quarta-feira, 16 de maio de 2012

Meu Partido é um Coração Partido

Continuando em minha cruzada contra o que penso serem equívocos do «movimento ateu», dedico-me hoje a comentar uma iniciativa bastante original, que surgiu e criou pernas no seio do sítio de relacionamentos Facebook: a ideia de um partido político destinado a defender o laicismo. Por enquanto me absterei de citar o nome deste, por razões que ficarão claras à medida em que o leitor acompanhar este breve comentário.

Gostaria de enfatizar a originalidade porque, que eu saiba, foi a primeira vez que surgiu a ideia no «movimento ateu» de partir para uma atuação política formal. Antes os ateus preferiam organizar-se em clubes e «igrejas» mais voltados para masturbações intelectuais do que para qualquer ação prática — exceto no caso da ATEA que, com todos os seus defeitos (e são muitos) foi a única entidade ateísta a tomar alguma atitude (embora eu considere uma boa parte de suas bem intencionadas atitudes francamente equivocadas).

Fui um dos membros de primeira hora convidados ao Partido. Na qualidade de membro do grupo Livres Pensadores, julgaram-me um público natural para isso e, de repente, vi-me adicionado. Nos dias seguintes fui acompanhando a iniciativa e logo vi indícios preocupantes de que aquilo não terminaria bem. Logo de cara diversos membros de entidades mais ou menos formalizadas no seio do «movimento ateu» trataram de marcar sua dissociação em relação ao partido. Um dos primeiros foi o Eli Vieira, que reclamou de terem dado ao partido o nome de Laico Humanista (PLH) sem consultar a LiHS (Liga Humanista Secular). Muito embora eu não reconheça nesta Liga o direito de controlar o uso do termo «humanista», achei apropriada a manifestação do Eli neste contexto, pois serviu para esclarecer a independência do projeto de partido.1 Mas o primeiro indício foi a guerra aberta entre a «direita» e a «esquerda» no seio do grupo.2 O segundo indicativo foi a presença entre os «moderadores» de pessoas absolutamente «imoderadas», que prefiro não nomear para escapar de processos por «colônia e defumação».

Quando o grupo já estava incendiado por intermináveis discussões, que envolviam Cuba, a Venezuela, a Revolução Cultural Chinesa e o massacre dos religiosos ortodoxos pelos bolchevistas; ele sofreu um «atraque»3 por parte de um grupo religioso interessado em matar no nascedouro a ideia. Digo «atraque» (leia o rodapé) porque era inconcebível que um pequeno grupo no Facebook (com ainda menos de mil integrantes, dos quais uns trinta seriam ativos) tivesse já atraído a ira de movimentos religiosos organizados. Difícil de crer, e mais ainda se considerarmos que o administrador responsável por «salvar» o grupo havia sido, meses antes, o pivô de um escândalo na blogosfera ao impingir ao «Bule Voador» (órgão oficial da LiHS) uma história fantasticamente incrível de uma tentativa de assassinato cometida contra ele, dentro de um quarto de hospital, por uma «enfermeira crente fanática». O resultado do episódio foi a providencial exclusão dos moderadores iniciais (entre eles a Lígia Amorese e eu) e a entronização de um moderador único («ein Land, ein Volk, ein Führer») ligado à facção direitista do grupo. Muitos membros foram também excluídos, significativamente reduzindo a quantidade de participantes, um verdadeiro expurgo. O dono original do grupo nunca foi reconduzido à sua função de dono do grupo. Não que eu tivesse percebido./Atualização em 29/05/2012: O leitor Saulo César nos conta que o processo do partido foi longo e desgastante. O dono da comunidade foi de fato reconduzido ao cargo, mas após algumas semanas desencantou-se e decidiu deletar o grupo, a menos que alguém quisesse dar continuidade, o que aconteceu, resultando nisso que estamos comentando.

