir o que é verdade e o que é farsa? Ah, esqueci que sua falta de cautela não foi absoluta!

Eli Vieira, e outros. Lamento dizer, mas vocês se tornaram aquilo que tanto combateram: Daniel Sottomaior e sua ATEA. “Quando contemplas o abismo, o abismo também te contempla” (Nietzsche).

sábado, 19 de novembro de 2011

E Entornou o Bule

No dia dezoito saiu uma notícia absurda no “Bule Voador”, blogue que pretensiosamente se apresenta órgão oficial de uma “igreja ateísta” chamada “Liga Humanista Secular do Brasil”, que, por sua vez, se intitula como capítulo tupiniquim de uma série de movimentos gringos que incluem nomes pomposos (e devidamente gringos) como Daniel Everett e Daniel Dennet, além de expoentes do ceticismo internético nacional, como o Kentaro Mori (cujo trabalho eu respeito muito).

A postagem em questão é um relato, digno de filme de terror, sobre como um pobre ateu teria sido submetido, por uma enfermeira e em um quarto de hospital, a uma sessão de tortura que quase lhe tirou a vida. Tortura essa motivada pelo fanatismo religioso. As reações, mesmo dentro da comunidade cética, devem ter sido intensas, tanto assim que, mesmo sem retirar a postagem, os responsáveis pelo blogue trataram de trancar os comentários para evitar a saraivada de críticas que certamente estão pululando. Entre elas a minha, que eu estou compartilhando aqui, nesse humilde espaço desconhecido, já que os moderadores não a aceitaram lá.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Diversidade da Unidade

Comentário a respeito de certas observações feitas por participantes de um fórum na Internet

Um dos perigos da ideologização das bandeiras progressistas é a criação de consensos e compromissos que as atenuam de forma suave e gradual até se transformarem em sua própria negação. Um bom exemplo foi a Revolução Russa, em sua fase institucionalizada: primeiro puseram o Partido para falar pelo povo, depois os Comitê Central para falar pelo Partido, depois o Presidium para falar pelo Comitê Central.

Basicamente o que você está propondo é que em nome da "unidade" do "movimento" os "revolucionários" fechem os olhos para posturas antiéticas, contraproducentes, equivocadas e/ou simplesmente fadadas ao fracasso (por favor, o "e/ou" se refer a cada um dos itens). Alguns aqui discordaram de uma edição do vídeo que distorceria o que foi dito por Malafaia, você acha que devemos aceitar "edições de vído" em nome da coerência da "revolução". Eu, que já vi o estrago que uma "edição" bem feita pode fazer (eu tinha 17 anos incompletos em 1989), afirmo que não podemos aceitar isso com naturalidade.

Uma luta que recorre a armas falhas não pode ser bem sucedida. Porque, mesmo que vença, será uma vitória para estabelecer outro erro. O socialismo era uma ideia bonita, mas a revolução russa criou um imperialismo totalitário -- isso não foi bonito. Engraçado que por muito tempo os socialistas desculparam os desvios da revolução justamente para evitar a desunião, denunciando como vaidades fúteis e traições os casos de deserção.

O mais absurdo de se fechar os olhos a algo que achamos errado, apenas para manter a união, é que nós fechamos os olhos, mas o adversário, não. Mesmo que nós não critiquemos uma falha no "movimento", certamente o adversário a perceberá e a utilizará para seu benefício. O que o movimento ganha, então, fechando os olhos para suas contradições? Nada além de permitir que lideranças ineptas dominem o quintal. Lideranças que pregam para os conversos, mas não tem sucesso em enfrentar o mundo "lá fora".

A autocrítica não é uma fraqueza, é uma força. Um movimento que se vê "enfraquecido" pela existência de autocrítica é um movimento mentiroso, que veste uma impostura de unidade e força para consumo interno, mas que perde legitimidade perante a sociedade e perante a posteridade.

Se queremos produzir uma mudança nova, permanente e valiosa para a sociedade, precisamos que nossa luta se baseie na transparência, na ética e na racionalidade. Isso inclui aceitar a autocrítica como uma forma de detectar precocemente falhas estratégicas. Inclui rejeitar os vícios que combatemos, em vez de apenas inverter o balanço do poder, substituindo um extremo pelo outro. Inclui aceitar lideranças pela sua eficácia e pela sua coerência, e não pelo seu carisma.

Aquilo que vocês dois propuseram é uma reação imatura (quase infantil) diante do diagnóstico de um possível erro. Eu me distancio de movimentos que possuem tais lideranças e que se baseiem em tais estratégias. E acredito que todos que não queiram decepcionar-se devem afastar-se também.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Verdadeiro Autor Marginal

Post descaradamente copiado do meu outro blog, Letras Elétricas.

Você provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. Acontece que ele se tornou hoje o pivô de uma das notícias literárias mais interessantes do ano, ao tornar-se o autor do livro “A Trindade dos Super-Garotos, Livro I: A Busca pela Água”. Aparentemente não há razão alguma para que o caso seja “interessante”, mas o caso merece atenção.

domingo, 23 de outubro de 2011

Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.

sábado, 15 de outubro de 2011

Vegetarianismo de Grife Só Serve Como Consolo do Complexo de Culpa Capitalista

Reelaboração de um post feito no Paulopes, a respeito de um determinado aspecto da argumentação pró-vegetariana.

