sábado, 26 de novembro de 2011

O Mundo de Cabeça Para Baixo

Uma das notícias mais impressionantes da semana foi o pedido de ajuda de Portugal a Angola. Dá uma certa ânsia imaginar que outras grandes mudanças estão em gestação para este mundo que viveu os últimos vinte anos se equilibrando perigosamente na corda bamba da especulação. Até quando a Europa geriátrica ainda terá esperanças de sobreviver, se ainda tem? Não tentarão estes países, armados e famintos, tomar à força o que não podem comprar, tal como cangaceiros de filme antigo? Talvez não seja o caso do pobre Portugal, que talvez perdesse em uma batalha naval contra Andorra, mas se a crise apertar mesmo, ainda temos respeitáveis canhões na Euroamérica: Estados Unidos, Grã Bretanha, França (apesar de não ganhar nenhuma guerra desde os tempos de Luís XIV), Alemanha (esta desdentada pelos tratados do pós-guerra), Itália (apesar de sua tradição de incompetência militar nos últimos 400 anos) e Rússia. Como pode um país relativamente rico ou “enriquecente” proteger-se sem tecnologia militar de ponta? Parece que somente a China tem essa capacidade, e talvez a Índia. Daí a sorte (sorte?) de estarmos associados a eles (e numa hora dessas devemos xingar muito Collor e FHC por sepultarem nosso projeto de bomba atômica, e certo estava o louco Enéas) em vez de soltos no sertão do século XXI.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Retrato de uma Retratação

Este post pretende analisar os pontos significativos da retratação apresentada pelo Bule Voador em relação à publicação de uma notícia absurda e mentirosa, inventada por um mitômano notório. Sugiro a leitura desta postagem anterior para compreender melhor o que está sendo dito.

Não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta, mas reconhecemos que ela existiu.

Como assim, caras pálidas? Não concordam que a sua falta de cautela tenha sido absoluta? Sequer visitaram o blog do sujeito para ver qual a dele? Sequer procuraram mais informações? Se a falta de cautela não foi absoluta, me expliquem onde foi que vocês mostraram alguma cautela nesse episódio. Não ficaria mais bonito dizer que erraram e pronto? Por que relativizar o erro?

Recebemos semanalmente relatos de ateus sendo demitidos ou insultados dentro ou fora de casa por se exporem como tais, e erramos em imaginar que este fosse um caso extremo deste fenômeno existente.

O que nos faz pensar quantos de tais relatos semanais não podem ser, também, inventados por pessoas interessadas em aparecer. Será que não caberia ao bule, se pretende publicar tais relatos, passar a agir de forma jornalística e investigá-los? Infelizmente a grande mídia está decadente e o que está ficando no lugar dela é esse jornalismo podre que republica relatos sem checar nada. Por que não usar de ceticismo quanto a isso, caros amigos?

O fato é que nós nos deixamos levar pelo calor das emoções e abandonamos por um instante nosso crivo cético,

Como assim, “por um instante”? Vocês publicaram a retratação SEIS DIAS após a história ter aparecido no Bule Voador, somente depois de começarem a virar chacota na blogosfera. Por que vocês preferiram exercitar o seu “crivo cético” em relação às pessoas que estavam fazendo críticas às suas práticas em vez de admitir a coisa toda?

até por solidariedade ideológica como ateus que somos,

Pára, Eli, pára que isso é papo de partidão. Por solidariedade ideológica Sartre apoiou a invasão da Hungria pela União Soviética e John Reed fechou os olhos para as primeiras deportações étnicas. Não devemos ser ideologicamente solidários com NADA, mesmo porque, uma ideololgia é uma crença, é um tipo de religião também. Vocês estão pisoteando no túmulo de Bertrand Russell ao admitirem “solidariedade ideológica”.

sequer nos demos conta do quão incoerente, enfeitada e exagerada ela era de fato.

Não se deram conta porque não REFLETIRAM a respeito dela por mais do que alguns segundos antes de apertarem o botão de publicação. A história era autocontraditória e bastaria duas pessoas razoavelmente céticas terem feito uma análise de dez minutos e teriam indícios seguros de que não era verdade. Eu postei uma dura e total retratação NO MESMO DIA em que a história foi publicada e o link para o meu post esteve por minutos entre os comentários. Se vocês não estivessem ocupados sendo ideololgicamente solidários com os outros poderiam ter visto que nada ali se sustentava. E vocês ainda acham que houve alguma cautela nos procedimentos (“não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta”).

Depois de publicado e em função das necessárias críticas, paramos para refletir sobre o assunto,

Se não tivessem surgido as “necessárias críticas”, quanto tempo vocês teriam demorado para refletir sobre o assunto? Quantos relatos semelhantes não devem estar dormindo nos arquivos do Bule, apenas porque ninguém enfiou o dedo na ferida?

Entretanto, com tamanha visibilidade do blog, não poderíamos simplesmente apagar o post imediatamente, que, nos primeiros 30 minutos já tinha quase 700 visualizações, mesmo postado às 5h da manhã.

Então, já que não podiam apagar, a coisa certa a fazer era dizer que estavam fazendo um “experimento sociológico”? Vem cá, vocês já ouviram falar de “ad hoc”? Senta lá, Cláudia.

A demora para nos posicionarmos publicamente sobre o ocorrido foi em função de decisões em grupo do Conselho de Mídia,

Ou seja, os responsáveis pela publicação tentaram evitar a retratação ao máximo, mesmo depois de terem percebido a patranha.

mas o máximo que recebemos foram links próprios irrelevantes e muito ad hoc.

