terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Formas ateístas de ser religioso

Eu tenho tentado não ser excessivamente polêmico em meus debates no Orkut, afinal moderação é uma qualidade. Mas diante da insistência de certas posições “iluminadas” por aí e da forte tendência a um consenso (coisa que absolutamente não é recomendável num debate entre céticos), vejo-me forçado a fazer uma intervenção mais provocativa que — tenho certeza — fará poucos pensarem, mas atrairá muita ira sobre mim. “Matem o mensageiro” parece ser uma prática comum diante de fatos ou relatos que não agradam.

Uma característica do ser humano é procurar atribuir significados transcendentais aos seus atos. Nós precisamos que nossos atos tenham implicações além do mero momento, além da pura satisfação. Uma das maneiras de fazer isso é através da religião. Ela permite que sublimemos muitos aspectos de nossa personalidade. Um assassino, por exemplo, pode tornar-se um cruzado. Um tímido pode virar um sacerdote e seguir o celibato. Um suicida se transforma em um mártir em troca de setenta e duas virgens. Um toxicômano vê deus quando toma o santo daime. Todos estes atos (matar, abster-se do sexo, matar-se, drogar-se) respondem a necessidades que derivam, por sua vez, da personalidade de cada um e das circunstâncias. Eles podem ser reprimidos (mas nós, é claro, vivemos numa época em que reprimir as coisas é caretice) ou podem ser vividos. Mas se tivermos que vivê-los, é melhor vivê-los de uma forma que seja respeitável. Se for possível o respeito da sociedade, ótimo. Mas se não for, o respeito próprio já está bom.

A religião cristã não é, porém, a única válvula de escape do transcendentalismo. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja do que tirar a igreja de dentro dele. Há maneiras seculares de sublimação que funcionam da mesma maneira. Porque o transcendental não é cristão. Ele é anterior ao cristianismo, anterior à própria religião. Séculos antes de os primeiros deuses serem imaginados, certamente o homem já tinha uma percepção de transcendentalidade.

Um usuário de drogas, por exemplo, muitas vezes, dirá que usa não porque gosta da onda mas porque a droga o relaxa, ajuda a meditar, abre as portas da mente ou simplesmente o separa dos “caretas”. Um leitor compulsivo poderá dizer que seu hábito de leitura não é uma mera fruição estética, mas uma forma de adquirir conhecimentos. Isto vale para atos “negativos” e “positivos”. Atribuir um significado transcendental aos seus atos não é uma justificativa moral perante a sociedade, mas uma forma de conectar-se a um “nível superior”, uma espécie de imanência que nos liberta da prisão do instante e nos conecta a algo “além”.

As pessoas não agem assim por acaso. Este é o famoso “ranço religioso” de que tanto falam nos círculos ateístas. Religião não é só o cristianismo e sua moral. A prostituição ritual nos templos da antiga Babilônia ou os sacrifícios humanos dos astecas eram tão sagrados e respeitosos quanto as irmãs de caridade com seus “trajes de voar” e seus himens intactos (supostamente). O ranço religioso não se manifesta na adesão a uma série de dogmas, mas em estar ainda preso a um modo de pensar que independe dos dogmas.

Isto me lembra como alguns aqui relatam que o sexo os “libertou”. São ateus, afirmam estar fora da esfera da religião. Mas mesmo assim procuram ressignificar as suas práticas sexuais. Dar-lhes uma roupagem racional, uma finalidade. Não. Não são adeptos do sexo promíscuo simplesmente porque resolveram trepar. Não. Seus atos têm uma motivação superior: são atos libertários, cheios de significado. São uma forma de revolucionar a sociedade, de reformar a si mesmos. Pensam exatamente como o jovem muçulmano fundamentalista que se mata em um atentado acreditando que seu ato está mudando o mundo. Eles precisam pensar desta forma para poderem levar a efeito o seu ato sem autopiedade, sem culpa e — acima de tudo — com a cara cheia do orgulho de estarem mudando o mundo “errado”.

Sinto muito, garotos. Vocês só trocaram de religião. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja, do que tirar a igreja de dentro do homem.