segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mas, e se Ele Existe?

Raros ateus não passaram pelo momento de tal dúvida. Nada mais natural, visto que o ateísmo não é natural. Como ninguém nasce ateu, o estado atual de ateísmo é fruto de coisas que vivemos, pensamos e sentimos. E não faz muita diferença se você é ateu, agnóstico ou algum outro tipo de água morna. Na verdade, seria sábio supor que os próprios religiosos não pensam muito como é que as coisas seriam de fato no caso desse deus que para quem as suas orações se dirigem existisse mesmo. Desta forma, só posso pensar que este exercício mental é muito relevante, para mim e para quem mais leia, seja qual for o time para que torça.

Como seria, então, contemplar a existência de Deus, nos termos normalmente atribuídos a Ele pelos cristãos? Como nos veríamos diante da realidade se tal ser existisse?

Se existe o Deus do cristianismo, da forma como ele é descrito pela teologia, ele é terrível, temerário e aterrorizante. Pois tal ser eterno criou tudo que existe em determinado momento de sua existência. NINGUÉM no mundo tem a mínima ideia do que ele fazia antes de criar tudo que existe. Não é impossível que ele tenha criado outras vezes antes e DESTRUÍDO tudo.

Tal ser eterno é extremamente arbitrário em seus atos, como um professor que exige dos alunos que tirem nota boa em uma prova sobre uma matéria muito vaga e contraditória, estudada através de livros didáticos incompletos e cheios de erros. Uma matéria na qual ninguém tem certeza se a resposta para uma determinada questão é “a”, “b” ou “c”. Este professor que aplica tal prova uma única vez, sem ter dado nenhum exercício de fixação, e não dá recuperações posteriores. Se bem que o catolicismo inventou uma “recuperação”, diminuindo um pouco esse caráter arbitrário e irracional da divindade, e o espiritismo, além de pensar nos exercícios de fixação, ainda adicionou infinitas oportunidades de recuperação, ao ponto de praticamente desmoralizar a prova: no fim todo mundo vai passar.

Este ser, por uma razão totalmente ilógica, jamais disse coisa alguma diretamente aos seres humanos (ainda que, sendo o único ser onipotente deste universo, nada lhe obstasse) porém, mesmo assim espera que cada indivíduo nascido neste planeta não só o conheça mas também o reconheça. O mais perto que ele chegou de uma “abertura” para a humanidade foi por meio de profetas e de santos — pessoas esquisitas que faziam coias como passar meses dormindo do mesmo lado, cozinhar pão envolvido em fezes, viver décadas no alto de uma pilastra ou vagar pelo deserto, comendo gafanhotos e mel silvestre. Supostamente, essas pessoas teriam visto ou ouvido a Deus. Aham...

Foram pessoas como estas os supostos autores dos livros com os quais temos que nos virarmos para entender o que esse Deus nos pede para fazer a fim de termos o seu favor. Porém, como esses livros foram escritos por pessoas diferentes, em épocas também diferentes, cada um de seus autores entendeu de um jeito muito diferente o que Deus quis dizer. Misteriosamente, Ele nunca se importou em corrigir.

Supostamente, segundo dizem alguns desses livros, Deus não tem o menor interesse em fazer com que nos comportemos melhor, mas que estejamos prontos para submeter nossos intelectos e nossas vidas à Sua vontade; expressada, na maioria das vezes, através de entidades políticas muito poderosas e que afirmam expressar tal vontade). Por alguma razão, tal ser onipotente e imaterial estaria, segundo alguns entre seus “profetas” mais conhecidos, estranhamente interessado em dinheiro, a ponto de até destinar a um tal de “inferno” todos que não puderem pagar regularmente pela sua proteção, digo, salvação.

O «inferno» é um conceito desses que a gente fala o tempo todo mas ninguém nunca para a pensar profundamente a respeito. Nada é mais estranho do que o «inferno». Supostamente é uma espécie de estacionamento imenso e sem carros, aonde ficam aglomerados todos os que não conseguiram entrar na rave party vip de Deus. Lá não tem água mineral, nem música, nem doce e nem bebidas. A turma fica debaixo de um solão fortíssimo, lamentando que não pôde entrar porque comprou ingressos falsos com um cambista chamado Satanás.

Parece estranho, mas esse tal Satanás tem algum tipo de acordo com Deus porque o Poderoso não faz coisa nenhuma para coibir a empulhação dos otários. De forma que a quantidade de gente que acaba retida na portaria do «paraíso» vai só aumentando. O que é ainda mais estranho é que, a julgar pelo que está nos livros religiosos, Deus andou dizendo algumas vezes foi ele mesmo que imprimiu os ingressos falsos.

Essa rave do paraíso, por sua vez, não parece ser muita coisa, pelo que dizem. Do jeito que a descrevem, parece que o que tem de bom é uma série de «nãos»: você não ficará afastado de Deus para sempre, não será torturado eternamente em fogo e enxofre, não vai chorar (na verdade você não «poderá» chorar), não terá ninguém pentelhando, não vai mais transar, não fará nada a não ser louvar a Deus, não sentirá nenhuma dó de seus amigos tolos que compraram ingressos de Satanás e estão fritando do lado de fora, não vai mais sentir nem fome nem sede e nem frio. Alguns santos, como Teresa de Lisieux e Francisco de Assis chegaram a dizer que a suprema felicidade do paraíso seria a de poder ser «mais pobre e despossuído que o mais pobre e despossuído entre os habitantes da terra».

Fica parecendo, então, que toda essa gente querendo entrar não tem nenhum gosto pelas atividades do paraíso — exceto quem for louco, pois tem louco de todo tipo no mundo. O que todos estão querendo é pelo menos ficar no ar condicionado.

Tem um ditado popular que diz que «todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer» — mas está errado: o que todo o mundo quer é continuar vivo. Essa história de paraíso é só a escolha tolerável diante da merda que o tal «inferno» é. Como se trata de religião, as promessas do paraíso não podem falar de coisas como fígado «flex power», setenta e duas virgens, banquetes ou planetas primitivos para escravizar. Resta então a alternativa de ir piorando o inferno para ninguém querer ir para lá.

Enfim, se Deus existe mesmo e é do jeito que os cristãos dizem que ele é, nós estamos todos fodidos.