sábado, 9 de junho de 2012

Porque o Ateísmo Continua Não Sendo uma Crença - Parte 1

Está por concluir-se por esses dias uma série de postagens feitas no Bule Voador com o título «Porque o Ateísmo É uma Crença», assinadas por Gregory Gaboardi, estudante de comunicação na UFRGS (até onde pude apurar pela internet, mas aguardo correção de quem possa perguntar-lhe diretamente suas credenciais). Considerando que finalmente o autor concluiu sua argumentação, inicio hoje aqui uma série de comentários a respeito de suas colocações.

Introdução

Gostaria de advertir os meus leitores que ainda não sabem (sempre se deve estar precavido contra distraídos ou recém-chegados) que eu sou um crítico do que chamo de «movimento ateu» brasileiro, mesmo sendo eu mesmo um ateu. Minhas críticas não se dirigem ao ateísmo em si, em nenhuma de suas correntes, mas à atuação de seus pretensos líderes, próceres e ídolos, e se limitam estritamente àqueles pontos nos quais posso discernir o que considero erros estratégicos. Em resumo: acredito que a maioria dos ateus brasileiros que têm visibilidade na blogosfera ou nas redes sociais são pessoas muito imaturas e despreparadas para uma argumentação racional, embora se considerem, devido ao ateísmo (o que é a maior tragédia), mais preparadas que qualquer reles papa hóstias. Acima de tudo, percebo nestas pessoas um alto grau de dependência em relação ao que se escreve, diz e pensa sobre ateísmo em inglês. A falta de originalidade faz com que reajam de forma às vezes desconexa ou até incompreensível diante de desafios específicos de nossa realidade.

Portanto, nesta postagem, como de vezes anteriores, procurarei desmascarar, na medida em que minha limitada formação acadêmica e cultura geral o permita, os equívocos cometidos por Gaboardi, um prócer do movimento cético. Não sei se o autor se auto intitula ateu ou outra coisa e o Bule Voador parece não tomar um lado nesta questão, preferindo alargar o muro para que o maior número possível de pessoas possa estar em cima.

Como não pretendo discutir o tema deixando meu leitor «no vácuo», a série de artigos escrita por Gaboardi pode ser encontrada integralmente nos links a seguir:
  1. Parte I
  2. Parte II
  3. Parte III
  4. Parte IV
  5. Parte V
  6. Parte VI
  7. Parte VII
  8. Parte VIII
  9. Parte IX — pendente
Ao contrário de Gaboardi, que dividiu sua argumentação em várias partes para evitar uma leitura muito longa e intimidante, eu dividirei a minha em partes para simplesmente separar diferentes linhas de raciocínio. Cada parte subsequente a esta pode repetir e repisar conceitos aqui já abordados, apenas sob outro ponto de vista. As diferentes partes de meu argumento são como diferentes ângulos, e não partes sequenciais de um todo.

Por que Escrevi esta Réplica

Normalmente só me dou ao trabalho de responder na forma de um artigo  alguma coisa escrita em outro blogue quando o tema é realmente polêmico e o potencial do assunto é grande. Neste caso específico, determinei-me a escrever estas respostas porque percebi dois grandes equívocos na série de argumentos alinhavada por Gaboardi:
  1. Apesar de uma preocupação terminológica obsessiva, Gaboardi não parece perceber — ou faz questão de dissimular — que para poder empregar o termo «crença» em relação ao ateísmo, seria necessário não empregá-lo simultaneamente para o que se entende normalmente como crença referente a religião. A consequência desta obscuridade é a impressão que se passa ao leitor desavisado (ou ao leitor mal intencionado e muito bem avisado) de que é possível igualar toda a ampla gama de conceitos relacionados ao ateísmo com todo e qualquer conceito esposado pelas religiões.
  2. A espinha do argumento de Gaboardi se insurge contra a validade da falácia da inversão do ônus da prova. Ou seja: o autor sugere (obliquamente, mas sugere) que inverter o ônus da prova não é uma falácia e que as pessoas que rejeitam afirmações positivas precisam embasar sua rejeição, ainda que as afirmações originais jamais tenham sido embasadas. Obviamente Gaboardi não leu o artigo de Bertrand Russell no qual se criou o conceito do Bule Voador.
Pelos três motivos acima, considero que o autor, que não é filósofo, empreendeu-se a uma tarefa hercúlea, contrapondo-se a uma imensa parede de tradição filosófica (inclusive a base da epistemologia moderna, Karl Popper) usando apenas sua atiradeira e saiu-se muito mal. E por considerar que saiu-se mal, propus-me a demonstrar de que maneira.