Após este episódio o «lado direito» do Partido — até então sem nome oficial, desde a controvérsia sobre o nome «Laico Humanista» — ficou bastante empoderado e a participação dos membros do «lado esquerdo da Força» decaiu, limitando-se a umas poucas vozes dissonantes, entre elas a minha (embora eu estivesse longe de ser o que mais remava contra a corrente). Vendo os rumos virulentos que o Partido tomava, copiando a retórica inflamada (no sentido patológico) dos mais baixos colunistas da Veja — que confunde crítica política com uma metralhadora giratória de agressões verbais dignas uma criança de escola primária — afastei-me, prevendo que o lado direito triunfaria e o partido serviria de veículo para a difusão de ideias das quais discordo frontalmente. Um partido precisa de um mínimo de coerência ideológica para ser coeso, ou se transforma num PMDB.4

Não acompanhei os desdobramentos posteriores à minha saída. Não sou dos que se interessam pela rotina amorosa de ex namoradas, embora seja capaz de aceitar que exista gente capaz de sentir prazer nisso. A ideia de um partido laico tornou-se para mim apenas uma ideia natimorta. Malograda enquanto ideia transformadora, mas não necessariamente fadada ao fracasso. Sei muito bem que certos sucessos são malogros para o conjunto da humanidade. Vivemos num país de mestiços que idolatram o nazismo: entre nós nenhum absurdo é impossível. Mas, para mim, descambar para a direita é sempre uma forma de malograr-se, pois a direita, em sua essência, é a própria negação da solidariedade, da vida em sociedade, do anseio de aprimoramento para a comunidade. Descambar para a direita é abdicar de sonhos belos, que podem ser impossíveis ou acabar pervertidos no meio do caminho, mas que ainda são mais válidos do que uma realidade sem esperanças. É gritar ¡Abajo la inteligencia! ¡Viva la muerte!

Porém acabei recebendo sem ter pedido uma notícia sobre o estado de putrescência a que chegou o partido. A notícia me deu conta de algo tão absurdo, apesar de ser apenas um exagero de algo previsível, que acabei retornando à antiga página do grupo para ver em que consistia, afinal, a surpresa do meu amigo virtual que me passara a informação. Existem situações na vida que me causam um espanto tão profundo que tenho até dificuldades para articular meus pensamentos. Demorei, por exemplo, quase oito dias inteiros para conseguir raciocinar uma maneira de comentar o livro de Paulo Coelho intitulado «Veronika Decide Morrer». Demorei algumas boas horas e mais dois dias para articular uma reação ao bisonho programa partidário do agora chamado «Partido Liberal Republicano».

Demorei, por exemplo, a acreditar que fosse sério o nome do partido. Alguém tinha de estar brincando ao adotar para a futura agremiação uma sigla («PLR») que também pode ser lida como «Participação nos Lucros e Resultados», conhecido benefício concedido por sociedades anônimas a seus administradores, empregados e outros stakeholders. Se pensarmos que no início uma das prioridades pensadas para o partido fora a de formalizar-se para ter acesso ao fundo partidário, a sigla começa a fazer sentido como ato falho indicativo das reais intenções dos dirigentes. Ou pode ser uma simples coincidência, revelando que os diletos liberais que se orgulham de seguir as ideias de Mises entendem tanto de mercado que ignoram uma sigla dessas…

O documento em questão foi apresentado por um dos moderadores como «um esboço de nossas aspirações» contendo princípios a ser sempre reformulados e trabalhados «visando os direitos e garantias individuais do cidadão, uma sociedade justa e solidária e a dignidade humana». Seguem-se dez pontos (um decálogo, isso não é coisa de crente?) que evidenciam um grau tão profundo de desconexão com a realidade que fica até difícil comentar, mas eu gosto de coisas difíceis, mesmo quando fracasso nelas. Quem quer moleza, que vá morder água.

O primeiro item propõe «combate à corrupção através da instauração de uma comissão de ética formada por acadêmicos de reconhecido saber». Instaurar é um ato autoritário. Um partido comprometido com a democracia proporia «constituir» órgãos, um ato multilateral, e não «instaurá-los», um ato unilateral. Mas o pior nem é a semântica do termo. O pior é ignorar que as funções de tal «comissão de ética» monolítica — verdadeiro poder moderador, Oberkommission fascista5 — são já cumpridas na figura do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Procuradoria da República e dos Tribunais de Contas. Melhor para a democracia que existam várias «comissões de ética» do que uma única to rule them all. Se estas «comissões de ética» existentes estão corrompidas, resta ao PLR responder duas importantes perguntas:

a) o que impedirá que a Oberkommission se corrompa também? Acadêmicos de reconhecido saber não se corrompem? Acaso nossos juízes, procuradores, desembargadores e quejandos são iletrados de ignorância notória? Títulos acadêmicos representam um progresso ético? Títulos acadêmicos impediram que «cientistas» como Mengele servissem sadisticamente a um regime que é o próprio arquétipo da monstruosidade política?