O movimento vegano/vegetariano é mais uma estratégia dos donos do poder econômico para desviar a atenção da população da real causa da escassez (que é a ineficiência do capitalismo para produzir a plenitude). Quando digo isso estou me expondo a severas críticas, tanto da parte dos vegetarianos quanto dos que são céticos em relação a teorias de conspiração. Por isso, nesta revisão de meu argumento original postado no blog Paulopes.com.br, devo ser mais rigoroso com a minha lógica e fazer a devida introdução, na esperança de ser mais claro.

Comecemos pela questão de definição do que é “movimento vegano/vegetariano”. Que fique claro que não existe tal movimento de uma forma organizada, tal como não existe um “movimento homossexual” ou um “movimento roqueiro”. O que existem são pessoas que aderem a um determinado modo de vida, seja por causa de influências genéticas/congênitas seja por causas sociais/preferenciais. Acredito que o vegeto-veganismo pertence à segunda categoria: ninguém “nasce vegetariano/vegano”, mas adota isso como estilo de vida por alguma razão. Esta alguma razão é precisamente o ponto que pretendo argumentar.

Tendo deixado claro que não estou apontando o dedo para uma suposta Internacional Vegetariana a serviço dos Illuminati, passemos à questão de quem são os “donos do poder econômico” e da razão pela qual afirmo que não estou criando uma teoria de conspiração. Que o poder econômico tem dono, nem a mais ingênua Poliana seria capaz de ignorar (a não ser retoricamente, mas isso é irrelevante). Que tal poder busca difundir seus valores através dos mais variados meios (inclusive os meios de comunicação, que ele controla), tampouco é loucura imaginar. Loucura seria dizer que o simples acesso a tais valores difundidos zumbifica de tal forma o indivíduo que ele passa a obedecer cegamente. Lavagem cerebral não funciona assim.

Quando digo que o vegetarianismo é “mais uma estratégia” dos donos do poder eu não estou dizendo que Wall Street está vendendo a ideia de que todo mundo deve ser vegetariano/vegano, estou dizendo que os valores difundidos pelos donos do poder econômico acabam levando as pessoas a desenvolver estratégias de salvação pessoal — e o vegeto-veganismo se encaixa nisso. A minha tese aqui é, portanto, a de que muitas pessoas, se não a maioria, aderem a essa dieta devido à pressão que sofrem no seio da sociedade capitalista — e não por acreditarem realmente nos valores envolvidos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Rancores da Direita

O episódio lamentável de infantilidade de nossa imprensa vendida diante do doutorado concedido a Lula pela faculdade Sciences Po1 me fez pensar no quanto as pessoas são incoerentes em seu nível de exigência. Pois é, existem pessoas que vivem frustradas por terem presenciado o naufrágio de suas ideologias diante da realidade. E destilam isso em rancores contra quem pensa diferente. Rancores que se manifestam na exigência de perfeição da parte de quem conseguiu fazer algo de bom. Aquele que é contra mim precisa ser um santo, somente os santos têm o direito de discordar de mim. E somente aquele que resolver todos os problemas tem o direito de dizer que as minhas soluções não resolvem problema algum.

Lula não é a oitava maravilha, acho-o aliás, um bronco. Mas ele fez algumas coisas óbvias, que deram certo e o país hoje está melhor do que há dez anos. Para certas pessoas, isto não basta: como ele não acabou definitivamente com a pobreza, não transformou o Brasil na maior potência do mundo, não curou o câncer, não trouxe Jesus de volta e não manifestou estigmas, então ele merece o opróbrio e a malícia daqueles que discordam dele.

É característica do medíocre não conseguir enxergar valor nas realizações alheias, especialmente nas realizações dos que pensam diferente, mesmo em tese. O fundamentalista medíocre não é capaz de dizer sequer que alguém do “outro lado” produziu algum progresso como mera estratégia para obter votos, ele afirma que o progresso foi retrocesso, que a verdade é mentira, que a mentira é verdade, que as obras não existem, que mais é menos, que menos é mais. O fundamentalista medíocre nega a existência da realidade quando ela legitima, mesmo que transitoriamente, um ponto de vista que é oposto ao seu.

Mas quando a realidade é reconhecida por outros, o fundamentalista se volta contra esses. Aqueles que reconhecem o valor de seu adversário, ou são adversários também ou então são ingênuos, são ignorantes, precisam ser educados, pelo medíocre, a respeito da realidade que são incapazes de enxergar. Daí uma repórter de O Globo tentar educar o reitor da Sciences Po a respeito dos pecados imperdoáveis de Lula.

1 Aliás, eu nunca tinha ouvido falar dessa tal faculdade, tenho de confessar. Suponho que muita gente que falou mal do episódio tampouco tinha.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Não Adianta Fundar uma Religião

Comentário postado em Paulopes.com.br. Leia a notícia original para entender o comentário abaixo.

Acredito que esta notícia nos deve trazer três reflexões importantíssimas, mas frequentemente deixadas de lado no debate entre ateus e crentes, que se desenrola aos berros e cotoveladas pela internet.

  1. A absoluta irrelevância da mensagem original de qualquer religião para aqueles que a seguem.
  2. A ineficácia da ciência como cura para os “defeitos” da cultura.
  3. A resistência da cultura diante do assalto da mudança.

Deixa eu tentar me explicar. Antes aviso a quem não gosta de ler (ou de pensar) que pule essas postagens, porque vai doer.