Inicialmente esta réplica sairia em forma de livro eletrônico. Porém, quando percebi que o texto estava ultrapassando as cem páginas, notei que o foco havia sido perdido e, mesmo que o trabalho fosse ainda justificável, era preciso produzir uma peça menor e mais ágil para abordar o tema.

O Significado de «Crença»: Armando o Inimigo

Independente dos erros argumentativos cometidos por Gaboardi, que serão melhor explicitados em outra postagem, existe um outro problema envolvido no conjunto de sua argumentação: ao igualar no nível do termo «crença» tanto as posições aceitas pelos religiosos quanto a negação delas (o ateísmo), o autor efetivamente legitima as religiões — ainda que apenas aos olhos das pessoas que não consigam perceber a sutiliza envolvida nas diferentes acepções da palavra «crença». A este respeito, eu só posso fazer minhas as palavras da «Atéia Zangada» (Greta Christina): precisamos buscar a precisão para evitar armar o inimigo.

A falta de clareza a que me refiro está no emprego de um termo carregado de simbolismos religiosos para algo que de forma alguma está relacionado a imaginar um Velho Barbudo no Céu que criou tudo e dirige nossas vidas. Nossa língua é rica o bastante para possuir uma quantidade bastante variada de termos que se prestam a isso, sem que precisemos abusar da palavra «crença». Se for para dizer que achamos que algo está certo, poderíamos usar verbos como «concluir», «supor», «achar», etc. Nunca «crer». Infelizmente a palavra «crença» está de tal forma contaminada pelo uso em contextos religiosos que qualquer tentativa de retirá-la de lá será contraproducente, só servirá para confundir a todo mundo, religiosos e ateus, sobre o que realmente pensamos. Greta Christina expressou este dilema de forma quase lapidar:
É impossível evitar que os religiosos deturpem nossas ideias. É impossível evitar que os religiosos ponham palavras em nossas bocas e finjam que dissemos coisas que claramente nunca dissemos e que não pensamos. Mas não temos que ajudá-los a fazer isso.
Portanto, o primeiro grande equívoco de Gaboardi é empregar um termo ambíguo em um texto dirigido a um público amplo e leigo, que não tem conhecimento das sutilezas envolvidas.

Prove-me que Estou Errado

A mais extraordinária das colocações feitas por Gaboardi em sua série de artigos (emprego este adjetivo por amor de ser educado) é esta aqui, na abertura da segunda parte:
Este argumento costuma acompanhar a conversa sobre o ônus da prova: cabe ao teísta provar qualquer coisa, o ateu não precisa provar nada, o ateu supostamente não tem crença alguma e não faz afirmações extravagantes. Chamo esta confortável posição na qual o ateu tenta se colocar de comodismo argumentativo, terei mais a dizer sobre ela nas partes finais deste ensaio, por ora o que posso adiantar é que ela é desastrosa para o ateísmo.
Acho muito imprópria a preocupação de Gaboardi com a suposta comodidade da posição ateísta. Existe, de fato, uma grande comodidade em estar assentado sobre alguma medida de ceticismo e racionalidade em vez de fazendo malabarismos verbais para justificar sua crença em entidades nunca evidenciadas. Se o ateísmo está em uma posição cômoda, isso é problema dos teístas, não dos ateus.