Então vocês já ouviram falar de “ad hoc”.

Lamentamos que existam ateus assim, que contam qualquer coisa para difamar religiosos, e declaramos a história contada pelo Guilherme Kempoviki uma farsa até evidência em contrário.

Como assim, “declaram”? Vocês têm o poder de decidir o que é verdade e o que é farsa? Ah, esqueci que sua falta de cautela não foi absoluta!

Eli Vieira, e outros. Lamento dizer, mas vocês se tornaram aquilo que tanto combateram: Daniel Sottomaior e sua ATEA. “Quando contemplas o abismo, o abismo também te contempla” (Nietzsche).

sábado, 19 de novembro de 2011

E Entornou o Bule

No dia dezoito saiu uma notícia absurda no “Bule Voador”, blogue que pretensiosamente se apresenta órgão oficial de uma “igreja ateísta” chamada “Liga Humanista Secular do Brasil”, que, por sua vez, se intitula como capítulo tupiniquim de uma série de movimentos gringos que incluem nomes pomposos (e devidamente gringos) como Daniel Everett e Daniel Dennet, além de expoentes do ceticismo internético nacional, como o Kentaro Mori (cujo trabalho eu respeito muito).

A postagem em questão é um relato, digno de filme de terror, sobre como um pobre ateu teria sido submetido, por uma enfermeira e em um quarto de hospital, a uma sessão de tortura que quase lhe tirou a vida. Tortura essa motivada pelo fanatismo religioso. As reações, mesmo dentro da comunidade cética, devem ter sido intensas, tanto assim que, mesmo sem retirar a postagem, os responsáveis pelo blogue trataram de trancar os comentários para evitar a saraivada de críticas que certamente estão pululando. Entre elas a minha, que eu estou compartilhando aqui, nesse humilde espaço desconhecido, já que os moderadores não a aceitaram lá.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Diversidade da Unidade

Comentário a respeito de certas observações feitas por participantes de um fórum na Internet

Um dos perigos da ideologização das bandeiras progressistas é a criação de consensos e compromissos que as atenuam de forma suave e gradual até se transformarem em sua própria negação. Um bom exemplo foi a Revolução Russa, em sua fase institucionalizada: primeiro puseram o Partido para falar pelo povo, depois os Comitê Central para falar pelo Partido, depois o Presidium para falar pelo Comitê Central.

Basicamente o que você está propondo é que em nome da "unidade" do "movimento" os "revolucionários" fechem os olhos para posturas antiéticas, contraproducentes, equivocadas e/ou simplesmente fadadas ao fracasso (por favor, o "e/ou" se refer a cada um dos itens). Alguns aqui discordaram de uma edição do vídeo que distorceria o que foi dito por Malafaia, você acha que devemos aceitar "edições de vído" em nome da coerência da "revolução". Eu, que já vi o estrago que uma "edição" bem feita pode fazer (eu tinha 17 anos incompletos em 1989), afirmo que não podemos aceitar isso com naturalidade.

Uma luta que recorre a armas falhas não pode ser bem sucedida. Porque, mesmo que vença, será uma vitória para estabelecer outro erro. O socialismo era uma ideia bonita, mas a revolução russa criou um imperialismo totalitário -- isso não foi bonito. Engraçado que por muito tempo os socialistas desculparam os desvios da revolução justamente para evitar a desunião, denunciando como vaidades fúteis e traições os casos de deserção.

O mais absurdo de se fechar os olhos a algo que achamos errado, apenas para manter a união, é que nós fechamos os olhos, mas o adversário, não. Mesmo que nós não critiquemos uma falha no "movimento", certamente o adversário a perceberá e a utilizará para seu benefício. O que o movimento ganha, então, fechando os olhos para suas contradições? Nada além de permitir que lideranças ineptas dominem o quintal. Lideranças que pregam para os conversos, mas não tem sucesso em enfrentar o mundo "lá fora".

A autocrítica não é uma fraqueza, é uma força. Um movimento que se vê "enfraquecido" pela existência de autocrítica é um movimento mentiroso, que veste uma impostura de unidade e força para consumo interno, mas que perde legitimidade perante a sociedade e perante a posteridade.

Se queremos produzir uma mudança nova, permanente e valiosa para a sociedade, precisamos que nossa luta se baseie na transparência, na ética e na racionalidade. Isso inclui aceitar a autocrítica como uma forma de detectar precocemente falhas estratégicas. Inclui rejeitar os vícios que combatemos, em vez de apenas inverter o balanço do poder, substituindo um extremo pelo outro. Inclui aceitar lideranças pela sua eficácia e pela sua coerência, e não pelo seu carisma.

Aquilo que vocês dois propuseram é uma reação imatura (quase infantil) diante do diagnóstico de um possível erro. Eu me distancio de movimentos que possuem tais lideranças e que se baseiem em tais estratégias. E acredito que todos que não queiram decepcionar-se devem afastar-se também.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Verdadeiro Autor Marginal

Post descaradamente copiado do meu outro blog, Letras Elétricas.

Você provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. Acontece que ele se tornou hoje o pivô de uma das notícias literárias mais interessantes do ano, ao tornar-se o autor do livro “A Trindade dos Super-Garotos, Livro I: A Busca pela Água”. Aparentemente não há razão alguma para que o caso seja “interessante”, mas o caso merece atenção.