terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ateísmo e Vegetarianismo: Reloaded

De tempos em tempos a velha polêmica ressurge: existe algum imperativo moral envolvido na opção pela descrença em deuses? Para muitas pessoas, como eu, não existe nenhum: suas convicções morais dependem de fatores sociais e familiares e a descrença não afeta positiva e nem negativamente — a não ser que esses fatores sejam originalmente fracos e a crença funcionava como a tranca da Caixa de Pandora. Para outras pessoas, porém, tudo é muito diferente: tornar-se ateu envolveria necessariamente uma opção ética e lógica, com implicações morais.

domingo, 18 de novembro de 2012

Em Defesa do Indefensável, Novamente.

O site www.ceticismo.net (que usurpa o nome para difundir ignorância, preconceitos e desinformação) novamente passou dos limites do tolerável (se é que se pode tolerar estes elementos diuturnamente). A primeira vez tinha sido quando, sob o pretexto de atacar uma decisão equivocada da justiça, André cometeu injúria racial contra o povo cigano, episódio documentado aqui no Arapucas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Conspiração Anarcomiguxa

Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Pobre Pode

Temos uma revolução silenciosa em curso nesse país, uma que não lutará com baionetas nem canhões, mas pode mudar a cara da nação muito rápido, se os poderes de fato não conseguirem dar o que golpe que andam sonhando: você pode não ter reparado, mas o pobre começou a perceber que pode votar em pobre, porque o pobre também pode governar bem.

Méritos do Lula, que não se formou na Sorbonne mas fez um governo que, mesmo admitindo que não foi o melhor da História, foi pelo menos «na média» ou pouco acima dela. Então, se um homem sem doutorados nem teses conseguiu fazer o basicão, e até o fez bem, então qual é exatamente a necessidade de votar nos luminares, especialmente quando eles são pouco sensíveis ao que povo pensa?

Outros exemplos começaram logo a surgir. O jogador de futebol Romário revelou-se um parlamentar ativo e articulado, apresentando projetos interessantes na defesa dos deficientes físicos e mentais, investigando as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, tentando de alguma forma ajudar as entidades de apoio à Ciência e à Educação, etc. Até o palhaço Tiririca revelou-se bom deputado, apresentando projetos viáveis e válidos na área cultural e educacional.

Esses exemplos começaram a fazer o povo criar coragem de experimentar. Fortaleceram nossa democracia, as pessoas começam a votar em pessoas que espelhem os seus próprios ideais. E aí começaram a surgir casos folclóricos, como o trocador de ônibus eleito prefeito, o filho estudioso do carroceiro que jurou deslocar-se até a prefeitura em primeiro de janeiro na carroça com que o pai trabalhador pagou os seus estudos.

O velho discurso do «mais preparado» está ruindo pelo país inteiro: as pessoas estão começando a ver que para ser político, especialmente em nível municipal, não é preciso nenhuma formação específica, apenas lucidez, certa inteligência, alguma matreirice e uma boa dose de idealismo e boa vontade. Quanto tempo até que isso comece a influenciar nossos partidos e a transformar nossa prática política?

Difícil dizer, mas se os coturnos não vierem pisotear a flor da democracia, cada vez mais viçosa, ela logo desabrochará em um sistema mais humano e mais próximo do povo. Talvez exatamente por isso haja tanta gente influente apavorada. O povo, ora, o povo...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

No Futebol e na Política

Nosso país sempre se caracterizou, a partir da introdução do futebol, pela confusão entre as esfersa pública e privada no que tange à prática do rude esporte bretão e também ao relacionamento desta com os chamados «torcedores», aqueles que, praticantes ou não (de «peladas»), se reúnem à beira da cancha para assistir às partidas disputadas pelas equipes formais. O futebol, muito cedo, se mostrou uma forma de expressão política e até mais do que isso, uma forma de expressão política possível, mesmo diante de regimes de arbítrio.

Provas dessa relação biunívoca entre o esporte e a política se encontram, por exemplo, na questão da admissibilidade de jogadores negros, e mais tarde de jogadores profissionais, que se confundem com a luta pelos direitos civis dos afrodescendentes e pelos direitos políticos dos pobres em geral, de todas as cores. A própria formação das federações, espelhando as estruturas coronelistas estaduais, reflete o status quo da República Velha — e nesse quesito o futebol é um dos bastiões de resistência da política dos governadores. A CBF ainda funciona como uma sucursal dos interesses das federações dos estados e dos presidentes de clubes dentro destas federações, o que se traduz na grande força política dos clubes protegidos por interesses políticos de grande força, como o Flamengo, o Corinthians, o São Paulo, o Fluminense e alguns outros, oposta ao desamparo de clubes postos para escanteio por estarem localizados em estados periféricos ou não possuírem costas quentes.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Crítica Anarcocapitalista ao Estado

A posição anarcocapitalista é de uma inépcia total. Porque parte do princípio de que o mundo é simples (ele sempre é, se você deixa de lado os fatores que o complicam) e que, portanto, seria possível existir um Estado simples para administrá-lo. Veja bem que eu não estou desconsiderando totalmente, como inepta, a posição minarquista: apenas acho que um Estado simples deve, também, ser pequeno. Mas se for pequeno, só poderá ser pequeno se todos os demais também o forem. E mesmo que todos sejam, eventualmente alguns se aliarão, para usufruir da vantagem real de serem maiores unidos. Então a existência de Estados grandes é uma realidade dada, com a qual temos que nos conformar — tanto quanto o capitalismo o é. Quaisquer alternativas propostas são utópicas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Infelizmente Faltou o «Tio Ben»

Dizia o mais famoso dos tios de heróis de histórias em quadrinhos que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. A frase se tornou um meme na internet, tornando-se de conhecimento quase universal, embora só tenha sido dita uma vez, na revista Homem Aranha número um, lá em 1960 e alguma coisa (houve reedições, claro). Deixando de lado a pieguice a simplicidade desta pseudopérola de auto ajuda, podemos ver nela um conselho realmente sábio, baseado no velho bom senso de guerra, afinal, quando você pode provocar grandes consequências, tem de medir os seus atos. Como um elefante na loja de cristais.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

«O Julgamanto»

Tradução de um trecho avulso de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (obra que se acha em domínio público, tradução feita por mim, ao improviso, já aviso). Com um título novidadoso, homenageante aos recentemente condenados. Dedicado aos que foram condenados, independente de serem ou não culpados, não pelo que fizeram, mas pelo que são.