Não se trata de um “pecado” do Cristianismo desenvolver tantas seitas contraditórias a partir de um cerne razoavelmente limitado e coerente formado pelos três evangelhos sinóticos e as cartas pastorais de Paulo. Também isso ocorreu no Budismo e no Islamismo, e vai ocorrer com toda religião que se expandir geograficamente. O ser humano é incapaz de seguir uma ideia alheia sem acrescentar-lhe algo seu — e eu não sei se isso é ruim. A mesma mensagem que incluía conceitos como “olhai os lírios do campo”, “meu reino não é deste mundo” e “quando orardes, não façais como os hipócritas que oram nas praças e esquinas” justifica catedrais gigantescas, impérios empresariais, dízimos milionários e orações coletivas vitaminadas por equipagens de som equivalentes a de megaconcertos de música pop. Afinal, era exatamente nisso que Jesus estava pensando quando supostamente veio nesse mundo pregar, não foi?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sobre Carvões, Diamantes e o Futuro - Parte 1

Marx escreveu uma obra intitulada “Miséria da Filosofia”, em resposta a uma outra obra, de Proudhon, chamada de “Filosofia da Miséria”. O trocadilho ácido resultou no rompimento definitivo dos dois autores, mas rendeu uma longa tradição de livros, artigos e teses sobre a miséria das coisas, das pessoas e dos conhecimentos. Sem pretender calçar as botas de Marx, de Proudhon, ou mesmo do caro leitor, arremeto-me à tarefa de filosofar sobre a miséria de um outro campo de conhecimento, a História.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Os Professores Não Devem Ser “Anastasiados”

« Primeiro eles o ignoram, depois o ridicularizam, depois reagem violentamente, e então você vence. » (Gandhi)

O que governo de Minas Gerais está fazendo com os professores da rede estadual de ensino é uma queda de braço tal como a de Margareth Thatcher com os mineiros de carvão no início dos anos 80. Ele está disposto a deixar tudo quebrar e depois por a culpa nos grevistas. Thatcher não hesitou em desmantelar toda a indústria de mineração britânica a fim de esmagar o sindicalismo. Talvez o governador pense em desmantelar definitivamente toda a educação no estado a fim de definitivamente subjugar os professores.

Ele não vai ceder porque sabe que, se ceder, terá aberto um precedente e outros que ganham salários inconstitucionais em outros lugares do Brasil também se revoltarão. Por isso, por debaixo dos panos, ele deve receber os mais diversos apoios. Os meios de comunicação, por exemplo, estão com ele.

domingo, 28 de agosto de 2011

Pondé e a Frustração Como Defeito de Caráter

Em seu recente atentado polêmico via Folha de São Paulo, o “filósofo”1 Luiz Pondé tratou de atacar as interpretações da esquerda para o fenômeno recentemente ocorrido na Grã Bretanha, e o fez empregando um discurso tão reacionário que não pode restar dúvida alguma do lado em que se situa: Pondé cruzou o limite que separa esquerda e direita.

A dicotomia esquerda/direita é um pouco mais complexa do que normalmente se entende — e diferente. Ela é anterior ao marxismo, de forma que reduzir esquerda e direita a uma rusga entre socialistas e burgueses é impróprio. Esquerda e direita são situações diferentes em face de um mecanismo que perpassa toda a História: a luta de classes.

Historicamente a Direita se coloca ao lado do status quo, dos donos do poder, das estruturas tradicionais, enquanto a esquerda se coloca ao lado dos rebeldes, dos excluídos do poder, das estruturas inovadoras. Assim é desde a Assembleia Constituinte, na Revolução Francesa. O marxismo só se tornou importante na esquerda porque era uma ideologia “nova” e surgida entre os “excluídos”, com o objetivo de dar-lhes objetivo comum. A direita também produziu suas ideologias para consumo do povo.

domingo, 31 de julho de 2011

Porque Devemos Evitar o Termo “Revisionismo”

O termo “revisionismo” não deve ser jamais utilizado em uma discussão sobre História. Há três boas razões para isso.

  1. O termo é uma ofensa a qualquer historiador, pois sugere que revisões do conhecimento histórico estabelecido são raras, que as teses dos historiadores estão, de alguma forma, solidificadas. Nada é mais distante da verdade: poucos campos do conhecimento humano são mais aberto a controvérsias do que a História. Até mesmo o ponto de haver quem negue o caráter científico da História justamente por essa amplitude das discussões. Falar em “revisionismo” como se fosse algo especial é passar atestado de ignorância sobre a natureza e os procedimentos da História enquanto campo do conhecimento humano.
  2. O termo, em si, é uma falácia. Nenhum pesquisador deve (ou deveria) eleger um método como o objetivo de seu trabalho. Tal como o objetivo do médico é curar, e não operar. O historiador não tem obsessão de “revisar”, mas de obter o conhecimento mais próximo possível da “verdade” (seja lá o que for que ele tome como tal). Alguém que se diz “revisionista”está colocando o questionamento como uma finalidade em si, independente de qual seja o objeto do estudo. Não deve ser assim: devemos estudar o objeto e revisar as teorias a partir dos dados coletados. Uma atitude “revisionista” está para a História assim como o criacionismo está para a Biologia: parte-se de uma necessidade a priori de questionar o estabelecido e busca-se indícios que justifiquem este questionamento, não com o objetivo de propor uma teoria alternativa, mas de demolir a explicação existente. Revisionistas são como criacionistas. O que quer dizer que eles são necessariamente ignorantes, falaciosos ou picaretas.
  3. Existe um grupo de pessoas que propõe o revisionismo com objetivos nada louváveis: aquelas pessoas que querem remover do racismo e do anti-semitismo o opróbio que justamente lhes caiu em cima como consequencia do horror da Segunda Grande Guerra. Querem remover esta mancha a fim de poderem novamente difundir estas ideias. Portanto, para evitar de ser associado a estas pessoas, ou de indiretamente dar fôlego aos seus movimentos, você deve evitar usar esta terminologia específica, que eles sequestraram para si.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Migrando do Wordpress

Este blog havia sido originalmente criado no Wordpress, mas resolvi migrá-lo para o Blogger por uma série de razões, das quais a principal é mesmo a simplificação. Já estou familiarizado com a estrutura do Blogger, sei meu caminho aqui com certa facilidade até. Inclusive acredito que trazendo o “Arapucas” para cá eu poderei até ganhar mais seguidores do que tinha, dadas as minhas conexões e outras coisas.

