sábado, 19 de fevereiro de 2011

Regra Universal da Pronúncia Inglesa

O Orkut anda cheio de spam, isto é inegável. Boa parte deste spam deriva de uma fonte única, a divulgação de uma obra chamada “Regra Universal da Pronúncia Inglesa” (que vou chamar de RUPI de agora em diante, por economia de espaço) que se propõe a ensinar qualquer pessoa a assimilar a pronúncia daquele idioma sem esforço. Embora eu não seja um especialista em ensino de línguas modernas (nem tampouco de línguas antigas, diga-se de passagem), o referido método apresenta certos aspectos que não me caem bem, que vou comentar no texto a seguir, originalmente publicado por mim, sob pseudônimo, em comunidade literária naquele sítio de relacionamento.

Jonathan Swift conta, em suas “Viagens de Gulliver”, que em certo país fictício, encontrado pelo herói, haviam inventado uma tinta mágica que era usada para escrever as complicadas fórmulas da álgebra em biscoitos de aveia: as crianças que comessem dos biscoitos aprendiam imediatamente a fazer os mais complicados cálculos. Acontece que tal tinta era de um gosto tão horrível que as crianças não o conseguiam suportar e cuspiam fora com tanta vontade que era praticamente preciso amarrá-las e enfiar à força os biscoitos pelas suas bocas adentro. A moral da história é simples: não há uma maneira “fácil” de se chegar ao conhecimento. Se você não investe tempo e dedicação, terá de passar por provações talvez piores. Hoje em dia os que querem aprender rápido não passam pela tortura de serem alimentados à força, mas costumam ficar aliviados de uma boa parte do dinheiro que ganham tão suado.

Quando eu era criança, eram inúmeros os métodos de “Inglês Sem Mestre” ou de “Aprenda Matemática Dormindo”. O método miraculoso sempre se baseou, porém, numa curiosa relação: você paga primeiro e depois “se vira” para aprender com o método que lhe é ensinado. As pessoas compravam aqueles livros de “Alemão Sem Mestre” e ficavam balbuciando aquelas frases, imaginando, desesperadas, que esses exercícios a tornariam capazes de usar a língua de uma maneira útil. Até hoje me lembro de algumas que decorei naquela época: “Wir haben keinen platz!”, “Wo wären Sie wahrend das Krieges in Deutschland?”, “Der Wein ist sauer!”, mas se tivesse de ir à Alemanha hoje eu provavelmente não conseguiria conversar com ninguém que não fosse, como eu, fluente em inglês ou espanhol.

No caso específico do ensino de idiomas, sempre houve muita picaretagem. Cursos honestos, que se baseiam em pelo menos alguma vaga noção de pedagogia, jamais prometem “inglês rápido” em dois anos (ou menos) sem sequer diferenciar se o candidato a poliglota já estudou alguma língua (ou alguma coisa) antes e sem avaliar o grau de aptidão de cada um.

Certamente que é possível aprender uma língua em dois anos. É possível aprender até em menos tempo do que isso. Tudo depende de fatores variados, que nenhum curso do mundo tem como controlar: idade do aluno, número de idiomas que já domina, talento natural para línguas, dedicação do aluno, idade em que aprendeu o primeiro idioma etc. Além de outros elementos que o curso manipula, como método, horas/aula, formação do instrutor etc. O que não é possível fazer é formatar um curso com a promessa de aprendizado em determinado período de tempo (cada vez menor, na competição suicida do capitalismo educacional) sem distinguir estes pontos que influenciam no sucesso da promessa. Um curso honesto é aquele que faz o melhor possível, e não o que promete o impossível.

Mas há muitas pessoas que odeiam a honestidade porque ela conta que terão de esforçar-se para conseguir o que querem. O ser humano odeia o esforço e comprará soluções mágicas que lhe facilitem isso. É só ver os anúncios na televisão, de máquinas de musculação que não exigem esforço! Falta pouco para prometerem musculação por correspondência. As pessoas preferem pagar por ilusões, fingir que podem milagrosamente livrar-se de seus problemas. Para estas pessoas há todo tipo de promessa, e prometer dá dinheiro, especialmente quando você cobra antecipadamente por algo que, no fim das contas, dependerá do esforço de quem paga, e não da qualidade do que se vende.

Mas qual é o problema com a RUPI?

O problema principal é que ela explora a ignorância. Qualquer pessoa com algum conhecimento de pedagogia voltada para o ensino de línguas percebe o embuste em três tempos. Mas quem não sabe nada se impressiona com a prestidigitação feita pelo criador da RUPI.

Em primeiro lugar, o autor ignora que o inglês, de fato, não possui uma equivalência segura entre a forma escrita e a pronúncia porque as convenções ortográficas se baseiam em duas tradições diferentes (anglo-normando e anglo-saxão) e refletem a pronúncia do século XVII, época em que palavras como “deaf” e “leaf” faziam rimas perfeitas nos sonetos dos poetas. Claro que ainda existe alguma consistência residual, mas esse primeiro problema é suficiente para complicar de tal forma a questão do aprendizado da pronúncia que se torna desonesto tentar convencer alguém que é possível aprender a pronúncia de qualquer palavra a partir de certos grupos.

O segundo problema é a variedade dialetal, que faz com que a mesma palavra tenha pronúncias radicalmente diferentes em cada lugar. Um bom exemplo são os cognatos de “direct”. Na Grã Bretanha a pronúncia mais usual é “dairect”, “dairector”, “dairection” etc. Nos EUA a pronúncia mais usual é “direct”, “director” … Mas o verbo “redirect” não é pronunciado na Grã Bretanha com o ditongo em vez da vogal! Esse foi só um exemplo, mas há inúmeros outros. Eles adicionam mais exceções dos que a já aceitas pelo RUPI, tornando mais difícil conceber um sistema uniforme e confiável.

