segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Desimportância da Política na Sociedade Moderna

Aristóteles considerava a política uma atividade tão importante que aceitou ser preceptor de Alexandre o Grande, na esperança, talvez, de criar um rei filósofo que levasse a luz da Hélade aos bárbaros. Nunca se saberá exatamente em que estava pensando quando aceitou o emprego. Possivelmente apenas em dinheiro, visto que, na qualidade de «estrangeiro» (da maneira muito peculiar com que os gregos usavam este conceito), era o máximo a que poderia aspirar em uma cidade.

Para dar cabo de sua tarefa, ele escreveu uma obra que fundou uma ciência. Ao longo dos séculos muitos outros pensadores continuaram elaborando teses e conceitos sobre as maneiras pelas quais os senhores e os servos interagem naquilo que hoje em dia chamamos de «sociedade». Verifica-se, porém, um empobrecimento conceitual desta arte no século XX, de certa forma simultâneo ao crescimento do prestígio de um outro campo do conhecimento: a economia.

O que se observa é que não parecem haver muitas ideias políticas relevantes em debate no mundo de hoje. O último grande suspiro da ideologia foram os fascismos: de lá para cá o que se acompanhou foi a decadência do socialismo real, a doença e a eutanásia do Estado de Bem Estar na Europa e sucessivas crises que paralisaram o debate político em torno do ditado da economia. Quando Francis Fukuyama, em um infame ensaio datado de 1989, aventou a possibilidade do «Fim da História», ele não se baseou nos desdobramentos da política, mas no que ele julgava ser a inexorabilidade dos valores econômicos capitalistas.

O triunfo da economia veio acompanhado do triunfo da máquina sobre o homem e do exército sobre o povo. A máquina, ao simplificar o processo produtivo e diminuir a necessidade de treinamento do operário, atuou como um fator destruidor sobre o sindicalismo, que era uma base política popular. O sindicalismo «de resultados» se impôs, aceitando jogar pelas regras ditadas pelo patrão, inclusive medindo o seu próprio sucesso segundo os parâmetros do opressor. Sindicato melhor é aquele que propicia mais ganhos econômicos.

Ao instrumentalizar o sindicato de forma a torná-lo apenas uma ferramenta para negociar reposições salariais, o sistema econômico capou a possibilidade de uma revolução vinda da esquerda. O resultado disso foi o aparelhamento do Estado que aconteceu quando o sindicalismo se elegeu. A ideia de que seria possível fazer uma revolução por dentro, aderindo ao sistema, solidificou e hierarquizou o movimento sindical, a ponto de os peões de chão de fábrica terem uma relação tão distante com os seus líderes quanto os apaniguados dos coronéis tinham no passado. No capitalismo plenamente desenvolvido até mesmo a dissensão é um serviço público.

O triunfo do exército sobre o povo é o mais perigoso de todos. Com armas tão poderosas quanto as que foram inventadas para a Segunda Guerra Mundial (a Grande Guerra Mitológica do Século XX, como a chamarão os historiadores de um século futuro, se não formos extintos antes), o povo tornou-se apenas um detalhe. Um regime consegue perfeitamente massacrar a oposição e assegurar-se no poder. A única coisa que impede isso é o caráter do governante, que pode desejar honestamente uma reforma da sociedade, como Gorbachev, ou ser tão inepto que não tenha a coragem de assumir o ônus do massacre, como muitos ridículos ditadores terceiero-mundistas. Sobre o caráter do governante atua, obviamente, a mídia democrática e as instituições internacionais. Se estas deixarem de existir, nada impedirá que um regime se livre de alguns milhões de habitantes a fim de assegurar a obediência do resto.

A imprensa livre e as relações internacionais foram os trunfos que Gandhi utilizou para fazer sua oposição não violenta ao Império Britânico. Por mais que os britânicos tenham errado em outros lugares, ou por mais mérito que Gandhi tenha amealhado, o sucesso da luta não violenta contra a ocupação da Índia é algo de que um dia os descendentes dos britânicos se orgulharão. Certas derrotas são profundamente significativas. E o Império Britânico escolheu deixar a Índia para não ter que matar milhões. Certamente porque o povo em casa não aceitaria isso, ainda que os indianos não fossem brancos.

Nos anos sessenta a imprensa livre alimentou os protestos contra a Guerra do Vietnã, que os EUA poderiam ter vencido com algumas bombas atômicas e umas dezenas de milhões de mortos que «não fariam falta» na visão dos falcões de Washington. Hoje em dia a imprensa livre parece fraquejar, também ela abraçada pela economia. Os jornais têm cadernos inteiros falando de ações, mas não parecem capazes de analisar o que se passa no restante do mundo.

Dois sinais preocupantes da derrocada da política diante da economia podem ser observados nas crises de 2008 e 2011, tão recentes e já tão assimiladas. Em 2008 a crise se impôs sobre o mandato do primeiro presidente negro americano e castrou sua tentativa de ser diferente. Inaugurou-se com medidas superlativas do que antes criticara: mais déficit, mais dívida, mais transferência de recursos ao setor privado. Em 2011 a crise, habilmente refletida para a Europa pela magia negra do mercado que confia mais no culpado do que nas vítimas, derrubou dois governos eleitos (ainda que ineptos) e impôs governantes biônicos rejeitados pelas populações de Grécia e Itália.

Que o «mercado» (responsável pela crise) tenha eleito homens de sua confiança para geri-la, isto nos diz da profundidade da decadência da política. Mas o pior é que não parece haver nenhum caminho para resgatá-la. A revolução aconteceu, tanto na Grécia quanto na Itália, mas foi abafada com jatos d'água, gás lacrimogêneo e prisões. Aconteceu também nos EUA, onde, além de tudo isso, sofreu a oposição de uma maioria que se sintonizou com o discurso da opressão. No mundo de hoje, a medida da decadência da política está na facilidade com que as revoluções podem ser abortadas ou ignoradas.

A menos que ocorram no Terceiro Mundo, pois ali é possível inventar intervenções e proceder a bombardeios, fazer bloqueios e criar grupos títeres para conduzir mudanças controladas ou nem tanto. E ali também, não custa lembrar, os Estados costumam não ser tão bem protegidos contra seus cidadãos.

No exato momento em que escrevo isto está em discussão no Congresso dos EUA uma lei que permitirá ao presidente ordenar a prisão sem julgamento, por prazo indeterminado, de qualquer suspeito de atividade terrorista ou antipatriótica. Uma lei como esta deveria existir somente em ditaduras, mas… ainda podemos considerar como democracia um país cuja política é bipartidária, discursos alternativos são marginalizados ou até criminalizados e um presidente eleito com um programa bem definido é forçado a abdicar dele depois de tomar posse? E se os Estados Unidos, detentores da maior capacidade bélica, não puderem mais ser considerados uma democracia, quem tipo de futuro haverá para ela?