Disse-lhe o gato
ao rato: «Venha
logo seu bobo
jogarmos
um jogo:
Vamos
ambos
à lei.
Eu lhe serei
promotor
e tu réu.
Venha agora
o tribunal
não demora.
Julgaremos
teu mal
no final.
É que
hoje estou
sentido
e vazio
e mal consigo
o que sirva
para fazer.»
Disse-lhe
o pobre rato
ao gato:
Um júri assim
de improviso,
companheiro,
sem juízo e
nem jurado,
tão sorrateiro
seria errado,
uma perda
de tempo.»
«Júri
e juiz
posso eu
mesmo ser»,
Explicou,
esperto,
o bichano.
«Farei
de tudo
no ato,
que a ti, rato,
réu nato,
condenará,
sem pena,
ao prato.»
Permita a reprodução em qualquer meio, com crédito ao tradutor, que soy yo, se possível sempre com link.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Deixemos que os Mortos Enterrem os Seus Mortos

Dois tipos de pessoas me incomodam neste mundo: as que defendem ideias mirabolantes somente pelo amor de destoarem do consenso, mesmo que tais ideias sejam absurdas, e as que se com­por­tam de forma incompatível com aquilo que proclamam ser. Exemplos do primeiro caso são os adep­tos de teorias minoritárias que resolvem ser céticos em relação ao conhecimento estabelecido, sem aplicar o mesmo ceticismo às teorias que atacam o «sistema». Assim são os que duvidam que o homem tenha ido à lua, os criacionistas, os anarco capitalistas, os últimos stalinistas e os propo­nen­tes do multiculturalismo. Exemplos do segundo caso são mais difíceis de discernir, porque é mui­tas vezes difícil discernir o que pessoas e grupos se propõem a ser. Como não publicam mani­festos nem estatutos, na maioria dos casos somos forçados a julgá-los pelos seus atos aparentes, uma circunstância que faz com que sempre nos acusem de interpretá-los mal. Existem, porém, alguns casos nos quais pessoas ou grupos efetivamente divulgam o que pretendem ser — nesses casos não há nenhuma defesa possível quando pilhados fazendo algo diverso do que consta em seus propósitos formais. A contradição não pode ser explicada senão por desvios éticos ou pela per­versão dos objetivos originais.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Aposta de Pascal Reduzida ao Absurdo na Internet

Se você deseja defender uma opinião sua, qualquer que seja, deverá, naturalmente, escolher para esse fim argumentos que convençam com sinceridade e transparência, e não insinuações pessoais, provocação de medo ou apelo à ignorância. Quanto mais sólidos os seus argumentos, porém, menor a sua popularidade: argumentos racionais fazem com que as pessoas burras se sintam burras mesmo. Como a Constante de Auden nos ensina que a soma total da inteligência simultaneamente presente na humanidade tem se mantido constante nos últimos séculos, a conclusão óbvia é que haverá sempre mais pessoas dispostas a aceitar ideias idiotas do que explicações racionais. Sem falar nas vantagens evolutivas de ser crédulo, que já foram mencionadas por um etólogo agnóstico britânico famoso.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Ideologia da Inveja, ou a Inveja da Ideologia

Faz parte do pensamento direitista típico uma peculiar disfunção cognitiva: uma incapacidade de enxergar corretamente a realidade, o que os leva a interpretações muito equivocadas dos fatos. Há, de fato, dois tipos de direitista: o conservador e o reacionário. Tanto quanto existem dois tipos de esquerdista: o reformista e o revolucionário. Para entender como funciona esta disfunção da direita é preciso por estes quatro lados em perspectiva.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cotas Raciais e Racismo

Ontem tive a oportunidade de ser sabatinado no Facebook por alguns amigos virtuais que questionaram meu pensamento sobre as famigeradas quotas raciais criadas pelo atual governo (considero Dilma uma continuadora de Lula, então o «atual governo» começou em 2003). Dentre as muitas bobagens que disse, selecionei algumas mais elaboradas para compartilhar convosco…

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O PT e seu Projeto de Perpetuação no Poder

Todo reacionário nutre uma espécie de desprezo absoluto pelo Partido dos Trabalhadores e tudo o que ele representa, de bom ou de ruim, indistintamente. O PT só é unanimidade entre os reaças: eles o detestam sem ressalvas. Uma das muitas acusações que é feita contra o partido é que possui um projeto de perpetuação no poder. Tão forte é essa «acusação» que ela já transbordou dos núcleos mais duros do reacionarismo e atingiu o mainstream político. Hoje você vê políticos de várias correntes oposicionistas e veículos da grande imprensa dando vazão ao conceito de que existe uma tentativa «lulopetista» de eternizar-se na presidência. Para uma acusação que começou com Olavo de Carvalho e Merval Pereira (o imortal que não escreveu nenhuma obra literária) é até uma difusão surpreendente.

domingo, 19 de agosto de 2012

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um Asilo e uma Civilização em Crise

Finalmente, após semanas de adiamento, o Ministério dos Negócios Exteriores do Equador anunciou oficialmente que aquele país concedeu asilo político a Julian Assange, fundador e líder do polêmico sítio WikiLeaks. A concessão de tal asilo, e as repercussões imediatas e posteriores, revelam uma reviravolta ideológica impensável há poucas décadas, e são, em minha opinião, um dos primeiros sinais de que existem rachaduras na fachada do Grande Império Ocidental Moderno, cuja atual manifestação é encarnada pelos Estados Unidos da América.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nome aos Bois



Tudo começou quando um desconhecido me chamou no bate papo do Facebook parabenizando-me pelos textos que publico neste blogue. Foram vários elogios, que me deixaram muito feliz, claro, mas não é deles que vou me gabar. Houve um certo momento durante a conversa virtual em que o meu fã distante fez-me uma pergunta que me chocou sobremaneira:

— Como é foda ser anarquista no mundo de hoje, não é mesmo?

