segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma Mentira, Se Mil Vezes Repetida

Entre a esquerda e a direita, existem diferenças tão essenciais que nunca é demais repetir. A esquerda não se envergonha de ser a oposição a «tudo que está aí» e sabe muito bem que há necessidade de reformas profundas na sociedade, na cultura e na economia. Enquanto isso a direita procura justamente negar o diagnóstico (luta de classes) para negar os mecanismos (revolução, reforma) a fim de preservar o status quo a todo custo. Existe, porém, um tipo de direita que vai ainda mais longe: não contente em preservar o que aí está, procura fazer regredir aquilo que já mudou.

Nós, que somos de esquerda, chamamos aos direitistas do primeiro tipo «conservadores» e do segundo, «reacionários».  Um reacionário é um saudosista dos «bons tempos» do capitalismo, aquela época heróica em que os homens eram homens, as garantias trabalhistas não existiam e lugar de mulher era na cozinha.

Limites do Reacionarismo


Obviamente a ideologia reacionária não encontra muito eco na sociedade como um todo. Só mesmo um trabalhador demente empunharia um cartaz defendendo a «flexibilização» dos direitos trabalhistas, por exemplo: «Abaixo as Férias», «O Salário Mínimo Afronta a Liberdade Econômica», «Pela Liberdade de Jornada da Trabalho», ou coisas assim. Um trabalhador que defenda isso abertamente é um boçal tão fenomenal que sequer existe: as pessoas que aparecem na internet defendendo essas coisas não sobrevivem de trabalho assalariado: são empreendedores, autônomos, profissionais liberais ou empresários. Uma vez que não usufruem das garantias trabalhistas, não veem problema algum em eliminá-las para a aqueles que delas gozam. Na verdade achariam é bom poderem contratar uma babá com salário de escrava.

Os reacionários, porém, não apenas querem conservar as tradições, mas pretendem trazer de volta as que foram perdidas. Não falam abertamente em reescravizar os negros apenas porque o público em geral ainda não está pronto para isso, mas falam já em acabar com o sistema de saúde, privatizar a segurança e a educação, desregulamentar o sistema financeiro etc. Há algumas décadas o público não estava preparado para uma defesa aberta da privatização da segurança ou o fim da educação pública. Hoje em dia a internet pulula de defensores de ambas as coisas. Sinalizando que, se formos deixando, é inimaginável quantas conquistas os «libertários» tentarão reverter. Não custa lembrar que a Espanha franquista, obcecada em reverter tudo que cheirasse a comunismo, proibiu até o cooperativismo e só não acabou com as sociedades comerciais por cotas porque o naufrágio da economia deu um sopro de sanidade na cabeça dos responsáveis por aquela bagaça toda.


Porém, como nem todo mundo está suficientemente bem informado sobre como funcionam os mecanismos ideológicos de propaganda, estes «ideais» da direita acabam encontrando eco na população em geral. Afinal, como supostamente disse o Tim Maia, o Brasil é um país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita. O pobre é de direita porque não acha que a direita seja o que a direita é. Ninguém começaria a fumar se em vez de cigarros fosse convidado a adquirir um câncer e nenhuma prostituta teria clientes se anunciasse doenças venéreas como seu atrativo. As pessoas compram o que veem, e levam de contrabando aquilo que a publicidade esconde. A direita vende ao povo um ideal «anticomunista» e o povo leva de contrabando uma ideologia que procura justamente oprimir o povo.

A manipulação da direita procura justamente associar com a esquerda tudo que deu de errado e ruim na História. Isso inclui o nazismo: todo reaça que estaria no comício aplaudindo Hitler posta no Facebook que o nazismo foi «de esquerda» porque o partido se chamava «nacional socialista». Como se os nomes significassem alguma coisa além daquilo que pretendem aqueles que os escolhem. Não se vende maionese anunciando «colesterol em conserva».

A verdade é que a direita não se mostra como o que realmente é: «conservadora» (ou até restauradora) de privilégios, mas mantenedora (ou recuperadora) de «tradições» e «valores». Mas tradições e valores não possuem valor intrínseco. Pensar assim equivale a afirmar que as coisas são certas ou boas simplesmente por serem antigas, o que é um raciocínio equivocado (falácia). A escravidão foi uma tradição muito antiga do Ocidente, assim como a opressão da mulher, a exploração do trabalho infantil e uma série de outras mazelas. Nem por isso ela foi mantida quando as pessoas se deram conta de seu absurdo, e nem por isso devemos ficar saudosos dos bons tempos do cativeiro. Prender-se aos absurdos do passado somente por serem tradições é uma atitude que só serve para atrasar as melhorias necessárias ao progresso da humanidade. Por isso mesmo o conservadorismo enfrenta limites teóricos e não pode assumir-se como valor absoluto, da mesma forma que o esquerdismo e a revolução.

