quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deveríamos Declarar Guerra Total às Drogas?

Hoje tive a oportunidade de encontrar, compartilhado por um amigo virtual no Google Plus, um artigo de autoria de Richard Branson, o milionário dono do conglomerado de comunicações e transportes Virgin defendendo o fim da guerra às drogas. Após ler a opinião que ele expressou, fiquei seriamente inclinado a duvidar dos resultados, mas uma dose salutar de ceticismo precisa ser controlada para não descambar no descarte de informações que vão contra aquilo que chamamos de «bom senso» e que, na maioria das vezes, é apenas o condicionamento relacionado aos nossos preconceitos e, em nome disso, decidi que precisava refletir mais sobre o tema, não apenas checando as informações apresentadas por ele em defesa de sua opinião, mas buscando também o contradito.

Não gosto muito de iniciar este tipo de empreitada porque, cidadão do interior que sou, sofro de sérias limitações para empreender esse tipo de pesquisa fora da internet, mas a grande rede me permite ter acesso a informações que eu nem sonharia ter há cinquenta anos — e por causa disso eu me animei a fazer a pesquisa.

Sempre foi minha convicção que o uso de qualquer tipo de droga é uma ocorrência altamente indesejável em qualquer sociedade e que, por esta razão, deve ser severamente combatido. Eu costumava fazer uma analogia com crimes como o estupro e o assassinato: é impossível erradicar completamente a sua ocorrência sem que se pratique um grau tão alto de restrição das liberdades do cidadão, que a obsessão pela profilaxia acaba se tornando uma doença. Mesmo assim, eu pensava, existe um mínimo tolerável de estupro e assassinato em uma sociedade civilizada, e este só poderia ser atingido através do policiamento preventivo, visto que tais crimes não estariam, na minha opinião, relacionados a nenhum tipo de problema econômico. Da mesma forma, o uso de drogas seria algo a se combater pela repressão, pois tais vícios supostamente surgiriam da combinação da imaturidade ou fragilidade da vítima com a presença de fornecedores. Eliminando os fornecedores, as vítimas frágeis não estariam expostas a essa forma de auto-engano, e acabariam recorrendo a outros menos nocivos, como chocolate ou música pop.

Sim, era uma opinião ingênua. Não nego. Esta opinião começou a mudar há cerca de um mês quando me deparei na internet com referências a um novo tipo de droga que está em voga na Rússia. Ao pesquisar sobre o terrível Krokodil eu me dei conta de que as minhas certezas não eram suficientes para explicar este fenômeno, tão real quanto terrível, que está destruindo as vidas de tantos jovens daquele país. Ninguém usa algo assim por razões hedonistas ou pressão de grupo. Não existe busca desenfreada pelo prazer e nem desejo de pertencimento que leve uma pessoa a destruir-se de forma tão pavorosa e rápida. Obviamente aquelas pessoas eram vítimas (disso eu nunca duvidei) de algo mais forte do que elas e que não vinha diretamente delas, nenhum tipo de «pecado» ou «falha de caráter» poderia estar envolvido.

Escrevendo para este blog, não tenho o hábito de dar referências em ordem e citar links daqui e daí. Meus leitores, imagino, são suficientemente safos para acharem a informação no Oráculo. Se algo não está nas grandes ferramentas de busca, logo estará. Krokodil está, e não é mentira. Aliás, advirto ao leitor que NÃO PROCURE informações sobre esta droga sem previamente desabilitar o carregamento automático de imagens pelo navegador. Existem coisas que são agressivas demais para muitas pessoas, existem coisas que você simplesmente não quer ver. Então não tente ser corajoso sem necessidade: se as fotos não lhe chocarem é porque você é um idiota insensível.1Minhas pesquisas sobre a famigerada droga russa me levaram a uma série de descobertas interessantes, que podem ser resumidas nos seguintes pontos.