Meu choque se explica: eu nunca me definiria como anarquista, nem que me pusessem uma faca no pescoço. Morreria negando. Aliás, já foram muitas as oportunidades em que me dissociei fortemente do anarquismo, a que já chamei de «pensamento porra louca», «sonho irrealizável», etc. Muitas as vezes em que sugeri que anarquistas deveriam mudar-se para a Somália (de fato e de direito o único lugar do mundo onde impera a anarquia).

Mas a verdade que eu tive que admitir é que eu mesmo sou um anarquista. Como assim?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quando uma Organização Ateísta se Aproxima de uma Religião

Está lá em qualquer manual introdutório de lógica básica de argumentação que os argumentos que não seguem regras racionais são inválidos. Mesmo assim, as chamadas «falácias» (minimizaremos o uso do termo daqui para a frente) seguem sendo mais populares do que o feijão, exceto que todo mundo sabe como se chama o feijão, mas ninguém quase identifica, por nome e sobrenome, os erros de argumentação que se pode cometer. Estes erros, porém, estão cuidadosamente catalogados, cada um em seu escaninho, e há alguns guias na internet que podem servir de base a quem queira conhecê-los.

Um dos usos mais comuns das tais falácias é na tentativa de desqualificar o ateísmo como sendo uma crença ou, de uma forma menos sofisticada, como uma religião. É preciso ter muito cuidado com esse tipo de argumentação porque se trata de uma «faca de dois gumes» e qualquer um deles parece igualmente válido. Mas na prática, nenhum é cem por cento garantido.

domingo, 5 de agosto de 2012

Coerência Humanista

No dia 27 de julho último um blogueiro reacionário chamado Nihil Lemos (ligeiramente à direita de Rush Limbaugh) publicou um texto chamado Funk: uma Poderosa Arma Idiotizadora, no qual tece suas críticas de praxe ao Estado. Na cabeça desse cidadão o funk carioca é uma espécie de arma musical desenvolvida pelo PT para alienar o povo e afastar os candidatos «mais preparados» dos postos que merecem por direito de nascimento, ou algo assim, eu não entendo direito o que esse cara tem em mente.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Neonazismo e os Novos Movimentos Religiosos

Mircea Eliade (autor da História das Crenças e das Ideias Religiosas), no prefácio de seu Dicionário de Religiões, afirma que a definição de «religião» é algo tão complicado que ele prefere furtar-se à obrigação de fazê-lo, e sai pela tangente afirmando que «religião é aquilo que os religiosos chamam de religião». Se nem a maior autoridade no assunto ousou cravar uma definição rigorosa do termo, longe de mim fazê-lo, eu que nunca escrevi nada que se compare às suas obras. Deixo a tarefa, digna de Sísifo, aos meus leitores, caso eles ousem embrenhar-se neste debate esdrúxulo.

Ocorre que, mesmo sendo tão difícil precisar o que religião é, segue interessante comparar movimentos e instituições que reivindicam para si um caráter religioso com outros movimentos e instituições que não o fazem ou mesmo o negam peremptoriamente. Tais comparações fazem saltar à vista a imprecisão das fronteiras ente religião, mito, ideologia, conto de fadas ou mera crendice. O discernimento só é possível quando analisamos os exemplos extremos de cada categoria. Mas não é certo pensar que somente os exemplos extremos são verdadeiros.

Neste artigo pretendo fazer uma comparação entre o (Neo)nazismo e os Novos Movimentos Religiosos, para demonstrar como o modus operandi de uma ideologia decididamente secular pode ser semelhante, ou mesmo análogo, ao de uma religião. Mas para chegar a isto é necessário, primeiro, conceituar o que se deve entender por «Novo Movimento Religioso».

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mais ou Menos Democracia

Parece que a democracia brasileira está em perigo. Não porque haja algum conluio de mili­tares pensando em depor o governo pela força das armas, no melhor estilo pé na porta e bota em cima da mesa (como na famosa foto de Pinochet abaixo reproduzida, e que se tor­nou uma imagem icônica do típico tirano militar latinoamericano), mas sim porque o eleitor parece cada vez ter menos escolhas — e reduzir as escolhas é uma das maneiras de se impedir a manifestação da vontade popular (não a mais evidente, mas talvez a mais eficaz).

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma Mentira, Se Mil Vezes Repetida

Entre a esquerda e a direita, existem diferenças tão essenciais que nunca é demais repetir. A esquerda não se envergonha de ser a oposição a «tudo que está aí» e sabe muito bem que há necessidade de reformas profundas na sociedade, na cultura e na economia. Enquanto isso a direita procura justamente negar o diagnóstico (luta de classes) para negar os mecanismos (revolução, reforma) a fim de preservar o status quo a todo custo. Existe, porém, um tipo de direita que vai ainda mais longe: não contente em preservar o que aí está, procura fazer regredir aquilo que já mudou.

Nós, que somos de esquerda, chamamos aos direitistas do primeiro tipo «conservadores» e do segundo, «reacionários».  Um reacionário é um saudosista dos «bons tempos» do capitalismo, aquela época heróica em que os homens eram homens, as garantias trabalhistas não existiam e lugar de mulher era na cozinha.

domingo, 15 de julho de 2012

Pedras Ateias ou «Será o Ateísmo um Aprendizado?»

Este artigo vai dedicado a três pessoas em especial. Primeiramente ao Eli Vieira e ao Gregory Gaboardi, da Liga Humanista Secular do Brasil, com quem certa vez travei um interessante debate sobre «pedras ateias» (mais adianta explicarei o conceito) e a Neli Espanhol, amiga dos tempos de Orkut que fez um comentário no mesmo sentido, na postagem do Google Plus referente ao artigo imediatamente anterior a este.

