domingo, 23 de outubro de 2011

Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.

sábado, 15 de outubro de 2011

Vegetarianismo de Grife Só Serve Como Consolo do Complexo de Culpa Capitalista

Reelaboração de um post feito no Paulopes, a respeito de um determinado aspecto da argumentação pró-vegetariana.

O movimento vegano/vegetariano é mais uma estratégia dos donos do poder econômico para desviar a atenção da população da real causa da escassez (que é a ineficiência do capitalismo para produzir a plenitude). Quando digo isso estou me expondo a severas críticas, tanto da parte dos vegetarianos quanto dos que são céticos em relação a teorias de conspiração. Por isso, nesta revisão de meu argumento original postado no blog Paulopes.com.br, devo ser mais rigoroso com a minha lógica e fazer a devida introdução, na esperança de ser mais claro.

Comecemos pela questão de definição do que é “movimento vegano/vegetariano”. Que fique claro que não existe tal movimento de uma forma organizada, tal como não existe um “movimento homossexual” ou um “movimento roqueiro”. O que existem são pessoas que aderem a um determinado modo de vida, seja por causa de influências genéticas/congênitas seja por causas sociais/preferenciais. Acredito que o vegeto-veganismo pertence à segunda categoria: ninguém “nasce vegetariano/vegano”, mas adota isso como estilo de vida por alguma razão. Esta alguma razão é precisamente o ponto que pretendo argumentar.

Tendo deixado claro que não estou apontando o dedo para uma suposta Internacional Vegetariana a serviço dos Illuminati, passemos à questão de quem são os “donos do poder econômico” e da razão pela qual afirmo que não estou criando uma teoria de conspiração. Que o poder econômico tem dono, nem a mais ingênua Poliana seria capaz de ignorar (a não ser retoricamente, mas isso é irrelevante). Que tal poder busca difundir seus valores através dos mais variados meios (inclusive os meios de comunicação, que ele controla), tampouco é loucura imaginar. Loucura seria dizer que o simples acesso a tais valores difundidos zumbifica de tal forma o indivíduo que ele passa a obedecer cegamente. Lavagem cerebral não funciona assim.

Quando digo que o vegetarianismo é “mais uma estratégia” dos donos do poder eu não estou dizendo que Wall Street está vendendo a ideia de que todo mundo deve ser vegetariano/vegano, estou dizendo que os valores difundidos pelos donos do poder econômico acabam levando as pessoas a desenvolver estratégias de salvação pessoal — e o vegeto-veganismo se encaixa nisso. A minha tese aqui é, portanto, a de que muitas pessoas, se não a maioria, aderem a essa dieta devido à pressão que sofrem no seio da sociedade capitalista — e não por acreditarem realmente nos valores envolvidos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Rancores da Direita

O episódio lamentável de infantilidade de nossa imprensa vendida diante do doutorado concedido a Lula pela faculdade Sciences Po1 me fez pensar no quanto as pessoas são incoerentes em seu nível de exigência. Pois é, existem pessoas que vivem frustradas por terem presenciado o naufrágio de suas ideologias diante da realidade. E destilam isso em rancores contra quem pensa diferente. Rancores que se manifestam na exigência de perfeição da parte de quem conseguiu fazer algo de bom. Aquele que é contra mim precisa ser um santo, somente os santos têm o direito de discordar de mim. E somente aquele que resolver todos os problemas tem o direito de dizer que as minhas soluções não resolvem problema algum.

Lula não é a oitava maravilha, acho-o aliás, um bronco. Mas ele fez algumas coisas óbvias, que deram certo e o país hoje está melhor do que há dez anos. Para certas pessoas, isto não basta: como ele não acabou definitivamente com a pobreza, não transformou o Brasil na maior potência do mundo, não curou o câncer, não trouxe Jesus de volta e não manifestou estigmas, então ele merece o opróbrio e a malícia daqueles que discordam dele.

É característica do medíocre não conseguir enxergar valor nas realizações alheias, especialmente nas realizações dos que pensam diferente, mesmo em tese. O fundamentalista medíocre não é capaz de dizer sequer que alguém do “outro lado” produziu algum progresso como mera estratégia para obter votos, ele afirma que o progresso foi retrocesso, que a verdade é mentira, que a mentira é verdade, que as obras não existem, que mais é menos, que menos é mais. O fundamentalista medíocre nega a existência da realidade quando ela legitima, mesmo que transitoriamente, um ponto de vista que é oposto ao seu.

Mas quando a realidade é reconhecida por outros, o fundamentalista se volta contra esses. Aqueles que reconhecem o valor de seu adversário, ou são adversários também ou então são ingênuos, são ignorantes, precisam ser educados, pelo medíocre, a respeito da realidade que são incapazes de enxergar. Daí uma repórter de O Globo tentar educar o reitor da Sciences Po a respeito dos pecados imperdoáveis de Lula.

1 Aliás, eu nunca tinha ouvido falar dessa tal faculdade, tenho de confessar. Suponho que muita gente que falou mal do episódio tampouco tinha.