segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Sacralização da Tortura

Atribuir ao sofrimento em si mesmo um valor moral é um dos pilares da religião cristã, assentada firmemente na manipulação dos sentimentos de culpa que afligem a todos nós. Culpa essa que é predominantemente fabricada pelas crenças e superstições instiladas pela própria moral cristã, desconectada das necessidades reais da humanidade, como bem observou Nietzsche:

No Cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com um ponto sequer da realidade. Só causas imaginárias ... ; só efeitos imaginários ... Uma relação entre seres imaginários... uma ciência natural imaginária ...; uma psicologia imaginária ...; uma teologia imaginária... Este mundo das ficções puras distingue-se, com muita desvantagem para si, do mundo dos sonhos, em que este reflete a realidade, ao passo em que o outro não mais faz do que falseá-la, desprezá-la e negá-la. Depois de ter sido inventado o conceito «natureza» como oposição ao conceito «Deus», «natural» torna-se o equivalente a «desprezível», todo esse mundo de ficções tem o seu fundamento no ódio contra o natural (a realidade!).

A luta das religiões contra a saúde, a sabedoria e a vida se assenta exatamente na existência de tal sistema de valores averso ao «mundo» (termo, aliás, empregado abundantemente pelos pregadores cristãos para classificar tudo que se opõe, na realidade, à salvação da imaginária alma). «Médico, cura a ti mesmo»; desafiou Jesus em uma época na qual a medicina ainda era relativamente pouco evoluída. Hoje a medicina resolve inúmeros problemas para os quais, no século I, só restava implorar por um milagre; mas ainda assim a religião lança o desafio, não mais por escárnio da precariedade da ciência, mas para lançar a suspeita sobre seus sucessos, que reduzem o terreno para o milagre. «A sabedoria dos homens é loucura para Deus»; vociferou Paulo, o Apóstolo, para desencorajar que seu rebanho se aproximasse das escolas de filosofia do mundo helenístico. O cristianismo se espalhou entre os que ignoravam a filosofia, e quando teve poder suficiente seus líderes instigaram a turba a linchar os filósofos (como no caso de Hipácia) . Uma religião que valoriza mais a doença do que a saúde, a morte precoce como algo superior a uma vida longa. Daí santificar gente como Santa Rita de Cássia, que não tratava de suas úlceras cutâneas, ou Santa Teresinha do Menino Jesus, morta antes de tornar-se completamente adulta. A santidade dessas mulheres residia mais em serem doentes e morrerem cedo do que exatamente em suas virtudes morais.

Não entendo como cristãos conseguem ter «medo» do fanatismo islâmico e seus homens bomba. Os muçulmanos não são diferentes dos cristãos em sua obsessão pela morte, nem para melhor, nem pior. Ambos estão imersos em culpas irrecuperáveis, embora diferentes em natureza, e ambos encaram o sofrimento como algo que, merecido ou necessário, conquistará no além uma recompensa. Ocorre apenas que o Islã é mais transparente em seus valores e, apesar de em alguns aspectos ser menos, consegue ter algumas vertentes mais humanas que o cristianismo. O Islamismo, tal como o paganismo viking, valoriza a morte heróica, o desapego à vida. E ao valorizar o desapego à vida desta forma, o islamismo se mostra mais humanista do que o cristianismo, que só se interessa pela vida enquanto doença e degeneração, pela vida enquanto sofrimento, tortura e desperdício. O Cristianismo é, em sua essência, uma crença desumana, que só é tolerável porque a maioria de seus seguidores implicitamente já percebeu isso e tratou de ignorar certas partes da doutrina.

Esse tipo de religião obscurantista e doentia perdeu espaço na sociedade nos últimos séculos. A proliferação das curas tornou menos admirável a capacidade de suportar doenças. A proliferação dos direitos humanos tornou menos admirável a disposição para o martírio. A morte precoce passou a ser vista como o desperdício de uma vida, e não como uma evidência de santidade. A busca voluntária da morte, como em Marcelino, Pão e Vinho passou a ser, justamente, vista como uma espécie de doença mental. A grande maioria dos santos da história do Catolicismo, se hoje vivos, mereceria tratamento médico psiquiátrico, a maior parte seria curada. Daí a dificuldade de se fazer santos hoje em dia: não basta mais suportar uma doença grave por um tempo ligeiramente maior do que uma pessoa normal, conformar-se com uma execução injusta ou conseguir conviver com doenças não letais, mas dolorosas.

