segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Xinforínfolas

O que aprendi com as discussões dos últimos dias é que a motivação por trás da manutenção da definição de “ateísmo” como “ausência de crença” é realmente política ou social, e não crítica ou reflexiva. Fosse crítica e reflexiva, seria fácil mostrar onde está meu erro — Gregory Gaboardi, em um tópico do Bule Voador.

Pois muito bem, Gregory. Vamos partir para esta tarefa. O post vai ser longo, mas espero que valha a pena. Ontem saí deste debate deixando uma pergunta que ninguém se dignou a responder. Não lamento que alguns a tenham ignorado, porque ela foi especificamente dirigida a outros. Outros como você, especificamente. Para os que não querem voltar e ler a pergunta, repito-a: Você crê na inexistência de xinforínfolas?.

Pode parecer uma pergunta idiota (e na verdade é), mas quando você troca “xinforínfola” por “Deus” você pode começar a entender aonde quero chegar. O problema está no fato de que, pelo caldo cultural em que fomos cozidos, acreditamos (isto, sim, é uma crença) que Deus é um conceito “dado”, ou seja, é um termo definido e pronto para que nos posicionemos diante dele, contra ou a favor.

Podemos detectar nesta presunção uma falácia clara de inversão do ônus da prova. Quem considera “Deus” como um conceito fechado está fugindo da obrigação de defini-lo e transfere para os demais, os que rejeitam o conceito, a obrigação de negar o que sequer foi proposto. Muito embora seja possível falsear uma negativa, neste caso a inversão do ônus da prova é falaciosa (e até arrogante) porque não está previamente acerta se o termo significa o mesmo para os dois lados do debate. Um conhecimento básico de filosofia nos ensina que o debate é um diálogo de surdos quando não se estabelece a terminologia que será empregada nele. Se eu suponho que “pau” significa “pedra” e não conto para você que estou pensando assim, você ficará incapacitado para compreender o que estou falando. Não definir um conceito é como blefar com uma mão ruim no pôquer e recusar-se a mostrar as cartas quando um oponente paga para ver.

Os proponentes do enunciado “Deus existe” não possuem, na maioria das vezes, uma definição do que seria “Deus” e boa parte deles também não consegue explicar em que consistiria a “existência” de tal ser. Se chamarmos de “Deus” a um ser mitológico que tem a função de oferecer exemplos arquetípicos para a transmissão de valores, até um ateu empedernido concordará que “Deus existe”, se a “existência” for definida como abundância de registros ou comprovação de que há ou houve pessoas que acreditavam na realidade de tais seres. Não creio que haja muita controvérsia, portanto, na minha afirmação de que só é possível debater a validade do enunciado acima se houver um consenso quanto ao significado de ambos os termos, tanto o substantivo quanto o verbo.

Em um episódio do Chaves (seriados mexicanos também ensinam filosofia), o professor Jirafales lhe pergunta o que ele desenhou e o Chaves, exibindo um monte de rabiscos, diz que desenhou uma xinforínfola. E ainda acrescenta: “Não ficou parecida?” O desconcertado professor se abstem de comentar. Agnosticamente, alguém diria.

Ocorre que uma xinforínfola é algo que só existe na cabeça do Chaves, não sendo possível, portanto, que o professor saiba se ficou parecido ou não o desenho. Se o Godinez também resolvesse desenhar uma xinforínfola, o desenho poderia ficar muito diferente, mas ele poderia dizer que estava “parecido”. O único que poderia discordar com autoridade seria o Chaves, que imaginou a xinforínfola primeiro, mas ele não teria como provar a dessemelhança, pois para isso teria que descrever a xinforínfola, com o que ele poderia fazer com que seu desenho fosse demonstrado como “não parecido”. Para poder ainda dizer que desenhou parecido, ele teria que ignorar a xinforínfola do Godinez (no mundo real ele poderia iniciar uma guerra santa para apagar do mundo a ideia concorrente ou apregoar-se como seguidor da Xinforínfola Verdadeira).

Historicamente as religiões evitam definir os seus deuses, partindo do pressuposto de que o senso comum já o fez. O livro do Gênesis começa a narrativa da criação dizendo que “no princípio a terra era sem forma e vazia e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas”. Não há nenhuma definição profunda de Deus, de espírito ou de que águas se está falando. Presume-se que a ideia de um caos aquático original era conhecida do leitor, que espíritos e deuses são conceitos universalmente entendidos e que o cenário é adequado para o que se pretende mostrar. Seria como começar uma história do cangaço dizendo que “no tempo dos Tenentes o capitão Virgulino, o Lampião, atemorizava os sertões com sua valentia.” Este enunciado é equivalente ao primeiro verso do Gênesis em termos de ambiguidade: não se diz quando foi o tempo dos Tenentes, quem era Virgulino, porque tinha o apelido de Lampião, o que seria um sertão ou de que classe de valentia se está falando. Todos esses conceitos devem fazer parte do imaginário do leitor, ou serão gradualmente apreendidos por ele à medida em que for lendo esta e outras histórias de cangaço. Assim se fez a Bíblia, assim se fez historicamente o conceito de Deus.