Há algumas décadas, aproximadamente desde os anos 1970, a Rússia, então parte da U.R.S.S., era um dos países do mundo com maior taxa de consumo de opióides. Isso tinha a ver com a dificuldade de acesso a drogas da moda no Ocidente capitalista, como a maconha e a cocaína. Ao mesmo tempo, era muito fácil, devido à proximidade geográfica, obter haxixe e ópio de lugares como Afeganistão, Paquistão e Índia. Alguns analistas chegam a dizer que a invasão soviética do Afeganistão, em 1979, teve como principal objetivo tentar acabar com as máfias de traficantes afegãos, que enchiam as fronteiras soviéticas de todo tipo de narcótico ilegal que, posteriormente, se espalhava pelo país através de suas rápidas e eficientes ferrovias.

O combate às drogas na U.R.S.S. era feito pelo lado da criminalização tanto do fornecimento quanto do uso. Traficantes e usuários eram igualmente enviados para campos de trabalhos forçados, onde supostamente seriam reeducados para uma vida produtiva a serviço do capitalismo. A guerra do Afeganistão, porém, piorou muito a situação, porque os jovens recrutas que voltavam da guerra, muitos deles mutilados ou traumatizados, haviam adquirido a toxicomania. Com isso o número de usuários aumentou e o fluxo de ópio cresceu. Em um país de população altamente escolarizada—onde engenheiros, químicos e físicos podiam ser achados às dezenas em qualquer cidadezinha— o passo seguinte foi a industrialização do ópio, criando uma tradição tipicamente soviética de consumo de heroína.

A retirada do Afeganistão não modificou muito a situação porque a droga continuou fluindo fácil, diante da crescente incapacidade da U.R.S.S. em vigiar suas fronteiras. Oficiais empobrecidos em postos de fronteira isolados eram alvo fácil para a corrupção, que lhes permitia complementar a magra renda, ou para a intimidação, contra a qual pouco podiam fazer pois, possivelmente, os oficiais de nível acima já estariam devidamente comprados pelos traficantes. Assim, desde o início da definitiva derrocada soviética (que pode ser assinalada por volta de 1985) a oferta de heroína barata se manteve na região. Alguns países que se separaram da U.R.S.S. obtiveram relativo sucesso em controlar o problema, notadamente os países bálticos, mas em outros lugares o uso de heroína adquiriu o caráter de epidemia.

Mas tudo sempre pode piorar. A progressiva ascensão de Vladimir Putin trouxe à Rússia um moderado alento econômico—derivado, principalmente, de um processo de conserto das funções básicas do Estado, ainda que sob um prisma autoritário—mas ressuscitou velhos equívocos, herdados do comunismo. A política de repressão a todo custo, por exemplo, incluindo até mesmo a execução sumária de quem for surpreendido com certa quantia de drogas. Ao mesmo tempo em que muitos traficantes comiam tundra pela raiz, o enxugamento eficiente do exército e da polícia de fronteira conseguiu cortar a rede de suprimento de ópio, ou pelo menos a enfraqueceu significativamente, a ponto de o preço da heroína ter se multiplicado várias vezes desde a subida de Putin ao poder, e notoriamente nos últimos quatro anos. Mas este processo não foi acompanhado de NENHUM tipo de programa de apoio aos viciados já existentes.

Na Rússia não há tratamento público de saúde para dependentes químicos, a política de «redução de danos» é considerada crime, o internamento de viciados só pode ser feito por determinação policial ou voluntariamente pelo próprio viciado, medicamentos usados no ocidente para tratamento de dependência química (como a metadona) são por lá considerados como droga também e, para coroar o circo de horrores, em vez de programas de reinserção social dos jovens recuperados, existe um forte preconceito contra eles, que se prolonga, na maioria dos casos, por toda a vida. Na grande maioria dos casos o tratamento é feito por instituições privadas, geralmente religiosas e geralmente estrangeiras (americanas principalmente, vinculadas à Igreja Batista ou às Testemunhas de Jeová). Isto gera mais uma camada de desconfiança: a Igreja Ortodoxa, favorecida pelo Estado, vê nestes centros de tratamento uma mera forma de proselitismo, uma tentativa de ganhar espaço na sociedade russa à revelia de suas tradições e costumes. O Estado, muito interessado ultimamente em manter boas relações com a Igreja Ortodoxa, fiscaliza de perto estas entidades religiosas e muitas vezes as manda fechar por mínimas infrações, devolvendo à rua os doentes em tratamento (vale lembrar que os doentes que lá estão são aqueles que querem tratar-se).