Uma das bases da epistemologia, ou seja, da filosofia subjacente ao método científico, que produziu este computador através do qual você me lê, é que não é necessário provar uma negação, a menos que a afirmação correspondente tenha sido inicialmente demonstrada. Rejeitar este princípio remove a melhor ferramenta que temos para discernir entre o que é fantasia e o que é interpretação válida da realidade. Sem empregarmos o princípio do ônus da prova, não temos como descartar a afirmação feita por uma criança segundo a qual existe um dragão na Lua, a menos que tenhamos meios para fisicamente subir até lá e procurar dentro de cada cratera. Não custa lembrar que descartar o argumento da criança pura e simplesmente é uma falácia: o argumento da respeitabilidade, ou da idade (argumentum ad verecundiam).

Então, somente devemos crer naquilo que puder ser demonstrado. Enquanto indemonstrado, um conceito é apenas um conceito, uma ideia, uma hipótese, mera «achologia». Não existe nenhuma justificativa lógica para promover a inversão do ônus da prova: mesmo quando se trata de provar que um conceito está errado, o que se faz é provar que outro conceito está certo. Por exemplo: quando se descartou a física aristotélica (aquela dos Quatro Elementos) isto se fez pela demonstração da existência de uma grande variedade de elementos diferentes. Não se provou que Aristóteles estava errado senão através da proposição de uma explicação funcional que era incompatível com sua visão.

Existem, porém, duas formas através das quais os teístas escapam desta limitação lógica. A primeira é induzindo o incauto a aceitar que o conceito de Deus já está demonstrado pela crença recorrente há tantos milênios. Existem dois erros lógicos graves envolvidos nesta acepção: o primeiro é o argumento pela antiguidade, segundo a qual as ideias vão se tornando verdadeiras à medida em que se tornam antigas, e o segundo é a confusão entre a crença na existência e existência propriamente dita. A segunda forma é o recurso às «provas lógicas da existência de Deus», cujo corolário foi obtido por São Tomás de Aquino.

Imagino que Gaboardi nunca imaginou (ou nunca pretendeu) que sua distinção especial ao conceito de Deus rendesse homenagem a estas duas estratégias teístas típicas. Mas é isso, de fato, o que ele faz. Preocupado com a posição cômoda do ateu diante da crença do religioso, ele reivindica para a filosofia a tarefa anômala de provar que Deus não existe. Como tal prova não pode ser obtida, conclui que o ateísmo é uma crença. Três observações importantes devem ser feitas neste ponto:
  1. Fica evidente que quando o autor fala que ateísmo é crença ele quer dizer «crença-crença» mesmo, e não «crença opinião» ou qualquer outro conceito filosófico. Crença enquanto aceitação de algo que não pode ser racionalmente demonstrado.
  2. Para concluir que a inexistência de Deus não pode ser provada, o autor ainda recorre a outro truque argumentativo, que bem poderia ser classificado como «sofístico»: o ceticismo absoluto justificado pela inaplicabilidade da prova lógica. 
  3. Em momento algum de sua exposição o autor explica porque o conceito do Deus monoteísta merece a distinção de ser aceito a priori pela filosofia.
Afirmo que a segunda parte da argumentação de Gaboardi (e talvez todas as outras) se baseia em sofismas vazios porque o autor supõe que se possa empregar a lógica formal estrita para provar um conceito tão fugidio quanto o de Deus. A conclusão de que a impossibilidade de se falsear Deus usando a lógica implica em que o ateísmo é uma crença está perigosamente perto do limite do argumentum ad ignorantiam, a falácia lógica que afirma que o fato de não haver evidência contrária é uma prova em si contra a proposição inicial.  Ainda que o conceito de Deus fosse suficientemente delimitado (e não é) e falseável (idem), a falta da demonstração contrária nada diz sobre a validade ou não deste.

