sábado, 7 de abril de 2012

Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.

Já falei aqui sobre o preconceito que as pessoas têm contra a Linguística. Duzentos e tantos anos «no mercado» e produzindo conhecimentos importantíssimos para a compreensão do mundo não foram suficientes para que esta ciência fosse respeitada: qualquer zé mané se sente à vontade para exibir sua idolatria pela gramática normativa e seu preconceito contra qualquer abor­dagem educacional científica, especialmente aquelas que reconhecem a existência dos falares regionais e/ou variações de prestígio. Mas a coisa vai mais longe: o mesmo preconceito se estende a todas as ciências sociais.

Como dito no começo, em parte isto se deve à juventude das Ciências Sociais (exceto da História que, no entanto, era considerada até relativamente há pouco tempo como uma espécie de Literatura). Em parte, porém, isto se deve a motivações ideológicas. Ao estudarmos uma realidade imper­feita — a sociedade — é natural que tenhamos de apresentar tais imperfeições nos resultados. Aqueles, porém, que se beneficiam das imperfeições não se beneficiam da exposição delas. Natural, portanto, que denunciem o caráter «subversivo» e «esquerdista» das Ciências Sociais para evitar que seus resultados definam prioridades políticas ou impactem no imaginário coletivo. A posição das Ciências Sociais não é ajudada pelo fato de tantos «esquerdistas» de fato terem se dedi­cado a elas, especialmente por causa do legado de Karl Marx. Por outro lado, é difícil saber se nesse caso as pessoas esquerdistas procuram as Ciências Sociais ou se é natural mover-se para a esquerda do espectro ideológico quando se conhece a realidade imperfeita da sociedade capitalista em que vivemos.

Seria aceitável tal atitude preconceituosa proveniente de alguém obviamente ignorante e incapaz de raciocínios abstratos. Mas na prática o que se verifica é que muito frequentemente as acusa­ções contra as Ciências Sociais partem de pessoas que aparentemente estudaram um pouco, pelo menos o estritamente necessário para saber quem foi Karl Popper, embora não o suficiente para se livrarem da concepção positivista, como na ilusão de que é possível conhecer exatamente «como a História é» (palavras tomadas de um forista no Facebook). Não podemos, então, pensar que tais acusações sejam fruto da mera ignorância e temos que avançar a tese de que envolvem um pensamento ideológico de direita e/ou um preconceito contra formas de pensar diferentes.

Em geral, pessoas que procuram desqualificar o caráter científico das Ciências Sociais, espe­cialmente da História, da Geografia Humana e da Sociologia, o fazem por discordarem de um difuso «marxismo» que imaginam ainda definir de forma intransigente toda esta área do conhe­ci­mento humano. Tipicamente estas desqualificações são precedidas ou vêm acompanhadas de críticas a Cuba ou menções às ditaduras comunistas, que são usadas como argumento contra uma abor­dagem metodológica de fatos sociais. A falácia do non sequitur deveria ser óbvia nestes casos, porém é mais fácil amestrar um rebanho de gatos do que convencer um direitista que os erros come­tidos por políticos simpáticos a uma ideologia não são argumentos contra análises influen­ciadas pela mesma ideologia. Se o argumentador for cristão, ele não verá, inclusive, nenhum pro­blema em insistir em uma visão cristã do mundo apesar das violências praticadas no passado em nome do cristianismo. A analogia entre os dois casos nunca será evidente o bastante.

Tal preconceito se cristaliza também por culpa dos próprios profissionais das áreas de Ciências Sociais, quando não «vestem a camisa» nem se embasam para defender sua posição e quando fazem trabalhos porcos baseados exclusivamente em fontes secundárias e opinativas para defen­der ridículas «pós graduações» de merda que só servem para angariar-lhes títulos em con­cursos públicos para subempregos municipais. Estas pessoas, que muitas vezes foram parar num curso de Letras, História ou Serviço Social por não terem preparo suficiente para obter uma vaga onde realmente queriam (um curso de Direito, Medicina ou Engenharia), não tendo realmente amor pelo que fazem, não se importam em contribuir para a melhora da imagem de sua profissão. Como o homem que casa com a amiga feia porque foi rejeitado na disputa pela beldade da classe, mas depois vive falando mal da esposa ou não lhe dá a atenção de que precisa. Às vezes, porém, esta frustração não impede que o indivíduo empregue sua posição enquanto estudante, licenciado, bacharel ou mestre em alguma ciência social para embasar um falso argumento de autoridade que ataca estas ciências, como o forista que disse: E, antes de você vir com a acusação de que tenho preconceito contra as Ciências Humanas, sou da área de Letras…

Mas, deixando de lado estas analogias machistas e autoflagelação, é preciso gritar pelos quatro mil alto-falantes que as Ciências Sociais são ciências (até Popper admitia isso) e que sua desqualificação é um ataque falacioso, motivado ideologicamente. Falacioso porque se baseia em exigir delas que sejam capazes de cumprir tarefas para as quais não são adequadas. Não se julga o golfinho por sua capacidade de escalar árvores, tal como não se pode rebaixar as Ciências Sociais por não construírem nem explodirem coisas, como fez o forista que comentou: Um computador não pode ser construído com base em estudos de Ciências Humanas. Assim, não foram elas que ajudaram a criar as vacinas, por exemplo. Diante deste tipo de argumento, é dever de todo aquele que possui uma formação na área de Humanas defender-se deste tipo de abuso. A defesa não deve se basear em argumentos de autoridade, mas na própria lógica formal, que está de nosso lado de várias maneiras:

As Ciências Sociais não são abstrações. Elas procuram estudar fatos que realmente aconteceram. Sua limitação reside na impossibilidade de conhecer com plena exatidão todos os fatos, devido à precariedade dos registros ou a impossibilidade de verificar in loco os fatos deduzidos a partir dos dados parciais. Neste caso, é útil apontar que esta limitação é a mesma que afeta ciências como a Paleontologia, a Arqueologia e a Cosmologia, bem como ramos importantes de outras ciências, como a Taxonomia.

O fato de haver discordância entre vários autores quanto à interpretação dos dados conhecidos não é privativo das Ciências Sociais. Temos exemplos em outros ramos do conhecimento de teorias conflitantes, até mutuamente excludentes, ou baseadas em pura especulação. Pode ser interessante citar aqui a dificuldade para se harmonizar a Teoria da Evolução com a classificação taxonômica dos animais, o que só foi possível com o desenvolvimento da Genética e da Microbiologia, graças as quais se pôde detectar que a divisão da vida em dois «reinos» era uma arbitrariedade e descobrir relações entre espécies que não se baseavam apenas na aparência, dando origem à «síntese moderna» da Teoria da Evolução. A diferença em relação à História reside unicamente em que não temos a esperança de encontrar dados suficientes para dirimir todas as dúvidas persistentes. Então, a consequência disso é que teremos de conviver, em muitos casos, com interpretações vagas ou explicações parciais. Estas divergências ou incompletudes não invalidam as Ciências Sociais porque o objeto do conhecimento é real, embora conhecido de forma parcial. Não se pode comparar, por exemplo, a História com Ufologia ou Criptozoologia, por exemplo, que obviamente são pseudociências, pois procuram justificar a própria existência provando a realidade daqueles que seriam seus objetos de estudo: a humanidade existe e tem um passado, não é necessário provar isso.

O problema metodológico reside na suposta não falseabilidade do conjunto teórico dos postulados das ciências sociais. Entretanto, dentro de tal conjunto existem postulados que foram falseados com sucesso: sabemos, por exemplo, que determinado sítio arqueológico foi ocupado há tantos milhares de anos com base na análise por estratigrafia, carbono-14 ou decifração epigráfica. Podem haver aspectos controversos na interpretação dos dados, mas é inegável, por exemplo, que o sítio de Jericó foi habitado desde há cerca de 10 mil anos e que realmente os cruzados europeus estiveram na Palestina medieval. Outras ciências também possuem aspectos controversos entre seus postulados. Na Astrofísica, por exemplo, a «Teoria das Cordas» ainda não é considerada seriamente por todos os acadêmicos. No máximo, admitem que ela é um «modelo teórico promissor» para harmonizar a Física Quântica com a Teoria da Relatividade, mas que ainda precisa de comprovação. Ninguém em sã consciência diria que a Astrofísica é uma «balela» por causa de precariedade da «Teoria das Cordas», mas há quem considere a História uma «balela» só porque existem explicações diferentes para as causas da queda do Império Romano, por exemplo.

O mais curioso é que podemos concluir estas observações notando que o comportamento destas pessoas em relação às Ciências Sociais é análogo ao dos criacionistas. Tal como o cria­cionista rejeita em bloco toda uma gama de fatos e teorias no âmbito da Biologia, por não con­cor­darem com a conclusão a que apontam, o «objetivista-direitista» moderno rejeita em bloco toda uma série de campos de conhecimento, as «Ciências Sociais», com base em suas concepções equi­vocadas e positivistas do método científico e na rejeição das consequências de tais estudos por razões ideológicas. O criacionista não pode aceitar a Biologia porque ela invalida sua crença na inerrância do livro sagrado. A atitude dos que rejeitam as «Ciências Sociais» enquanto ciên­cias é mais matizada, havendo os que o fazem por serem adeptos de uma crença ingênua na objeti­vi­dade científica, os que o fazem por seguirem uma ideologia política direitista e os que o fazem por uma interpretação utilitarista do conhecimento. Para os primeiros, as inter­pretações feitas pelos cientistas sociais não são científicas porque procuram ir além dos dados; para os segundos, as ciências sociais são «comunistas» (ou algo assim) porque criticam o capitalismo, a sociedade de classes e os construtos ideológicos nos quais se assenta a ideologia predominante e difundida pelos meios de comunicação de massa; para os terceiros as Ciências Sociais não são ciência porque não podem criar nem explodir coisas.

Por mais ofensiva que esta analogia seja (afinal, nem mesmo os criacionistas aceitam mais serem chamados de criacionistas, tendo desenvolvido todo um sistema de argumentação em torno do conceito do desígnio inteligente a fim de não terem que afirmar abertamente suas motivações religiosas), é necessário apresentá-la, para que os envolvidos percebam que não se pode, a priori, negar a legitimidade de um ramo do conhecimento apenas porque não concordamos com seus postulados. Espero que este artigo tenha contribuído com algo neste sentido.