b) não existiria uma ameça à democracia ao concentrar os poderes de fiscalização nas mãos de uma Oberkommission também corruptível? Who watches the watchers? É uma frase de uma história em quadrinhos, mas que vale para a vida real mais do que muita filosofia.6

Atualização em 29/12/2012: Parece ter havido alguma obscuridade na redação do documento original, induzindo-me a crer que a comissão seria superior aos três poderes. A intenção seria que ela fiscalizasse as leis aprovadas pelos respectivos poderes legislativos. Apesar desse toque, também do Saulo César, mantenho tudo que disse antes porque: a) a obscuridade de uma proposta não é desculpa, pois pode ser proposital ou, mesmo não sendo, pode dar motivo para futuras mudanças de rumo ainda interpretando o mesmo texto original (vide a Bíblia) e b) uma fiscalização exclusiva do legislativo não apenas seria desnecessária (visto que o STF já faz isso), mas também não corresponde ao que foi escrito, leiam: fiscalizar os gastos deliberados pelos governos estaduais, municipais e federal, além delegar tarefas aos seus representantes, assim, visando uma maior transparência pública e eficiência na invalidação de atos dos governos que lesionem o patrimônio públic.

Mas se você acha que já leu bastante insanidade em uma única frase, espere que tem mais. Tal comissão seria «composta inicialmente de voluntários». Ou seja, os primeiros membros indicados para ela não precisariam ser nem acadêmicos e nem dotados de notório saber. Imagino que na eventualidade de chegada do PLR ao poder eles se indicariam uns aos outros como «voluntários» para a função, e a promessa aos acadêmicos ficaria para as calendas gregas. Todas as «comissões de notáveis» em regimes de direita tendem a ser integradas predominantemente por nulidades.

Mas acha que acabou? O primeiro item já é um mar de sandices. A tal comissão não apenas teria o poder de fiscalizar os três níveis de poder como poderia «delegar tarefas a seus representantes». A tal comissão não apenas quebraria o pacto federativo, com a prerrogativa de «invalidação de atos dos governos que lesionem [sic] o patrimônio público»7 mas também ficaria acima dos três poderes federais. Um autêntico «Poder Moderador» no estilo da nossa finada constituição monárquica. Imagine que democrático viver em um país no qual as decisões de uma comissão de notáveis «instaurada» por um partido político majoritário teria o poder de decidir o que vale e o que não vale em todos os atos de todas as instâncias de poder! Gostou da ideia? Vote no PLR.

Mas não acabou ainda! Não é mar, é oceano. Quantos notáveis teria que ter esta comissão para poder fiscalizar os inúmeros órgãos do governo federal, dos vinte e seis estados e dos mais de cinco mil municípios (só Minas Gerais tem quase mil)? Ou esta comissão teria que ser o maior de todos os órgãos burocráticos do país, consumindo uma fabulosa estrutura física para se imiscuir em todos os atos de governantes, ou ela seria ineficiente para coibir a corrupção, agindo apenas quando provocada, nos casos mais notórios. Seria ineficiente para coibir a corrupção, mas muito útil para perseguir adversários, imobilizar governos independentes, paralisar os representantes e governantes democraticamente eleitos etc. Tal como a censura era ineficiente para moralizar o país, mas ótima para sufocar críticas aos desmandos e corrupções dos militares e impedir a divulgação dos desmandos da ditadura.

O segundo item e o terceiro parecem mais promissores, ao sugerir uma priorização da Educação. Mas não custa lembrar que as ditaduras costumam ter essa prioridade também. Há exceções, como Franco e Salazar, que achavam que o diploma primário já estava mais do que bom para o homem do povo, mas tanto os nazistas quanto os stalinistas quanto os nossos milicos investiram em educação. Um sistema educacional eficiente em doutrinar é uma joia nas mãos de qualquer tirania que sonha com mil anos ou com a eternidade. Mais adiante veremos as razões de priorizar-se a educação no programa do PLR.

Juntamente com a valorização dos professores, vem a dos policiais e militares, cuja causa salarial é abraçada pelo PLR. Nenhuma palavra sobre reequipar nossas combalidas Forças Armadas, o importante é pagar bem aos militares. Afinal, sempre é bom afagar o bolso da caserna se você tem um projeto autoritário. Não se dá golpe de estado sem eles… E para manter o povo em seu lugar não faz falta avião de caça, bastam fuzis.

