quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
 

QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
 

O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.