quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deveríamos Declarar Guerra Total às Drogas?

Hoje tive a oportunidade de encontrar, compartilhado por um amigo virtual no Google Plus, um artigo de autoria de Richard Branson, o milionário dono do conglomerado de comunicações e transportes Virgin defendendo o fim da guerra às drogas. Após ler a opinião que ele expressou, fiquei seriamente inclinado a duvidar dos resultados, mas uma dose salutar de ceticismo precisa ser controlada para não descambar no descarte de informações que vão contra aquilo que chamamos de «bom senso» e que, na maioria das vezes, é apenas o condicionamento relacionado aos nossos preconceitos e, em nome disso, decidi que precisava refletir mais sobre o tema, não apenas checando as informações apresentadas por ele em defesa de sua opinião, mas buscando também o contradito.

Não gosto muito de iniciar este tipo de empreitada porque, cidadão do interior que sou, sofro de sérias limitações para empreender esse tipo de pesquisa fora da internet, mas a grande rede me permite ter acesso a informações que eu nem sonharia ter há cinquenta anos — e por causa disso eu me animei a fazer a pesquisa.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Xinforínfolas

O que aprendi com as discussões dos últimos dias é que a motivação por trás da manutenção da definição de “ateísmo” como “ausência de crença” é realmente política ou social, e não crítica ou reflexiva. Fosse crítica e reflexiva, seria fácil mostrar onde está meu erro — Gregory Gaboardi, em um tópico do Bule Voador.

Pois muito bem, Gregory. Vamos partir para esta tarefa. O post vai ser longo, mas espero que valha a pena. Ontem saí deste debate deixando uma pergunta que ninguém se dignou a responder. Não lamento que alguns a tenham ignorado, porque ela foi especificamente dirigida a outros. Outros como você, especificamente. Para os que não querem voltar e ler a pergunta, repito-a: Você crê na inexistência de xinforínfolas?.

Pode parecer uma pergunta idiota (e na verdade é), mas quando você troca “xinforínfola” por “Deus” você pode começar a entender aonde quero chegar. O problema está no fato de que, pelo caldo cultural em que fomos cozidos, acreditamos (isto, sim, é uma crença) que Deus é um conceito “dado”, ou seja, é um termo definido e pronto para que nos posicionemos diante dele, contra ou a favor.

Podemos detectar nesta presunção uma falácia clara de inversão do ônus da prova. Quem considera “Deus” como um conceito fechado está fugindo da obrigação de defini-lo e transfere para os demais, os que rejeitam o conceito, a obrigação de negar o que sequer foi proposto. Muito embora seja possível falsear uma negativa, neste caso a inversão do ônus da prova é falaciosa (e até arrogante) porque não está previamente acerta se o termo significa o mesmo para os dois lados do debate. Um conhecimento básico de filosofia nos ensina que o debate é um diálogo de surdos quando não se estabelece a terminologia que será empregada nele. Se eu suponho que “pau” significa “pedra” e não conto para você que estou pensando assim, você ficará incapacitado para compreender o que estou falando. Não definir um conceito é como blefar com uma mão ruim no pôquer e recusar-se a mostrar as cartas quando um oponente paga para ver.

Os proponentes do enunciado “Deus existe” não possuem, na maioria das vezes, uma definição do que seria “Deus” e boa parte deles também não consegue explicar em que consistiria a “existência” de tal ser. Se chamarmos de “Deus” a um ser mitológico que tem a função de oferecer exemplos arquetípicos para a transmissão de valores, até um ateu empedernido concordará que “Deus existe”, se a “existência” for definida como abundância de registros ou comprovação de que há ou houve pessoas que acreditavam na realidade de tais seres. Não creio que haja muita controvérsia, portanto, na minha afirmação de que só é possível debater a validade do enunciado acima se houver um consenso quanto ao significado de ambos os termos, tanto o substantivo quanto o verbo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Desimportância da Política na Sociedade Moderna

Aristóteles considerava a política uma atividade tão importante que aceitou ser preceptor de Alexandre o Grande, na esperança, talvez, de criar um rei filósofo que levasse a luz da Hélade aos bárbaros. Nunca se saberá exatamente em que estava pensando quando aceitou o emprego. Possivelmente apenas em dinheiro, visto que, na qualidade de «estrangeiro» (da maneira muito peculiar com que os gregos usavam este conceito), era o máximo a que poderia aspirar em uma cidade.

