domingo, 5 de agosto de 2012

Coerência Humanista

No dia 27 de julho último um blogueiro reacionário chamado Nihil Lemos (ligeiramente à direita de Rush Limbaugh) publicou um texto chamado Funk: uma Poderosa Arma Idiotizadora, no qual tece suas críticas de praxe ao Estado. Na cabeça desse cidadão o funk carioca é uma espécie de arma musical desenvolvida pelo PT para alienar o povo e afastar os candidatos «mais preparados» dos postos que merecem por direito de nascimento, ou algo assim, eu não entendo direito o que esse cara tem em mente.


Não me interessa dissecar os argumentos contidos na postagem original, pois ela desmente a si mesma quando o leitor, em vez de engolir o texto sem mastigar, resolve fazer as indagações necessárias na situação. Eu espero que meus leitores sejam capazes de detectar o que está errado em típicas peças de direita estrábica como essa, ou não serão, tampouco, capazes de seguir o meu raciocínio.

O que me interessa é dissecar de que forma o presidente da Liga Humanista Secular, o Sr. Eli Vieira, reagiu às críticas feitas por Nihil Lemos.

Ele poderia ter reagido demonstrando que o atual governo não tem nenhuma responsabilidade nem pelo surgimento e nem pelo desenvolvimento do funk carioca. Que se algum governo tem alguma responsabilidade sobre isso, tal deve ser buscada nos governos fluminenses após 1982, aí incluído o Brizola, apenas para evitar, com sua exclusão, um debate absurdo sobre o sexo dos anjos. Ele poderia, inclusive, ter aludido que o referido estilo musical já não conta hoje com tanta popularidade quanto já contou, que está sendo gradualmente destronado por outros estilos, como o brega e o sertanojo universitário (sic) — o que indica que a estratégia «do governo» está falhando. Enfim, havia uma infinidade de coisas que Eli Vieira poderia ter argumentado contra Nihil Lemos, a maioria delas teria atingido o alvo, pois o texto em questão tem mais furos que «táuba de tiro ao álvaro» (como disse o Adoniran, e por favor, vá pesquisar quem foi Adoniran, você que nasceu ontem). Porém Eli Vieira preferiu declarar o seguinte:

Atualização: Print da resposta original.

Existem vários problemas envolvidos neste comentário, alegadamente em privado (mas todo mundo sabe que se alguma coisa é realmente privada você jamais deverá publicar na internet, tanto quanto não deve contar seu segredo mortal para seu «melhor amigo»). Trata-se de uma prova do nível «batom na cueca» de que o Sr. Eli Vieira possui algum tipo de dissonância cognitiva (uma condição, não congênita, não hereditária e não definitiva, que impede que uma pessoa processe informações que se choquem com o seu ponto de vista).

Refiro-me às insistentes campanhas que a Liga Humanista Secular sempre faz contra o estupro. Como esta aqui:

Postagem do blogue da Liga Humanista Secular festejando o impacto de sua campanha de protesto contra uma propaganda viral das camisinhas Prudence, que supostamente incentivaria o estupro.
Como é possível que alguém que está à frente de uma organização que faz campanhas tão visíveis e bem sucedidas contra o estupro não veja nenhum problema em simpatizar-se com o funk carioca, um «gênero musical» que dispensa apresentações quanto ao seu conteúdo apologístico a estupros, pedofilia, tráfico e uso de drogas ilícitas, formação de quadrilha, tortura e assassinato de desafetos, roubo e etc?

Uma pergunta dessas não pode ficar sem resposta. Mas a única resposta que Eli Vieira deu foi sair pela tangente, alegando que o conteúdo reproduzido era «privado». Uma vez mais me pergunto que privacidade se deve esperar no Facebook. Mas o que me importa é que Eli não se retratou e pouco explicou sobre o conteúdo estranho de sua postagem:

 Não foi a primeira vez em que esse prócer do «humanismo» foi pego em contradições e esquivou-se de reconhecer o próprio erro. O famoso episódio da «enfermeira crente fanática» parece ter ensinado pouco ao Bule Voador e à LiHS.

GLOSSÁRIO:

educar no sistema antigo : educa pelo uso da violência, apologia da tortura
um tapinha não dói : «canção» do funk que fazia apologia à violência contra a mulher
soltar as cachorras : submeter a uma agressão coletiva
pentada : efeito do descarregamento de um pente de balas