quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sobre Carvões, Diamantes e o Futuro - Parte 1

Marx escreveu uma obra intitulada “Miséria da Filosofia”, em resposta a uma outra obra, de Proudhon, chamada de “Filosofia da Miséria”. O trocadilho ácido resultou no rompimento definitivo dos dois autores, mas rendeu uma longa tradição de livros, artigos e teses sobre a miséria das coisas, das pessoas e dos conhecimentos. Sem pretender calçar as botas de Marx, de Proudhon, ou mesmo do caro leitor, arremeto-me à tarefa de filosofar sobre a miséria de um outro campo de conhecimento, a História.

Começo estas elucubrações citando o cientista australiano Matthew Bailes, que participou, recentemente, das investigações que produziram a sensacional descoberta de um planeta extrassolar feito de carbono em alta densidade ou, como se diz vulgarmente, diamante. Segundo Bailes, algo humildemente, a descoberta em si é desimportante, pois não apenas nos afeta muito pouco como tampouco muda de forma significativa as teorias astrofísicas atuais. De fato a existência de planetas de diamante orbitando pulsares era prevista teoricamente há um bom tempo e achá-lo foi apenas inserir um selo no espaço reservado na coleção. Mas esta descoberta causou um grande impacto nos meios de comunicação, talvez porque a manchete continha a palavra mágica, “diamante”, que faz brilhar os olhos cobiçosos do avarento que existe dentro de todos nós.

Tal impacto, por si, não é um problema — afinal, na pior das hipóteses serve para atrair a curiosidade da juventude para a ciência, para abrir os olhos das crianças que ainda estão na escola para as maravilhas do universo, para fazer os adultos que já não estudam terem saudades de coisas que nem sabem o que são. A maravilha, mesmo uma maravilha distante, é um chamariz da imaginação. O problema é que, segundo Bailes, em muitos casos nos recusamos a ceder ao senso de maravilha diante de descobertas muito mais importantes apenas porque elas se chocam com a nossa zona de conforto pessoal.

Bailes disse, porém, que tudo poderia ter sido radicalmente diferente se ele e os demais descobridores do planeta de diamante fossem climatologistas. Caso fizessem uma nova e interessante descoberta sobre o funcionamento da atmosfera e a influência da poluição sobre o clima presente e futuro, mesmo que esta descoberta tivesse muito mais suporte em dados do que a descoberta de um distante planeta carbonáceo que ninguém nunca viu a não ser por meio de um radiotelescópio, ela nunca seria aceita da forma entusiástica como foi aceito o Grande Diamante do Espaço. Acontece que há muitas pessoas que se incomodam com a idéia de que nós, humanos predadores e consumidores de recursos, estamos destruindo este planeta e deixando para nossos filhos e netos um mundo infernal e instável, no qual eles nos xingarão e praguejarão sem cessar, chamando-nos de estúpidos e egoístas. Tal é a implicação, para a zona de conforto pessoal da maioria dos leitores, da maioria das descobertas da climatologia.

Por isso, sempre que alguma nova pesquisa é feita, ela nunca é repercutida da forma positiva como foi a descoberta do Grande Pedaço de Carvão Prensado no Céu. Há muitos cientistas que duvidam da existência de planetas feitos de diamante, mas nenhum jornal foi entrevistá-los e nenhuma agência de notícias chamou a teoria do Precioso Pedaço de Cristal da Galáxia de “controversa”. Porém, a minoria de cientistas que duvidam, no todo ou em parte, do “aquecimento global antropogênico” recebe um ingresso fácil para a fama. Luiz Carlos Molion seria apenas um obscuro professor de meteorologia da Universidade Federal de Alagoas se não tivesse resolvido questionar o posicionamento majoritário das ciências do clima. Graças a isso seu nome saiu em jornal de tudo quanto é lado, do Brasil e do exterior, e ele já deu muita palestra e entrevista. É possível que você não saiba o nome de dois meteorologistas famosos, mas saiba o de Molion. Isso até mesmo se você discordar dele: Molion é pop, os noventa milhões de outros cientistas que concordam que estamos deixando uma terra seca, quente e suja para nossos filhos são apenas “o resto”. E você não vai deixar de comprar um carro com motor 6.8 e nem de usar uma sacolinha de plástico para cada pilha AAA que comprar no mercado só porque “o resto” dos cientistas do clima acha que você está ajudando a destruir o planeta. Você acredita em seis cientistas que dizem ter achado um diamante descomunal no céu, mas duvida dos que explicam as coisas que estão acontecendo com você e com todo o mundo porque a explicação se choca com a sua zona de conforto, a explicação exige que você mude.