A Propaganda Reacionária nas Redes Sociais


A direita utiliza preferencialmente os meios unilaterais de comunicação para difundir seu pensamento, ou melhor, as verdades emanadas das instâncias autorizadas a pensar. Direitistas só gostam de debates controlados, e mesmo assim preferem evitar. Gostam de comícios, de editoriais, de peças publicitárias. Você tem todo direito de ouvi-los, lê-los, assisti-los, assimilá-los, mas eles não permitem que retruque. Se você escreve para a seção de cartas do jornal, não será publicado. Se você telefona, a linha estará sempre ocupada. Se você comenta no blogue, será censurado. E se armar um fuzuê na comunidade/grupo/clã etc., será expulso.

Esta semana tive contato com uma peça publicitária informal que está sendo utilizada para difundir o pensamento direitista. A peça é esta coisa xexelenta aí abaixo:


Como tudo que emana da direita, pretende ser definitivo: «O Espectro Político Explicado». Não é uma opinião, é um «ponto» da lição. Você tem que decorar e repetir, não tem de questionar. A prova vai ser um questionário e você tem que saber responder tudinho de acordo. Se mudar uma vírgula perde décimos de nota.

Esses Libertários Modernos


Antes de passar a analisar cada um dos pontos, vale observar que esses «libertários» aí nada mais são dos que os velhos liberais clássicos, herdeiros diretos de Adam Smith e David Ricardo. Gente fina, que lutou contra a limitação das jornadas (por ferir a liberdade que o trabalhador tinha de vender sua força de trabalho), contra o salário mínimo (por ferir a liberdade de patrões e empregados para definirem «livremente» a remuneração da hora trabalhada), contra o auxilio maternidade (por obrigar o empreendedor a custear uma decisão pessoal da mulher, ao engravidar), contra a proibição do trabalho infantil (porque o trabalho «educa») etc.

Esses nada mais são do que a única e verdadeira direita. Esses «direitistas» que estão postos no quadro são, de fato, centristas, aqueles que temperam a Lei da Selva (preconizada pelos «libertários») com alguma coisa da esquerda que se tornou impossível rejeitar e até mesmo os mais calhordas admitem que é bom.

Os «libertários» não são ingênuos como parecem. Ingênuos são os que perpetuam esse discursos «descolado» na internet. Essas ideias vêm de instâncias superiores, onde se sabe muito bem que a livre competição entre pessoas e entidades que partem de condições diferentes é injusta. Mas esta livre competição significa, para eles, que a situação que já adquiriram continuará lhes oferecendo vantagem na competição contra os novos entrantes. Ser «libertário» da forma como descrito nesse quadro é defender o direito dos que já são ricos de não apenas continuarem sendo, mas continuarem dificultando outras pessoas que poderiam tonar-se.

Quando o Estado se enfraquece, quem fica forte são justamente os que já detêm o poder: os trustes e os monopólios privados. Os «libertários» imperavam durante a primeira fase da Revolução Industrial e levaram a um tal nível de concentração da atividade econômica que que mesmo o país mais «livre» do mundo, os EUA, tiveram que intervir para controlar a moeda e quebrar alguns trustes. Foi a «livre iniciativa» da indústria do petróleo que impôs ao mundo os aditivos a base de chumbo, em vez do álcool anidro, apesar de serem mais caros e menos eficientes (ou melhor, por serem mais caros, independente da eficiência). E foi a «livre iniciativa» dos mercados financeiros que produziu todas as crises financeiras desde sempre. Mercados regulados sofrem menos crises.


Um dos argumentos dos «libertários» é que o Estado, reduzido ao mínimo, não teria recursos para travar guerras. Portanto, um estado mínimo levaria à paz mundial. Nada mais falso: a história mostra que, para a guerra, o Estado sempre dá um jeito de obter recursos. A Holanda dos séculos XVII e XVIII, estado tão mínimo que nem tinha capital, travou guerras em pé de igualdade com todas as potências da época, contratando e pagando a preço justo o braço mercenário.

Não vamos esquecer que já houve uma época em que o estado praticamente não tinha recursos financeiros e nem humanos para travar guerras, ninguém pagava impostos ao Estado, não havia leis limitando nada (só os costumes e os contratos). Essa época chamou-se «Idade Média».


Na próxima semana analiso os argumentos do panfleto virtual acima.