O item cinco é o corolário do neoliberalismo oriundo do Consenso de Washington e da «Pós-História» de Fukuyama. O PLR se propõe a «combater o Estado Empresarial, negligente, autoritário, ineficiente em suas funções clássicas e invasor da esfera natural da atividade privada.» Uma bandeira aceitável, considerando a ideologia do grupo, mas soa hipócrita a crítica de autoritarismo, quando o primeiro item do decálogo do PLR é a instituição de um órgão supra institucional visceralmente autoritário. Mas não discutirei a ideologia, pois um partido político tem o direito de não ser de esquerda, mesmo que eu discorde disso.

Eu tinha mencionado na crítica ao item primeiro que o suposto órgão fiscalizador ali proposto teria de ser uma burocracia estupenda e custosa, ou não conseguiria cumprir com as suas atribuições. Pois justamente vemos no item sexto que o PLR se propõe a fiscalizar e reduzir as custosas e ineficientes burocracias assistencialistas, comerciais, aduaneiras e judiciais. Como podemos reduzir a burocracia criando um órgão para fiscalizá-la? Escapa-me a lógica. Parece que as pessoas por trás deste programa acreditam que problemas são resolvidos criando comissões e grupos de trabalho. Isto não é mentalidade de gente que entende de administração moderna. Apesar de toda a sua idolatria pelos liberais austríacos e pelo Deus Mercado, os moderadores do PLR só conseguem pensar em criar uma comissão de notáveis e entregar a bananosa para eles resolverem. Ou seja: não tem a mínima ideia do problema, sequer suspeitam de como resolver e, para não dizerem que nada farão, prometem criar uma comissão para resolver. Se criar órgãos e comissões resolvesse algo, a SUDENE teria feito do Nordeste a região mais desenvolvida do país, o DNOCS tinha acabado com a seca e o SBPC teria nos transformado na meca da ciência.

Se o PLR propõe uma comissão de «acadêmicos de reconhecido saber» para servir de Poder Moderador para a República (cá entre nós, alguém dos donos do PLR leu Platão, não é verdade?), soa natural que proponha uma «análise rigorosa de cargos, títulos e méritos para aqueles que querem participar da atividade pública, incluindo os políticos». Detesto análises rigorosas porque elas, invariavelmente, levantam o irrelevante para ocultar o importante. Uma análise de cargos, títulos e méritos seria essencialmente injusta porque, caso o leitor não tenha percebido, as únicas coisa que não são avaliadas são a competência e o conhecimento. Cargos podem ter sido obtidos anteriormente por indicação.8 Títulos podem hoje ser comprados a quilo nas faculdades paga-e-passa e nas fábricas de pós-graduados. Mérito é algo subjetivo que, provavelmente, só « acadêmicos de reconhecido saber» teriam condições de avaliar. Estou bastante satisfeito com os atuais concursos públicos. Podem ser imperfeitos, mas pelo menos funcionam segundo regras conhecidas, que podem ser dominadas por qualquer um — e através deles, com todas as suas distorções, pessoas de todas as classes sociais podem inserir-se na burocracia oficial.

Mas este sétimo item é mais estranho do que parece. Como é possível que liberais radicais, do tipo que usa a carta «Cuba» toda vez que aparece um esquerdista pela frente conseguem ser hipócritas a ponto de propor um mecanismo de «pré-seleção» de políticos que é idêntico ao que vigora naquele país? Pois é justamente lá que os políticos precisam submeter um currículo e participar de uma espécie de concurso público antes de serem aprovados e submetidos ao voto popular. Antes que o povo possa escolher, é preciso que Fidel tenha dado o seu «O.K.» Não dizem os direitistas com a boca cheia (de merda) que «Cuba é ditadura»? Como eles pensam em impor um mecanismo tipicamente cubano?

