terça-feira, 8 de novembro de 2011

Diversidade da Unidade

Comentário a respeito de certas observações feitas por participantes de um fórum na Internet

Um dos perigos da ideologização das bandeiras progressistas é a criação de consensos e compromissos que as atenuam de forma suave e gradual até se transformarem em sua própria negação. Um bom exemplo foi a Revolução Russa, em sua fase institucionalizada: primeiro puseram o Partido para falar pelo povo, depois os Comitê Central para falar pelo Partido, depois o Presidium para falar pelo Comitê Central.

Basicamente o que você está propondo é que em nome da "unidade" do "movimento" os "revolucionários" fechem os olhos para posturas antiéticas, contraproducentes, equivocadas e/ou simplesmente fadadas ao fracasso (por favor, o "e/ou" se refer a cada um dos itens). Alguns aqui discordaram de uma edição do vídeo que distorceria o que foi dito por Malafaia, você acha que devemos aceitar "edições de vído" em nome da coerência da "revolução". Eu, que já vi o estrago que uma "edição" bem feita pode fazer (eu tinha 17 anos incompletos em 1989), afirmo que não podemos aceitar isso com naturalidade.

Uma luta que recorre a armas falhas não pode ser bem sucedida. Porque, mesmo que vença, será uma vitória para estabelecer outro erro. O socialismo era uma ideia bonita, mas a revolução russa criou um imperialismo totalitário -- isso não foi bonito. Engraçado que por muito tempo os socialistas desculparam os desvios da revolução justamente para evitar a desunião, denunciando como vaidades fúteis e traições os casos de deserção.

O mais absurdo de se fechar os olhos a algo que achamos errado, apenas para manter a união, é que nós fechamos os olhos, mas o adversário, não. Mesmo que nós não critiquemos uma falha no "movimento", certamente o adversário a perceberá e a utilizará para seu benefício. O que o movimento ganha, então, fechando os olhos para suas contradições? Nada além de permitir que lideranças ineptas dominem o quintal. Lideranças que pregam para os conversos, mas não tem sucesso em enfrentar o mundo "lá fora".

A autocrítica não é uma fraqueza, é uma força. Um movimento que se vê "enfraquecido" pela existência de autocrítica é um movimento mentiroso, que veste uma impostura de unidade e força para consumo interno, mas que perde legitimidade perante a sociedade e perante a posteridade.

Se queremos produzir uma mudança nova, permanente e valiosa para a sociedade, precisamos que nossa luta se baseie na transparência, na ética e na racionalidade. Isso inclui aceitar a autocrítica como uma forma de detectar precocemente falhas estratégicas. Inclui rejeitar os vícios que combatemos, em vez de apenas inverter o balanço do poder, substituindo um extremo pelo outro. Inclui aceitar lideranças pela sua eficácia e pela sua coerência, e não pelo seu carisma.

Aquilo que vocês dois propuseram é uma reação imatura (quase infantil) diante do diagnóstico de um possível erro. Eu me distancio de movimentos que possuem tais lideranças e que se baseiem em tais estratégias. E acredito que todos que não queiram decepcionar-se devem afastar-se também.