Talvez em nenhum outro país do mundo a situação do dependente químico seja tão desesperadora. Ao mesmo tempo está inserido em uma cultura na qual o acesso às drogas mais pesadas é mais fácil do que o acesso a drogas leves, como a maconha, e também está completamente abandonado pelo Estado e pela sua Igreja quando se vicia. Um uso ocasional, que muitas vezes não é nem voluntário,2 o atira em uma espiral descendente que só termina com a sua morte, a menos que tenha a sorte de encontrar uma entidade religiosa que lhe dê um tratamento em torno de sua alma — e tenha ainda mais sorte de concluir o tratamento sem que a polícia mande fechar a clínica. E então, de repente, o Estado reprime com força o tráfico de ópio e provoca uma explosão inflacionária do preço da heroína (que deriva dele). O que acontece num caso desses?

Num primeiro momento a máfia corta custos, fazendo dispensas de seus «quadros». Estas pessoas rejeitadas pelo crime organizado, saídas da prostituição ou de uma vida de crimes, estão completamente à mercê de seu vício e não têm outra saída a não ser roubar para obter o dinheiro com que comprar a heroína cada vez mais cara, e rara. O dilema é o mesmo dos usuários espontâneos.3Esta situação produz uma forte pressão na violência urbana, onde a polícia então atua de forma também violenta, resultando nas lindas cenas de «polícia russa» que você encontra no YouTube e outros lugares. A raridade da heroína, por sua vez, faz com que mesmo quem tenha dinheiro fique sem obtê-la, quanto mais os pobres que só conseguem juntar alguns caraminguás ocasioalmente. Então, os russos, que também têm seu «jeitinho», improvisam. E o fruto desta improvisação é o Krokodil.

Na Rússia, como em muitos países do mundo, é possível comprar analgésicos e anticongestionantes nasais sem receita médica. Não vou mencionar aqui quais os medicamentos envolvidos, mas quem estiver interessado em saber rapidamente descobrirá do que se trata. Os viciados, sem ter como conseguir heroína, mas muito bem informados graças à presença entre eles de pessoas com formação universitária, resolvem produzir desomorfina caseira para chaparem barato.

A desomorfina é uma substância conhecida desde os anos 1930, quando foi inventada por um químico americano. O processo de sua obtenção foi patenteado, mas a patente já expirou há décadas, resultando na divulgação de inúmeros métodos para obtê-la, inclusive o método original. Os russos desenvolveram um método novo, que envolve pílulas para enxaqueca, descongestionante nasal, gasolina, fósforos, fluido de isqueiro e uma série de outras substâncias de gelar a espinha. Submetidas a um processo caseiro de preparo que os viciados chamam de «cozimento», o resultado é um líquido ralo e acastanhado, rico em desomorfina (que é bem menos poderosa do que a heroína). Este líquido é injetado direto na veia, produzindo um transe profundo que dura entre sessenta e noventa minutos. Depois vem uma longa crise de desintoxicação que, supondo que o usuário não volte a injetar-se, poderá prolongar-se por até quarenta dias. Os longos efeitos indesejáveis são a principal razão pela qual a desomorfina nunca fora usada como droga recreacional.

Se injetar-se com uma substância extremamente tóxica (no sentido de venenosa) já não fosse ruim o bastante, ainda tem a questão das impurezas produzidas durante o cozimento doméstico (e não esterilizado) do Krokodil e o problema menor da falta de esterilização das agulhas e seringas usadas para a injeção. Estes três fatores resultam no lado realmente tétrico do uso desta droga.

Além do fato de que desomorfina é um opióide venenoso (que muitas vezes mata o usuário já na primeira aplicação), as impurezas do Krokodil são ainda mais perigosas e o resultado é uma impressionante degradação física e mental do paciente, que morre dentro de, no máximo, dois anos, e fica inválido em poucos meses.