O terceiro problema é supor que o aprendizado das convenções de pronúncia seja um problema relevante no aprendizado de um idioma. Tal concepção se baseia no uso de métodos atrasados de ensino, que recorrem ao texto impresso. Uma língua é um meio de comunicação primordialmente oral. Se as crianças aprendem a falar antes de escrever, é uma coisa antinatural querer que os alunos aprendam uma língua a partir de sua escrita. Todos os métodos pedagógicos modernos de ensino de línguas se baseiam na imersão e na prática oral. Não há necessidade de aprender as convenções de pronúncia de forma insistente, pelo simples fato de que você já aprende as palavras pronunciando-as.

Mas mesmo que não haja condições, em sua cidade ou curso, para fazer uma imersão — e você seja forçado a aprender a partir da escrita, como se fazia na Idade Média — você ainda poderá contar com um consolo animador: a quantidade de palavras necessárias para uma comunicação a nível básico (cujas pronúncias podem ser aprendidas simultaneamente com seus significados) geralmente é menor do que a quantidade de regras e exceções que você tem que aprender. Dá menos trabalho estudar cada palavra com sua pronúncia (recorrendo ao famigerado dicionário) do que memorizar dezenas de regras e suas exceções. Uma rápida pesquisa na Internet lhe revelará a surpreendente informação de que o vocabulário básico necessário para a comunicação quotidiana, em qualquer língua, não passa de mil palavras!

Vamos comparar estas mil palavras com o que promete a RUPI: “Os elementos fonêmicos básicos da REGRA são cerca de 1.000”. Ou seja, se você resolver adotar a RUPI, você terá decorado MIL REGRAS que apenas lhe ensinam a ler, como um papagaio, palavras cujo significado você não entende. Em vez disso, poderia ter gasto este tempo aprendendo MIL PALAVRAS, com suas pronúncias e significados, habilitando-se a atingir a proficiência básica necessária para o idioma. Conclusão: a RUPI atrapalha em vez de ajudar.

O quarto engano grave cometido pelo autor do método é que as suas regras de pronúncia se baseiam na “pronúncia figurada”, ou seja, uma tentativa de explicar a pronúncia dos vocábulos estrangeiros usando convenções ortográficas do português, resultando em coisas como “Iunáitid Kíndom”. Este sistema, além de simplesmente ridículo de se ver, também atrapalha em vez de ajudar. Acontece que já existe um sistema científico, difundido e eficiente para representar a pronúncia de uma língua. Este sistema é o Alfabeto Fonético Internacional, ou IPA. Ensinar o IPA em vez da grafia do “Iunáitid Kíndom” capacita o aluno a compreender as chaves de pronúncia que se acham nos dicionários (sempre em IPA) e permitem que o aluno, caso algum dia estude outro idioma, reutilize este aprendizado como base para o novo estudo. Resumindo: a “pronúncia figurada” é uma gambiarra tosca que pode até dar a impressão de ajudar em um momento inicial, mas na prática ela oferece um avanço ilusório e depois coloca o aluno diante de um beco sem saída. Se o professor ensinar IPA desde o começo, o aluno poderá rapidamente adquirir vocabulário (com pronúncia razoável) por seus próprios meios.

Outro grave equívoco da pronúncia figurada é dar ao aluno a falsa impressão de que as palavras do idioma inglês podem ser pronunciadas com os mesmos fonemas a que estamos acostumados em português. Acontece que a língua inglesa tem um conjunto de fonemas bastante diferente do português, sob várias formas. Não apenas o inglês tem (na pronúncia padrão britânica) 22 fonemas vocálicos (simples ou ditongados) contra 14 em português (vogais longas ditongadas não existem em nossa língua), como tem 24 fonemas consonantais contra 16 do português (em ambos os casos podendo haver variações dialetais). Não há correspondência exata entre os dois conjuntos de fonemas.

Para piorar as coisas, ainda há casos óbvios em que a pronúncia da consoante em português difere da pronúncia em inglês, especialmente em posição final de sílaba. Sem falar que existem no inglês certas correspondências fonéticas inexistentes em português, como o fato de que P, T e K são geralmente aspirados (Ph, Th, Kh) enquanto B, D e G não são, ou as curiosas transformações que as consoantes dentais (T e D) sofrem diante de R, S e I. A RUPI se baseia, então, no equívoco de que é possível haver um terreno comum entre a fonética de ambos os idiomas só porque ambos empregam o alfabeto latino.

A questão da diferença fonética é importante porque, ao aprender através de uma pronúncia figurada ilusoriamente fácil, o aluno tende a adquirir um sotaque carregado e dificilmente compreensível por um falante nativo. Esta dificuldade decorre do fato de que o reconhecimento das palavras só ocorrerá se o interlocutor (também lusófono) for capaz de associar uma palavra escrita a uma sequência de fonemas portugueses macaqueando uma pseudo-pronúncia do inglês. O resultado disso é que o inglês aprendido com a ajuda da RUPI será mais facilmente compreendido por quem fale português do que por pessoas realmente originárias de outras culturas, tornando-se, assim, inútil naquela que é a principal função de uma língua estrangeira que aprendemos: possibilitar comunicação com estrangeiros.

Mas é evidente que o principal ponto fraco do método é mesmo o fato de seu próprio criador admitir que ele se baseia em MIL REGRAS.