A motivação deste artigo está em uma frase solta contida naquele texto: a afirmativa de que «ninguém nasce ateu». Para Neli, todo indivíduo ao nascer, estando isento da crença em divindades, seria ateu. Para Eli e Gregory, no referido debate travado nos comentários do blog do Paulopes, não faz sentido imaginar o ateísmo como algo inato, pois então teríamos que admitir que até pedras, que nunca pensam sobre Deus (uma vez que nunca pensam) teriam de ser atéias.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Grande Conflito do «Movimento Ateu»

Nunca se discutiu tão abertamente o ateísmo no Brasil quanto se há discutido em anos recentes. Durante a maior parte da nossa história, o ateísmo foi anátema ou visto como coisa de “intelectuais”. Há grande confusão entre o simbolismo cristão, especialmente católico, e as criações culturais específicas de nosso povo: muitas de nossas “festas populares” nada mais são que ritos católicos medievais que sobrevivem em nossos rincões. Some-se a isso o processo lento de aculturação pelo qual passamos (só tivemos universidades já no século XX, enquanto no resto da América Latina elas existem desde os séculos XVI ou XVII) e fixa-se a ideia de que ateísmo é uma novidade, uma moda estrangeira ou coisa de loucos, como sugere a “sabedoria popular” (essa que elegeu Tiririca o deputado mais votado do Brasil).

O próprio conceito de “liderança” ideológica está contaminado pela aspiração de monopólio do conhecimento e, concomitante a ele, de tomada de decisões. Infelizmente isto se reproduz no movimento ateu. Aqueles que se assentam nas posições superiores são os que detêm o controle de meios de difusão (blogues, sites) ou de produção de conteúdo (polemistas, vloggers, debatedores) e dos demais se espera basicamente que sejam comentaristas cordatos, sempre prontos a aplaudir, nunca a criticar. Eventuais manifestações de discordância resultam em exclusões formais ou informais (meramente passar a ignorar o que é produzido pela dissidência). A linha de separação entre as duas categorias está na habilidade para manejar uma linguagem razoavelmente rebuscada, o conhecimento de termos de lógica argumentativa (como “falácia”) e o acesso direto a instrumentos eficazes de difusão do próprio discurso.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mas, e se Ele Existe?

Raros ateus não passaram pelo momento de tal dúvida. Nada mais natural, visto que o ateísmo não é natural. Como ninguém nasce ateu, o estado atual de ateísmo é fruto de coisas que vivemos, pensamos e sentimos. E não faz muita diferença se você é ateu, agnóstico ou algum outro tipo de água morna. Na verdade, seria sábio supor que os próprios religiosos não pensam muito como é que as coisas seriam de fato no caso desse deus que para quem as suas orações se dirigem existisse mesmo. Desta forma, só posso pensar que este exercício mental é muito relevante, para mim e para quem mais leia, seja qual for o time para que torça.

Como seria, então, contemplar a existência de Deus, nos termos normalmente atribuídos a Ele pelos cristãos? Como nos veríamos diante da realidade se tal ser existisse?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Democracia Paraguaia e Jeitinho Brasileiro para Vender um Golpe como Salvação da Pátria

A mídia brasileira tem tradição em aplaudir golpes de estado, como a «Redentora» de 1964, muito mais interessada em impedir a vitória certa de Juscelino em 1965 do que algum módico sucesso de João Goulart em fazer a reforma agrária. Antes disso movera uma barragem de mentiras, verdades e distorções contra Getúlio Vargas. E de lá para cá não cessou de transitar no lado direito da força, como em cabuloso editorial por meio do qual as Organizações Globo enalteciam a ditadura e se negavam a cooperar com o processo democrático. E nem vou falar de episódios mais recentes (e por isso menos claros, devido ao menor distanciamento entre este que vos escreve e os fatídicos fatos).

Referida tradição manifestou-se outra vez no recente golpe que a direita paraguaia desferiu contra o presidente Fernando Lugo utilizando para isso o «consenso» de um congresso divorciado do voto popular que empossara o chefe do executivo. Que apenas aplaudissem o golpe seria já um fenômeno inaceitável, considerando que a democracia é, para os estados modernos, um valor em si, mas os próceres desta direita sem freios foram além: pretenderam legitimar a deposição do legítimo chefe de estado guarani com o chocho argumento de que o processo teria sido «legal» e, portanto, não se constituiria em um golpe.

domingo, 1 de julho de 2012

Sobre a Obsolescência de Alguns Conceitos

Podem me chamar de antiquado, mas eu confesso que já estou há tanto tempo acompanhando as idas e vindas do «movimento ateu» na internet que já estou começando a ficar premonitório: percebo no ar coisas que muita gente inocente ignora — e, como uma Cassandra cibernética, sou devidamente ignorado quando falo do que prevejo. Uma das coisas que estou cheirando nos ventos da Grande Rede (perífrase cafona que é usada quase exclusivamente por gente da Rede Globo) é o que parece ser uma estratégia deliberada para sufocar a voz das reivindicações populares. Não sei quem estaria por detrás disso, mas vejo que muita gente inteligente, que deveria ter a capacidade de enxergar os fios dos marionetes, não apenas não os vê como ainda se deixa guiar pelas sementes de ódio plantadas por aí. No fim das contas o que vale é convencer a todos de que o debate entre esquerda e direita está obsoleto, que socialismo é opressão, liberalismo econômico é liberdade, que reivindicações de direitos são injustas e que empatia é patrulha ideológica. Neste texto (que vai ser imenso, aviso aos analfabetos funcionais que preferem tweets) pretendo explicar como enxergo isso e de que forma acredito que posso demonstrar a falácia desses argumentos.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Desgosto que Lula me Deu

Este artigo ficou voejando pela minha cabeça nos últimos dias sem que eu tivesse realmente a coragem de escrevê-lo. Tenho tido uma profunda preguiça mental para escrever, tanto textos literários quanto polêmicos, pois o meu corpo e a minha alma têm sido absorvidos no aprendizado de uma nova função em meu emprego. Mas há casos nos quais o casulo da inércia não consegue conter muito tempo uma ideia que pulsa até que finalmente purga, como um tumor.

sábado, 9 de junho de 2012

Porque o Ateísmo Continua Não Sendo uma Crença - Parte 1

Está por concluir-se por esses dias uma série de postagens feitas no Bule Voador com o título «Porque o Ateísmo É uma Crença», assinadas por Gregory Gaboardi, estudante de comunicação na UFRGS (até onde pude apurar pela internet, mas aguardo correção de quem possa perguntar-lhe diretamente suas credenciais). Considerando que finalmente o autor concluiu sua argumentação, inicio hoje aqui uma série de comentários a respeito de suas colocações.

