terça-feira, 29 de março de 2011

...E Acreditam nas Flores Vencendo o Canhão

Há um verso de profundo desencanto no [hoje maldito] hino dos “Anos Rebeldes” brasileiros. Ao criticar de forma velada o movimento hippie (e outros movimentos de paz e amor), Geraldo Vandré constatou: “pelas ruas marchando indecisos cordões que ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão.”

Há uma poesia profunda no gesto de entregar flores aos agentes mandados pelo governo para matar você. Rende lindas imagens para os canais de notícias, rende heróis que serão lembrados por décadas ou séculos, mas raramente rende progressos reais — a menos que as flores sejam entregues dentro de um contexto favorável a flores. Há momentos históricos favoráveis ao canhão, e eles são a maioria. Na verdade é apenas por exceção que a flor adquire algum poder.

No seu romance “infantil“ intitulado “O Menino e o Presidente”, o escritor Wilson Rio Apa imaginou um perfume, inventado por acaso por um grupo de crianças, a partir de um laboratório de química deixado por seu falecido avô. Esse perfume tornava as pessoas “legais”, tornava-as empáticas, bem intencionadas, bondosas. Ao perceberem o efeito, as crianças resolvem dar o perfume, embebido em um buquê de rosas, ao Presidente da República. Deve ter custado muita coragem ao autor para escrever isso nos anos 70, plena época de ditadura e torturas. Ainda mais que no livro as crianças, identificadas como perigosos subversivos, são presas, separadas dos pais e mandadas para lugares diferentes do mundo (com a leve sugestão de que elas seriam, na verdade, mortas ou abandonadas para morrer). Linda história infantil, linda lição de moral. Cresci com o trauma de ter lido esse livro. Mas acredito que traumas assim fazem falta, ajudam as crianças e entenderem uma certa noção de valores, que é preciso ser “legal” nesse mundo.