Existem ainda, porém, algumas trincheiras nas quais o sofrimento ainda existe. Algumas são reais, outras são artificiais. É real o sofrimento dos pacientes de doenças para as quais a medicina não encontra cura. É artificial o sofrimento dos pacientes de doenças para as quais a religião proíbe a cura já encontrada. Existe um grande número de doenças para as quais existe cura, mas há religiões que dificultam-na, por envolver procedimentos cirúrgicos com o emprego de transfusão de sangue ou amputações. E existem casos nos quais a ciência atingiu terrenos éticos controversos, situações nas quais as religiões, argumentando serem as guardiãs seculares da ética e da moral, pretendem ditar os parâmetros.

É disso que se trata quando surgem argumentos contra o aborto de fetos anencéfalos. Que o cristianismo historicamente tem uma tendência a tangenciar o ascetismo como uma virtude cardeal, isto não é nem posto em questão. Querer, porém, impor sobre a sociedade os seus valores baseados em sofrimento, culpa e morte é algo que não se pode aceitar. Se alguém quer virar mártir, que seja, mas não se pode exigir de outrem que se torne assim. Lembro-me de um episódio do romance Eurico, o Presbítero ambientado no final do domínio visigótico sobre a Península Ibérica. Diante da chegada dos mouros, uma abadessa desfigura às monjas, para que não fossem tomadas por esposas pelos príncipes muçulmanos. Na época em que foi escrito o romance, esta história deve ter sido interpretada como a narrativa de um ato de piedade cristã. Nos dias de hoje só mesmo um psicopata com delírios religiosos defenderia a atitude da abadessa, em flagrante violação ao direito de alguma(s) monja(s) de optar(em) por salvar(em) sua(s) vida(s) rendendo-se a muçulmano.

Quando se fala contra o aborto em tal circunstância, a voz que fala é a cavernosa e roufenha voz da Idade Média, que via a mulher, apenas em ser mulher, como fonte de todo pecado. A voz que deseja proibir o aborto de anencéfalos é a voz da abadessa que desfigura as monjas para não serem «conspurcadas» pela união a um príncipe estrangeiro. Mesmo o sexo conjugal é uma desonra, um mal menor diante da prostituição. A gravidez é a punição justa pela falha moral: compensa-se o «mal» do prazer com o «bem» da entrada no mundo de mais um ser vivo, especialmente se for homem (antigamente o resguardo pelo parto de um macho era mais curto que o do parto de uma fêmea). E se o bebê nasce morto, então a glória é ainda maior, pois faz-se anjo ao morrer sem conhecer o pecado: morrer é melhor, quanto mais cedo, pois cada dia nesse mundo pantanoso da moral é uma oportunidade de ser tentado e acabar no inferno.

Por isso a mulher deve sofrer para purificar-se e ser exemplo ao mundo: quem mandou nascer mulher, agora toma! Somente as mulheres que se anulam enquanto mulheres atingem a santidade: todas as santas se dividem em dois grupos: as que morreram virgens e as que permaneceram castas após entrarem no caminho da santidade. A santidade é uma condição incompatível até mesmo com dar para o marido. A santidade dos homens não é menos exigente: com uma profusão de monges (e até de castrados) entre os santos, mas o pecado atribuído ao homem é quase sempre a queda em tentação, enquanto a mulher é o próprio meio de tal tentação e causa de tal queda.

Querer obrigar o prosseguimento, até o ato final, de uma gestação fadada a terminar em morte é um ato de crueldade inimaginável. Quem o qualificou exemplarmente foi o Ministro Ayres Britto, com uma felicidade rara até em poetas, ao dizer que «dar à luz é dar à vida, não à morte». O parto de um natimorto é o anti-parto por excelência.

O mais estranho, porém, neste debate é que as igrejas se confundem continuamente quanto ao seu posicionamento quanto à natureza. Ao mesmo tempo em que se opõem à homossexualidade, por ser «antinatural», e ao aborto, por ser uma interferência na vontade de Deus, opõem-se igualmente à eutanásia por desligamento de aparelhos, que justamente vai ao encontro do «natural» e da «vontade de Deus» ao cessar uma interferência renitente no curso da morte inevitável. E estas mesmas igrejas que exigem o direito do anencéfalo ser levado a termo segundo a natureza, impedem que a morte dos pacientes terminais seja levada a termo segundo a mesma natureza. Para tornar ainda mais bizantino o debate, estes «defensores da vida» são os mesmos que dizem que este mundo é ilusão e que devemos viver tendo em vista a salvação de nossas almas após a morte. Os mesmos que cultuam santos precocemente mortos, por terem precocemente morrido, como Marcelino Pão e Vinho e Santa Teresinha, se dizem defensores da vida. Curiosamente, porém, só defendem a vida dolorosa. A vida que traz dor à mãe, a vida que traz dor à família que vê seu ente querido transformado numa caricatura grotesca entrevado em uma cama. Na verdade não é a vida que eles defendem, mas a tortura e a morte.

