quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Grande Conflito do «Movimento Ateu»

Nunca se discutiu tão abertamente o ateísmo no Brasil quanto se há discutido em anos recentes. Durante a maior parte da nossa história, o ateísmo foi anátema ou visto como coisa de “intelectuais”. Há grande confusão entre o simbolismo cristão, especialmente católico, e as criações culturais específicas de nosso povo: muitas de nossas “festas populares” nada mais são que ritos católicos medievais que sobrevivem em nossos rincões. Some-se a isso o processo lento de aculturação pelo qual passamos (só tivemos universidades já no século XX, enquanto no resto da América Latina elas existem desde os séculos XVI ou XVII) e fixa-se a ideia de que ateísmo é uma novidade, uma moda estrangeira ou coisa de loucos, como sugere a “sabedoria popular” (essa que elegeu Tiririca o deputado mais votado do Brasil).

O próprio conceito de “liderança” ideológica está contaminado pela aspiração de monopólio do conhecimento e, concomitante a ele, de tomada de decisões. Infelizmente isto se reproduz no movimento ateu. Aqueles que se assentam nas posições superiores são os que detêm o controle de meios de difusão (blogues, sites) ou de produção de conteúdo (polemistas, vloggers, debatedores) e dos demais se espera basicamente que sejam comentaristas cordatos, sempre prontos a aplaudir, nunca a criticar. Eventuais manifestações de discordância resultam em exclusões formais ou informais (meramente passar a ignorar o que é produzido pela dissidência). A linha de separação entre as duas categorias está na habilidade para manejar uma linguagem razoavelmente rebuscada, o conhecimento de termos de lógica argumentativa (como “falácia”) e o acesso direto a instrumentos eficazes de difusão do próprio discurso.

Este tipo de estrutura argumentativa não só apresenta analogias com o funcionamento de partidos políticos mas também, dolorosamente, com seitas, motivando que alguns religiosos se referissem a certas entidades representativas de ateus como “igrejas” ateístas. O termo é sempre empregado para ofender e desqualificar algum setor do “movimento ateu” que se organize de alguma forma e faz parte da acusação falaciosa de que o ateísmo é somente outra religião. Ainda que este tipo de situação seja mais típico do funcionamento de partidos políticos e sistemas ideológicos e não reflita o modo de funcionamento de nenhuma organização ateísta específica. Não obstante, o filósofo inglês Alan de Botton parece determinado a justamente criar uma “igreja ateísta”, com o objetivo de permitir que os ateus experimentem aquilo que a religião tem de bom, que é, em sua opinião, o senso de comunidade.

Houve, por fim, casos de pessoas e entidades que haviam adquirido ascendência por sua fama ou propostas e acabaram se aproveitando da situação para avançar objetivos pessoais e casos em que guerras de egos e inveja impediram o sucesso de iniciativas de união. Citando Dawkins: arrebanhar ateus é como pastorear gatos.

Aos olhos de quem está “de fora”, fica a impressão de que os ateus vivem às turras. O que não deixa de ser uma impressão semelhante que os “de fora” têm em relação aos religiosos, que não perdem uma oportunidade para anatematizar-se reciprocamente. As diferenças entre as concepções ideológicas e políticas no “movimento” tornam impossível criar a partir dele um partido ou organização formal.

Em parte isto se deve à oposição entre “esquerda” e “direita” já mencionada, com a segunda sendo responsável pela maioria dos seguidores e a primeira, pela maioria dos produtores de conteúdo de qualidade. Uma recente iniciativa de criação de um partido “laico” resultou em grande decepção pois a maioria direitista conseguiu expurgar a minoria esquerdista mas não soube o que fazer com o projeto, devido a falta de conhecimentos básicos até mesmo de como funciona o sistema político brasileiro. Assim, o grupo se transformou em apenas mais um grupo cético no Facebook.

Disto se aproveitam os religiosos para atacar e enfraquecer as iniciativas de controle do poder da religião sobre o estado laico — notadamente diante da transformação demográfica por que passa o país, com o crescimento notável da adesão a igrejas neopentecostais que, apesar de fragmentadas, atuam de forma sincronizada na defesa de seus interesses. Este crescimento não é bem recebido pelo “movimento ateu” pelos mais diversos motivos. Para os ateus de esquerda trata-se da difusão de uma ideologia alienante propagada pelos ianques, para os ateus de direita trata-se de um retrocesso cultural puro e simples, mas ambos concordam que esse é o inimigo comum. Difícil é concordarem em uma estratégia comum contra este inimigo. Especialmente porque ambos os lados parecem ter outras fidelidades a zelar, tão significativas quanto o ateísmo, ou até mais.

Mas esta fraqueza é também a grande força do “movimento ateu”: como ele não é uma coisa única, não pode ser simplesmente descartado com um argumento único e nem suprimido através da repressão a uma entidade única. A incompreensão deste ponto é que leva certos setores do “movimento ateu” a criticarem esta pluralidade de opiniões. Vivemos em uma sociedade onde o pensamento único ainda é visto como uma utopia possível, e não como uma violência inominável contra a humanidade. Por não estar ajustado a este paradigma mental, Como diz uma genial frase apócrifa atribuída a Krishnamurti: Não é grande prova de sanidade ser perfeitamente ajustado a um mundo doente. O “movimento ateu” acaba sendo, tanto à esquerda quanto à direita, uma força criativa importante, pela qual até mesmo certos líderes religiosos aprenderam a ter respeito. A fragmentação é também a prova mais cabal de que o “movimento ateu” não é voltado para a lavagem cerebral das pessoas (pela impossibilidade de, sendo tão desorganizado, poder fazê-lo). Desta forma, a fraqueza surgida da fragmentação acaba sendo algo bom, pois:

Toda autoridade de qualquer espécie, especialmente nos campos do pensamento e do entendimento, é o que pode haver de mais destrutivo e mau. Os líderes destroem os seus seguidores e os seguidores destroem aos seus líderes. Cada um deve ser seu próprio Mestre e seu único discípulo. Deve questionar tudo que o homem aceitou como venerável, se isto for necessário (Krishnamurti).

Persiste, porém, a ilusão de que um movimento assim tão fraturado seria “fraco” e que a criação de um “núcleo duro” ou de um setor “mais coerente” resultaria em uma força transformadora mais eficaz — tal é o cerne da preocupação política a que se aludiu acima. É nesse contexto que vem a ideia de propor definições excludentes para o ateísmo — especialmente as imperativas. Claramente tal objetivo é uma quimera, pois no campo das Ciências Sociais as tentativas de definições positivas de conceitos historicamente resultaram em modelos absurdos, como a frenologia e os estudos raciais eurocêntricos desenvolvidos no século XIX e difundidos até meados do século XX, ou a louvável, porém incompleta, tentativa freudiana de explicar o comportamento humano a partir de um conjunto restrito de conflitos e arquétipos.

Pior do que isso: nosso desejo de força não deve servir de pretexto para a rendição a coletividades sufocantes da liberdade individual. Se nos deixamos cooptar por grupos grandes, pela sedução de seu tamanho, nos veremos reduzidos a meros integrantes de uma vaga cujos rumos não temos como escolher. Não há nenhum mérito em ser membro de tal vaga por livre e espontânea vontade. O mérito está justamente em tentar freá-la ou desviá-la do futuro.