Portanto, a partir de hoje, todas as novas postagens serão feitas exclusivamente aqui, embora eu ainda não vá dar a notícia do lado de lá.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Ateísmo É Incompreensível Até Para a Maioria dos Ateus

Na verdade os ateus entendem a existência de crentes. O que ocorre é que há muitos ateus por aí que dizem sê-los, mas se comportam exatamente do modo que reprovam nos crentes. Tornam-se sectários, orgulhosos e preconceituosos.

É muito fácil tirar um homem de dentro da igreja, difícil é o homem tirar a igreja de dentro de si. Esses hábitos adquiridos desde a infância são renitentes. Não admira que os crentes façam tanta questão de ensino religioso, escola dominical, etc. "É de pequenino que se torce o pepino."

É parcialmente sincera a afirmação de muitos crentes, incapazes de entender a existência de ateus. Eles foram criados dentro de um mundo no qual ateísmo não existe, foram doutrinados desde cedo. Para eles o ateísmo é incompreensível.

Na verdade, para a maioria dos próprios ateus o ateísmo é incompreensível. Ateísmo não é filosofia, não é resposta, não é muleta para amparar ninguém.

"Saber" algo sobre o ateísmo é algo impossível, a não ser que você chame de "ateísmo" ao conjunto de comportamentos e teorias desenvolvidos em torno da descrença.

Existe um modelo teórico para isso: os buracos negros (que não podem ser estudados diretamente) são conhecidos através do estudo das alterações que fazem no universo ao seu redor. O estudo do ateísmo seria o estudo do que está ao redor da descrença em si, da mesma forma.

Tudo isso é um tanto sofisticado para a maioria das pessoas. Talvez por isso os ateus mais jovens (ou os menos experientes, independente da idade) recaiam em fórmulas fáceis como "Jesus foi um mito", "Deus não existe", etc.

É muito mais fácil recorrer a frases afirmativas. Só que tais frases não dizem nada. Nenhuma frase de efeito diz coisa alguma. O que importa não são as palavras, mas o que elas dizem. Se você não compreende porque diz a frase, dizê-la é como repetir um mantra em sânscrito, como fazem os Hare Krishna.

Eu não tenho preconceito específico contra os Hare Krishna. Na qualidade de ateu, me reservo ao direito de considerar TODAS as religiões falsas. Sou diferente de alguns "ateus" por aí que adoram falar mal do cristianismo mas "respeitam" outras religiões. Religiões são criações humanas.
Em relação aos Hare Krishna, conheço bastante quem são e no que creem. Inclusive tenho o Bhagavad-Gita Como Ele É aqui em minha estante. Já participei como espectador de alguns eventos Hare Krishna. Pelo que vi, são crentes em coisas tão absurdas quanto qualquer seita cristã. Inclusive Prabhupada escreveu que a Lua fica mais distante da Terra que o Sol, para se ter uma ideia.
Mas se o exemplo dos Hare Krishna cantando mantras lhe incomoda, vamos usar o dos católicos rezando terços. Em ambos os casos as pessoas sabem o que significam as palavras (no caso dos HK, eles sabem porque lhes foi dito, pois as palavras estão em uma língua morta). A diferença é que falar mal dos católicos é mais "aceitável" entre os "ateus" do que falar mal dos Hare Krishna ou dos umbandistas.

Existe um problema muito grave com a definição mais usual de "ateísmo". Inclusive a que aparece nos dicionários. Normalmente o sufixo "a" é usado como uma forma de negação sem oposição. Para memorizar seu sentido, lembre-se das palavras "amoral" (sem moral) e "imoral" (contrário à moral). "Ateísmo" seria a ausência de uma crença ("teísmo", crença em deus) e não uma oposição a essa crença. Só que "iteísmo" não existe e as pessoas acabam usando a palavra "ateísmo" também para atitudes contrárias à crença.

Estritamente falando, "não crer" em deus(es) já é ateísmo. Não há necessidade de nenhuma postura intelectual ou paradigmática. O problema é que o tema é tão carregado que o debate tende a se polarizar e as pessoas que não creem se veem forçadas a afirmar que o objeto no qual não creem não existe.

Por essa razão o debate se torna cada vez mais complexo. Por isso os crentes ficam confusos sem saber o que exatamente é ateísmo. E por isso a maioria dos ateus acaba se perdendo também. Achando que ser ateu é mais ou menos uma religião ou um partido político.

domingo, 29 de maio de 2011

Para que aliar-se ao PMDB?

Quem se alia ao PMDB é como quem se casa com mulher da zona, coloca a esperança acima da expectativa. A diferença é que as prostitutas costumam ser mais fieis aos seus compromissos do que os políticos do PMDB. Pergunto-me sempre: o que leva alguém a fazer uma aliança com esse bloco amorfo de fisiologismo?