Para quem está de fora, só restam tres alternativas racionais: ignorar as xinforínfolas, invalidá-las como “desenhos” avaliáveis ou acatar a palavra do Chaves e do Godinez e tentar imitar os desenhos deles. Com esse colorido (mas desbotado) episódio pretendi demonstrar a fraqueza da posição teísta. Espanta-me que se tenha desenvolvido um tortuoso caminho de argumentações lógicas para validar xinforínfoulas e as pessoas acabaram aceitando que simplesmente existem, mesmo sem ter visto nenhuma e mesmo não tendo uma definição se são animais, vegetais, minerais, artefatos ou alguma outra coisa. A posição racional diante de alguém que crê em xinforínfolas é descrer, no sentido de não aceitar esta ficção, não sem uma evidência ou, pelo menos, uma definição. Porém, dependendo do que se pensa ser uma xinforínfola, esta definição pode ser dada exatamente de forma a impedir que evidências sejam buscadas.

Não aceitar a existência de xinforínfolas não é “crer” que não existem, pelo simples fato de que não há dados que justifiquem a validade da hipótese. Desde quando temos de levar a sério as piadas toscas de um comediante mexicano que se vestia de moleque aos cinquenta anos de idade? Por que devemos levar a sério crenças surgidas entre nossos antepassados das cavernas? Deus não é um conceito “dado” simplesmente porque as pessoas sempre acreditaram nele. Durante milênios as pessoas sempre acreditaram que o Sol girava em torno da Terra, e não obstante quem gira é ela. Cada religião possui a sua xinforínfola particular e nós, que achamos graça disso, temos de aturar sermos chamados de “crentes” por rejeitarmos esse embuste?

Penso que o grande problema está na tradução. Traduttori, tradittori, dizem os italianos. O termo que se usa em inglês não tem acepção primordialmente religiosa. Tanto que se usa o termo religious belief para diferenciar a belief ordinária da belief do crente. Em português, sempre se teve “crença” como um termo religioso (talvez por causa da indigência da filosofia luso-brasileira) e só mais recentemente se introduziu o conceito como um termo filosófico.

Devido ao fato de nossa vida cultural — e principalmente filosófica — ser colonizada, nos deparamos com os bloqueios da língua para entender os argumentos dos filósofos e os nossos tradutores ainda inventam besteiras, como Ego, Super-Ego e Id para traduzir aquilo que Freud chamara de Ich (Eu), Überich (Super-Eu) e Es (Isso). Enfim, difícil a coerência quando nos deparamos com barreiras tais.

A natureza de toda esta polêmica foi cultural — e não filosófica. É claro que, sob um ponto de vista estritamente filosófico, e apropriando crença como uma tradução 1:1 de belief (o que não é verdade), podemos dizer que, sob certo ponto de vista e para algumas pessoas, o ateísmo é uma crença. Penso, porém, que não é e nem pode ser uma “crença na inexistênciab, mas sim uma crença na invalidade da proposição do conceito de Deus. A crença que se manifesta no ateísmo não é quanto a Deus, mas em critérios que permitam racionalmente excluir a possibilidade de existência de xinforínfolas…

O ponto central do agnosticismo, que só fui entender melhor lendo Russell, é que não existem conceitos privilegiados, que devamos necessariamente considerar dignos de apreciação. Ou os conceitos são exprimíveis em termos objetivos (ainda que incrivelmente complexos a ponto de só poucos poderem entender) ou então eles são irrelevantes. Não podem ser provados falsos, mas isso não é uma força de tais conceitos, mas sua incomensurável fraqueza.

Qualquer xinforínfola que eu imagine é absolutamente infalseável, você jamais saberá dizer se meu desenho ficou parecido ou não. A única diferença entre uma xinforínfola e Deus é que nós sabemos quem e quando inventou a ideia de xinforíncula — e com que objetivo (meramente fazer rir) — mas não sabemos quem e quando inventou a ideia de Deus. Será que devemos considerar o conceito “Deus” como privilegiado em relação ao de xinforíncula só porque é muito antigo?

Acredito que Siddharta nos deu uma boa resposta quanto a isso.