Se «a sabedoria dos homens é loucura para Deus» e vice-versa; como disse o apóstolo Paulo, é evidente que as descobertas da ciência, mesmo um simples eletroencefalograma ou uma ultrassonografia, podem ser desconsideradas quando isso interessa. Não se trata do salutar ceticismo que recomenda uma «segunda opinião» antes de uma decisão grave, mas de uma rejeição seletiva de dados que atrapalham as crenças. Concebida para contrapor-se à filosofia grega e ganhar corações de judeus (que odiavam-na), esta afirmação tem repercutido pelos séculos afora como um estímulo para que os fieis não apenas deixem de estudar, mas também desconfiem de quem estuda. Sem citar nomes, é sabido que existem seitas cristãs que ainda hoje recomendam a seus fieis que não passem do primeiro grau e se contentem com empregos humildes.

Quanto aos desígnios de Deus, eles são misteriosos e não cabe ao homem questionar. «Ele tem um plano» parece ser um consolo eficaz para certas pessoas. Por isso, «maldito o homem que confia no homem» é outra frase lapidar, que nega ainda a filosofia, ao negar as doutrinas desenvolvidas pelos homens que a fazem. Em lugar de ideias humanas, as «ideias de Deus» contidas na Bíblia. Não se pergunta, nem se deve perguntar, como o texto bíblico surgiu. A Bíblia é aceita como um fato dado, e acaba funcionando como uma âncora a contrapor-se a toda novidade, seja dos costumes, seja das ciências, pois são modos e ideias «de homens». Fé cega é a única explicação. Pessoas cegas pelas suas ilusões confortáveis de uma vida póstuma cor de rosa preferem cantar seus hinos e pagar seus dízimos do que pensar no que poderia ser melhor para si e seus filhos.

Prisioneiros da promessa de uma salvação póstuma, estas pessoas que têm fome e sede de justiça parecem até pedir por menos, pois quanto maior a sede, maior seu galardão. Eis uma doutrina útil para apascentar rebanhos, para abaixar cabeças e calar mágoas, para deixar as pessoas passivas e cordatas diante da violência de um mundo real que as explora e mata. Os poderosos não se importam com esse negócio de ir para o inferno, a não ser da boca para fora. O pobre faminto e desdentado é instado pela religião a ter pena do rico gordo e bem tratado, «sepulcro caiado», porque ele não está entre os que um dia herdarão a terra.

E é sempre na cabeça do pobre que bate o sofrimento. O pobre não tem clínicas de luxo para fazer os seus abortos. Não é de estranhar que filho de rico seja quase sempre mais bonito: nem tudo o dinheiro conserta, muita coisa se escolhe. Mas o pobre, este tem que aceitar o que o acaso lhe traga, e depender da caridade alheia para fazer frente a tudo. O sofrimento, a privação, a frustração, mais do que apenas coisas que um dia serão pagas com o galardão de uma vida gloriosa póstuma, é o próprio meio através do qual se ganha o acesso a tal glória. O corolário absurdo de tal compreensão é simplesmente que fazer alguém sofrer é fazer-lhe um favor, pois quanto mais se sofre, mais se está salvo, desde, é claro, que este sofrimento seja aceito com alegria no coração, em vez de xingamentos aos agressores. Mais do que apanhar, é preciso apanhar agradecendo. Por isso um filho anencéfalo é uma bênção, mesmo que estrague a saúde da mãe, a impeça de ter outros saudáveis, ou até a mate. Se morrer ela é que está no lucro, não é mesmo?

