terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Formas ateístas de ser religioso

Eu tenho tentado não ser excessivamente polêmico em meus debates no Orkut, afinal moderação é uma qualidade. Mas diante da insistência de certas posições “iluminadas” por aí e da forte tendência a um consenso (coisa que absolutamente não é recomendável num debate entre céticos), vejo-me forçado a fazer uma intervenção mais provocativa que — tenho certeza — fará poucos pensarem, mas atrairá muita ira sobre mim. “Matem o mensageiro” parece ser uma prática comum diante de fatos ou relatos que não agradam.

Uma característica do ser humano é procurar atribuir significados transcendentais aos seus atos. Nós precisamos que nossos atos tenham implicações além do mero momento, além da pura satisfação. Uma das maneiras de fazer isso é através da religião. Ela permite que sublimemos muitos aspectos de nossa personalidade. Um assassino, por exemplo, pode tornar-se um cruzado. Um tímido pode virar um sacerdote e seguir o celibato. Um suicida se transforma em um mártir em troca de setenta e duas virgens. Um toxicômano vê deus quando toma o santo daime. Todos estes atos (matar, abster-se do sexo, matar-se, drogar-se) respondem a necessidades que derivam, por sua vez, da personalidade de cada um e das circunstâncias. Eles podem ser reprimidos (mas nós, é claro, vivemos numa época em que reprimir as coisas é caretice) ou podem ser vividos. Mas se tivermos que vivê-los, é melhor vivê-los de uma forma que seja respeitável. Se for possível o respeito da sociedade, ótimo. Mas se não for, o respeito próprio já está bom.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vashti: A Feminista Original

A Rainha Vashti era uma mulher muito bonita, segundo reza o livro. Tinha de ser, pois os reis antigos eram bem exigentes quanto a isso. A história de sua desgraça exemplifica muito bem como as religiões abraâmicas veem as mulheres e quais são os valores sociais nos quais somos educados.


“Vashti recusa o chamado do rei” — pintura de Edwin Long (1829-1921)

Durante um banquete dado pelo rei aos seus sátrapas, ministros e funcionários — um banquete que já durava sete dias — o rei, alegre pelo vinho, pediu aos seus camareiros que trouxessem a rainha diante dos convivas, para que o rei lhes exibisse a sua beleza.

Há duas interpretações para a natureza do chamado que Assuero faz:

  1. Embora isto não seja dito diretamente no livro, está implícito que a rainha foi convocada para aparecer em trajes sumários, pois completamente vestida a sua figura já devia ser conhecida de todos, não fazendo sentido que o rei a mandasse chamar para isso. Outros indícios das intenções do rei se encontram nas observações, algo maliciosas, de que ele se encontraria “com o coração alegre pelo vinho” e de que os camareiros deviam trazer a rainha “vestindo sua coroa”. Mais à frente o texto bíblico enfatiza que a razão pela qual Assuero fez-lhe tal pedido era que Vashti era “bonita de se olhar”. As representações tradicionais da cena sempre colocam-na vestida de uma camisola—sugerindo que ela se encontraria no harém real. Esta sugestão fica mais forte quando consideramos que Vashti estava dando seu próprio banquete para suas amigas, parentes e visitantes, no momento em que foi chamada.
  2. Uma outra possível interpretação é de que realmente não haveria nenhuma nudez, mas que a simples aparição pública de Vashti seria inaceitável, pois nas culturas do mundo antigo era a norma que as mulheres ficassem protegidas da visão profana (em um harém, por exemplo). Neste contexto, a indecência não estaria nos trajes sumários da rainha, mas em trazê-la — sem véu — diante de um número indistinto de homens, nem todos de alta classe social, apenas para mostrar o quanto era bela. Temos um aspecto de sacrilégio envolvido, além da pura humilhação pessoal de Vashti.

