segunda-feira, 21 de maio de 2012

Porque Critico o «Movimento Ateu»

Eu não sou ateu conservador e nem teísta mas vejo mal a militância ateísta. Vejo mal no sentido de que ela quase não aparece, e quando aparece aparece mal. E aparece mal porque, em vez de unir-se em torno de projetos comuns, ela se divide em torno de interesses conflitantes. Como aliás tudo nesse país e nesse mundo: vivemos numa era na qual os partidos e os movimentos optam entre serem grandes ou serem duradouros. A única coisa que permanece é o poder do capital, esse sim unido em sua coerência agressiva e egoísta, que não precisa de bandeiras e nem de partidos.

A militância ateísta está mal de várias formas, variadas maneiras. Está mal quando coloca a não existência de divindades como ponto central. Deveria colocar os valores racionais e humanistas. Está mal quando identifica na religião organizada o seu inimigo. Deveria identificá-lo na superstição difusa e nos cultos improvisados com o único objetivo de ganhar dinheiro e controlar o poder. Está mal quando provoca, em vez de convencer. Está mal quando choca, em vez de conscientizar. Está mal quando ataca, em vez de reivindicar. Está mal quando se propõe como uma elite, mostrando excludente quando devia procurar agregar. Está mal quando rotula, em vez de tolerar.

Há momentos nos quais a militância ateísta me parece fundamentalista, bolchevista, jacobina, cruzadista. Fundamentalista porque se aferra ao cientifismo e ao positivismo lógico como valores inquestionáveis (revelando uma miséria filosófica que deveria causar vergonha alheia a quem lê). Bolchevista porque ataca os setores moderados que procuram soluções negociadas. Jacobina porque se propõe a um ataque desenfreado contra a ordem estabelecida, mesmo sabendo que esse frenesi de "terror" não seria duradouro. Cruzadista porque se acha detentora de uma verdade que precisa ser ensinada ao mundo.

E há momentos em que é nazista também, julgando povos e pátrias (inclusive a nossa) segundo estereótipos para justificar posicionamentos absolutamente ideológicos (como o neoliberalismo ou as ideias de Ayn Rand).

Estes setores do movimento ateu escolhem seus «papas» e «pastores» informais (Richard Dawkins, Neil de Grasse Tyson) e os canoniza após a morte (Christopher Hitchens, Nietzsche, Ayn Rand). Certas obras são lidas como se fossem quase bíblias.

É difícil dissociar esse comportamento do que se chamou de «neo ateísmo» porque, em essência, esse comportamento se caracteriza por transformar o ateísmo em um movimento, em uma militância. Antes do neo ateísmo não havia ateísmo militante, havia apenas ateísmo, sem sobrenome. Não havia necessidade de uma taxonomia dos ateus (ou uma Goécia, como um místico católico julgaria mais irônico).

Não custa lembrar, ao fechar este breve ensaio, que o termo «movimento ateu» é apenas um modo de dizer e não se refere a um movimento real e organizado, da mesma forma que «movimento roqueiro», «cristianismo» ou o maldito «sistema» que a tantos assusta.