domingo, 28 de agosto de 2011

Pondé e a Frustração Como Defeito de Caráter

Em seu recente atentado polêmico via Folha de São Paulo, o “filósofo”1 Luiz Pondé tratou de atacar as interpretações da esquerda para o fenômeno recentemente ocorrido na Grã Bretanha, e o fez empregando um discurso tão reacionário que não pode restar dúvida alguma do lado em que se situa: Pondé cruzou o limite que separa esquerda e direita.

A dicotomia esquerda/direita é um pouco mais complexa do que normalmente se entende — e diferente. Ela é anterior ao marxismo, de forma que reduzir esquerda e direita a uma rusga entre socialistas e burgueses é impróprio. Esquerda e direita são situações diferentes em face de um mecanismo que perpassa toda a História: a luta de classes.

Historicamente a Direita se coloca ao lado do status quo, dos donos do poder, das estruturas tradicionais, enquanto a esquerda se coloca ao lado dos rebeldes, dos excluídos do poder, das estruturas inovadoras. Assim é desde a Assembleia Constituinte, na Revolução Francesa. O marxismo só se tornou importante na esquerda porque era uma ideologia “nova” e surgida entre os “excluídos”, com o objetivo de dar-lhes objetivo comum. A direita também produziu suas ideologias para consumo do povo.

Ao longo do tempo a direita desenvolveu-se como uma criatura sem rosto definido, escondendo-se atrás de inúmeros estratagemas: democracia cristã, ruralismo, liberalismo, partidos agrários, nacionalismo, nacional-socialismo, civilismo, tea party, chauvinismo, democracia liberal, irredentismo etc. A esquerda possui muitas afirmações discordantes. A direita possui um grande “não”, que cabe em qualquer forma que atenda às preferências dos afiliados. A direita diz “não” ao compartilhamento do poder. A direita diz “não” à descolonização, à república, à democracia, à igualdade, ao sufrágio universal, ao voto da mulher, ao secularismo, ao internacionalismo, à reforma agrária, ao salário mínimo, ao ensino público, à assistência médica, às férias, à aposentadoria.

Cada uma destas conquistas hoje usufruídas pelos trabalhadores do mundo todo foi arrancada das mãos crispadas da direita, a custa de greve, paulada da polícia, demissões de pais de família, guerras civis, assassinatos políticos, revoluções, duas guerras mundiais etc. Nos países onde o “esquerdismo” foi menos atuante as conquistas sociais dos trabalhadores surgiram mais lentamente: caso dos Estados Unidos, onde, porém, a falta destas garantias foi por muito tempo mascarada pela prosperidade generalizada, conquistada pelo império em expansão, tal como a Antiga Roma, que conseguiu ter seu pão e circo durante a era da Pax Romana.

Em resumo, sem os “chorões” da esquerda, você não teria férias, não teria salário mínimo e não votaria. Você provavelmente seria analfabeto ou semiletrado, sua mulher não poderia ter emprego fora de casa, a igreja mandaria em você e seus filhos só poderiam estudar com os padres. Você não poderia ficar doente para não perder o emprego e nunca se aposentaria.

Considerando tudo isso, acredito que o mínimo que a esquerda merece é um pouco de respeito. Porém, se tal for concedido, o debate não existe, pois em essência a direita é o próprio mal personificado. A direita nada mais é do que o conjunto das estratégias múltiplas empregadas pelos que detêm o poder econômico e político a fim de evitar que qualquer dos dois seja dividido com mais gente. Nesse sentido, claro, o PCUS se tonara a direita na União Soviética das últimas décadas, ao apoderar-se de todos os instrumentos do Estado e criar uma nova oligarquia, a tal nomenklatura de que tanto se fala. Fato que provou, já nos anos 80, que debater esquerda e direita como sendo marxismo e liberalismo não era correto. Desta forma, vê-se não há um maniqueísmo simplório aqui. Direita e esquerda não são círculos definidos, mas borrões de tinta que se mesclam sobre o papel.

