domingo, 11 de dezembro de 2011

Fogo Amigo no “Movimento Ateu”

Esta semana surgiu uma polêmica no "movimento ateu" a respeito da resposta dada por Daniel Sottomaior a Ives Gandra, nas páginas da Folha de São Paulo. A visibilidade de um líder do "movimento ateu" poderia ter sido um momento positivo para dissipar dúvidas e melhorar a imagem dos ateus perante a sociedade, mas o momento não foi bem aproveitado, nem por Daniel, que, talvez por restrições de espaço, não abordou o problema com suficiente amplitude, nem por outras "seitas" do "movimento ateu", que aproveitaram a oportunidade para invalidar a intervenção de Sottomaior. Pelo que acompanhei do caso, foi assim.

  1. Daniel Sottomaior escreveu um artigo, que foi publicado na mídia e teve repercussão, defendendo o "movimento ateu" (mesmo aqueles que não são ATEAístas) de ataques promovidos pelo notório jurista Ives Gandra.
  2. O artigo em questão, em que pese alguns problemas que a formação específica de Daniel não lhe habilita a evitar integralmente, foi bem escrito e contém várias frases lapidares até.
  3. Eli Vieira, porém, em vez de meramente mencionar, de forma amigável, que tinha uma discordância em relação à definição de ateísmo usada pelo Daniel, e de resto elogiar o texto (que cumpriu perfeitamente sua função), preferiu criar uma longa postagem, cheia de trechos aparentemente rancorosos, para criticar este único aspecto que julgava equivocado.
  4. Desta forma, em vez de uma discussão madura, Eli pareceu (se intencionalmente ou por equívoco, isso ele é quem pode dizer) partir para uma desqualificação total de alguém que poderia (ou deveria) ser seu aliado, desta forma municiando quem deveria ser o seu oponente. Ainda que fechar os olhos para os erros dos aliados seja incorreto, parece-me irracional exagerar os erros de um potencial aliado, expondo-o diante de quem certamente é o adversário. Daniel talvez merecesse alguma correção, mas não o tipo de resposta que foi criada.
  5. Portanto, meu ponto aqui não é exatamente a definição (ainda que eu esteja de acordo com a posição do Daniel), mas o absurdo levantado por uma crítica (a meu ver) exagerada de um aspecto (em minha opinião) de importância terciária (nem secundária).

Porém, a réplica escrita por Eli Vieira não está isenta de seus equívocos, formais ou não, motivos pelos quais ela não se sustenta. Em uma análise apressada e um tanto parcial, identifiquei doze pontos problemáticos nela:

  1. Emprego abusivo da ironia para desqualificar quem pensa diferente: Quantos anônimos criativos por aqui.
  2. Usou um blog como referência: http://goo.gl/iUNyl. A utilização de uma fonte não submetida a revisão, no caso um blogue, não é aceitável em um debate que é proposto como rigorosamente racional. Em um blogue, ou um knol, ou um site pessoal, o autor escreve basicamente o que quer. Até mesmo a Wikipédia, com suas falhas, possui um sistema de crítica interna (embora eu o ache falho na versão portuguesa). Um artigo formal, científico, publicado, revisto, etc. seria muito mais interessante como suporte de uma alegação.
  3. Acusou pessoas que discordavam dele de leviandade: Para aqueles que estão aqui para disputa de ego...
  4. Negou a tais pessoas o direito de expressar suas opiniões: ...recomendo não entrar no link acima e não tentar debater.
  5. Os itens “3” e “4” são especialmente importantes, quando estamos falando de “elitismo”. Se esta proposição feita pelo Eli não for arrogante, então por favor me definam o que é “arrogância.” Basicamente ela exige que as pessoas que não concordem com as teses contidas no blogue citado se abstenham de debater. Ele poderia ter pedido a essas pessoas que analisassem o caso com boa vontade, que procurassem evitar equívocos, que “buscassem o conhecimento” (ET Bilu copyrights), mas preferiu negar-lhes o direito ao debate. Soou mal.
  6. Exigiu que as pessoas se conformassem com as definições de ateísmo dos filósofos que ele escolheu citar (Colin McGuinn e Michael Martin). Curiosamente, porém, esquivou-se de usar Bertrand Russell, apesar de dizer-se fã dele, tanto que o próprio Blog da LiHS se inspira no bule voador.
  7. Usou de uma analogia irrelevante com o “cálculo,” porque a definição de ateísmo apresentada pelo Daniel não é, realmente, uma falácia etimológica. Ao insistir em negar a validade do sentido dado por Daniel à palavra “ateísmo” (que está de acordo com o uso feito por significativa parcela da população) é justamente Eli que está sendo falacioso.
  8. Cometeu a falácia tu quoque ao desqualificar a resposta de Daniel a Ives Gandra, quando disse que dado que quando definimos ingenuamente ateísmo como ausência de crença não teremos elemento algum para reclamar de Ives Gandra, muito menos acusá-lo de ser “ilógico.” Esta falácia consiste em negar a uma pessoa o direito de apontar o erro alheio só porque erra também. A possibilidade de um debatedor ter cometido algum erro de lógica em sua resposta não invalida sua intervenção, no máximo autoriza que o interlocutor aponte de volta o erro cometido.
  9. Repetiu várias vezes, e de diversas formas, a tese de que haveria no texto de Daniel uma “falácia etimológica”, sem no entanto demonstrar eficientemente a existência desta (não entrarei a discutir se mais alguém conseguiu demonstrar).
  10. Procurou usar a definição “incorreta” de ateísmo por Daniel como uma ferramenta para desqualificar todo o texto: estava ilustrando como definir dessa forma torna incoerente o texto do Daniel. Isto equivale a dizer que só porque um carro está com defeito no limpador de pára-brisas ele ficou totalmente inutilizado.
  11. Embora não tenha citado Russell, citou uma enciclopédia escolar de filosofia. Mas, ao fazê-lo, ainda foi desonesto ao selecionar exclusivamente a parte que interessava. A citação completa é:
    Em sentido fraco, descrença na existência de uma entidade sobrenatural particular (o Deus teísta), omnipotente, omnisciente, perfeitamente boa, criadora do mundo, mas distinta deste e dotada de autoexistência (não existe por causa de outra coisa). Em sentido forte, é a crença na inexistência do divino em geral.
    Pergunto qual é o problema em utilizar a definição de “ateísmo fraco?” Ao citar apenas a parte que lhe convinha da citação que ele mesmo escolheu, Eli deu um tiro no próprio pé, pois isto é uma falácia, chamada cherrypicking ou, em bom português, supressão de evidência.
  12. Para terminar com “chave de ouro” sua argumentação, fez uma analogia interessante e muito apropriada: Uma gafe conceitual de um ateu definindo ateísmo é análoga a uma gafe de um enfermeiro procurando o baço ou o fígado no lado errado.

Nos doze pontos que indiquei, entre vários equívocos argumentativos ou simples implicâncias, Eli Vieira cometeu mais falácias que supostamente Daniel Sottomaior teria cometido no texto original. Em minha análise, foram as seguintes:

  • No item “3”, ad hominem abusivo (envenamento da fonte);
  • No item “6”, supressão de evidência (escolha de filósofos ao seu agrado, ignorando outro mais relevante);
  • No item “7”, falsa analogia (a analogia não é válida porque, pelas razões apresentadas, não se tem uma falácia no primeiro termo);
  • No item “8”, tu quoque;
  • No item “10”, falácia de composição (desqualificar o todo pelos defeitos da parte);
  • No item “11”, novamente supressão de evidência (na censura de citação).

Esta lista não pretende ser exaustiva, e não inclui outras observações inapropriadas ou incorretas, mas apenas os pontos que considero serem erros de lógica explícitos. Espero desta forma ter sido mais convincente diante dos que diziam que não estava havendo uma crítica racional da intervenção do Eli.