Claro que o PMDB é um partido grande, mesmo tendo cessado, há décadas, de ser um grande partido. Claro que ele contém muitos votos, mas é uma bobagem pensar que ele “agrega” esses votos porque, quando a chapa esquenta, os deputados do PMDB se rebelam contra seus líderes (ou às vezes os próprios líderes se rebelam contra seus compromissos) e votam em função de seus interesses paroquiais.

Desta forma, uma aliança com o PMDB acaba sendo inútil porque não vai melhorar a situação do bloco situacionista. No recente episódio da aprovação, contra a vontade do governo, do medonho projeto de desmatamento da Amazônia (pois é nisso que consiste o abantesma que foi aprovado pela Câmara) o PMDB (situacionista) foi mais oposição do que o PSDB (oposição aberta). Querem ver por que?

Dos 73 deputados do PMDB presentes à votação, 72 votaram “sim” à proposição, embora o líder do governo tenha recomendado o voto “não”. Isso dá 98% dos votos. O PSDB, que é oposição, teve 45 votos “sim” entre 49 deputados presentes. Isso dá 91%.

A matemática prova, portanto, que teria sido melhor a presidente Dilma ter feito uma aliança com o PSDB, inimigo declarado, do que com o PMDB, partido de traíras, que enfiam a faca pelas costas. Os votos do PSDB foram votos de oposição, os do PMDB foram votos de traição.

Continuo me perguntando: para que serve uma aliança com o PMDB se 98% de seus deputados votarão contra a recomendação do líder do governo? Teria sido melhor governar com minoria (e destinar os ministérios do PMDB a nomes técnicos) do que lotear o primeiro escalão e levar esta facada pelas costas.
Presidente Dilma: livre-se desse encosto. Melhor negociar com o Aécio do que com o PMDB.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Relativismo no … dos outros é refresco

Comentário a postagem do blog do Paulo Roberto Lopes.


A questão dos costumes tribais dos povos ditos “primitivos” é um dos temas mais espinhosos com que nos deparamos. Os espinhos a que me refiro estão ligados às contradições de nossa cultura dita “civilizada” e à maneira como ela encara as demais culturas do mundo.

Durante muito tempo os “africanos”, os “muçulmanos”, os “orientais” e os “aborígines” foram vistos como seres de segunda ou de terceira classe na humanidade, pessoas às quais não se aplicavam, pelo menos não integralmente, os valores do ocidente. A raiz do relativismo cultural se nutre, e muito, da continuidade de tal preconceito. Até há poucos anos, por exemplo, a voz corrente da “intelligentsia” internacional era de que os “povos muçulmanos” não teriam qualquer apreço pela democracia, com a qual o Islã seria incompatível. Os recentes movimentos nos países do Norte da África e do Oriente Médio deveriam ter envergonhado essa gente distinta que acha que tem a régua para medir a cultura alheia. Mas eles são ensebados e espertos e encontrarão uma maneira de continuar com credibilidade. Basta sacrificar os nomes proeminentes, como fizeram com Francis Fukuyama, o profeta do “fim da História” e arauto do consenso de Washington.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mais Compreensão do que Estudo…

Não é a primeira vez que eu vejo esse tipo de opinião circular pelo mundo. Mas desta, como apareceu na Internet, percebi que era preciso comentar.

A história tem tantos lados quanto podemos imaginar. E, na boa, história exige mais compreensão do que estudo: decorar datas é mais fácil que compreender os fatos nelas ocorridos. Como todo mundo se mete a entender de história só porque viu… documentários, leu meia dúzia de livros tendenciosos e viu o horário político, a nossa ciência está jogada na lama.Mas, tudo nesse mundo tem salvação (assim espero)…

Esta é só uma pequena postagem no Facebook, mas ela reflete de várias maneiras a ideia distorcida que os brasileiros têm da História — e das ciências humanas também, de certa forma. O autor disso provavelmente imaginou que estava sendo um paladino da ciência, e é normal que pense assim, pois esse tipo de pensamento recebe aplausos fáceis, até mesmo entre os profissionais de ensino: é praticamente uma tradição de nosso país considerar as ciências humanas menos importantes, concepção cristalizada até nos quadros de horários de nossas escolas, nos quais Português e Matemática têm cinco aulas semanais, enquanto História e Geografia têm somente duas cada. Então o que esse rapaz disse é fruto de um sistema que ensina desde cedo a desconsiderar como “menos importantes” certas áreas do conhecimento humano. E as pessoas propagam isso, sem perceberem que estão papagaiando um discurso ideológico alienante e obscurantista. Vamos demonstrar as falácias deste raciocínio:

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Colonialismo Não Morreu, Só Mudou de Cara

Você já deve ter ouvido falar da famosa Teoria de Conspiração segundo a qual os Estados Unidos planejam tomar a Amazônia do Brasil, no todo ou em parte. Esta história tem rondado a conversa de muitos políticos de esquerda há décadas, apesar de frequentes desmentidos e do fato de que é uma teoria muito maluca. Para começar, basta analisar os precedentes de ocupação de território pelos EUA: quase sempre resultam em fracasso, não necessariamente a longo prazo. Diante dos sucessivos fiascos de tentativas anteriores, fiascos no sentido de prejuízo monetário maior do que os possíveis ganhos, é pouco possível que exista ou venha a existir algum plano de tal natureza por parte do governo americano (pelo menos enquanto pessoas absolutamente estúpidas, loucas e megalomaníacas não tiverem controle total do sistema político ianque, o que não é absolutamente assegurado para sempre). Mas há mais teorias rondando as cabeças dos políticos e economistas do que somos capazes de conceber. E parece haver, de fato, um plano para tomada e ocupação de território em países do terceiro mundo (sob o cuidadoso disfarce de tratados internacionais e boas intenções). Eis o mais extraordinário.

terça-feira, 29 de março de 2011

...E Acreditam nas Flores Vencendo o Canhão

Há um verso de profundo desencanto no [hoje maldito] hino dos “Anos Rebeldes” brasileiros. Ao criticar de forma velada o movimento hippie (e outros movimentos de paz e amor), Geraldo Vandré constatou: “pelas ruas marchando indecisos cordões que ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão.”

