sábado, 15 de outubro de 2011

Vegetarianismo de Grife Só Serve Como Consolo do Complexo de Culpa Capitalista

Reelaboração de um post feito no Paulopes, a respeito de um determinado aspecto da argumentação pró-vegetariana.

O movimento vegano/vegetariano é mais uma estratégia dos donos do poder econômico para desviar a atenção da população da real causa da escassez (que é a ineficiência do capitalismo para produzir a plenitude). Quando digo isso estou me expondo a severas críticas, tanto da parte dos vegetarianos quanto dos que são céticos em relação a teorias de conspiração. Por isso, nesta revisão de meu argumento original postado no blog Paulopes.com.br, devo ser mais rigoroso com a minha lógica e fazer a devida introdução, na esperança de ser mais claro.

Comecemos pela questão de definição do que é “movimento vegano/vegetariano”. Que fique claro que não existe tal movimento de uma forma organizada, tal como não existe um “movimento homossexual” ou um “movimento roqueiro”. O que existem são pessoas que aderem a um determinado modo de vida, seja por causa de influências genéticas/congênitas seja por causas sociais/preferenciais. Acredito que o vegeto-veganismo pertence à segunda categoria: ninguém “nasce vegetariano/vegano”, mas adota isso como estilo de vida por alguma razão. Esta alguma razão é precisamente o ponto que pretendo argumentar.

Tendo deixado claro que não estou apontando o dedo para uma suposta Internacional Vegetariana a serviço dos Illuminati, passemos à questão de quem são os “donos do poder econômico” e da razão pela qual afirmo que não estou criando uma teoria de conspiração. Que o poder econômico tem dono, nem a mais ingênua Poliana seria capaz de ignorar (a não ser retoricamente, mas isso é irrelevante). Que tal poder busca difundir seus valores através dos mais variados meios (inclusive os meios de comunicação, que ele controla), tampouco é loucura imaginar. Loucura seria dizer que o simples acesso a tais valores difundidos zumbifica de tal forma o indivíduo que ele passa a obedecer cegamente. Lavagem cerebral não funciona assim.

Quando digo que o vegetarianismo é “mais uma estratégia” dos donos do poder eu não estou dizendo que Wall Street está vendendo a ideia de que todo mundo deve ser vegetariano/vegano, estou dizendo que os valores difundidos pelos donos do poder econômico acabam levando as pessoas a desenvolver estratégias de salvação pessoal — e o vegeto-veganismo se encaixa nisso. A minha tese aqui é, portanto, a de que muitas pessoas, se não a maioria, aderem a essa dieta devido à pressão que sofrem no seio da sociedade capitalista — e não por acreditarem realmente nos valores envolvidos.

O Capitalismo Precisa de Bodes Expiatórios

Sendo um sistema essencialmente injusto, ideologicamente injusto, o capitalismo não pode (pelo menos não ainda, ou pelo menos não fora das fronteiras dos Estados Unidos) desfilar-se de cara limpa. Não se pode simplesmente querer que todos achem natural a crescente exploração do homem pelo homem, que gera massas de desempregados, turbas de eternos excluídos, vastidões de terras arrasadas. Tal como o cigarro não se anuncia como “câncer de bolso”, o capitalismo não se anuncia como um sistema que enriquece alguns e relega outros à miséria. Para evitar revelar esta verdade incômoda, o capitalismo emprega vários subterfúgios ideológicos:

  1. Culpabilização da vítima como uma estratégia de divisão: os pobres são indolentes, promíscuos, bêbados, drogados, infiéis, inferiores etc. Se eles “não são como nós”, então não merecem o que nós temos.
  2. Inversão dos valores humanistas, substituídos pelo espírito de competição: em vez de incentivar o compartilhamento, incentiva-se o amealhamento, quando não é possível escalar mais que o outro, puxar o seu tapete se torna aceitável.
  3. Fragmentação das demandas, levando à individualização dos problemas e o esvaziamento das esferas coletivas de decisão: a longo prazo produz-se um sistema político no qual a vontade popular é manipulada ou então sequer consegue ser expressada legitimamente, embora continue a capa de democracia.

Estas estratégias fazem com que, a longo prazo, as pessoas passem a buscar soluções individuais para os seus problemas. Se não tem ônibus no bairro, compro um carro. Se não tem segurança, ergo um muro. Com o tempo a individualização fragmenta os partidos, as igrejas, a sociedade como um todo, de alto a baixo, tornando impossível a construção de agendas comuns significativas. Com isso a política se torna publicitária: as pessoas votam convencidas por estratégias de marketing, porque não enxergam na eleição uma ferramenta para mudar sua realidade.

O Problema da Escassez Não Tem Como Ser Resolvido Pelo Capitalismo

O grande problema do capitalismo é que ele não resolve a escassez. Não resolve porque a plenitude não seria lucrativa. O capitalista só consegue obter lucros se cobrar por seu produto mais do que ele vale. Se não houvesse demanda maior do que a oferta as margens seriam insignificantes, paralisando a economia. Quando isso acontece a economia entra espontaneamente em recessão (ou seja, a produção desaquece a fim de causar desabastecimento e forçar a alta dos preços).

Nas primeiras décadas de existência do capitalismo, quando ninguém ainda o entendia muito bem e as palavras de Adam Smith, quando citadas, quase recebiam “oráculo do Senhor” em resposta, não havia necessidade de meios termos. Os economistas ousavam dizer coisas de fazer Margareth Thatcher corar de pejo. Não vou citar nenhuma frase dos luminares liberais do início do século XIX porque este é um blog família.

