segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

«Política, Futebol e Religião não se discute»

Este é um enunciado milenar, quase inquestionado na «sabedoria» popular (que, como sabemos, votou no Tiririca). De fato a mistura costuma desandar, especialmente se as opiniões chegam ao ponto de fervura. O problema não reside, porém, nestes temas específicos, que são apenas polêmicos (sendo os dois últimos mais ou menos análogos). O problema é que a maioria das pessoas simplesmente parece não ter serenidade suficiente para enfrentar uma opinião discordante, quanto mais para encarar um confronto de ideias como uma oportunidade para aprendizado.

Há um desses «provérbios chineses» que dizem que quando duas pessoas trocam ideias, cada uma vai embora levando uma ideia a mais do que tinha quando chegou. Duvido que os próprios chineses ajam assim, visto que a teimosia parece ser um dos muitos defeitos do homem compartilhados por todas as raças, castas e credos. No entanto, é justamente entre nós, brasileiros, que isto menos se vê: os debates não são vistos de forma dialética, mas como disputas de ego. Ninguém debate pensando em sair da sala sabendo mais, todos parecem estar mais interessados em fazer o oponente sair da sala desqualificado. Os debates da Internet brasileira não são debates, são duelos.

E porque o debate se transforma em duelo, torna-se impossível chegar a um consenso. Nunca basta que um lado aceite correções, elas são vistas como demonstração de fraqueza. Não basta que um lado demonstre ter suas razões, se não conseguir derrubar as razões do outro não houve «vitória». Isto seria até compreensível se estivéssemos falando de temas sobre os quais não pode restar dúvida: ninguém discute se água é molhada ou se em setembro chove. Os debates são, por natureza, sobre os temas mais complexos, estapafúrdios, bizantinos. Isso é muito natural: não se debate o que qualquer idiota consegue entender. Talvez por isso, na falha dos argumentos, chamar o outro de idiota é sempre um recurso lembrado: se o outro é idiota isso implica que ele não tem capacidade para compreender um conceito mais avançado, então se torna desnecessário elaborar melhor o argumento. Então, se eu consigo convencer aos outros de que estou debatendo com um idiota, eu posso me declara vencedor mesmo que tenha dito que «cadeiras são ovíparos» ou que «guitarras tem gosto de novelos». A primeira vítima de um duelo verbal é a verdade: geralmente ganha uma rinha dessas o lado que consegue esmurrá-la mais.

Não me surpreende que as pessoas façam isso em nome de crenças irracionais. Eu não discuto com os adeptos de certos conceitos. Apenas sorrio e saio de fininho. Certos conceitos não podem ser discutidos seriamente, e se a pessoa acredita de verdade a gargalhada soará ofensiva. Assistir aos debates entre essas pessoas é tão surrealista quanto ouvir papo de tietes do último grupinho pop: às vezes dá vontade de chorar, às vezes de rir. Geralmente de chorar.

Mas me surpreende muitíssimo que esse nível de argumentação corrosiva, divisiva e hipócrita seja praticado por pessoas que reivindicam saber melhor. Eu mesmo já caí nessa arapuca várias vezes, e foi preciso que um palhaço me alertasse. Bons palhaços são raros, mas quando os encontramos eles sabem o que fazer para ligar no tranco o cérebro amortecido. O palhaço que me acordou me fez enxergar como eu estava sendo cínico e como me rendia a tudo que eu abominara no passado. E ele fez isso sem ter me conhecido no passado.

Mas houve um momento em que eu percebi que debater em certo nível não é interessante porque, como diria Buda, não traz a iluminação. O que aprendo digladiando-me em fóruns da web com pessoas que não estão preparadas para entender o que eu estou dizendo e que passam a odiar-me por chutar suas bengalas?

Não que eu tenha desistido de debater. Quem acompanha esse blog sabe que eu debato bastante. Apenas mudei meus alvos, passei a pensar em causas mais restritas. No momento a minha principal causa é proteger o calo que eu tenho no pé. Sempre que o pisarem eu vou gritar, e tentarei pisar no calo de quem me piso. E de resto apareço como o palhaço, na esperança de que uma frase irrisória que eu diga acorde um cérebro entorpecido de auto-confiança.