quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Não Adianta Fundar uma Religião

Comentário postado em Paulopes.com.br. Leia a notícia original para entender o comentário abaixo.

Acredito que esta notícia nos deve trazer três reflexões importantíssimas, mas frequentemente deixadas de lado no debate entre ateus e crentes, que se desenrola aos berros e cotoveladas pela internet.

  1. A absoluta irrelevância da mensagem original de qualquer religião para aqueles que a seguem.
  2. A ineficácia da ciência como cura para os “defeitos” da cultura.
  3. A resistência da cultura diante do assalto da mudança.

Deixa eu tentar me explicar. Antes aviso a quem não gosta de ler (ou de pensar) que pule essas postagens, porque vai doer.

Não se trata de um “pecado” do Cristianismo desenvolver tantas seitas contraditórias a partir de um cerne razoavelmente limitado e coerente formado pelos três evangelhos sinóticos e as cartas pastorais de Paulo. Também isso ocorreu no Budismo e no Islamismo, e vai ocorrer com toda religião que se expandir geograficamente. O ser humano é incapaz de seguir uma ideia alheia sem acrescentar-lhe algo seu — e eu não sei se isso é ruim. A mesma mensagem que incluía conceitos como “olhai os lírios do campo”, “meu reino não é deste mundo” e “quando orardes, não façais como os hipócritas que oram nas praças e esquinas” justifica catedrais gigantescas, impérios empresariais, dízimos milionários e orações coletivas vitaminadas por equipagens de som equivalentes a de megaconcertos de música pop. Afinal, era exatamente nisso que Jesus estava pensando quando supostamente veio nesse mundo pregar, não foi?

Pois bem. E o nosso amigo Buda (também imaginário, mas tão simpático quanto o judeu mestiço que Roma supostamente crucificou)? O que ele teria a dizer sobre crenças em deuses e demônios?

“Saber de cor todos os Vedas não conduz à Verdade. O conhecimento útil, a verdadeira ciência, só pode ser adquirido pela prática”

“Eu sou resultado de meus próprios atos, herdeiro dos atos de meus ancestrais. Os atos são a matriz que me gerou, atos são a minha família. Meus atos recaem sobre mim e qualquer ato que realize, bom ou mal, deixá-lo-ei como herança.”

“O mal somente é praticado pelo eu, nasce do eu e é trazido à existência pelo eu.”

“Não supliqueis, pois as trevas não iluminam. Nada peçais aos silêncio, porque ele permanecerá mudo. Nada espereis de deuses implacáveis, oferecendo-lhes hinos e dádivas. Não pretendais suborná-los com sacrifícios de sangue. Em nós mesmos devemos buscar a libertação.”

Apesar de tudo isso que disse, Buda conseguiu inspirar tanto a religiosidade quase agnóstica do budismo tradicional (Theravada) quando o animismo popular tibetano e as macumbas de grife dos chineses e japoneses (que já as tinham antes, apenas “budificaram” da mesma forma como nós “afrancesamos” o candomblé na forma da umbanda).

Com isso quero dizer que Buda (se existiu) é inocente desse crime, da mesma forma como Jesus Cristo, se existiu, não tem nenhuma responsabilidade pelas Igrejolas Dinheiristas (não as nomeio a conselho de advogados, mas a carapuça cabe na cabeça de quem a quiser usar).

No segundo ponto, digo que me parece haver uma ingenuidade de certa parcela do chamado “movimento ateu” (termo que sempre coloco entre aspas porque me soa tão oxímoro quanto “rave abstêmia” ou “orgia casta”). Refiro me à crença no poder quase sobrenatural da ciência como cura para os males da cultura.

Acredito que uma das frases mais instigantes sobre a relação do ser humano com a ciência foi dita por um escritor, e não por um filósofo (acredito que certos conceitos filosóficos só estão ao alcance de quem se permite a licença poética). Refiro-me a esta frase aqui, de Arthur C. Clarke: “Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.” (Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia). Estou citando o original para que não me acusem de deturpar o sentido da frase, pois ele é essencial ao segundo ponto.

Existe uma diferença entre ser “operador” de uma tecnologia e ser meramente beneficiário dela. Vivemos imersos em um mundo que respira tecnologia e ciência em cada gota de água que bebemos e em cada comprimido para febre que tomamos. Mesmo assim, hoje vivemos um “incompreensível” fenômeno de recrudescimento da fé. Não da fé tradicional, mas para um outro tipo de fé que se livrou da casca pesada das instituições opressoras. Já teve gente mais competente sobre eu escrevendo artigos que saíram nesse blog. Por isso não me atrevo e nem preciso.

Muitos do “movimento ateu” acreditam que a escolarização e a melhora geral do padrão de vida da sociedade produzirão, naturalmente, o fim da religião e o surgimento de um Admirável Mundo Novo sem crenças. Está embutida nessa crença uma ilusão que tem a mesma natureza da ilusão de Marx. Tal como o filósofo alemão ingenuamente acreditou que o mundo ia a passos largos rumo ao comunismo, há ateus crendo (ó oxímoro!) que a ciência nos libertará dos males da religião. Essa notícia (que tampouco é isolada) mostra como essas coisas acontecem, ainda. Acontecem, entre outros lugares, no Japão.

