domingo, 29 de janeiro de 2012

Grande Apostasia, Grande Hipocrisia, Ambas as Coisas, ou Nada Disso?

Este fim de semana tomei conhecimento desta reportagem no site «End of the American Dream». A leitura foi bastante interessante porque, aparentemente, embora o site seja um ninho de teorias conspiratórias ligadas ao «sobrevivencialismo», os dados frios utilizados para embasar a reportagem foram colhidos de institutos de pesquisa aparentemente sérios. No texto em questão se argumenta que tem havido, particularmente nos últimos trinta anos, uma mudança radical da sociedade americana, pelo menos no que diz respeito à religião, uma mudança na contramão do que tem acontecido no Brasil, mas que não deixa de ser análoga.

Enquanto aqui a percentagem de católicos tem caído e a de evangélicos pentecostais tem crescido, mantendo-se a proporção geral entre crentes e não crentes (pelo menos de acordo com o IBGE, que não possui no recenseamento uma categoria para ateus) e entre cristãos e não cristãos (porque o crescimento de outras religiões ocorre basicamente por causa da imigração); nos EUA tem acontecido um decréscimo da afiliação às denominações protestantes tradicionais, notadamente os batistas, e um aumento dos ateus, dos não cristãos e dos «crentes em deus sem religião» (uma categoria difusa que, basicamente, esconde sob o manto de uma pretensa credulidade aqueles que já não são religiosos mas ainda mantêm, para consumo da sociedade, uma crença nominal em um vago conceito de divindade). As projeções utilizadas pelo artigo indicam que os EUA poderão ter até 30% de ateus no ano 2050 e que o número de fieis das igrejas tradicionais, que já caiu mais de dez pontos percentuais desde 1990, deverá estar reduzido à metade. Um cenário apocalíptico para os cristãos. Nos comentários da notícia, fieis alarmados com a apostasia do governo americano. Alguns sites fundamentalistas, como The Cutting Edge e a folclórica Igreja Batista de Westboro (aquela do «Deus Odeia Bichas»), já pregam abertamente há anos que o governo americano é a Besta do Apocalipse, que deverá levar milhões à apostasia, etc.

Antes de comentar sobre as contradições envolvidas na reportagem, preciso explicar, a quem ainda não sabe, o que é o sobrevivencialismo (ou «survivalismo», na boca de gente que aprendeu inglês direitinho mas fala português tão bem quanto um botocudo). Trata-se de uma ideologia política e religiosa de extrema direita, ligada ao fundamentalismo cristão (principalmente calvinista), ao milenarismo, à Associação Nacional do Rifle (NRA) e ao libertarianismo mais radical. Vamos explicar esse jazz do americano doido, em partes.

O fundamentalismo cristão é uma forma de religiosidade que se baseia na interpretação literal da Bíblia e na aceitação de princípios «fundamentais» que eram aceitos pelos primeiros cristãos. Ou seja, é uma religiosidade moderna que olha para o passado distante, ou pelo que entende que foi o passado distante. Os calvinistas acreditam na predestinação absoluta, para o bem e para o mal.

O milenarismo é um movimento recorrente no cristianismo desde os primeiros séculos, baseado na promessa de Jesus voltar logo. Acreditando que o mundo em breve acabará, os milenaristas tomam medidas extremas para precaver-se, incluindo abdicar dos prazeres carnais e da inserção social para contemplar o apocalipse. Todo fato catastrófico e todo fato político significativo será listado como «prova» de que o fim está próximo.

A Associação Nacional do Rifle é uma entidade que congrega a indústria armamentista e certos movimentos «libertários» que defendem o direito irrestrito do cidadão a portar armas, por razões principalmente ideológicas. Estas pessoas acreditam que o cidadão deve portar armas para defender-se não apenas contra o próximo, mas também contra o Estado, do qual desconfiam fortemente.

O que aqui se está chamando de «libertarianismo» é uma espécie de anarquismo de direita, que prega a não intervenção do Estado na vida do cidadão. Diferentemente do anarquismo tradicional, que é de esquerda, o libertarianismo defende o direito absoluto à propriedade privada constituída (considerando-a como legítima a priori), à autonomia local (inclusive de resistir a leis «injustas») e à autoridade familiar. Os libertários defendem a educação doméstica (home schooling,para os pedantes que só reconhecem um conceito sociológico quando expresso em gringuês), a punição física dos filhos, a submissão feminina, o porte de armas, o não pagamento de impostos etc. entre outras coisas.

O sobrevivencialismo é um «mexidão» de tudo isto, mas travestido de uma aparência mais secular. O sobrevivencialista não se vê como um crente em contemplação do Juízo Final cristão, mas como um «cidadão preocupado» que se prepara para um fim do mundo material. Acontece que, subjacente à sua ideologia, vai a religiosidade milenarista, de forma que esses grupos estão muito frequentemente contaminados pelos religiosos. Uma parte significativa da ideologia se baseia no egoísmo, na concepção da possibilidade de cada um se salvar por si quando der merda para todos.