Depois de tão longa — e exaustiva — introdução, chegamos ao caso. Para os alto-falantes da direita, o que houve na Grã Bretanha foi pura balbúrdia protagonizada por arruaceiros jovens e mimados. Uma estratégia comum dos argumentos direitistas é isolar os fatos, considerando que só porque duas coisas aconteceram em lugares diferentes, ou separadas por algum intervalo de tempo, elas se tornam automaticamente “outras coisas”. Somente quando a negação seria um atestado de burrice é que o direitista admite a existência de fenômenos globais. Infelizmente a recíproca é verdadeira: o esquerdista tende a ver em tudo um padrão e explicar tudo como parte de um sistema. A verdade, como preconizava Buda, está no meio. O que aconteceu na Grã Bretanha é parte de algo maior, mas também é parte de algo muito próprio daquele país, embora conectado a outros fenômenos.

Houve precedentes. Teve o “tea party”, um movimento insuflado pela direita nos EUA e que logo sugeriu à juventude de milhares de lugares do mundo que era possível organizar-se e exigir mudanças no governo. O próprio “tea party” foi precedido pelo movimento que derrubara o inepto governador da Califórnia e abrira caminho para Arnold Schwarzenegger tornar-se político (o que ele, aliás, foi com certo brilhantismo). Nesse caso o “protesto popular” insuflado pela mídia fora uma estratégia republicana para “tomar a Califórnia”, estado tradicionalmente progressista.

Houve também as revoluções coloridas da Ucrânia, da Geórgia e da Sérvia, todas curiosamente derrubando ditadores e implantando regimes pró-EUA. Tem dedo da CIA nisso, claro. Mas o fato de ter dedo da inteligência americana não tira a legitimidade das conquistas, pois quem foi lá protestar, lutar, morrer, foram os respectivos povos destes países. Não se faz revolução sem povo, e nem sem um pretexto.

Depois a “primavera árabe” que, por sua vez, deu frutos em novas revoluções, que saíram de qualquer controle e começaram a ameaçar regimes leais aos americanos. Rugiram protestos em países que nem eram árabes (como a Armênia, a Espanha e a Grécia), motivados pela crise econômica que deriva, por sua vez, da gastança dos magos financeiros de Wall Street, criadores da crise de 2008, aliada às gastanças e irresponsabilidades de seus respectivos países. E a revolução bateu às portas da Grã Bretanha, o cão de guarda americano nas portas da Europa.

E então a direita se espanta, chega a falar em abolir os instrumentos através dos quais a revolta se espalhara, medida análoga aos atos de desespero de um Hosni Mubarak ou às interferências que os soviéticos faziam nas transmissões em ondas curtas da Voz da América. O ocidente não é democrático por convicção, mas por conveniência e por costume. O preço desta liberdade limitada de que se desfruta é a eterna vigilância. Por isso a direita precisa inventar uma forma de desqualificar o movimento, e nada é melhor para isso do que detectar na indignação que gera a violência um motivo fútil, talvez vil.

É verdade que os saques a lojas foram parte importante do que aconteceu no Reino Unido, tanto quanto a queima de retratos foi importante no que aconteceu na Líbia. A violência se dirige contra símbolos concretos porque não como bater ou destruir conceitos abstratos como “ditadura”, “exclusão”, “falta de oportunidades”, “humilhação”, “ignorância” etc. Atacar um símbolo é uma maneira válida de marcar uma posição. Os próprios direitistas sabem disso, uma vez que são eles que mais recorrem aos símbolos para arregimentar as massas: bandeiras, hinos, emblemas, uniformes, efígies, heróis, fronteiras, muralhas, palácios. Quando os americanos entraram no Iraque, “derrubaram” Saddam Hussein metaforicamente, pondo abaixo uma estátua numa praça de Bagdá. Demolir aquele monumento foi um ato gratuito no contexto da guerra? Dificilmente um comandante americano concordaria. Da mesma forma, depredar uma filial da Harrod’s pode não ser um ato gratuito no contexto de outra guerra — a luta de classes.