Há uma poesia profunda no gesto de entregar flores aos agentes mandados pelo governo para matar você. Rende lindas imagens para os canais de notícias, rende heróis que serão lembrados por décadas ou séculos, mas raramente rende progressos reais — a menos que as flores sejam entregues dentro de um contexto favorável a flores. Há momentos históricos favoráveis ao canhão, e eles são a maioria. Na verdade é apenas por exceção que a flor adquire algum poder.

No seu romance “infantil“ intitulado “O Menino e o Presidente”, o escritor Wilson Rio Apa imaginou um perfume, inventado por acaso por um grupo de crianças, a partir de um laboratório de química deixado por seu falecido avô. Esse perfume tornava as pessoas “legais”, tornava-as empáticas, bem intencionadas, bondosas. Ao perceberem o efeito, as crianças resolvem dar o perfume, embebido em um buquê de rosas, ao Presidente da República. Deve ter custado muita coragem ao autor para escrever isso nos anos 70, plena época de ditadura e torturas. Ainda mais que no livro as crianças, identificadas como perigosos subversivos, são presas, separadas dos pais e mandadas para lugares diferentes do mundo (com a leve sugestão de que elas seriam, na verdade, mortas ou abandonadas para morrer). Linda história infantil, linda lição de moral. Cresci com o trauma de ter lido esse livro. Mas acredito que traumas assim fazem falta, ajudam as crianças e entenderem uma certa noção de valores, que é preciso ser “legal” nesse mundo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Regra Universal da Pronúncia Inglesa

O Orkut anda cheio de spam, isto é inegável. Boa parte deste spam deriva de uma fonte única, a divulgação de uma obra chamada “Regra Universal da Pronúncia Inglesa” (que vou chamar de RUPI de agora em diante, por economia de espaço) que se propõe a ensinar qualquer pessoa a assimilar a pronúncia daquele idioma sem esforço. Embora eu não seja um especialista em ensino de línguas modernas (nem tampouco de línguas antigas, diga-se de passagem), o referido método apresenta certos aspectos que não me caem bem, que vou comentar no texto a seguir, originalmente publicado por mim, sob pseudônimo, em comunidade literária naquele sítio de relacionamento.

Jonathan Swift conta, em suas “Viagens de Gulliver”, que em certo país fictício, encontrado pelo herói, haviam inventado uma tinta mágica que era usada para escrever as complicadas fórmulas da álgebra em biscoitos de aveia: as crianças que comessem dos biscoitos aprendiam imediatamente a fazer os mais complicados cálculos. Acontece que tal tinta era de um gosto tão horrível que as crianças não o conseguiam suportar e cuspiam fora com tanta vontade que era praticamente preciso amarrá-las e enfiar à força os biscoitos pelas suas bocas adentro. A moral da história é simples: não há uma maneira “fácil” de se chegar ao conhecimento. Se você não investe tempo e dedicação, terá de passar por provações talvez piores. Hoje em dia os que querem aprender rápido não passam pela tortura de serem alimentados à força, mas costumam ficar aliviados de uma boa parte do dinheiro que ganham tão suado.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Formas ateístas de ser religioso

Eu tenho tentado não ser excessivamente polêmico em meus debates no Orkut, afinal moderação é uma qualidade. Mas diante da insistência de certas posições “iluminadas” por aí e da forte tendência a um consenso (coisa que absolutamente não é recomendável num debate entre céticos), vejo-me forçado a fazer uma intervenção mais provocativa que — tenho certeza — fará poucos pensarem, mas atrairá muita ira sobre mim. “Matem o mensageiro” parece ser uma prática comum diante de fatos ou relatos que não agradam.

Uma característica do ser humano é procurar atribuir significados transcendentais aos seus atos. Nós precisamos que nossos atos tenham implicações além do mero momento, além da pura satisfação. Uma das maneiras de fazer isso é através da religião. Ela permite que sublimemos muitos aspectos de nossa personalidade. Um assassino, por exemplo, pode tornar-se um cruzado. Um tímido pode virar um sacerdote e seguir o celibato. Um suicida se transforma em um mártir em troca de setenta e duas virgens. Um toxicômano vê deus quando toma o santo daime. Todos estes atos (matar, abster-se do sexo, matar-se, drogar-se) respondem a necessidades que derivam, por sua vez, da personalidade de cada um e das circunstâncias. Eles podem ser reprimidos (mas nós, é claro, vivemos numa época em que reprimir as coisas é caretice) ou podem ser vividos. Mas se tivermos que vivê-los, é melhor vivê-los de uma forma que seja respeitável. Se for possível o respeito da sociedade, ótimo. Mas se não for, o respeito próprio já está bom.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vashti: A Feminista Original

A Rainha Vashti era uma mulher muito bonita, segundo reza o livro. Tinha de ser, pois os reis antigos eram bem exigentes quanto a isso. A história de sua desgraça exemplifica muito bem como as religiões abraâmicas veem as mulheres e quais são os valores sociais nos quais somos educados.