Mas veio Marx e fez sua contundente crítica ao sistema capitalista. Não me importa se a crítica dele está toda certa ou não, apenas que ela teve impacto e provocou nos teóricos capitalistas explicações mais elaboradas sobre o funcionamento do sistema, todas tentando ocultar a natureza instável deste.Cada época viu surgir e se dissipar pelo menos uma explicação para o problema. Todas tinham pelo menos três características básicas:

  1. Isentam o "sistema" da culpa usando o argumento da riqueza que ele produz — como o capitalismo foi bem sucedido em produzir a sociedade que hoje temos, altamente tecnológica e rica, embora desigual, argumenta-se que por ele ter produzido um mundo supostamente “bom”, ele produziu o melhor dos mundos possíveis ou que somente ele teria produzido esse mundo melhor.
  2. Atribuem a culpa à vítima — a culpa é do povo indolente, do trabalhador não qualificado, do operário que ganha salários excessivos, dos métodos antiquados de trabalho. Com isso o capitalismo impõe rígidos métodos de controle, corta empregos, achata salários, terceiriza etc.
  3. Quando as pessoas se mostram insatisfeitas, o próprio sistema vende a solução, na forma de cursos (auto-instrucionais e pagos pelo próprio empregado, no interesse de sua “carreira”), treinamentos de auto-ajuda (reuniões nas quais pessoas que não precisam passar pelo que você passa tentam convencer-lhe de que a culpa pelos seus fracassos reside exclusivamente em você) ou recursos miraculosos (entre os quais religiões milagrentas).

As soluções em nível de varejo eram variadas. Dizia-se que as pessoas eram pobres porque preguiçosas. Portanto, quem trabalhasse muito poderia resolver o seu problema. Dizia-se que certos países eram culturalmente incapazes de desenvolvimento. Portanto, você poderia emigrar para um país sério e ficar rico lá. Dizia-se que certos povos/raças eram estúpidos demais para um desenvolvimento autônomo, mas pelo alguns indivíduos poderiam ter algum conforto servindo de lacaios para os “inteligentes”. E as mulheres sempre poderiam “melhorar a raça” copulando com homens da cor certa a fim de terem filhos mais evoluídos.

O Vegetarianismo se Alimenta do Complexo de Culpa

Se em décadas passadas havia os mais diversos espantalhos para culpar pela miséria nossa (em certa época o imperialismo ianque explicava até as notas baixas do meu boletim), é natural que isso não tenha mudado. Antes proliferaram esses espantalhos

Agora dizem que falta alimento no mundo porque comemos carne (não custa lembrar que a conquista da carne na dieta do pobre foi celebrada nos anos 90 como uma vitória aqui no Brasil, entre outras coisas ela garantiu a reeleição de FHC). Portanto, podemos fazer nossa microparte para salvar o mundo deixando de comer carne e divulgando que outros também parem. Não é preciso fazer reforma agrária, nem combater a exploração dos pequenos agricultores pelas multinacionais produtoras de sementes geneticamente modificadas, não é preciso encontrar uma alternativa ao modelo “industrial” do agronegócio, que deixa de plantar feijão para plantar capim se o gado estiver valendo mais do que gente (e frequentemente está). Todas estas bandeiras são de grande envergadura e exigem luta política, algo que raramente o cidadão estará disposto a fazer (esse ano de 2011 tem sido bastante atípico). Melhor do que fazer uma revolução, que toma tempo, é fazer um prato verde, que demora vinte minutos, e o resto do dia ainda fica livre para continuar correndo atrás da vida.

No fundo esse raciocínio de demonização da carne é só outra ferramenta de alienação que procura esconder o fato de que a culpa da fome está no capitalismo, e não no que escolhemos comer:

  1. Existe grande irracionalidade no uso da terra, gerada pelo capitalismo. Em certos países pobres da África regimes corruptos alugam ou vendem terras aráveis para multinacionais plantarem flores ou ração para animais, gerando fome.
  2. Existe grande desperdício de alimento no mundo atual, o simples fato de haver uma epidemia de obesidade em certos países indica isso.
  3. Muita gente que não se alimenta direito porque não tem renda suficiente para comprar alimentos de qualidade ou, tendo a renda, não tem acesso a tais alimentos porque eles não são produzidos em quantidade suficiente. Isso não vai mudar se todos nos tornarmos vegetarianos, isso só mudará com salários melhores ou alimentos baratos.

Não Estou Aqui Propondo uma Alternativa Comunista

Propor isso seria uma infantilidade. Mas que nome se dá à insistência em uma proposta que não funciona, mesmo após dois séculos? Sim, é verdade que o capitalismo derrotou o comunismo, mas será que ter sido capaz de derrotar a alternativa comunista (que, digo de passagem, nunca me agradou) qualifica o capitalismo para derrotar outros desafios, entre os quais o de oferecer uma existência digna à humanidade? Existe alguma razão pela qual devamos ser tão fiéis ao capitalismo, esse Moloch moderno, a ponto de sacrificarmos nossos filhos em seu altar?

No entanto, mesmo tendo dito isto, a crítica feita ao capitalismo será recebida com um ceticismo seletivo. Engraçado que quando as teorias econômicas liberais produzem crise atrás de crise ninguém se convence de que elas podem, talvez, quem sabe, imaginem, possivelmente, estar um pouco erradas. Mas sugira que a verdade pode ser diferente e nada menos do que “provas” são exigidas.

Isso até mesmo quando publicações “comunistas” andaram sugerindo que Marx tinha razão. Saíram artigos assim na Forbes, na The Economist, no Washington Post e na coluna da Míriam Leitão nO Globo (mas essa última não tem o mesmo crédito). Mesmo assim, os fiéis fundamentalistas no capitalismo não abrem mão nem de um um jota e nem de um til.