segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mais Radicais ou Mais Violentos?

Quando eu era adolescente a gíria da moda era «radical». Promovida pela poderosa Rede Globo de Televisão através de programas como o «Armação Ilimitada», esta gíria contaminou-nos de tal forma que teve seu sentido original pervertido. Em vez de algo ligado à base, à raiz, tornou-se algo arriscado, temerário. Terá sido intencional? Terá havido um objetivo de fazer uma confusão entre ideologias «radicais» e esportes «radicais» enfatizando em ambos o perigo? Em se tratando de nossos canais de televisão, nada é por acaso.

De lá para cá, de «radicalismo» em radicalismo fomos perdendo a noção da fidelidade aos objetivos originais, às teses básicas. Nossos partidões não têm ideias, não têm programas definidos. Nós mesmos não temos uma coisa nem outra. Desenraizados, sofremos com qualquer ventania, podemos ser levados pela primeira enxurrada.

Mas não é preciso ter um nome para algo existir. Não vivemos num mundo mágico criado pelas palavras. A Novilíngua imposta pelos meios de comunicação pode dificultar-nos discutir sobre os temas mais profundos, mais próximos às raízes que nutrem e fixam. Mas não nos impede que as raízes, mesmo débeis, ainda existam. Raízes podres, mas raízes.

A desideologização da juventude nos reduziu ao que vemos: egoístas e imediatistas, voltados sempre para satisfações hedonistas. Esta juventude, na qual não me reconheço, sem possuir em si a radicalidade do diagnóstico, a radicalidade da compreensão, a radicalidade da experiência; vive a violência, verbal e física, de projetar um mundo à medida de seus delírios.

Estamos cada vez mais violentos, embora não exatamente radicais. Não posso usar o respeitável adjetivo para me referir a quem brande cegamente o seu punho. O radical não é um fanático e nem sociopata. O radical é um desesperado pela justiça que busca um alvo imediato, uma meta factível, primeira de uma série a perseguir na reforma do mundo.

Estamos mais violentos quando mendigos são queimados, brigas entre torcidas acontecem mesmo quando as torcidas são «facções» de um mesmo time, recrudescem os crimes sexuais, prolifera o discurso do ódio (racial, de gênero ou religioso). Essa violência choca o ovo da serpente que já mordeu países muito mais cultos e conscientes do que nós.

Infelizmente eu não vejo caminho. A solidão não oferece alternativas diante da injustiça. Isolados somos ilhas, somos fragmentos. Devíamos unir-nos, em torno de qualquer bandeira, vermelha ou não, que simbolize algo diferente do roubo institucionalizado, da opressão pela força, do estupro, do fanatismo, do obscurantismo e da humilhação. Sofremos por não conseguir, porque quando o mal consegue, não precisa conseguir muito. Poucos e pequenos grupos que se unem na violência causam mais dor do que inúmeros e imensos grupos de bondade. A bondade precisa de continuidade, a violência apenas precisa ser pontual. Lembramos da morte que houve, não das vidas que continuam.