quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre a Necessidade do Isolamento

O ser humano é gregário por natureza. Desde Aristóteles (que talvez não tenha sido o autor do dito) circula a noção de que o homem é um «animal político». A animalidade (ou seja, a naturalidade) de nossa inclinação política nos faz supor que é «bom» que estejamos sempre unidos a alguma coisa: classe social, partido, religião, torcida ou fã clube. Hoje, porém, dei-me conta da relevância de ser solitário, de não estar formalmente ligado a nenhum grupo ideológico.

Grupos ideológicos são prisões mentais: eles nos obrigam a entrar em conformidade com paradigmas externos, que podem não ser mais do que a pressão da maioria. Não é nenhuma surpresa que os partidos políticos se degradem com o correr do tempo, perdendo seus ideais de juventude e degenerando em meros instrumentos de poder. Quando você optar por filiar-se a um grupo por ideologia, está voluntariamente renunciando a ter ideias próprias sobre os temas controversos ou, de outra forma, terá de conviver com uma forte dialética na qual a pressão da maioria acabará empurrando suas considerações iniciais para posições conciliatórias.

Somente o solitário detém a liberdade de estar dissociado daquilo de que discorda e de reiterar sua opinião sem considerações de ordem prática. O partidário precisa apoiar alianças que lhe causam pesadelos, o torcedor precisa ignorar os defeitos de seu time, o religioso precisa engolir o dogma inteiro. Quem apenas tangencia, sem incorporar-se, poderá, em qualquer circunstância, fazer a crítica que achar necessária e, caso solicitado, sair pela porta por onde entrou. A necessidade de estar agregado a algum tipo de organização, sociedade, clube ou identidade é mãe das incoerências mais graves: através delas somos orientados a silenciar a voz da consciência em nome de conveniências.

Esta constatação surgiu em mim como resultado de minhas sucessivas decepções com as «igrejas ateístas» que tentam organizar o «movimento ateu» no Brasil. Desejoso de abrigar-me no seu seio para superar a solidão de ser um livre pensador em uma sociedade que valoriza o rebanho, muitas vezes me vi tentado a engolir sapos ideológicos em nome dos supostos benefícios de ser parte de «algo maior». Só a maturidade nos ensina que este isto só é válido se tal «algo maior» é também algo «bom»: ser parte de uma grande máquina do mal não é algo de que nos devamos orgulhar. Infelizmente, porém, a preocupação com a repercussão social de nossos atos é um valor em crise em nossa sociedade: estamos ficando egoístas.

Se entendo essa mudança para o egoísmo como ruim, como estou a defender a solidão? Caro leitor, entenda, há uma diferença imensa entre estar só e ser um egoísta. Há pessoas que estão em meio a muita companhia, mas por motivos errados: a necessidade de estar em «algo maior» é uma motivação egoísta para buscar ajuntar-se a um movimento coletivo. Outras pessoas foram deixadas sozinhas porque não querem compactuar com valores de que discordam. Prefiro estar só porque quando me mantenho fiel a uma organização apesar de seus erros não reparados, eu corroboro os erros por ela cometidos. «Mudar o sistema a partir de dentro» é só uma história usada pelos adesistas para desculpar o gordo salário que recebem.

Dizer, porém, que estou decepcionado com as lideranças ateístas é injusto. Em primeiro lugar, nenhuma liderança é mesmo perfeita. Além do mais, lideranças razoáveis podem aceitar acomodações, negociações. Lideranças podem ser trocadas. O problema do «movimento ateu» brasileiro, só agora vejo, não está nos líderes, está nos liderados. Por mais que as lideranças dividam; competindo entre si por nacos de notoriedade, contagens de visitantes a seus blogues, cliques em seus anúncios, doações para suas contas, compras em suas lojinhas virtuais; sempre é no seio dos liderados que as piores decepções acontecem.

Os erros das lideranças foram muitos. Houve as que se perderam tentando estabelecer condições para ser chamado de «ateu». Outras se perderam tentando delimitar de forma mais contrastante os diversos rótulos envolvidos nos movimentos que ficam ideologicamente à esquerda da religião. Outras se envolveram em mesquinhas disputas pelo poder, que me evocaram até mesmo os equívocos mais graves de episódios históricos do passado. Outras, por fim, se perderam tentando assumir para si uma posição superior no terreno ideológico e epistemológico. Quando essa última tentativa se voltava contra as religiões e o sentimento religioso, era difícil discernir o seu equívoco, mas quando se voltava contra o próprio «movimento ateu», então o difícil era ignorar que se estava esgrimindo conceitos filosóficos excessivamente abstratos com o objetivo único de «demarcar território» e desqualificar pensamentos divergentes. Quem detém o controle da terminologia, tem o poder de validar ou invalidar os pensamentos originados de fora da «torre de controle», o que é uma capacidade muito útil quando se busca erguer uma ideologia eficiente, e lucrativa.