Introdução

Gostaria de advertir os meus leitores que ainda não sabem (sempre se deve estar precavido contra distraídos ou recém-chegados) que eu sou um crítico do que chamo de «movimento ateu» brasileiro, mesmo sendo eu mesmo um ateu. Minhas críticas não se dirigem ao ateísmo em si, em nenhuma de suas correntes, mas à atuação de seus pretensos líderes, próceres e ídolos, e se limitam estritamente àqueles pontos nos quais posso discernir o que considero erros estratégicos. Em resumo: acredito que a maioria dos ateus brasileiros que têm visibilidade na blogosfera ou nas redes sociais são pessoas muito imaturas e despreparadas para uma argumentação racional, embora se considerem, devido ao ateísmo (o que é a maior tragédia), mais preparadas que qualquer reles papa hóstias. Acima de tudo, percebo nestas pessoas um alto grau de dependência em relação ao que se escreve, diz e pensa sobre ateísmo em inglês. A falta de originalidade faz com que reajam de forma às vezes desconexa ou até incompreensível diante de desafios específicos de nossa realidade.

Portanto, nesta postagem, como de vezes anteriores, procurarei desmascarar, na medida em que minha limitada formação acadêmica e cultura geral o permita, os equívocos cometidos por Gaboardi, um prócer do movimento cético. Não sei se o autor se auto intitula ateu ou outra coisa e o Bule Voador parece não tomar um lado nesta questão, preferindo alargar o muro para que o maior número possível de pessoas possa estar em cima.

Como não pretendo discutir o tema deixando meu leitor «no vácuo», a série de artigos escrita por Gaboardi pode ser encontrada integralmente nos links a seguir:
  1. Parte I
  2. Parte II
  3. Parte III
  4. Parte IV
  5. Parte V
  6. Parte VI
  7. Parte VII
  8. Parte VIII
  9. Parte IX — pendente
Ao contrário de Gaboardi, que dividiu sua argumentação em várias partes para evitar uma leitura muito longa e intimidante, eu dividirei a minha em partes para simplesmente separar diferentes linhas de raciocínio. Cada parte subsequente a esta pode repetir e repisar conceitos aqui já abordados, apenas sob outro ponto de vista. As diferentes partes de meu argumento são como diferentes ângulos, e não partes sequenciais de um todo.

domingo, 3 de junho de 2012

A Verdade, Apenas um Detalhe

Dizia o antigo adágio que «política, futebol e religião» não se discute. Obviamente esta restrição da dita «sabedoria» popular se refere ao caráter insolúvel das paixões envolvidas nos três temas: ninguém muda o time para o qual o amigo torce, nem a religião que segue, nem as suas convicções políticas. No fundo os três fatores estão muito mais ligados do que se pensa: os três são manifestações fortemente ideológicas.

Para provar isso basta uma rápida olhada nas rivalidades regionais de nosso futebol e detectar o dedo da política. Sem necessidade de descer a detalhes que podem ser obtidos numa rápida pesquisa na internet (sou do tempo em que ao escrever um artigo era quase sempre necessário citar as informações, porque dificilmente o leitor conseguiria localizar as informações suficientes para entender o raciocínio). Arrisco-me a dizer, porém, que o futebol é, dos três temas, o que melhor evoluiu. A não ser em países obviamente selvagens, ninguém mais mata ninguém por causa de futebol — e nem relações são postas a perder. Meus sogros, um botafoguense e uma flamenguista, estão aí para não deixar ninguém sem entender.

sábado, 26 de maio de 2012

A Psicologia e a Homossexualidade: Uma Visão Leiga e Desinformada

Detesto fazer análises pseudo antropológicas. Mas há momentos em que língua coça com a ideia de que é necessário comentar alguma coisa quando percebemos a manifestação evidente daquilo que análises antropológicas anteriores afirmaram que aconteceria. Sempre que uma teoria científica se confirma na prática devemos entender isso como prova de força da teoria, e da própria ciência.

Refiro-me ao caso da psicóloga Marisa Lobo, declaradamente evangélica, que está sob ameaça de perder suas credenciais por oferecer «tratamento» para homossexuais. O Conselho Federal de Psicologia não considera a homossexualidade uma doença mental, ou mesmo um distúrbio de comportamento, e por isso não permite que os psicólogos façam esse tipo de tratamento. Quem insiste, como Marisa, é publicamente censurado e, em último caso, pode vir a ser expulso, perdendo o direito de clinicar. Se isso vier a ocorrer, Marisa não poderá mais exercer nenhuma atividade análoga à de psicóloga, sob pena de ser então processada por «exercício ilegal da medicina». Quem não é psicólogo e tenta curar homossexuais será, por sua vez, acusado de «charlatanismo» (inventar curas imaginárias para doenças também imaginárias).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Porque Critico o «Movimento Ateu»

Eu não sou ateu conservador e nem teísta mas vejo mal a militância ateísta. Vejo mal no sentido de que ela quase não aparece, e quando aparece aparece mal. E aparece mal porque, em vez de unir-se em torno de projetos comuns, ela se divide em torno de interesses conflitantes. Como aliás tudo nesse país e nesse mundo: vivemos numa era na qual os partidos e os movimentos optam entre serem grandes ou serem duradouros. A única coisa que permanece é o poder do capital, esse sim unido em sua coerência agressiva e egoísta, que não precisa de bandeiras e nem de partidos.

A militância ateísta está mal de várias formas, variadas maneiras. Está mal quando coloca a não existência de divindades como ponto central. Deveria colocar os valores racionais e humanistas. Está mal quando identifica na religião organizada o seu inimigo. Deveria identificá-lo na superstição difusa e nos cultos improvisados com o único objetivo de ganhar dinheiro e controlar o poder. Está mal quando provoca, em vez de convencer. Está mal quando choca, em vez de conscientizar. Está mal quando ataca, em vez de reivindicar. Está mal quando se propõe como uma elite, mostrando excludente quando devia procurar agregar. Está mal quando rotula, em vez de tolerar.

