quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Os Professores Não Devem Ser “Anastasiados”

« Primeiro eles o ignoram, depois o ridicularizam, depois reagem violentamente, e então você vence. » (Gandhi)

O que governo de Minas Gerais está fazendo com os professores da rede estadual de ensino é uma queda de braço tal como a de Margareth Thatcher com os mineiros de carvão no início dos anos 80. Ele está disposto a deixar tudo quebrar e depois por a culpa nos grevistas. Thatcher não hesitou em desmantelar toda a indústria de mineração britânica a fim de esmagar o sindicalismo. Talvez o governador pense em desmantelar definitivamente toda a educação no estado a fim de definitivamente subjugar os professores.

Ele não vai ceder porque sabe que, se ceder, terá aberto um precedente e outros que ganham salários inconstitucionais em outros lugares do Brasil também se revoltarão. Por isso, por debaixo dos panos, ele deve receber os mais diversos apoios. Os meios de comunicação, por exemplo, estão com ele.

Por toda parte houvem-se vozes roucas culpando os professores de “irresponsabilidade” por ousarem conduzir uma greve de noventa dias. Ninguém acha irresponsável um governo que paga um salário abaixo do devido ou que trata seus funcionários da forma que ele trata. A mídia manipuala a opinião pública e faz a massa teleguiada acreditar que os professores “não estão pensando nos alunos” como se sessenta dias sem aulas fossem piores do que duas décadas de abandono por governos deliberados em sucatear o ensino a todo custo.

Os professores estão, sim, pensando nos alunos. Pensam em ganhar salários melhores a fim de poderem dedicar-se integralmente ao magistério. Dependendo de quanto ganhem, não precisarão de dois cargos e poderão dedicar mais atenção às suas turmas. Desta forma, os alunos terão professores menos desgastados e que terão tempo e dinheiro para reciclar-se. Sem falar que bons salários atraem bons profissionais. Pagando o que se paga nesse país ao magistério, os governos parecem dar o recado de que desejam que as pessoas competentes e ambiciosas escolham outras carreiras, que professor é profissão de perdedor. Já houve um governador desse estado, de triste memória, que disse que o problema das professoras era serem mal casadas.

E sempre tem os idiotas de plantão dizendo que os professores são egoístas, sugerindo que estão sendo “mercenários” ao fazer uma greve tão longa por dinheiro. Mercenária é a mãe de quem diz isso. Até na Bíblia está escrito que é justo que o trabalhador receba seu salário. Não tem nada desse negócio de que o magistério é um sacerdócio. Nem sacerdote trabalha de graça. O magistério é uma profissão como outra qualquer: ninguém está ali para fazer caridade, mas para ganhar a vida. Claro que é uma profissão importante e que tem um papel fundamental no futuro do país, mas não deixa de ser meio de vida para os profissionais que a ela se dedicam.

Eu não gosto da ideia do magistério como “sacerdócio” por uma segunda razão também: quem aceita trabalhar por um péssimo salário em nome de um “sacerdócio” é porque serve a algum interesse. Ou está ali meramente para fazer proselitismo religioso, ou para doutrinar politicamente os alunos, ou… Deus nos livre… para alguma atividade que nem ouso dizer o nome. Ou ainda porque não consegue coisa melhor na vida, então o magistério “serve”. É um absurdo supor que o magistério seja uma profissão de refugo, e é isso que a atitude do governador parece sinalizar. Porque se ele conseguir o que deseja, haverá um grande êxodo de cérebros do professorado. Concurso tem todo dia, e muitos professores talvez pensem em buscar outra carreira ondem ganhe mais, COMO FIZ EU.

Quem não está "pensando nos alunos" é o governo neoliberal, que paga péssimos salários, contrata qualquer um, efetiva gente sem concurso, impõe uma pedagogia ineficaz, não investe em qualidade do ensino, etc. E ainda culpa os professores pelo que é uma estratégia deliberada do estado: impedir que o povo se eduque nas escolas públicas. Afinal, todo mundo sabe que os representantes do atraso são inimigos da escola.

A greve dos professores é justa. Tanto o é que nenhum tribunal conseguiu julgá-la ilegal. Ilegal é o governador querer que os professores, que têm nível superior, trabalhem por um salário menor que o de profissões de nível fundamental. É revoltante saber que um gari ganha mais que um professor. Isto significa que o governo dá uma importância excessiva ao lixo, ou então que trata as crianças como lixo.

Justamente por ser formador de opinião o professor não pode aceitar ser feito de besta pelo governo. Quando o professor aceita ser humilhado ele rebaixa a sua classe e desavaloriza a educação. Desta forma, ele deixa de ter moral para dar exemplo aos alunos, para falar-lhes sobrea importância de educar-se. Na impossibilidade de conseguir o que está sendo buscado, o professor tem que abandonar a profissão, deixar as escolas às moscas, sem quem lecione. Talvez aí, quando os pais de alunos estiverem nas ruas fazendo panelaço porque a escola está sem professor, talvez então o governo aumente o salário para atrair profissionais.

Só que isso é um absurdo, e eu tenho vergonha de dizer isso. Será necessário sacrificar uma geração para que nossos governantes cumpram seu papel? Não é melhor a geração sacrificar os governantes? Será que as revoltas via Twitter e Facebook só servem para derrubar ditadores cafonas do Oriente Médio? Acho que, mesmo sem ser árabe, nosso país está precisando de um pouco de revolta. De vez em quando, para o cérebro da classe política pegar no tranco, é bom uma boa dose de gente na rua protestando, quebrando fachadas, queimando ônibus, jogando ovos em autoridades, etc. Às vezes eles reagem mandando a polícia atirar no povo, mas, a longo prazo, eles perdem, como disse bem dito um cara que ousou organizar protestos de milhões contra uma minoria, um idiota qualquer chamado Gandhi, antes que me chamem de idiota por ter escrito o que escrevi.