domingo, 15 de julho de 2012

Pedras Ateias ou «Será o Ateísmo um Aprendizado?»

Este artigo vai dedicado a três pessoas em especial. Primeiramente ao Eli Vieira e ao Gregory Gaboardi, da Liga Humanista Secular do Brasil, com quem certa vez travei um interessante debate sobre «pedras ateias» (mais adianta explicarei o conceito) e a Neli Espanhol, amiga dos tempos de Orkut que fez um comentário no mesmo sentido, na postagem do Google Plus referente ao artigo imediatamente anterior a este.

A motivação deste artigo está em uma frase solta contida naquele texto: a afirmativa de que «ninguém nasce ateu». Para Neli, todo indivíduo ao nascer, estando isento da crença em divindades, seria ateu. Para Eli e Gregory, no referido debate travado nos comentários do blog do Paulopes, não faz sentido imaginar o ateísmo como algo inato, pois então teríamos que admitir que até pedras, que nunca pensam sobre Deus (uma vez que nunca pensam) teriam de ser atéias.

Se não me falha a memória (mas eu sei muito bem que ela falha) eu me pus contra a tese de Eli e Gregory nos seguintes termos:
  1. Não faz sentido dizer que pedras são ateias porque pedras não pensam. Ateísmo é um posicionamento epistemológico, pedras não sabem o que é epistemologia.
  2. Um indivíduo que nunca foi apresentado ao conceito de Deus (tal como um bebê recém nascido) certamente não é teísta, e portanto não podemos considerar o teísmo como «natural».
  3. Se os recém nascidos não conhecem nenhum conceito de Deus, resulta que o teísmo é um aprendizado.
  4. Se não aceitamos que a ausência do conhecimento do conceito de Deus seja chamada de «ateísmo» então precisamos de uma definição melhor do conceito porque certamente uma pessoa que nunca foi apresentada a Deus não tem em relação à divindade a «suspensão de crença» que caracteriza o agnosticismo.
  5. Então, se a situação de ignorância do conceito de divindade não é nem teísmo e nem agnosticismo, só pode ser ateísmo.
O erro conceitual cometido tanto por Gregory (inclusive em sua série «Porque o Ateísmo É uma Crença») é considerar ateísmo e agnosticismo como posicionamentos antagônicos. Eu também cometia esse engano até que li um pouco mais sobre a filosofia do ateísmo e compreendi que não apenas os dois posicionamentos não são mutuamente excludentes como também se complementam. Bertrand Russell chegou a afirmar que se declarava ateu quando uma pessoa comum lhe perguntava se acreditava em deus, mas agnóstico quando conversava sobre o tema com outros filósofos. Muitos neo ateus se surpreendem com isso, mas o próprio Richard Dawkins se diz agnóstico. Com o tempo fui percebendo que «agnóstico» é apenas uma das formas de ser ateísta.

Então, quando busquei entender o que seria o ateísmo, que não era algo oposto ao agnosticismo, compreendi que ele só pode ser entendido quando contraposto ao teísmo. Pode parecer besta essa conclusão, visto que a própria palavra «ateísmo» revela esta contraposição, mas muita gente tem se empenhado, por décadas, a borrar esta oposição e convencer ao mundo de que existe uma rixa entre ateus e agnósticos. Até mesmo muitos ateus compraram essa briga. Só que isso não existe. A rixa do ateísmo é contra o teísmo, nunca, jamais contra outras formas de ateísmo.

Tudo aquilo que não é teísmo nem panteísmo e nem deísmo forçosamente é ateísmo. Ou você crê em deuses personificados, ou crê na natureza como um deus, ou crê em um deus impessoal ou… não crê em deus(es).

Então, uma criança nasce ateísta porque não crê em deuses. Uma criança não tem conhecimento do conceito de divindade, portanto não pode nem aceitar nem rejeitar e nem suspender sua crença quanto a esse conceito. E mesmo assim é ateísta. Porque ateísmo não é rejeição e nem suspensão de crença, é a ausência de crença em divindades. Ausência que pode se manifestar pelo desconhecimento (caso do bebê), pela suspensão (agnóstico) ou pela rejeição (ateísta positivo). Mesmo a rejeição pode ser explícita (racional ou não) ou implícita (irreverência, indiferentismo). Querer reduzir toda essa variedade de posições a um conceito único é um projeto sem sentido, tanto quanto é um conceito sem valor pretender definir animal de uma forma restrita. Não podemos negar a validade das diversas formas de não ser teísta da mesma forma como não podemos afirmar que animais necessariamente tenham pêlos, patas ou dentes.

Com tudo isso quero chegar  a um mea culpa: de fato eu não fui claro nem correto ao afirmar que ninguém nasce ateu. A verdade é justamente o contrário: todos nascemos ateus. O que eu quis dizer é justamente que ninguém nasce com a consciência disso, pois não nasce sabendo o que é deus. De qualquer forma, errei e admito.