Há momentos nos quais a militância ateísta me parece fundamentalista, bolchevista, jacobina, cruzadista. Fundamentalista porque se aferra ao cientifismo e ao positivismo lógico como valores inquestionáveis (revelando uma miséria filosófica que deveria causar vergonha alheia a quem lê). Bolchevista porque ataca os setores moderados que procuram soluções negociadas. Jacobina porque se propõe a um ataque desenfreado contra a ordem estabelecida, mesmo sabendo que esse frenesi de "terror" não seria duradouro. Cruzadista porque se acha detentora de uma verdade que precisa ser ensinada ao mundo.

E há momentos em que é nazista também, julgando povos e pátrias (inclusive a nossa) segundo estereótipos para justificar posicionamentos absolutamente ideológicos (como o neoliberalismo ou as ideias de Ayn Rand).

Estes setores do movimento ateu escolhem seus «papas» e «pastores» informais (Richard Dawkins, Neil de Grasse Tyson) e os canoniza após a morte (Christopher Hitchens, Nietzsche, Ayn Rand). Certas obras são lidas como se fossem quase bíblias.

É difícil dissociar esse comportamento do que se chamou de «neo ateísmo» porque, em essência, esse comportamento se caracteriza por transformar o ateísmo em um movimento, em uma militância. Antes do neo ateísmo não havia ateísmo militante, havia apenas ateísmo, sem sobrenome. Não havia necessidade de uma taxonomia dos ateus (ou uma Goécia, como um místico católico julgaria mais irônico).

Não custa lembrar, ao fechar este breve ensaio, que o termo «movimento ateu» é apenas um modo de dizer e não se refere a um movimento real e organizado, da mesma forma que «movimento roqueiro», «cristianismo» ou o maldito «sistema» que a tantos assusta.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Meu Partido é um Coração Partido

Continuando em minha cruzada contra o que penso serem equívocos do «movimento ateu», dedico-me hoje a comentar uma iniciativa bastante original, que surgiu e criou pernas no seio do sítio de relacionamentos Facebook: a ideia de um partido político destinado a defender o laicismo. Por enquanto me absterei de citar o nome deste, por razões que ficarão claras à medida em que o leitor acompanhar este breve comentário.

Gostaria de enfatizar a originalidade porque, que eu saiba, foi a primeira vez que surgiu a ideia no «movimento ateu» de partir para uma atuação política formal. Antes os ateus preferiam organizar-se em clubes e «igrejas» mais voltados para masturbações intelectuais do que para qualquer ação prática — exceto no caso da ATEA que, com todos os seus defeitos (e são muitos) foi a única entidade ateísta a tomar alguma atitude (embora eu considere uma boa parte de suas bem intencionadas atitudes francamente equivocadas).

Fui um dos membros de primeira hora convidados ao Partido. Na qualidade de membro do grupo Livres Pensadores, julgaram-me um público natural para isso e, de repente, vi-me adicionado. Nos dias seguintes fui acompanhando a iniciativa e logo vi indícios preocupantes de que aquilo não terminaria bem. Logo de cara diversos membros de entidades mais ou menos formalizadas no seio do «movimento ateu» trataram de marcar sua dissociação em relação ao partido.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre a Necessidade do Isolamento

O ser humano é gregário por natureza. Desde Aristóteles (que talvez não tenha sido o autor do dito) circula a noção de que o homem é um «animal político». A animalidade (ou seja, a naturalidade) de nossa inclinação política nos faz supor que é «bom» que estejamos sempre unidos a alguma coisa: classe social, partido, religião, torcida ou fã clube. Hoje, porém, dei-me conta da relevância de ser solitário, de não estar formalmente ligado a nenhum grupo ideológico.

Grupos ideológicos são prisões mentais: eles nos obrigam a entrar em conformidade com paradigmas externos, que podem não ser mais do que a pressão da maioria. Não é nenhuma surpresa que os partidos políticos se degradem com o correr do tempo, perdendo seus ideais de juventude e degenerando em meros instrumentos de poder. Quando você optar por filiar-se a um grupo por ideologia, está voluntariamente renunciando a ter ideias próprias sobre os temas controversos ou, de outra forma, terá de conviver com uma forte dialética na qual a pressão da maioria acabará empurrando suas considerações iniciais para posições conciliatórias.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Sacralização da Tortura

Atribuir ao sofrimento em si mesmo um valor moral é um dos pilares da religião cristã, assentada firmemente na manipulação dos sentimentos de culpa que afligem a todos nós. Culpa essa que é predominantemente fabricada pelas crenças e superstições instiladas pela própria moral cristã, desconectada das necessidades reais da humanidade, como bem observou Nietzsche:

No Cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com um ponto sequer da realidade. Só causas imaginárias ... ; só efeitos imaginários ... Uma relação entre seres imaginários... uma ciência natural imaginária ...; uma psicologia imaginária ...; uma teologia imaginária... Este mundo das ficções puras distingue-se, com muita desvantagem para si, do mundo dos sonhos, em que este reflete a realidade, ao passo em que o outro não mais faz do que falseá-la, desprezá-la e negá-la. Depois de ter sido inventado o conceito «natureza» como oposição ao conceito «Deus», «natural» torna-se o equivalente a «desprezível», todo esse mundo de ficções tem o seu fundamento no ódio contra o natural (a realidade!).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mais Radicais ou Mais Violentos?

Quando eu era adolescente a gíria da moda era «radical». Promovida pela poderosa Rede Globo de Televisão através de programas como o «Armação Ilimitada», esta gíria contaminou-nos de tal forma que teve seu sentido original pervertido. Em vez de algo ligado à base, à raiz, tornou-se algo arriscado, temerário. Terá sido intencional? Terá havido um objetivo de fazer uma confusão entre ideologias «radicais» e esportes «radicais» enfatizando em ambos o perigo? Em se tratando de nossos canais de televisão, nada é por acaso.

sábado, 7 de abril de 2012

Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.

domingo, 4 de março de 2012

Ceticismo Enxovalhado Pelo Preconceito

O uso do termo “cético” tem sido muito banalizado nos últimos tempos. Não me admira que haja quem reaja com horror diante das opiniões expressar por algumas pessoas que empregam o termo. Sou uma de tais pessoas, desde que detectei que o “movimento ateu” estava sendo inflado por um número expressivo de participantes que só poderiam ser descritos em termos depreciativos, pois desonram as categorias em que pretendem inscrever-se. 