As intenções de Assuero eram totalmente fúteis: exibir a mulher, como um bibelô, diante de uma multidão de homens bêbados. Vashti era, para Assuero, apenas algo bonito de se olhar, uma joia rara que ele devia mostrar aos seus convivas. A convocação de Vashti era uma humilhação, especialmente se considerarmos o papel sagrado que as rainhas ainda possuíam em certas culturas antigas, antes do predomínio do patriarcalismo que está expresso, por exemplo, no Livro de Ester. As circunstâncias do banquete de Assuero são uma afronta completa à dignidade de Vashti enquanto rainha, mulher e ser humano — e por isso não era mais do que natural que ela hesitasse em obedecer. A desobediência de Vashti pode ter três significados, dependendo de como a história for interpretada:

  1. Trata-se de uma manifestação ainda de autoridade, em desafio ao poder monocrático do rei. Neste contexto, a rainha reivindica para si algo da dignidade ancestral da mulher, em uma época e em uma cultura na qual o matriarcado ainda não estaria totalmente esquecido. Esta tese não faz muito sentido se tomarmos o contexto medo-persa, pois tais povos eram pastores e patriarcais há milênios. Mas faz sentido se ela fosse originária de uma cultura diferente.
  2. Trata-se de uma atitude coerente com o papel religioso que a rainha poderia ter, seja no culto oficial persa, seja no culto originário no qual Vashti se inscreveria, no caso de ser estrangeira.
  3. Pode ser uma recusa pessoal a ser exibida como um troféu no salão de banquetes do palácio. Esta interpretação, algo curiosamente, é a que a Bíblia tenta nos convencer a aceitar. De certa forma, é a que parece fazer, também, mais sentido.

Conclui-se isso porque os conselheiros reais argumentaram com Assuero que a recusa de Vashti era uma afronta não apenas ao monarca, mas a todos os homens do Império Persa, cujas mulheres começariam a desobedecer se soubessem que o próprio rei não tinha a obediência da rainha. Então, para evitar que tal coisa acontecesse, Assuero rejeita Vashti, recusando-se a recebê-la (ou seja, negando-lhe não apenas sexo, mas uma descendência) e tomando para si várias concubinas entre as donzelas do reino. Uma destas foi Ester, que justamente obteve seu status graças à sua estrita obediência a Assuero.

Mas antes de passarmos a falar de Ester, é preciso notar a total ausência de julgamento, na Bíblia, sobre a ética do rei em exibir sacrilegamente a beleza de sua esposa. Certamente naquela época a ICAR não havia inventando os “sete pecados capitais”, mas fica claro aí que o rei cometeu, no mínimo, o pecado da futilidade (que não é capital, mas deveria ser). Só que isso não interessa ao autor bíblico: quem teria de se haver com Deus por seus pecados seria o rei em pessoa: à mulher cabe obedecer até quando o marido lhe ordena que cometa um pecado (pois, logicamente, a mulher — eterna criança — não é nem responsável por seus atos perante Deus: é o marido que por ela responde).

Seja qual for a relevância que se atribua aos atos posteriores de Ester (salvar todo o povo judeu, por exemplo), é inegável que a mensagem que se passa é de que se você desobedece ao seu marido, será abandonada e ele escolherá outra mais jovem; mas se você o obedece, consegue influenciá-lo de forma que ele fará o que você deseja.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Como Espalhar Desinformação Entre os Ignorantes

Faça perguntas carregadas

Afirme perguntando: “Fulano é ladrão?” Você não tem nenhuma ideia de culpa do fulano, mas a insistência em perguntar faz com que todos desconfiem dele. E você, claro, inocente como só, nunca poderá ser acusado de acusar ninguém: “Eu só estava perguntando?” Boas perguntas carregadas criam assuntos, em vez de comentar sobre o que já se fala.

Faça negações complicadas

Certas negações são tão difíceis de decodificar, especialmente quando redigidas por alguém com talento para advogado, ou quando a entonação prejudica a conexão entre o que se nega e a negação propriamente dita, que funcionam como afirmativas. Como bem dizia Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”.

Use a ignorância a seu favor

Uma regra de ouro da propaganda é que nenhum bicho de estimação é tão querido quanto a ignorância que cada um tem dentro de si. Faça um ignorante acreditar que “já sabe”, dispensando-o do labor terrível de ter que aprender, e ele aceitará com grande facilidade o que você quer. Por isso, seja qual for seu objetivo, cuide para que ele esteja em sintonia com as crendices e as distorções que já são encontradas no seio do seu público. Parta desta maçaroca de erros e preconceitos, adule a estupidez e introduza sua pequena palha no monturo da mentira.

Com esta receita, muito best-seller se escreve.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Minhas Previsões de Ano Novo

Esse começo de ano é o momento em que ledores de mãos, botadores de tarô, jogadores de búzios e outros quejandos conseguem minutchinhos de fama na televisão para falar bobagens a respeito do ano novo. O objetivo da televisão é meramente encher linguiça — e não há melhor modo de fazer isso do que dando ao telespectador a ração de ignorância e superstição que ele tanto aprecia fuçar. O objetivo do «místico» da vez é sempre aparecer, fazer propaganda de si mesmo e de seus «talentos sensoriais» a fim de conseguir fregueses.