Tal como a estátua de Saddam, os templos do consumo servem como mostruários de poder. Ninguém ousava sequer olhar torto para a estátua, numa sociedade civilizada ninguém toca na vitrina frágil de vidro que contém o bem caro, que somente pode ser adquirido por uma minoria. Existe uma contenção imaterial que impede que a rejeição se consume em um ato. Esta contenção, no caso de Saddam, era o puro medo da represália, no caso das democracias ocidentais, é a ideologia. Somos educados desde a infância a assumir papeis e a conformar-nos assim. Entre eles está o que a direita chama de “princípios morais”. Estes são, basicamente, o que permite que uma minoria influencie a maioria. Princípios morais fazem com que centenas de pessoas escutem com atenção o que um senhor senil e de cultura geral pouco abrangente diz no alto de um púlpito a respeito de um tema do qual não entende. Princípios morais fazem com que o trabalhador aceite ser humilhado pelo contramestre contratado pelo seu patrão.

Mas existem situações nas quais os princípios morais se partem, e a sociedade parece entrar em frenesi. Para Pondé isso acontece porque subitamente centenas, milhares de pessoas se tornam mimadas e imorais. Não há tensões acumuladas ao longo de décadas, acionadas por um pretexto que pode até ser insignificante ou equivocado. A História, segundo a interpretação típica da direita, é formada inteiramente por episódios sem causas, isolados entre si, liderados por heróis necessários ou bandidos.2

Em essência, o estopim não pode ser usado como medida do valor da explosão que causa: sabemos que o vendedor de frutas tunisino sonegava impostos, mas achamos bonita a revolução que causou, e “feio” o ditador que tentou censurar a internet para segurar seu poder. O que diferencia o vendedor de frutas tunisino do jovem morto pela “civilizada” polícia inglesa são as leis: as leis da Tunísia não são leis legítimas, são brutais, ditatoriais, obscuras. Já as leis inglesas são ótimas e perfeitas. A lei tunisina que criminalizava o vendedor de frutas não “valia”. Mas o costume britânico que marginalizou e criminalizou o jovem suburbano tem mais valor que um livro da bíblia. Não querendo defender as leis feitas por uma ditadura, não custa lembrar que a Grã Bretanha não tem sequer leis escritas e sistemáticas e que a sua “Suprema Corte” é formada integralmente por “lordes”.

Então, para não ter que admitir que a explosão de violência não reflete uma tensão anterior, a direita faz ginásticas. Para a direita, Rodney King era apenas um motorista bêbado que reagiu à prisão e o que aconteceu em Los Angeles nos anos 90 foi algo inexplicável. Para a direita, o jovem Mark Duggan era apenas um bandidinho que merecia mesmo ter morrido e a violência urbana britânica foi algo que surgiu assim do nada, somente podendo ser explicada por defeitos morais ou pela falta de iPads.

1Sobre as aspas no "filósofo", eu me refiro ao fato de que neste texto, como em outros, Pondé abre mão do rigor lógico que seria de se esperar de um filósofo. Alguém de currículo respeitável também pode cometer erros bestas, e pode abrir mão da coerência. Um bom exemplo foi o Wilhelm Reich. Se fôssemos julgar por seu currículo teríamos que levar a sério sua teoria do orgônio.

2Muitas vezes isso decorre por causa da grande "miséria da História": o fato de que ela precisa se valer de conhecimentos parciais, sobre parte dos fatos, para tentar explicar as coisas. Se você adicionar níveis extras de conhecimento, nenhum fato é inexplicável, muito embora a explicação muitas vezes esteja mais no plano da história individual de quem o comete do que na história coletiva da sociedade em que está inserido.     O que eu tentei dizer, não sei se cheguei a ser suficientemente claro, foi que fenômenos de massa não podem ser explicados senão através de causas de massa. Um indivíduo pode roubar uma loja por suas próprias carências morais. Uma turba de saque, porém, já exige um tipo adicional de explicação. Se não para o saque em si (que pode ser resultado de carências morais de cada um), para o misterioso e estranho fato de tanta gente ter carências morais e resolver saquear lojas ao mesmo tempo.     Você não acha que isso merece uma explicação melhor do que "todos eles são malvados ou mimados"? Você não acha que o fato acontecido implora a pergunta do "por que há tantos malvados e mimados"?