Pode parecer exagerado dizer tal coisa, mas há pessoas assim. Desonram o ceticismo quando aderem de forma ideológica a tradições ou opiniões, muitas vezes rasas e preconceituosas. Desonram a filosofia quando empregam falácias para defender suas opiniões e rejeitam correções. Desonram a esquerda quando se transformam em microditadores de seus espaços virtuais. Desonram o ateísmo quando reduzem-no à “crença na inexistência” de um conceito que sequer pôde ser definido de maneira coerente pelos seus proponentes. Desonram o agnosticismo quando o empregam como se fosse a concessão do benefício da dúvida quanto à existência de uma divindade curiosamente parecida com o Velho Barbudo do Céu. Não basta, não basta jamais, dizer-se algo. É preciso ser.

Todos os movimentos sofrem com essa crise de identidade quando começam a ganhar corpo. Há uma diferença importante entre crescer, inflar e inchar. Por isso não é de estranhar que o  “movimento ateu” se veja diante de uma multiplicação de blogues e sites de associações, clubes e conciliábulos diversos. Não me parece que haja no país bastante gente capaz de produzir conteúdo de qualidade, na frequência e no volume suficiente para alimentar tanto veículo faminto.

Imagem: Álbum de Justin McWilliams

A blogosfera ateísta está se tornando mais ruidosa, mais radical, mais intolerante e menos interessante. Ainda mais difícil se torna a situação quando notamos que as vozes que tentam produzir um conteúdo de qualidade, ou pelo menos matizado e menos raso, acabam sendo vítimas de “expurgos” ideológicos que lembram a fase mais vergonhosa dos totalitarismos. Aquela fase na qual os ideólogos que pensavam no poder como uma ferramenta de transformação são postos na cadeia, ou em covas, e os “pragmáticos” tomam o controle da revolução. Pragmático é, essencialmente, um sujeito que não pensa em objetivos, a não ser como concessões necessárias para justificar o seu poder.

Certas coisas me espantam. Mas poucas coisas me espantam mais quanto um cético preconceituoso. São coisas que absolutamente não se casam. Como pode alguém que se diz “cético” aderir acriticamente a preconceitos, especialmente, note bem, especialmente, a preconceitos que têm sua origem na religião?

O “cético” esperneará dizendo que não é um preconceito, mas uma opinião refletida, que, apenas casualmente, confere com oito séculos de discriminação e bullying contra certa minoria. O “cético” ignorante não conhece as raízes dos próprios preconceitos — e é por isso que não consegue entendê-los como tal. Os “pragmáticos” não ligam para isso: o importante é engrossar as fileiras, é fazer barulho, é marcar presença. Então aceitam o tacape do bárbaro porque ele intimida mais que a palavra do professor. O “movimento ateu” brasileiro se “monoteiza” (em breve publicarei aqui um estudo sobre isso) e migra à direita. Os “pragmáticos” rejeitam a utopia revolucionária: não vale a pena lutar por algo difícil ou impossível, é melhor perfumar a merda que temos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um Hiato

Peço aos que gostam de ler este blog que me deem duas semanas de licença para que eu possa concluir alguns projetos pessoais.

Aguardem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Porque Não Postarei Mais no Paulopes.com

Há alguns anos acompanho o blogue do Paulo Roberto Lopes, desde os tempos em que ele ainda o hospedava no blogspot.com e tinha um foco principal em comportamento. Fui apresentado a ele, inclusive, por pessoas que hoje, dificilmente, ainda o estarão visitando. Nos últimos dezoito ou vinte meses fui presença constante, figurinha carimbada lá, a ponto de o responsável pelo blogue ter passado a republicar algumas de minhas postagens, chegando a criar um tópico fixo com índice de meus textos.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Grande Apostasia, Grande Hipocrisia, Ambas as Coisas, ou Nada Disso?

Este fim de semana tomei conhecimento desta reportagem no site «End of the American Dream». A leitura foi bastante interessante porque, aparentemente, embora o site seja um ninho de teorias conspiratórias ligadas ao «sobrevivencialismo», os dados frios utilizados para embasar a reportagem foram colhidos de institutos de pesquisa aparentemente sérios. No texto em questão se argumenta que tem havido, particularmente nos últimos trinta anos, uma mudança radical da sociedade americana, pelo menos no que diz respeito à religião, uma mudança na contramão do que tem acontecido no Brasil, mas que não deixa de ser análoga.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Previsões de Ano Novo

Dando prosseguimento à tradição iniciada em janeiro de 2011, mais uma vez farei uma série de previsões para o ano que se inicia. Antes, porém, devo estabelecer ao leitor as razões de minha autoridade para fazer isso. Obviamente o leitor não ficaria impressionado com previsões feitas por um completo idiota que não sabe o que está falando só porque ele veste uma roupa étnica engraçada, imposta a voz de um jeito incomum, manipula alguns objetos esquisitos ou diz que conversa com espíritos. Não, as pessoas não se impressionam com essas coisas, elas gostam é de resultados! Resultados, no duro. E resultados eu tenho para mostrar. Veja a lista das minhas previsões concretizadas de 2011 antes de ler a minha lista de previsões para 2012.