O exemplo fornecido é ainda mais estapafúrdio. «Um ministro da ciência e tecnologia deve apresentar uma carreira sólida e experiente na área de desenvolvimento tecnológico, gestão pública de autarquias públicas ou privadas no âmbito de fomento à tecnologia e pesquisa, bem como possuir diplomas de cursos na área de exatas e preferencialmente mestrado e doutorado strictu sensu.» Num exame rigoroso desses, certamente NENHUM dos membros atuais do PLR passaria. Mas, mesmo passando, a ideia é uma ignomínia cuja única motivação deve ser o rancor por Lula ter sido presidente. Uma análise rápida mostra que o redator deste texto ignora que o ministério da Ciência e Tecnologia não é restrito à área de Exatas, por exemplo. E o currículo exigido para o ministro é tão restrito que não devem haver vinte pessoas de nacionalidade brasileira habilitadas ao cargo. E provavelmente elas já ganham bastante dinheiro sem precisar meter-se na política, especialmente no ambiente inseguro do regime preconizado pelo PLR.

Mas realmente o pior de tudo é a ingenuidade de se recair em uma crença tecnocrática. Acreditar que comissões de notáveis ou pessoas devidamente diplomadas resolverão os problemas do país é uma forma de eximir-se da obrigação de buscar soluções. Grosseiramente dizendo, é como achar que «eles que são brancos que se entendam». Eleger-se propondo entregar a responsabilidade a uma comissão de notáveis é confessar a própria incompetência. É como procurar um emprego e dizer ao futuro patrão que se for contratado chamará um especialista para fazer a tarefa.

Confundem também a posse de títulos com a competência administrativa. Talvez os membros do PLR devessem aprender que alguns dos mais renomados empresários deste país nunca cursaram administração (caso do falecido José Alencar e de expoentes históricos de nosso empreendedorismo como Rolim Amaro, Abílio Diniz, Assis Chateaubriand e outros. O mesmo se aplica nos EUA de tal forma que, se fossem brasileiros, nem Bill Gates, nem Linus Torvalds, nem Steve Jobs, nem Stephen Wozniack, nem Dennis Ritche, nem Guido von Rossum, nem Larry Ellison e nem mesmo Neil de Grasse Tyson estariam qualificados para o ministério da Ciência e Tecnologia. Mesmo na hipótese de possuírem a maioria dos itens exigidos, nenhum deles jamais administrou uma «autarquia privada» pois tal coisa não existe: por definição «autarquia» é um tipo de órgão da administração pública.

O item oitavo nega o próprio conceito de solidariedade e todas as suas implicações sociais, ao propor que para evitar a exploração demagógica de problemas sociais o PLR visaria os direitos individuais e coletivos «do indivíduo» (observe este destaque). Como esse é um ponto de divergência ideológico e um tema muito mais complexo, prefiro não abordar aqui, mas o partido que surgiu como Humanista aqui se revela muito mais Individualista do que outra coisa.

O item nono é o único que ainda evoca os principios originais «laicos» do grupo que se formou há poucos meses no Facebook, por isso não o comento muito. A não ser que sua proposta de coibir manifestações religiosas em espaço público fere a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de expressão. Por essa lei estariam proibidas não apenas as procissões, mas os despachos em encruzilhadas, a ostentação de símbolos religiosos como objetos pessoais e uma série de outras coisas. Este item atingirá praticamente cada cidadão deste país, o que praticamente assegura que o partido não vai a lugar nenhum.

Para fechar o decálogo, o partido que surgiu como uma ideia de laicismo e humanismo adota uma visão econômica sintonizada com o mais rigoroso liberalismo — a «escola austríaca», de Ludwig von Mises. Procura «estimular, conscientizar e implantar o livre comércio, a livre iniciativa, o investimento de capital estrangeiro e liberdade econômica». Numa curta frase há tanto para comentar que até me perco.

Estimular o livre comércio está OK, apenas uma ideologia diferente da minha. O problema está na conscientização para o livre comércio, a livre iniciativa etc. Agora entendemos porque o PLR pretende revigorar o sistema de ensino… Curioso que o PLR esteja preocupado em facilitar o investimento de capital estrangeiro se o Brasil é um dos países que mais recebem investimento estrangeira no mundo atual. Talvez eles estejam pensando em outro tipo de investimento, rompendo as reservas que atualmente existem ao controle estrangeiro de certas atividades econômicas ou de certos tipos de bens.

É de causar espécie, porém, que alguns dos princípios do liberalismo, citados no fim do item décimo, estejam em contradição com praticamente todos os outros nove itens. O liberalismo defende a igualdade perante a lei, mas o PLR propõe um sistema político no qual os detentores de diplomas seriam privilegiados em detrimento do resto da sociedade. Não existe Estado de Direito quando a sociedade não pode eleger livremente os seus representantes. Não existe Estado de Direito em Cuba, onde o PCC seleciona os candidatos nos quais o povo pode votar. Não existirá tampouco no governo do PLR, onde o povo só poderá votar em membros da elite intelectual (aliás, para que o povo precisa votar mesmo?).