E já que tem tanta gente fazendo isso, e ligando para isso, e ganhando dinheiro com isso — por que não eu? Exercitar-me-ei em uma série de predições para o ano novo.

Bem, e com que base o farei — decerto indaga algum espírito-de-porco que me lê. Evidentemente com toda a base necessária: algum conhecimento oculto, que só eu entendo, ligado a um talento especial, que só pessoas como eu entendem. Então você não tem que perguntar como eu sei dessas coisas, tem só que acreditar que eu obtive essas revelações. Se insistir muito, eu lhe digo que sou formado em História e como diz o Paulo Coelho, numa célebre letra cantada pelo Raul Seixas: Eu sou astrólogo, eu conheça a História do princípio ao fim. Exato, isso mesmo, você entendeu. Na qualidade de licenciado em História eu possuo conhecimentos para interpretar os rumos arcanos dos acontecimentos e fazer extrapolações sensatas para o futuro. E tenho certeza de que minhas previsões fazem mais sentido do que as do «Jorge da Fé em Deus», o célebre pai-de-santo baiano que previu que o Brasil ganharia a Copa do Mundo de 1982 e ainda decretou o adversário e o placar: Brasil 2x1 Argentina.

Seguem as previsões:

  • O ex-vice presidente José Alencar terá graves problemas de saúde.

  • O Flamengo anunciará planos de contratar pelo menos uma grande estrela do futebol internacional, mas não vai contratar ninguém.

  • Um parente de Michael Jackson dará entrevista a algum programa de televisão nos Estados Unidos afirmando que ele foi assassinado!

  • Silvio Berlusconi fará declarações polêmicas, que irritarão os líderes de outros países.

  • Os baianos afirmarão ter inventado um «novo ritmo» que, no entanto, será igual ao pagode e só terá um passinho diferente na dança.

  • Barack Obama terá dificuldades para implementar seus planos de governo.

  • Celso Roth não terminará o ano como técnico do Internacional, a menos que vença o campeonato gaúcho.

  • O presidente Lula seguirá tendo grande influência sobre o governo.

  • Haverá um golpe de estado em um país da África.

  • O site WikiLeaks publicará alguns segredos militares americanos.

  • O primeiro ministro do Japão renunciará.

  • A China apertará a censura contra sua população, especialmente na Internet.

  • A AIDS fará muitas vítimas no mundo inteiro, especialmente na África.

  • Haverá uma epidemia de dengue no Brasil.

  • Julian Assange será absolvido da acusação de estupro.

  • Paulo Coelho receberá uma homenagem no exterior.

  • Um astro do futebol brasileiro será contratado por um clube da Europa.

  • Haverá um atentado terrorista protagonizado por muçulmanos radicais.

  • Uma célula de simpatizantes do nazismo será «estourada» pela polícia no Brasil.

  • As seleções brasileiras participarão da Liga Mundial de Vôlei.

  • A Rede Globo apresentará no dia 31 de dezembro de 2011 um programa gravado contendo trechos musicais interpretados por números de sucesso da música popular.

  • Jorge Kajuru será processado.

  • Muitos técnicos perderão seus cargos nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.

  • Acusações de corrupção derrubarão um político no Brasil.

  • O resultado do Carnaval carioca será muito polêmico.

  • Haverá grande atrito político entre a Coreia do Norte e a do Sul, mas não guerra declarada.

  • Eu lançarei um livro, pela Editora Multifoco.

  • Um líder muçulmano conclamará seus seguidores a matar uma personalidade europeia ou americana que supostamente ofendeu o Islã.

  • Palestinos serão mortos pelas Forças de Defesa de Israel.

  • Um brasileiro vencerá corridas de automóvel no exterior.

  • «Lula, O Filho do Brasil» não vencerá o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

  • São Paulo sofrerá com alagamentos causados por chuvas de verão.

  • Um novo modelo de automóvel será lançado.

  • O papa dará uma declaração sobre planejamento familiar.

  • A tese do Aquecimento Global Antropogênico sofrerá duras críticas de «pesquisadores independentes».

Quem quiser mais previsões, pode também consultar o Capitão Óbvio.