Para dar cabo de sua tarefa, ele escreveu uma obra que fundou uma ciência. Ao longo dos séculos muitos outros pensadores continuaram elaborando teses e conceitos sobre as maneiras pelas quais os senhores e os servos interagem naquilo que hoje em dia chamamos de «sociedade». Verifica-se, porém, um empobrecimento conceitual desta arte no século XX, de certa forma simultâneo ao crescimento do prestígio de um outro campo do conhecimento: a economia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Preparados Para Perder

A torcida do Santos deve estar até agora atônita com o que aconteceu em Yokohama. Menos atônita, porém, do que os próprios jogadores e a comissão técnica, que certamente ainda não se deram conta do que foi que os atingiu. Não há meias palavras para o que houve na final do Mundial Interclubes, o que houve foi uma goleada regulamentar que só não foi maior por razões secundárias: alguns impedimentos indevidamente marcados contra o Barcelona, pelo menos um pênalti não dado, um festival de erros de finalização (para os padrões do time catalão) e um certo desinteresse em dedicar-se mais.

Numa hora dessas certamente surgem as tentativas de indicar os culpados. Em um país que tem noventa e cinco milhões de técnicos de futebol (as mulheres não ligam tanto assim para o esporte), surgirão dezenas de milhões de análises e é até possível que uma boa parte delas admita o óbvio ululante de que o Barcelona foi inexpugnavelmente superior durante todo o tempo e que o santos foi absolutamente inofensivo desde o primeiro apito do árbitro. Mas poucas delas dirão o que agora vou dizer: o Santos já entrou em campo devidamente preparado para PERDER.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

«Política, Futebol e Religião não se discute»

Este é um enunciado milenar, quase inquestionado na «sabedoria» popular (que, como sabemos, votou no Tiririca). De fato a mistura costuma desandar, especialmente se as opiniões chegam ao ponto de fervura. O problema não reside, porém, nestes temas específicos, que são apenas polêmicos (sendo os dois últimos mais ou menos análogos). O problema é que a maioria das pessoas simplesmente parece não ter serenidade suficiente para enfrentar uma opinião discordante, quanto mais para encarar um confronto de ideias como uma oportunidade para aprendizado.

Há um desses «provérbios chineses» que dizem que quando duas pessoas trocam ideias, cada uma vai embora levando uma ideia a mais do que tinha quando chegou. Duvido que os próprios chineses ajam assim, visto que a teimosia parece ser um dos muitos defeitos do homem compartilhados por todas as raças, castas e credos. No entanto, é justamente entre nós, brasileiros, que isto menos se vê: os debates não são vistos de forma dialética, mas como disputas de ego. Ninguém debate pensando em sair da sala sabendo mais, todos parecem estar mais interessados em fazer o oponente sair da sala desqualificado. Os debates da Internet brasileira não são debates, são duelos.

E porque o debate se transforma em duelo, torna-se impossível chegar a um consenso. Nunca basta que um lado aceite correções, elas são vistas como demonstração de fraqueza. Não basta que um lado demonstre ter suas razões, se não conseguir derrubar as razões do outro não houve «vitória». Isto seria até compreensível se estivéssemos falando de temas sobre os quais não pode restar dúvida: ninguém discute se água é molhada ou se em setembro chove. Os debates são, por natureza, sobre os temas mais complexos, estapafúrdios, bizantinos. Isso é muito natural: não se debate o que qualquer idiota consegue entender. Talvez por isso, na falha dos argumentos, chamar o outro de idiota é sempre um recurso lembrado: se o outro é idiota isso implica que ele não tem capacidade para compreender um conceito mais avançado, então se torna desnecessário elaborar melhor o argumento. Então, se eu consigo convencer aos outros de que estou debatendo com um idiota, eu posso me declara vencedor mesmo que tenha dito que «cadeiras são ovíparos» ou que «guitarras tem gosto de novelos». A primeira vítima de um duelo verbal é a verdade: geralmente ganha uma rinha dessas o lado que consegue esmurrá-la mais.

Não me surpreende que as pessoas façam isso em nome de crenças irracionais. Eu não discuto com os adeptos de certos conceitos. Apenas sorrio e saio de fininho. Certos conceitos não podem ser discutidos seriamente, e se a pessoa acredita de verdade a gargalhada soará ofensiva. Assistir aos debates entre essas pessoas é tão surrealista quanto ouvir papo de tietes do último grupinho pop: às vezes dá vontade de chorar, às vezes de rir. Geralmente de chorar.

Mas me surpreende muitíssimo que esse nível de argumentação corrosiva, divisiva e hipócrita seja praticado por pessoas que reivindicam saber melhor. Eu mesmo já caí nessa arapuca várias vezes, e foi preciso que um palhaço me alertasse. Bons palhaços são raros, mas quando os encontramos eles sabem o que fazer para ligar no tranco o cérebro amortecido. O palhaço que me acordou me fez enxergar como eu estava sendo cínico e como me rendia a tudo que eu abominara no passado. E ele fez isso sem ter me conhecido no passado.