Tão absurda é a exigência de tal prova que o autor admite (como não o faria) que não se pode sequer provar que temos perna ou que porcos não voam. Não podemos porque os fatos naturais não estão sobre controle estrito da lógica matemática e podem, frequentemente, ser acidentais ou irrepetíveis. As ciências naturais buscam o fenômeno, para derivar dele suas teorias, o que é diferente da sofística, que busca as teorias, para enfiar o mundo dentro delas. Ainda mais que o autor não percebe dois equívocos que comete ao mencionar o conceito de prova.
  1. Não percebe que a afirmativa negativa de que exista um número maior que todos os outros se baseia num axioma (o de que os números naturais são infinitos) e que números são conceitos abstratos, desprovidos de existência real (diferentemente de coisas que existem ou deveriam existir).
  2. Afirma (e nisso sim temos uma crença) que se pode provar que não é possível existir um homem com oito metros de altura. Neste caso o erro é novamente a falácia do apelo à ignorância: não se observou ainda um homem com oito metros de altura, mas não se pode descartar que possa vir a existir um (e se ele pode vir a existir, é possível que já exista agora, apenas incógnito).
A manipulação do conceito de prova aplicado ao conceito de Deus resulta em prejuízo da racionalidade e da lógica, pois não se pode aplicar um método matemático para analisar fenômenos existenciais.

Mas, Porém, No Entanto, Todavia...

EXISTEM evidências lógicas que amparam a inexistência de deuses. Estas evidências são amplamente conhecidas de todos, apenas não são por todos interpretadas como tal. A compreensão de tais evidências surge quando nos perguntamos qual é, essencialmente, a diferença entre crer em Deus ou no Monstro Voador de Espaguete (no original fica ambíguo se a propriedade de voar pertence ao espaguete ou ao monstro que é feito dele).

Normalmente as pessoas educadamente distinguem o Monstro como uma criação deliberada de um único indivíduo, em tempos recentes. Isto implica em negar que os deuses das religiões foram inventados um dia, por indivíduos. Implica em admitir alguma forma sobrenatural de descoberta destes conceitos. «Deus é diferente» porque não o vimos nascer.

Ocorre que a evolução dos conceitos de Deus pode ser acompanhada de forma até clara pelos estudos históricos, analisando os livros sagrados (ou não) desde a remota antiguidade. Isto é uma evidência forte de que Deus foi progressivamente desenvolvido como um conceito cultural (tanto assim que há concepções diferentes de divindade em cada cultura). Não há nenhum requisito de fé para esta constatação, a menos que se resolva duvidar do conteúdo dos próprios livros sagrados e negar a validade das próprias Ciências Sociais como um todo. Devido ao alto para se descartar a evidência da historicidade de Deus, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o ateísmo não é uma «crença» no sentido em que as diversas formas de teísmo o são.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que a própria historicidade do conceito de Deus é prova da má fé da argumentação teísta, pois as sucessivas redefinições do conceito nada mais são do que estratégias ad hoc para manter a crença, mesmo diante da refutação parcial apresentada pela ciência. É por isso que Deus vai progressivamente se afastando de nós, de uma presença diuturna e imediata na antiguidade, presidindo cada relâmpago, à sua inefabilidade atual, que chega a ser classificada por teólogos mais argutos como uma «existência além da existência». O nome dessa estratégia é «mudança de meta» (em inglês, moving the goalposts, uma metáfora futebolística) e consiste em redefinir os critérios de forma a impedir que sejam refutados. É uma variação da falácia terminológica, que consiste em redefinir as definições de forma a impedir a refutação.

Conclusões

O ateísmo é um fenômeno cultural muito complexo. Devido à multiplicação dos conceitos de deuses, é natural que pessoas diferentes entendam o ateísmo também de forma diferente. Porém, mesmo que algumas pessoas efetivamente «creiam» (no sentido de crença-crença) que Deus não existe, isto não torna o ateísmo em si uma crença. Primeiro porque o ateísmo não se limita a um posicionamento quanto à existência de divindades, mas inclui um estilo de vida e um conjunto de valores (variáveis ambos, de pessoa a pessoa) derivado de não se crer em Deus. O próprio agnosticismo não é incompatível com o ateísmo e muitos ateus de fato se identificam como agnósticos apenas porque não desejam expor-se a manipulações sofísticas como a tentada por Gaboardi. Richard Dawkins, por exemplo, se diz «agnóstico», mas é difícil imaginar que alguém possa ser mais descrente do que ele hoje em dia. Contrariamente ao que muita gente pensa, agnosticismo não é ficar «em cima do muro» quanto à possibilidade de existência do Velho Barbudo do Céu.

Em outras oportunidades voltarei a abordar o tema, notadamente depois que Gaboardi publicar a nona parte de seu ensaio.