Tudo isso se manifesta nas reações inaceitáveis à manifestação quase unânime do Superior Tribunal Federal quanto ao aborto de anencéfalos (à exceção dos que vêm se consagrando como arautos da Treva). Não importa que o anencéfalo seja um monte de carne sem vida, que somente pode trazer sofrimento à mãe. «Deus tem um plano». Por alguma razão o ser Todo Poderoso quer estragar a vida das mães que geram dentro de si criaturas disformes que jamais conseguirão sequer os sinais mais básicos de humanidade. O plano de Deus pode ser o absurdo que for, aos nossos olhos: sua sabedoria é, também, loucura para nós. O que é um exame de ultrassonografia atestando que o feto já está morto e morto nascerá? Sempre se pode rezar por um milagre, mesmo que a possibilidade de um diagnóstico incorreto seja ridícula ou reversão do quadro realmente impossível. Mesmo para um Deus especialista em curar dores nas costas, mas que nunca fez crescer uma perna numa criança que a perdeu. Não importa que inúmeros médicos tenham chegado à mesma conclusão, eliminando a possibilidade de um diagnóstico errado (sempre possível se não for repetido o exame ou consultado outro especialista).

Não importa porque aquilo que os homens dizem, ou fazem, é irrelevante. Aquilo que homens anônimos escreveram no passado (e outros atribuíram a Deus) tem mais importância do que uma medicina que já consegue curar tantas doenças que as principais causas de mortes «naturais» em países desenvolvidos são decorrentes da senescência ou da exposição a condições inadequadas (radiações, contaminações etc. que produzem cânceres). Deus confunde os doutores, não é mesmo? Duvido que esses pseudo-defensores da vida tenham os médicos em tão baixo apreço que evitem consultá-los quando têm doenças.

Não importa o sofrimento extremo que a gravidez de um feto inviável cause nas mulheres. Eu não sou mulher para saber, então se alguma me disser que sofreu, devo, humildemente, dizer que, se o problema é dela, então o direito à solução também lhe pertence. Não regulo o corpo de nenhuma mulher, nem da minha. Não tenho esse direito. Cada ser humano é soberano sobre si, ninguém possui ninguém, a não ser metaforicamente. Se uma mulher sofre com a situação, eu não tenho a pretensão de dar-lhe lições sobre isso. Eu não tenho útero, eu não darei à luz, eu não tenho mamas, não serão em mim as estrias abdominais. Em tese eu seria favorável até mesmo a outros tipos de aborto, embora não recomende isso, claro, tanto quanto não recomendo demolir uma casa como solução para reformá-la. Mas recomendo remover o entulho daquela que ruiu para poder fazer uma nova. Um feto anencéfalo é uma construção que ruiu.

Não importa o sofrimento porque sofrer é bonito. Pelo menos na ótica dos cristãos. Enquanto a maioria das pessoas vê beleza em flores, em cores, em amores, em odores, em fulgores; os cristãos carolas enxergam boniteza na representação do cadáver torturado de Jesus. Chagas, chibatas, choro, são as formas de beleza que entendem. Fazer uma pessoa sofrer é um favor, um óbolo para comprar passagem para o paraíso.

Quando alguém está sofrendo, é comum que voejem ao seu redor os abutres religiosos, interessados em extrema unção, velas, rezas, bíblias, gritarias em nome de Jesus, de santos ou de exus. Contemplar um ser humano reduzido humilhantemente à doença, à degenerescência, à demência, nada é tão bonito para essas aves de rapina espiritual. Especialmente havendo uma herança em vista ou a família gostando de pagar por missas ou dar dízimos.

Cada vez que um religioso afirma que é contra o aborto de anencéfalos ele está querendo crucificar uma mulher. Fazê-la sofrer nove meses com o cadáver de seu filho na barriga. Ver seus seios crescerem para alimentar um ser que nunca mamará. Ver seu corpo modificar-se em nome de uma vida que não nascerá. É como obrigar um pedreiro a arrematar a casa que caiu, obrigar o motorista a comprar acessórios para o carro que bateu. Como disse o ministro poeta, «dar à luz é dar à vida, não à morte». Mas o Cristianismo não está interessado em luz, tanto assim que deu nome ao seu demônio de Lúcifer, o portador da luz.

Ainda bem que, como dito antes, a maioria dos cristãos não suporta os fundamentos de sua religião. Ignoram princípios que proibiriam tudo que é a própria base da cultura em que vivemos. Os outros sonham com o dia em que o evangelho triunfará. Eles só se esquecem de que isso já aconteceu. Chamou-se Idade Média. E foi uma época em que instalaram no Vaticano uma privada romana, recuperada das ruínas de uma casa demolida. Porque ninguém mais se lembrava o que era uma privada e acharam que fosse algum tipo de trono.