O ex-vice presidente José Alencar terá graves problemas de saúde.
Não há necessidade de comentários.
O Flamengo anunciará planos de contratar pelo menos uma grande estrela do futebol internacional, mas não vai contratar ninguém.
Até que a Patrícia Amorim tentou, mas os caras parecidos com Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho que vieram jogar no rubro-negro carioca eram apenas clones baratos. Eles não conseguiram jogar nem a metade dos referidos ídolos, que devem estar, a esta altura, em nome do esporte, ganhando uma boa grana disputando a segunda divisão do Uzbequistão ou ajudando a estabelecer o campeonato profissional do Butão (afinal, para ganhar dinheiro o esportista moderno joga até em terrão de Chernobyl e recusa convocação para a Seleção).
Um parente de Michael Jackson dará entrevista a algum programa de televisão nos Estados Unidos afirmando que ele foi assassinado!
Esta foi uma previsão modesta de minha parte. Eu deveria ter previsto aquilo que os espíritos realmente me revelaram, mas a minha fé me falhou e eu não ousei declarar que, ainda em 2011, o médico de Jackson seria condenado pelo seu homicídio.
Silvio Berlusconi fará declarações polêmicas, que irritarão os líderes de outros países.
O homem da bunga-bunga declarou seu desprezo pela Itália em mais de uma oportunidade e foi singelamente demitido de seu posto após concluir o processo de condução da Bota a uma concordata.
Os baianos afirmarão ter inventado um «novo ritmo» que, no entanto, será igual ao pagode e só terá um passinho diferente na dança.
Em 2011 conhecemos o «Rebolation», que teve até disputa por originalidade.
Barack Obama terá dificuldades para implementar seus planos de governo.
Nenhuma necessidade de comentários.
Celso Roth não terminará o ano como técnico do Internacional, a menos que vença o campeonato gaúcho.
Onde está mesmo o Celso?
O presidente Lula seguirá tendo grande influência sobre o governo.
A influência continuou tão forte que ele ainda é chamado de «Presidente Lula» pela Rede Bobo.
Haverá um golpe de estado em um país da África.
Pelo menos um dos quatro chefes de estado que foram delicadamente apeados do poder em 2011 se qualificarão como «golpe de estado».
O site WikiLeaks publicará alguns segredos militares americanos.
Em 2011 o arquivo encriptado que continha toda a informação do Wikileaks foi aberto.
O primeiro ministro do Japão renunciará.
Por causa do desastre de Fukushima ele renunciou.
A China apertará a censura contra sua população, especialmente na Internet.
Além de todo o trabalho de censura ao longo do ano, a China terminou este mês prendendo mais alguns blogueiros.
A AIDS fará muitas vítimas no mundo inteiro, especialmente na África.
Sem comentários.
Haverá uma epidemia de dengue no Brasil.
Só porque a televisão não mostra, isto não quer dizer que a epidemia não aconteceu. Em 2011 teve muita dengue. Aqui em minha cidade mais de 20% da população teve. Até eu tive.
Paulo Coelho receberá uma homenagem no exterior.
As múltiplas traduções de seu novo livro se qualificam claramente como homenagens.
Um astro do futebol brasileiro será contratado por um clube da Europa.
Ainda lamentamos a ida de Diego Tardelli para o importantíssimo Anzhi, do Daguestão. Um joinha para quem sabe onde fica o Daguestão. Diego Tardelli provavelmente não sabe. Mas ganha uma fortuna e meia a mais do que eu. De que resulta que saber onde fica o Daguestão não dá camisa a ninguém.
Haverá um atentado terrorista protagonizado por muçulmanos radicais.
Nem vou me dar ao trabalho de procurar mais cedo no ano, porque houve um agora há pouco no Iraque. Mas se eu tivesse tirado «muçulmanos radicais» e colocado «fanáticos fundamentalistas» eu poderia facilmente listar o principal atentado terrorista do ano: a injustificada, não provocada, inexplicável, estúpida, contraproducente e cruel investida das forças americanas contra um pobre posto de fronteira do Paquistão, provavelmente causada pela «incompetência» dos recrutas para responder às abordagens por rádio dos «agentes de inteligência» ianques, fosse por não terem rádio, fosse por não saberem inglês.
As seleções brasileiras participarão da Liga Mundial de Vôlei.
Perderam, mas participaram.
A Rede Globo apresentará no dia 31 de dezembro de 2011 um programa gravado contendo trechos musicais interpretados por números de sucesso da música popular.
Foi ontem, se você não estava ocupado, como eu, enchendo a cara de cerveja, cidra barata e churrasco, deve ter visto. Minha mulher disse que viu.
Muitos técnicos perderão seus cargos nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.
É necessário comentar?
Acusações de corrupção derrubarão um político no Brasil.
Idem, ibidem.
O resultado do Carnaval carioca será muito polêmico.
Mas a maior polêmica continuará sendo sempre por que a gente ainda leva carnaval a sério.
Haverá grande atrito político entre a Coreia do Norte e a do Sul, mas não guerra declarada.
Quase o ano passou em branco, mas a suspeita morte do tiranete do topete fez a Coreia do Sul passar alguns cagaços no fim do ano.
Eu lançarei um livro, pela Editora Multifoco.
Liber jactus est, como celebremente Júlio César não disse… Se duvida, leia aqui.
Um líder muçulmano conclamará seus seguidores a matar uma personalidade europeia ou americana que supostamente ofendeu o Islã.
Olha, não consegui identificar ainda um fato isolado, mas Gert Wildeers anda recebendo mensagens de ódio quase regularmente, e Ayan Hirsi Ali também.
Palestinos serão mortos pelas Forças de Defesa de Israel.
Foram poucos, mas eles sempre dão um jeito de se matar uns aos outros.
Um brasileiro vencerá corridas de automóvel no exterior.
Tive de recorrer ao Filipe Nasr, do Campeonato Inglês de Fórmula 3, mas a previsão se confirmou.
«Lula, O Filho do Brasil» não vencerá o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Não merecia ganhar nem um prêmio de Melhor Filme Brasileiro.
São Paulo sofrerá com alagamentos causados por chuvas de verão.
Sem comentários.
Um novo modelo de automóvel será lançado.
Não entendo muito de automóveis, mas certamente isto aconteceu.
O papa dará uma declaração sobre planejamento familiar.
Adoção de crianças por gays se enquadra como «planejamento familiar»?
A tese do Aquecimento Global Antropogênico sofrerá duras críticas de «pesquisadores independentes».
Este foi o meu grande erro no ano. Subestimei as críticas. Nos EUA o Tea Party chegou ao ponto de ameaçar fisica e judicialmente projetos ecológicos que eles dizem incluir preocupações com o aquecimento global. A coisa chegou ao nível de paranoia total. Os EUA estão loucos e nem Deus nos livra.

Tendo estabelecido que eu tenho autoridade para fazer previsões, passo a fazer, em um post separado, a minha lista de previsões para 2012.