Não bastassem esses problemas todos com as lideranças (reais ou fruto de auto-engano, legítimas ou impostas), ficou evidente para mim algo ainda pior: a tendência do «baixo clero» em aviltar o movimento, monstrando-se ávido por más notícias sobre a religião, rápido em aplaudir tudo que as «desmascare» e impiedoso em sua falta de limites éticos para exercer estas tendências. Por mais que dentro de campo estejam jogando 11 cavalheiros engravatados e bilíngues, como nos tempos do futebol elitista de inícios do século xx, as arquibancadas rugem com espectadores como os do coliseu romano, sequiosos de sangue.

Dois episódios específicos me chamaram a atenção. O primeiro foi a reação de algumas pessoas no seio do «movimento ateu» diante da morte do ator Thiago Klimek, que interpretava Judas Iscariotes em uma «Paixão de Cristo» amadora. O segundo foi a tendência direitista que o Partido Laico Humanista vai tomando.

No primeiro caso, o absurdo de praticamente «comemorar» a morte de uma pessoa que não estava fazendo nada mais que praticar a arte que amava. Rir da desgraça alheia nunca é algo bonito, mas fica ainda pior quando o motivo do riso é ideológico. Se o ator tivesse morrido interpretando Santos Dumont ou Tiradentes o caso não mereceria tanta ironia.

No segundo caso o problema não está na tendência direitista em si, mas no tipo de conteúdo trollesco e desrespeitador que está sendo compartilhado lá; e que me fez deixar o grupo. Não há como iniciar um projeto político de grande envergadura se não houver respeito de parte a parte. Não há respeito por parte dos «direitistas» a que me refiro, que estão deliberadamente procurando inflamar o debate para dividir. Infelizmente nada posso fazer, pois o grupo está na mão deles. E eles, obviamente, trabalham para destruir o grupo porque, ateus ou não, um grupo de ideologia direitista será sempre contrário a iniciativas populares.

São pessoas torpes que compartilham slogans de que religião não define caráter, mas mostram falta de caráter. Compartilham slogans de que os valores morais não são exclusividade dos religiosos, mas não demonstram ter valores morais apreciáveis. Se é verdade que religião não define caráter, também é verdade que algumas tentam, ainda que apenas de forma parcial ou imperfeita. Eu me proponho a ser um dos que tentam fazer o mesmo, só que isolado, falando sozinho na praça da internet.

Eu rejeitei a ATEA e seu líder porque não concordo que uma entidade que se propõe a representar minorias perseguidas imponha condições para que os membros de tais minorias sejam associados. Rejeitei a UNA porque as arquibancadas empoderaram um «golpe bolchevique» contra os seus moderados líderes, fazendo inclusive com que um deles se afastasse definitivamente do movimento. Rejeitei a LiHS porque não concordei com a tentativa de acobertar uma «barriga» que tomaram ao publicarem como verdade uma mentira criada por um mitômano, posteriormente rejeitei-a mais uma vez ao perceber a tentativa de manipulação ideológica que estavam cometendo. Não tenho hoje nenhuma afiliação explícita com grupo algum, sou livre e solitário. Tenho a liberdade que somente a solidão pode dar. Do alto desta liberdade eu pressinto que é uma profunda felicidade não estar associado a nenhuma destas entidades. Ou a qualquer outra, formal ou informal.

Não sei para onde estou indo. E isto é ótimo.Que tristeza seria o mundo se todos soubéssemos para onde estamos indo. Sei que, estando só, estarei exposto à covardia dos que, de um lado ou de outro, se aproveitarão de eu não ter «costas quentes» e nem companheiros que me vinguem. Já sou, porém, maduro o bastante para saber que este tipo de garantia não impede que os membros de torcidas organizadas sejam mortos. Mais importante do que o conforto ilusório dos números é a coerência de não assinar embaixo daquilo de que discordo. Passei daquela fase em que as pessoas procuram turmas. Nem nessa fase eu tive. Hoje prefiro ficar de meu lado, vendo as turmas se esbofetearem inutilmente. Um dia alguns desses crescerão e talvez tenham tempo para entender o que estou dizendo. Enquanto isso o «movimento ateu» continua seguindo a máxima de Mencken, segundo a qual quantidade total de inteligência no mundo permanece invariável.