Todo sobrevivencialista é adepto de teorias de conspiração e preconiza uma conduta subversiva, ao mesmo tempo em que demoniza como «comunista» ou «diabólico» todo movimento que se oponha àquilo que ele rejeita. É uma esquizofrenia difícil de entender. Os caras acreditam que o governo é uma entidade maligna que oprime o povo, mas chamam movimentos como o Anonymous e o Occupy Wall Street pelos piores nomes. Ocorre que eles rejeitam o que o sistema tem de «ruim», mas não querem de fato abrir mão do sistema. Boa parte das estratégias sobrevivencialistas, por exemplo, envolvem, no caso de uma guerra nuclear, contatar pessoas ligadas ao exército e aceitar ser liderado por elas. Ou ir até o Wall-Mart mais próximo para obter suprimentos (saque). Se o Estado e o capitalismo acabarem, não haverá exército e nem Wall-Mart, então talvez o fim do mundo fique mais complicado de sobreviver…

Você pode conhecer as sandices dos sobrevivencialistas (e algumas das coisas sobre as quais eles têm razão) no site www.textfiles.org, que reúne uma coleção de textos sobrevivencialistas dos anos 70, 80 e 90 (época dos BBS e da CompuServe).

Todo esse desvio teve que ser feito para pôr em contexto o tom alarmista do artigo que fala sobre o iminente fim do cristianismo americano. O sobrevivencialista adora alarmes, pois é com eles que justifica suas atitudes piradas no dia a dia (como construir um abrigo nuclear e brigar com o vizinho por causa de um comentário deste sobe a possibilidade de salvarem-se juntas as duas famílias). Temos que ter um certo cuidado ao aceitar o que essa gente diz, porque eles não apenas acreditam na possibilidade do Apocalipse, não apenas desejam sobreviver a ele, mas estão armados para matar os cavalos para comer.

A primeira coisa a se notar é o tipo de cristianismo que está em decadência nos Estados Unidos, segundo as pesquisas citadas. Para as fontes utilizadas no artigo, somente seria cristão quem aderisse a uma «visão de mundo bíblica», que envolveria crenças em:

  1. Moral absoluta,
  2. Total inerrância bíblica em tudo que ensina,
  3. Realidade da existência de Satanás como um ser definido em vez de um símbolo,
  4. Impossibilidade de «barganhar um lugar no céu» em troca de boas ações,
  5. Vida sem pecado de Jesus Cristo,
  6. Existência de um Deus onisciente e onipotente que governa o universo.

Para os autores do artigo, somente quem aceite estes seis postulados é um «cristão de verdade». Isto quer dizer que católicos, metodistas e espiritistas não são cristãos porque querem «barganhar um lugar no céu» em troca de serem boas pessoas. Isto quer dizer que os cristãos monofisistas (como os maronitas, os nestorianos, os coptas e os etíopes) e as Testemunhas de Jeová não são cristãos porque acreditam que Jesus foi um homem de carne e osso, vivendo tudo que a carne propicia. Isto quer dizer que não é cristão o que não seja fundamentalista literalista (e este grupo inclui não apenas os católicos, mas também os presbiterianos, os luteranos, os anglicanos, os ortodoxos e uma renca de outras denominações). Isto quer dizer que os espiritistas não são cristãos porque não acreditam em Satanás.

Quando se define «cristão» de uma forma tão restrita, é natural que haja tão pouca gente que creia nisso. Mesmo em décadas passadas, dificilmente terá havido muita gente bastante ignorante para crer em tudo isso.

Vê-se, então, que o declínio do cristianismo detectado pelo artigo nada mais é do que o declínio do cristianismo fundamentalista mais retrógrado e tacanho que se possa imaginar. Longe de ser um mau augúrio para o cristianismo, esta decadência é uma boa notícia, pois quanto menos pessoas acreditarem em coisas tão absurdas, menos tempo os cristãos terão de gastar explicando que não são como Fred Phelps (da Igreja Batista de Westboro) e poderão dedicar-se a convencer os outros de que Jesus é um cara legal.

Mas de que formas este declínio é benéfico? Acredito que de uma forma muito restrita. Se é fato que o fundamentalismo regrediu tanto (e eu não afirmo isso, quem afirma é o autor do artigo), é impressionante como a agenda fundamentalista, sobrevivencialista e anarco-capitalista está influenciando o debate eleitoral nos EUA, a ponto de a disputa interna do Partido Republicano não poder ser resolvida sem que os candidatos façam concessões ao Movimento Tea Party, que representa o que há de mais escroque, mais egoísta e mais anarco-capitalista na face da terra; o tipo de gente que acredita que não deveria haver férias e nem aposentadoria, que assistência médica é um serviço como qualquer outro, paga quem pode, que a origem da pobreza está na preguiça ou em uma maldição divina etc. Ou as pessoas que deixaram de ser pessoalmente fundamentalistas ainda estão instintivamente seguindo a ideologia fundamentalista no plano coletivo — algo que é possível, considerando a definição de sobrevivencialismo usada acima — ou de fato a decadência que ocorreu se refere exclusivamente ao tipo de fundamentalismo que segue os seis preceitos acima, mas ainda é forte o fundamentalismo que segue quatro ou cinco dos seis — e que, por isso, já é ruim o bastante.