Mas o Japão tem um sistema educacional excelente, tem um alto padrão de vida, uma tecnologia desenvolvida… Sim, mas também acredita em kamis protegendo fábricas ou em demônios da radiação. Sob a ótica de McLuhan, eu deveria dizer que o Japão ainda não se “destribalizou” o suficiente para compreender a tecnologia. McLuhan, aliás, foi chamado de racista porque entre outras coisas, afirmou que dificilmente o Japão teria, nas décadas seguintes a 1961, algum tipo de liderança criativa no desenvolvimento mundial. Mas McLuhan não estava sendo racista, pois não se referia ao japonês enquanto etnia, mas enquanto modo de pensar. Somente quem leu “A Galáxia de Gutenberg” (e refletiu bem) pode compreender que não existe racismo na afirmação dele, tanto quando não havia machismo na letra de “Mulheres de Atenas”, do Chico Buarque.

Menos racismo ainda se considerarmos que eventos de natureza e motivação análogas acontecem na Noruega, pátria do metal viking e do melhor padrão de vida que o capitalismo pode comprar, e nos Estados Unidos. O que fica do episódio é que a ciência não transforma a sociedade se não transformar quantidade suficiente de pessoas. Pessoas só são transformadas pela ciência quando a compreendem o suficiente para diferenciar uma bugiganga tecnológica de um oráculo, um remédio de uma poção mágica, uma doença de uma maldição, um problema psiquiátrico de uma possessão, um acontecimento fortuito de um azar.

Se as pessoas passivamente utilizam as bugigangas cheias de botões e luzes coloridas para sua satisfação, mas não possuem conhecimento suficiente para compreender que não há mistérios trabalhando dentro da caixinha, então elas se tornam apenas portadoras de “patuás” tecnológicos, a que veem como objetos mágicos. Clarke sorri do túmulo, e Marx range os dentes dizendo “o nome disso é 'alienação', meus jovens padawans”.

Portanto, a ciência não nos salvará, da mesma forma como Jesus não nos salvou. Não temos outros dois mil anos para esperar pelo paraíso, e não cai bem a “ateus” e “céticos” ter tanta paciência. Nossos filhos rirão de nós da mesma forma como vocês riem dos milenaristas de todas as épocas. Eu também já ri deles, hoje não mais, pois começo a compreender que eles sempre existirão. O juízo final agora se chama “singularidade” e o “novo céu” e a “nova terra” serão habitados pelos “transumanos”. Muda a terminologia, a crença é a mesma. No fundo, é como por uma roupa diferente na mesma bonequinha. Aprendi vendo minha filha brincar.

Por fim, o terceiro ponto, que é só um apêndice do segundo. A cultura é lenta. Também já teve gente melhor que eu escrevendo sobre isso. Só que a citação não está à minha mão nesse momento. Digamos que os povos demoram um pouco a se acostumar com as mudanças. Uma citação que tenho a mão é novamente do McLuhan (vou comprar um exemplar da “Galáxia” para pôr à cabeceira): ao explicar como ocorrem os processos de “civilização” e de “destribalização” (que não estão relacionados como causa e efeito e nem temporalmente de uma forma inevitável) ele relata que os efeitos culturais de qualquer ato só se fazem sentir décadas ou séculos depois. Um exemplo que pode ser citado é a introdução do alfabeto entre os árabes, ocorrida no século IV a.C., que só resultou em um movimento social profundo quase mil anos depois: a difusão da escrita atingiu uma massa crítica que permitiu o surgimento e o crescimento de algo como o Islã.

O Japão, sob certos pontos, é um país mais jovem que o Brasil. É verdade que ele foi miticamente “fundado” em 600 a.C. e que seus registros históricos mais antigos são do século VII, mas também é verdade que ele só começa a adquirir unidade e caráter nacionais no século XIX. Pouca gente sabe, mas o japonês é uma língua bastante dialetada e, linguisticamente falando, em território japonês são faladas outras “línguas”. Cento e cinquenta anos nos separação desde a Restauração Meiji, que deu início à ocidentalização japonesa. Há meros sessenta anos ainda havia muita gente no país que acreditava que o imperador ERA um deus. E se matavam em nome dele acreditando que viveriam no paraíso. Os kamikazes japoneses não devem ser desconhecidos no Oriente Médio.

A cultura japonesa ainda não conseguiu alcançar os seus carros, celulares, computadores, elevadores, aviões e outras coisas. Tal como a nossa tampouco conseguiu. A cultura, como “se sabe” tem essa mania de ficar para trás em relação ao ritmo das mudanças.

Pelo acúmulo de todas essas coisas, acredito que seja muito temerário acreditar no poder transformador da ciência. A ciência tem o poder de construir transformadores, mas não o de transformar. O ser humano não pode ser fabricado, ao menos não ainda, ele só pode ser formado — e isso só ocorre através do convívio social. Seremos o que a nossa sociedade nos prepara para ser. A menos que a educação nos liberte. Mas sabemos que a própria educação depende da sociedade, então, “agora, quem poderá nos ajudar?”