“Vashti recusa o chamado do rei” — pintura de Edwin Long (1829-1921)

Durante um banquete dado pelo rei aos seus sátrapas, ministros e funcionários — um banquete que já durava sete dias — o rei, alegre pelo vinho, pediu aos seus camareiros que trouxessem a rainha diante dos convivas, para que o rei lhes exibisse a sua beleza.

Há duas interpretações para a natureza do chamado que Assuero faz:

  1. Embora isto não seja dito diretamente no livro, está implícito que a rainha foi convocada para aparecer em trajes sumários, pois completamente vestida a sua figura já devia ser conhecida de todos, não fazendo sentido que o rei a mandasse chamar para isso. Outros indícios das intenções do rei se encontram nas observações, algo maliciosas, de que ele se encontraria “com o coração alegre pelo vinho” e de que os camareiros deviam trazer a rainha “vestindo sua coroa”. Mais à frente o texto bíblico enfatiza que a razão pela qual Assuero fez-lhe tal pedido era que Vashti era “bonita de se olhar”. As representações tradicionais da cena sempre colocam-na vestida de uma camisola—sugerindo que ela se encontraria no harém real. Esta sugestão fica mais forte quando consideramos que Vashti estava dando seu próprio banquete para suas amigas, parentes e visitantes, no momento em que foi chamada.
  2. Uma outra possível interpretação é de que realmente não haveria nenhuma nudez, mas que a simples aparição pública de Vashti seria inaceitável, pois nas culturas do mundo antigo era a norma que as mulheres ficassem protegidas da visão profana (em um harém, por exemplo). Neste contexto, a indecência não estaria nos trajes sumários da rainha, mas em trazê-la — sem véu — diante de um número indistinto de homens, nem todos de alta classe social, apenas para mostrar o quanto era bela. Temos um aspecto de sacrilégio envolvido, além da pura humilhação pessoal de Vashti.

As intenções de Assuero eram totalmente fúteis: exibir a mulher, como um bibelô, diante de uma multidão de homens bêbados. Vashti era, para Assuero, apenas algo bonito de se olhar, uma joia rara que ele devia mostrar aos seus convivas. A convocação de Vashti era uma humilhação, especialmente se considerarmos o papel sagrado que as rainhas ainda possuíam em certas culturas antigas, antes do predomínio do patriarcalismo que está expresso, por exemplo, no Livro de Ester. As circunstâncias do banquete de Assuero são uma afronta completa à dignidade de Vashti enquanto rainha, mulher e ser humano — e por isso não era mais do que natural que ela hesitasse em obedecer. A desobediência de Vashti pode ter três significados, dependendo de como a história for interpretada:

  1. Trata-se de uma manifestação ainda de autoridade, em desafio ao poder monocrático do rei. Neste contexto, a rainha reivindica para si algo da dignidade ancestral da mulher, em uma época e em uma cultura na qual o matriarcado ainda não estaria totalmente esquecido. Esta tese não faz muito sentido se tomarmos o contexto medo-persa, pois tais povos eram pastores e patriarcais há milênios. Mas faz sentido se ela fosse originária de uma cultura diferente.
  2. Trata-se de uma atitude coerente com o papel religioso que a rainha poderia ter, seja no culto oficial persa, seja no culto originário no qual Vashti se inscreveria, no caso de ser estrangeira.
  3. Pode ser uma recusa pessoal a ser exibida como um troféu no salão de banquetes do palácio. Esta interpretação, algo curiosamente, é a que a Bíblia tenta nos convencer a aceitar. De certa forma, é a que parece fazer, também, mais sentido.

Conclui-se isso porque os conselheiros reais argumentaram com Assuero que a recusa de Vashti era uma afronta não apenas ao monarca, mas a todos os homens do Império Persa, cujas mulheres começariam a desobedecer se soubessem que o próprio rei não tinha a obediência da rainha. Então, para evitar que tal coisa acontecesse, Assuero rejeita Vashti, recusando-se a recebê-la (ou seja, negando-lhe não apenas sexo, mas uma descendência) e tomando para si várias concubinas entre as donzelas do reino. Uma destas foi Ester, que justamente obteve seu status graças à sua estrita obediência a Assuero.

Mas antes de passarmos a falar de Ester, é preciso notar a total ausência de julgamento, na Bíblia, sobre a ética do rei em exibir sacrilegamente a beleza de sua esposa. Certamente naquela época a ICAR não havia inventando os “sete pecados capitais”, mas fica claro aí que o rei cometeu, no mínimo, o pecado da futilidade (que não é capital, mas deveria ser). Só que isso não interessa ao autor bíblico: quem teria de se haver com Deus por seus pecados seria o rei em pessoa: à mulher cabe obedecer até quando o marido lhe ordena que cometa um pecado (pois, logicamente, a mulher — eterna criança — não é nem responsável por seus atos perante Deus: é o marido que por ela responde).

Seja qual for a relevância que se atribua aos atos posteriores de Ester (salvar todo o povo judeu, por exemplo), é inegável que a mensagem que se passa é de que se você desobedece ao seu marido, será abandonada e ele escolherá outra mais jovem; mas se você o obedece, consegue influenciá-lo de forma que ele fará o que você deseja.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Como Espalhar Desinformação Entre os Ignorantes

Faça perguntas carregadas

Afirme perguntando: “Fulano é ladrão?” Você não tem nenhuma ideia de culpa do fulano, mas a insistência em perguntar faz com que todos desconfiem dele. E você, claro, inocente como só, nunca poderá ser acusado de acusar ninguém: “Eu só estava perguntando?” Boas perguntas carregadas criam assuntos, em vez de comentar sobre o que já se fala.