Mas houve um momento em que eu percebi que debater em certo nível não é interessante porque, como diria Buda, não traz a iluminação. O que aprendo digladiando-me em fóruns da web com pessoas que não estão preparadas para entender o que eu estou dizendo e que passam a odiar-me por chutar suas bengalas?

Não que eu tenha desistido de debater. Quem acompanha esse blog sabe que eu debato bastante. Apenas mudei meus alvos, passei a pensar em causas mais restritas. No momento a minha principal causa é proteger o calo que eu tenho no pé. Sempre que o pisarem eu vou gritar, e tentarei pisar no calo de quem me piso. E de resto apareço como o palhaço, na esperança de que uma frase irrisória que eu diga acorde um cérebro entorpecido de auto-confiança.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Fogo Amigo no “Movimento Ateu”

Esta semana surgiu uma polêmica no "movimento ateu" a respeito da resposta dada por Daniel Sottomaior a Ives Gandra, nas páginas da Folha de São Paulo. A visibilidade de um líder do "movimento ateu" poderia ter sido um momento positivo para dissipar dúvidas e melhorar a imagem dos ateus perante a sociedade, mas o momento não foi bem aproveitado, nem por Daniel, que, talvez por restrições de espaço, não abordou o problema com suficiente amplitude, nem por outras "seitas" do "movimento ateu", que aproveitaram a oportunidade para invalidar a intervenção de Sottomaior. Pelo que acompanhei do caso, foi assim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Porque a Omissão do Cristianismo em Relação à Escravidão Segue Doendo Tanto

Se algum ateu está dizendo que a escravidão existiu POR CAUSA do Cristianismo, então está falando merda mesmo. Tem que ir estudar antes de se achar superior. Que fique bem claro que o Cristianismo não inventou e nem sequer fomentou a escravidão dizendo que 'vai que escravizar é bom, é gostoso, agrada a Deus e não faz mal.' Essa culpa o Cristianismo não tem. Mas tem uma que não é muito diferente.

O que ocorre é que, para um sistema de crenças que se pretende revelado pela própria divindade sumamente boa, que se arroga no direito de julgar toda a humanidade (incluindo os vivos e os mortos), é lamentável que o Cristianismo tenha feito tão pouco contra a escravidão.

Mas por que deveria? Deveria porque uma doutrina divinamente revelada deveria estar à frente de seu tempo, e não "sintonizada" com ele. Se eu hoje disser que o Corinthians vai ser campeão brasileiro eu serei digno de riso. Isso seria um vaticinium ex post facto (previsão do fato acontecido). Se eu disser quem será o campeão ano que vem e acertar, aí sim será notável. Se uma religião prega, com séculos de antecedência que a humanidade deve evitar algo que mais tarde se revelaria prejudicial, então isso é notável, mas se a religião apenas endossa a prática de seu tempo, ainda que prejudicial, então ela não está fazendo nada demais.

Um exemplo: vários livros do AT recomendam aos judeus cortarem os bosques dos povos conquistados, deixando apenas as árvores frutíferas. Nos bosques se cultuava a natureza, o que era "pecado". Graças à devastação comandada por Javé a palestina desertificou-se durante a antiguidade, deixando de ser a "terra de leite e mel" do tempo pré-exílico para ser o pedaço árido que os romanos ali encontraram.

Outro exemplo: a escravidão foi a responsável pela falha estrutural da civilização greco-romana (cuja tecnologia e conhecimentos só seriam igualados no século XIX). Pode não ter sido a única, mas foi a maior culpada. Sem falar no sofrimento incrível que causou às vitimas. Ao endossar a escravidão o Cristianismo prolongou e agravou a agonia da Europa, trouxe morte e destruição ao mundo inteiro.

E digo "endossou" pelo simples fato de que tolerou. Tolerar o mal é endossá-lo. A Igreja guardiã da moral e detentora da revelação divina não achava errado escravizar ninguém. Na Bíblia Paulo até aconselha os escravos a serem submissos.

Ao fazer isso, a Igreja não mostrou revelação à frente de seu tempo, mostrou apenas estar de acordo com o espirito do temop. Tal como hoje, nessa era consumista desenfreada e tão materialista, quando as igrejas vendem Deus como produto e os milagres como um serviço garantido. De acordo com o espírito do tempo. E portanto, totalmente isentas de revelação. Obra de homens apenas. Tal como todas as religiões anteriores.

Não é preciso ser profeta para enxergar o que todo mundo vê.