O PLR encerra o propondo a redução da carga tributária, citando que nosso país tem a quarta maior do mundo, o que é mentira: o Brasil tem a trigésima quarta maior carga tributária do mundo, segundo a Heritage Foundation, menor que a de países citados como exemplo liberal, tais como o Reino Unido, Alemanha, Holanda e até a Áustria de Mises). Propõe sua redução dizendo que seu «único objetivo é o clientelismo político, a corrupção e a limitação da livre iniciativa» (observem que o único objetivo são três). A afirmativa é tão absurda que só se explica por ignorância ou desonestidade. Como podem dizer que o «único objetivo» da arrecadação de impostos pelo governo seja malversar estes fundos? Como são pagos os salários dos militares e professores, por exemplo, cujas remunerações o PLR pretende até aumentar? Será que os dirigentes do PLR acham que o governo pode fabricar dinheiro ou viver de doações? Nem a mais exagerada das estatísticas de corrupção coloca em 100% o desperdício da arrecadação. A Transparência Internacional coloca o Brasil como o 73º país mais corrupto do mundo, entre 183 analisados. Não é o ideal, mas estamos melhor que todos os BRICS, exceto a África do Sul, que está apenas oito posições à nossa frente. Já é alguma coisa.

CONCLUSÃO: As ideias apresentadas ao PLR são um acinte à inteligência de qualquer pessoa minimamente bem informada e que raciocine com frieza e isenção. O projeto de poder do PLR é claramente autoritário, entreguista e golpista, além de refletir uma profunda ingenuidade.

Talvez os próprios membros do partido não tenham se dado conta disso ainda. Muitas vezes dizemos coisas sem pesar suas consequências, sem compreender seu alcance. Eles podem estar bem intencionados, mas o ovo que estão chocando é de serpente e eles não sabem.

Este é mais um dos momentos em que o «movimento ateu» deve parar e refletir. Infelizmente em todos os momentos anteriores em que isto foi necessário, as lideranças solenemente ignoraram os avisos e seguiram marchando impávidos através do tanque de bosta. Sujaram-se com ninharias, queimaram-se em defesa de pequenas coisas, menos importantes que os altos ideais que pregam.

Todos os que participam dessa bobagem devem refletir sobre o que escrevi e pensar: estou seguindo lideranças válidas? Ou são cegos tentando guiar a outros cegos? A quem serve esse discurso? Que sentido fazem essas ideias? Talvez seja o momento de romper este casulo confortável das ideias semelhantes e ler o contraditório. A internet está aí para isso, só se deixa enganar pela mentira quem tem preguiça de ler. Vai estudar, ou então põe logo essa canga e vai puxar a carruagem do próximo projeto de tirania que pingar na sua frente.

1 Apesar de sua manifestação, não sei se o Eli chegou a abandonar o grupo ou recomendar que os simpatizantes da LiHS o abandonassem. Lembro-me, inclusive, de ter visto por muito tempo a participação de membros da Liga por lá.

2 Embora o conceito de «direita» no seio do laicismo seja difícil de compreender para alguém não acostumado ao «movimento ateu», os que o seguem sabem muito bem que os ismos que se opõem ao aparelhamento do estado por grupos religiosos não são tão ideológicos assim: o laicismo é apenas um conceito, que pode estar presente em todo tipo de agremiação política.

3 Neologismo que significa: «ataque de araque».

4 Sim, isto foi uma ofensa, aos partidos sem coerência.

5 O neologismo pseudo germânico aqui citado significaria «Super-Comissão».

6 A frase, encontrada na história em quadrinhos Watchmen, de Alan Moore, significa «Quem vigiará os vigilantes?»

7 O autor da proposta não sabe a diferença entre «lesionar» e «lesar».

8 Ainda me lembro da decepção de ter passado em segundo lugar no concurso público para o magistério do meu estado, com 98 pontos de 100 possíveis, e depois ter caído para oitavo (fora das vagas de efetivação) ao serem computados os pontos «de títulos», quando gente que tinha feito até dezesseis pontos menos que eu passou na minha frente usando como títulos contratos temporários obtidos anteriormente em designações.