Faça negações complicadas

Certas negações são tão difíceis de decodificar, especialmente quando redigidas por alguém com talento para advogado, ou quando a entonação prejudica a conexão entre o que se nega e a negação propriamente dita, que funcionam como afirmativas. Como bem dizia Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”.

Use a ignorância a seu favor

Uma regra de ouro da propaganda é que nenhum bicho de estimação é tão querido quanto a ignorância que cada um tem dentro de si. Faça um ignorante acreditar que “já sabe”, dispensando-o do labor terrível de ter que aprender, e ele aceitará com grande facilidade o que você quer. Por isso, seja qual for seu objetivo, cuide para que ele esteja em sintonia com as crendices e as distorções que já são encontradas no seio do seu público. Parta desta maçaroca de erros e preconceitos, adule a estupidez e introduza sua pequena palha no monturo da mentira.

Com esta receita, muito best-seller se escreve.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Minhas Previsões de Ano Novo

Esse começo de ano é o momento em que ledores de mãos, botadores de tarô, jogadores de búzios e outros quejandos conseguem minutchinhos de fama na televisão para falar bobagens a respeito do ano novo. O objetivo da televisão é meramente encher linguiça — e não há melhor modo de fazer isso do que dando ao telespectador a ração de ignorância e superstição que ele tanto aprecia fuçar. O objetivo do «místico» da vez é sempre aparecer, fazer propaganda de si mesmo e de seus «talentos sensoriais» a fim de conseguir fregueses.

E já que tem tanta gente fazendo isso, e ligando para isso, e ganhando dinheiro com isso — por que não eu? Exercitar-me-ei em uma série de predições para o ano novo.

Bem, e com que base o farei — decerto indaga algum espírito-de-porco que me lê. Evidentemente com toda a base necessária: algum conhecimento oculto, que só eu entendo, ligado a um talento especial, que só pessoas como eu entendem. Então você não tem que perguntar como eu sei dessas coisas, tem só que acreditar que eu obtive essas revelações. Se insistir muito, eu lhe digo que sou formado em História e como diz o Paulo Coelho, numa célebre letra cantada pelo Raul Seixas: Eu sou astrólogo, eu conheça a História do princípio ao fim. Exato, isso mesmo, você entendeu. Na qualidade de licenciado em História eu possuo conhecimentos para interpretar os rumos arcanos dos acontecimentos e fazer extrapolações sensatas para o futuro. E tenho certeza de que minhas previsões fazem mais sentido do que as do «Jorge da Fé em Deus», o célebre pai-de-santo baiano que previu que o Brasil ganharia a Copa do Mundo de 1982 e ainda decretou o adversário e o placar: Brasil 2x1 Argentina.

Seguem as previsões:

  • O ex-vice presidente José Alencar terá graves problemas de saúde.

  • O Flamengo anunciará planos de contratar pelo menos uma grande estrela do futebol internacional, mas não vai contratar ninguém.

  • Um parente de Michael Jackson dará entrevista a algum programa de televisão nos Estados Unidos afirmando que ele foi assassinado!

  • Silvio Berlusconi fará declarações polêmicas, que irritarão os líderes de outros países.

  • Os baianos afirmarão ter inventado um «novo ritmo» que, no entanto, será igual ao pagode e só terá um passinho diferente na dança.

  • Barack Obama terá dificuldades para implementar seus planos de governo.

  • Celso Roth não terminará o ano como técnico do Internacional, a menos que vença o campeonato gaúcho.

  • O presidente Lula seguirá tendo grande influência sobre o governo.

  • Haverá um golpe de estado em um país da África.

  • O site WikiLeaks publicará alguns segredos militares americanos.

  • O primeiro ministro do Japão renunciará.

  • A China apertará a censura contra sua população, especialmente na Internet.

  • A AIDS fará muitas vítimas no mundo inteiro, especialmente na África.

  • Haverá uma epidemia de dengue no Brasil.

  • Julian Assange será absolvido da acusação de estupro.

  • Paulo Coelho receberá uma homenagem no exterior.

  • Um astro do futebol brasileiro será contratado por um clube da Europa.

  • Haverá um atentado terrorista protagonizado por muçulmanos radicais.

  • Uma célula de simpatizantes do nazismo será «estourada» pela polícia no Brasil.

  • As seleções brasileiras participarão da Liga Mundial de Vôlei.

  • A Rede Globo apresentará no dia 31 de dezembro de 2011 um programa gravado contendo trechos musicais interpretados por números de sucesso da música popular.

  • Jorge Kajuru será processado.

  • Muitos técnicos perderão seus cargos nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.

  • Acusações de corrupção derrubarão um político no Brasil.

  • O resultado do Carnaval carioca será muito polêmico.

  • Haverá grande atrito político entre a Coreia do Norte e a do Sul, mas não guerra declarada.

  • Eu lançarei um livro, pela Editora Multifoco.

  • Um líder muçulmano conclamará seus seguidores a matar uma personalidade europeia ou americana que supostamente ofendeu o Islã.

  • Palestinos serão mortos pelas Forças de Defesa de Israel.

  • Um brasileiro vencerá corridas de automóvel no exterior.

  • «Lula, O Filho do Brasil» não vencerá o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

  • São Paulo sofrerá com alagamentos causados por chuvas de verão.

  • Um novo modelo de automóvel será lançado.

  • O papa dará uma declaração sobre planejamento familiar.

  • A tese do Aquecimento Global Antropogênico sofrerá duras críticas de «pesquisadores independentes».

Quem quiser mais previsões, pode também consultar o Capitão Óbvio.