A morte geralmente ocorre por acidentes vasculares, visto que as impurezas sólidas do Krokodil geram tromboses ou isquemias em vasos capilares. Quando isto ocorre nas extremidades, dá-se a necrose de tecidos como as pontas dos dedos ou as orelhas. Quando ocorre no cérebro a pessoa pode morrer ou sofrer um acidente vascular que a incapacita. Se nada disso ocorrer na fase inicial do uso, o dependente poderá morrer de septicemia causada pela contaminação de seu sangue pelas impurezas da droga e das seringas ou causada pela consequência mais nefasta e impressionante do uso do Krokodil: a necrose ou gangrena da pele e dos tecidos musculares nas regiões onde é feita a aplicação. Quando isto ocorre o paciente já está tão lesionado em seu sistema nervoso, e a região já foi tão afetada por sua vez, que a horrível ferida que se abre é indolor. A consequência, porém, é inominável: a carne se solta dos ossos e membros inteiros ficam reduzidos a esqueletos. A única solução é a amputação, que sequer requer anestesia, como mostra um famoso (e cavernoso) vídeo do YouTube.

Cheguei até aqui contando a história do Krokodil para voltar a falar sobre as ideias de Richard Branson. O ciclo se completa quando você resume o caso soviético, antes de compará-lo ao caso de Portugal, que o milionário cita em seu blog.

Na Rússia a repressão de todo tipo de droga levou os usuários a começarem mais cedo em drogas pesadas, não o contrário. A repressão dificulta o tratamento dos que desejam tratar-se, criminalizando o uso. A repressão sobre o usuário ignora que muitos se tornaram viciados contra sua vontade, em um país onde o crime organizado é quase uma instituição. Ignora também os tratamentos desenvolvidos no Ocidente e, apesar de supostamente a U.R.S.S. ter sido um Estado ateu, desde o início até hoje a política antidrogas foi condicionada por valores moralistas, tanto que a esclerótica Igreja Ortodoxa os abraçou. O resultado do «sucesso» da repressão recente ao tráfico (não há como negar que Putin obteve um grande «sucesso» ao fazer a heroína rarear em toda parte na Rússia) levou um grande número de usuários a uma situação de grande sofrimento, pois não se larga heroína da noite para o dia, com base apenas na «força de vontade». E o fim desse novelo é a invenção do Krokodil, a droga dos pobres. A droga de quem não se importa mais em morrer ou transformar-se em um esqueleto humano.

Richard Branson alude à política antidrogas de Portugal, que descriminalizou o uso e transferiu a abordagem do Ministério da Justiça para o Ministério da Saúde. Por volta da virada do milênio, a percentagem de usuários regulares de drogas em Portugal havia batido a casa de 1% da população. Com dez anos da nova política o país ainda tem um alto índice de pessoas que experimentaram drogas, embora ainda menor que o dos E.U.A., mas uma percentagem menor de viciados. A política pode não ter erradicado o uso de drogas, mas produziu uma situação de equilíbrio com a qual o dano social é minimizado. Na Rússia, onde se estima que até 3 milhões de pessoas, ou 2% da população, seja usuária regular de algum tipo de substância, o combate policial às drogas produziu o Krokodil.

Eu nem vou mais comentar sobre que argumentos exatamente o Richard Branson usou. Não precisa. Eu ia até comentar sobre a hipocrisia dos que defendem o livre arbítrio dos usuários de crack que, coitadinhos, são internados à força pelo governo fascista do Rio de Janeiro, em clara violação de seus «direitos humanos». Mas não precisa. Não tanto porque o texto ficou longo, mas porque tudo que eu precisava ter dito hoje eu sinto que já disse.

P.S. — Não estrague seu ano novo procurando imagens do Krokodil. Eu avisei.

1 Correndo o risco de cometer a «falácia etimológica» que tanto celeuma causou recentemente no «movimento ateu», esclareço que a palavra «idiota» não significa (ou pelo menos não significava originalmente) uma pessoa estúpida, mas uma pessoa egoísta, que não se sensibilizava com as questões coletivas. Na democracia grega, o cidadão que se abstinha de participar das assembleias era chamado assim.

2 Existem relatos de casos nos quais a máfia russa (que dá medo nos chefões italianos) injeta heroína à força em jovens para viciá-los. Através desta prática a máfia adquire o controle da pessoa, ao controlar o suprimento de heroína a que ela tem acesso. Esta tática é usada principalmente para controlar prostitutas estrangeiras ou jovens migrantes internos que são empregados como assassinos de aluguel.

3 Estou chamando de «usuários espontâneos» aqueles que não foram induzidos forçosamente ao vício, ou seja, ao usuário «comum».